EU TENHO TUDO

Um homem ensandecido, ferido de ódio mortal, tem um suposto encontro com um outro numa estação de trem. Contra esse outro – que é suposto por jamais se revelar ao público como uma identidade ou como um rosto – o protagonista dispara imprecações e xingamentos, numa espécie de histeria incessante, como a mais pura expressão de uma pulsão de morte.
Para Pedro Vieira, o ator da peça, a montagem reivindica a potência do texto de Thierry Illouz, repleto de ambivalências e contradições, em que o jogo infernal das relações e representações sociais em que o outro é demonizado não deixa de revelar de forma contundente o lodaçal subjetivo daquele que acusa de dedo em riste.
“Neste momento em que passamos por uma inaudita turbulência política, com o inesperado recrudescimento de discursos conservadores e fascistas, em que o preconceito e a intolerância defendidos no âmbito privado se espalham, despudoradamente, pelas mídias sociais até descobrir as ruas onde não se constrange em mostrar a face, orgulhosos de si e cheios de certeza, só resta à arte – e notadamente o teatro, que é por excelência político desde o seu nascimento – apostar em expressões que não corroborem o que já se pensa, mas que suscitem a dúvida. De preferência, radicalmente”, explica Pedro.
O personagem de “Eu Tenho Tudo” encontra forças unicamente nas palavras, pois é tudo que lhe resta para existir, é sua única arma. Ele esbraveja, provoca e ameaça. “Destruir é o começo do poder” ele diz.
O texto de Thierry Illouz proposto nesta encenação tem algo da memorável frase de Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”. O outro é o inferno, na medida em que nos impõe seu “Eu” e, para ser e se afirmar como sujeito, reduz o interlocutor a mero objeto. Mas o texto de Illouz tem ainda outros desdobramentos, como o fato de um sujeito só conseguir se situar em relação a si mesmo à medida que já não se distingue de um objeto. “Ter” passa a ser a medida da sua individualidade, e o “ter tudo” que perpassa todo o texto desde o título é de tal forma megalômano e pretensioso que só pode desembocar no seu extremo: o nada. “Tudo” é genérico demais para ser alguma coisa, e a cada vez que o protagonista enumera cada item que comporia esse “tudo” que ele possui, resvala no ridículo de expor-se numa aviltante pobreza existencial. Testemunho, portanto, de uma impotência.
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Eu Tenho Tudo
Com Pedro Vieira
Viga Espaço Cênico – sala Piscina (Rua Capote Valente, 1323 – Sumaré, São Paulo)
Duração 75 minutos
29/01 até 10/04
Sexta e Sábado- 21h; Domingo – 19h
Recomendação 16 anos
$20
 
Texto – Thierry Illouz.
Tradução – Bibianne Riveros.
Direção e Cenografia – Cácia Goulart.
Assistente de Direção – Zé Geraldo Junior.
Desenho de Luz – Lúcia Chedieck.
Trilha Sonora Original – André Grynwask.
Figurinos – Pedro Vieira e Cácia Goulart.
Fotografia – Cacá Bernardes.
Vídeo – Bruna Lessa.
Assessoria de Imprensa: Nossa Senhora da Pauta

UM SHOW PARA MINAS

Mais de 25 artistas se juntaram em prol da população afetada pela tragédia do Rio Doce. O evento acontece amanhã, dia 27 de janeiro (quarta – feira), no Teatro Fecap.
Você também pode participar! Basta trazer água (garrafas, galões – o quanto você puder ajudar), que será enviada para Minas Gerais.
Como agradecimento, você assiste uma noite de performances, música e solidariedade. A apresentação do evento será do ator Cássio Scapin e do maestro Miguel Briamonte.
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Um Show para Minas
Teatro Fecap (Avenida da Liberdade, 532 – Liberdade, São Paulo)
27/01
Quarta – 20h
Entrada: Garrafa ou Galão de água (leve o quanto puder/quiser)