GOTA D’ÁGUA (A SECO)

Em dezembro de 1975, Bibi Ferreira subia ao palco do Teatro Tereza Rachel para estrear ‘Gota D’Água’, transposição da tragédia grega ‘Medeia’, de Eurípedes, para a realidade de um conjunto habitacional do subúrbio carioca. Com um arrojado texto em versos de Chico Buarque e Paulo Pontes e canções como ‘Basta um Dia’, o espetáculo marcou época e se tornou um clássico moderno do Teatro Brasileiro.

Mais de quatro décadas depois, a história voltará à cena no mesmo local em que estreou – agora Theatro Net Rio – com uma adaptação absolutamente inédita do diretor Rafael Gomes. Batizada de ‘Gota D’Água [a seco]’, a nova versão entra em cena a partir de 6 de maio, com apenas dois atores em cena, Laila Garin e Alejandro Claveaux, acompanhados de cinco músicos sob a direção musical de Pedro Luís.

Como ‘a seco’ do título já indica, a montagem busca chegar à essência da história, através dos embates entre os protagonistas, Joana e Jasão, ainda que outros personagens do original também apareçam na adaptação. Mesmo com parte da trama sociopolítica reduzida na versão, Rafael Gomes reitera que a sua leitura da peça é focada em sua natureza política, cruelmente atual:

‘A ‘Gota D’Água’ original possui uma trama política bastante latente em seu embate entre opressores e oprimidos. Ao concentrar a história em Joana e Jasão, em suas ideologias, ações e sentimentos, eu gostaria ainda assim de falar sobre essa política mais essencial da vida, do dia a dia, essa que a maioria das pessoas sublima, esquece ou finge que não é com elas, achando que ser político é somente saber apontar o dedo para o adversário e se manifestar eventualmente por aquilo que interessa, de forma um tanto o quanto individualista’, afirma o diretor, que manteve toda a estrutura formal da peça e inseriu novas canções e pequenas citações de letras de Chico em algumas passagens do texto.

Gota D’Água [a seco]’ é o primeiro espetáculo que Rafael Gomes dirige fora de sua companhia, a Empório de Teatro Sortido, de onde trouxe alguns colaboradores para esta montagem, como o cenógrafo André Cortez (Prêmio Shell por ‘Um Bonde Chamado Desejo’, 2015) e o iluminador Wagner Antônio. Rafael foi convidado pela produtora Andréa Alves, da Sarau Agência, e por Laila Garin para embarcar no projeto.

Estrela de ‘Elis – A Musical’, Laila experimentará um novo desafio em cena: além de interpretar a mítica personagem eternizada por Bibi Ferreira, dará voz a músicas que não faziam parte da peça original, como ‘Eu Te Amo’, ‘Sem Fantasia’ e ‘Cálice’. Revelado no projeto ‘Clandestinos’, Alejandro Claveauxinterpretará o personagem que já foi de Roberto Bonfim e Francisco Milani (na temporada paulistana, em 1977).

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Uma tragédia carioca, embates universais

Chico Buarque e Paulo Pontes começaram a trabalhar no texto original a partir de uma transposição que Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) havia feito para a televisão. A feiticeira Medeia virou Joana, moradora do conjunto habitacional Vila do Meio-Dia, mãe de dois filhos, frutos de seu casamento com Jasão, alguns anos mais novo do que ela. Compositor popular, Jasão é cooptado pelo empresário Creonte, que o ajuda a fazer sucesso, e termina por largar Joana para se casar com a filha do milionário. A trama passional – que culmina na vingança de Joana –  tem como pano de fundo as injustiças sociais pelas quais os moradores do local passam, vítimas da exploração de Creonte, todo-poderoso da região.

Por conta deste acúmulo de tensões, Rafael elegeu o embate como o conceito central de sua montagem. Não somente o embate amoroso, que está no cerne da trama do casal, mas também o social, em um sentido mais amplo, e, principalmente, o íntimo. ‘São as batalhas internas a que as circunstâncias externas nos sujeitam. Jasão no conflito entre o que está ganhando e o que está deixando para trás, assim como Joana na decisão entre ir às últimas consequências para se vingar ou simplesmente seguir vivendo – o embate entre o humano e o divino, o terreno e o espiritual’, conclui o diretor.

Com esta nova e enxuta adaptação, as músicas que não estavam no original entram justamente para servir à dramaturgia, ao contar partes da história, revelar melhor o caráter e as contradições das personagens, além de amplificar alguns contextos e situações que precisaram ser sumarizados. A entrada de Pedro Luís na direção musical vem ao encontro da vontade de não fazer necessariamente um musical tradicional. ‘É um arejamento, um olhar diferente. Pedro fará com as canções, todas já tão conhecidas e consagradas, o que eu pretendo fazer com a dramaturgia: dar uma nova dimensão, jogar uma luz por um lado que não estamos acostumados a ver. Isso não implica em uma ambição de “melhorar” nada, apenas de tentar pensar e criar por um caminho menos óbvio’, ressalta Rafael.

Em cena durante todo o espetáculo, o quinteto de músicos será formado por Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira.

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Gota D’Água (A Seco)
Com Laila Garin e Alejandro Claveaux
Theatro Net Rio (Rua Siqueira Campos, 143 / 2º piso – Copacabana, Rio de Janeiro)
Duração 90 minutos
06/05 até 26/06
Quinta a Sábado, 21h; Domingo – 20h
Recomendação 14 anos
$50 / $150
De Chico Buarque e Paulo Pontes
Adaptação e direção: Rafael Gomes
Músicos: Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira
Direção Musical: Pedro Luís
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurinos: Kika Lopes
Direção de Produção: Andréa Alves
Design de som: Gabriel D’Angelo
Preparação e arranjos vocais: Marcelo Rodolfo e Adriana Piccolo
Direção de movimento: Fabrício Licursi
1º assistente de direção: Fabrício Licursi
2º assistente de direção: Daniel Carvalho Faria
Assistente de direção musical: Antônia Adnet
Assistente de cenografia: Rodrigo Abreu
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Monna Carneiro
Marketing Cultural: Ghéu Tibério
Assessoria de Imprensa: Factoria Comunicação

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