UM DEZ CEM MIL INIMIGOS DO POVO

A pesquisa estética da Cia da Revista tem como coluna vertebral a estrutura e as convenções do Teatro de Revista. Para além da linguagem cênica, a Revista propõe certo olhar para o mundo: aponta para uma análise cuidadosa dos acontecimentos do seu tempo para depois colocá-los em cena. Assim, o formato próprio deste gênero acaba por afastá-lo do anacronismo.

 O processo de montagem de Um Dez Cem Mil Inimigos do Povo, surgiu a partir de uma longa trajetória de pesquisa que culminou em um tema fascinante: a lógica da cordialidade (seguindo as teorias de Sérgio Buarque de Hollanda), que mostra a face que é a matriz do que se pode chamar de fascismo peculiar do brasileiro – a incapacidade de sustentar a diferença e a liberdade do outro.

 Nesta pesquisa, a ingenuidade de que o cordialismo pudesse ser sinônimo da expressãojeitinho brasileiro se extinguiu e a manifestação desse caráter tão brasileiro se revelou fascista e assassino. Essa mudança de paradigma nos foi relevada pela frase de Paulo Emílio Salles Gomes (citada pelo Professor Pasta Junior durante um debate proposto pela companhia): “O Brasil oscila entre a procura pelo bode expiatório e pelo bode exultório”.

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 Um Dez Cem Mil Inimigos do Povo é uma recriação dramatúrgica em processo colaborativo assinada por Cássio Pires da peça Um Inimigo do Povo (1882), texto do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, considerado um dos principais autores do chamado drama realista moderno. A Cia. da Revista pretende, com essa montagem, passar em revista a nossa sociedade traduzida em redes sociais que oscilam entre ataques ferozes ou exclusão daquele que não compactua com nosso pensamento à exaltação sem reservas daqueles que compactuam; em mídias hegemônicas que manipulam a informação com intuito de manter ostatus quo; em conversas de botequins que dividem a sociedade em PTralhas eCoxinhas.

 Em Um Inimigo do Povo, Dr. Stockmann, médico de uma estância balneária, descobre que os banhos da cidade estão contaminados. Ao invés do apoio, respeito e admiração da população, Stockmann é transformado em inimigo do povo pois sua descoberta entra em choque com os interesses econômicos imediatos da cidade.  A obra, mesmo situada em época e cultura distantes, apresenta uma sociedade na qual os interesses individuais se colocam acima dos interesses coletivos e qualquer um que se oponha a isso é visto como um empecilho e deve ser, portanto, eliminado.

1A Daniela Flor. foto Victor Iemini

PROPOSTA ESTÉTICA E DE ENCENAÇÃO

Para este espetáculo, a direção de Kleber Montanheiro pretende explorar a quebra do drama realista de Ibsen colocando-o em fricção com os gêneros Teatro de Revista, Circo Teatro e Cabaré Épico, que fazem parte da pesquisa estética da companhia. Como em seus espetáculos anteriores, a Cia. da Revista usará a música (especialmente composta para o espetáculo por Ricardo Severo) como elemento narrativo.

A cenografia sugere uma grande cidade vertical, de forma a traduzir a sobreposição de indivíduos dentro de uma realidade das superpopulações, onde o espaço privado é cada vez menor. No centro do palco formatado como arena 360 graus, um espelho d’água fará a alusão à cidade balneário sugerida por Ibsen.

Na cenografia o público poderá também ver  elementos cenográficos e adereços que pertenceram a montagens históricas do Teatro do Ornitorrinco (Teledeum, O Doente Imaginário, Sonho de Uma Noite de Verão, a Magera Domada), doados por Cacá Rosset e Christiane Tricerri para a Cia. da Revista.

A proposta da utilização de aproximadamente 50 figurinos em trocas rápidas durante o espetáculo explora os gêneros a serem introduzidos na montagem, viajando no tempo e revelando a atemporalidade do conflito. 

Um Dez Cem Mil Inimigos do Povo
Com Adriano Merlini, Bruna Longo, Daniela Flor, Gabriel Hernandes, Gabriela Segato, Heloísa Maria, Luiza Torres, Natália Quadros, Nina Hotimsky, Paulo Vasconcellos, Pedro Bacellar, Pedro Henrique Carneiro e Rodrigo Oliveira.
Espaço Cia. da Revista (Al. Nothmann, 1.135 – Santa Cecília, São Paulo)
Duração 110 minutos
06/05 até 28/08 ( Não terá apresentação nos dias 14 e 28/05)
Quinta, Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 19h
Recomendação 14 anos
$50
Direção, cenário, figurinos e coreografia: Kleber Montanheiro
Direção Musical, Composição e Arranjos: Ricardo Severo
Músicos: Gabriel Hernandes e Nina Hotimsky
Dramaturgia em Processo Colaborativo: Cássio Pires
Iluminação: Rodrigo Oliveira
Desenho de som: André Omote
Assistentes de Direção: Larissa Matheus, Victor Lopes Almeida e Nicolas Caratori
Assistente de Cenário e Figurinos: Victória Moliterno
Estagiárias de cenário e figurino: Daniele Desierrê e Luma Yoshioka
Projeto Gráfico e fotos: Victor Iemini
Assistente de produção: Marieli Goergen
Assessoria Teórica: Alexandre Mate
Preparação para Trapézio: Érica Rodrigues
Ensaiadora de coreografias: Alexandra Lot
Assessoria e preparação em técnicas de alpinismo e equipamentos circenses: Álvaro Barcellos
Costureira: Euda Alves de Souza
Cenotécnico: Evandro Carretero
Assessoria de Imprensa: Fábio Câmara
Realização: Cia. da Revista da Cooperativa Paulista de Teatro

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