NÃO CONTÉM GLÚTEN

Sábado à noite. O casal Sue e Michael está em seu apartamento, sem água desde o dia anterior, à espera de Dorothy e Henry, amigos de longa data. Quando a campainha toca, anunciando a chegada dos convidados, o público percebe que existe algo muito perturbador e inesperado em relação aos visitantes. Este é o mote da comédia dramática Não Contém Glúten, texto inédito de Sérgio Roveri que flerta com o teatro do absurdo. A peça, com direção de José Roberto Jardim, marca o primeiro trabalho conjunto de dois atores de trajetórias distintas, mas igualmente expressivas, nos palcos e nas telas do País – Bia Seidl e Pascoal da Conceição.

Os diálogos do texto abrangem desde o aquecimento global até o sucesso – ou o fracasso – profissional de cada um dos casais, passando ainda por temas como ciúmes, gravidez, criação de filhos e, claro, alergia a  glúten. O que o espetáculo revela, acima de tudo, são as evidências do casamento desgastado dos anfitriões Sue e Michael – duas pessoas sem êxito nos negócios e na vida doméstica, ainda que seja evidente a existência de um fiapo de amor para manter a relação dos dois em pé. O espetáculo privilegia um bem calculado tom crítico em cada um de seus diálogos e situações. Não se trata simplesmente de uma comédia ácida ou de humor negro. A peça é, acima de tudo, uma oportuna crônica do cotidiano, que procura mostrar que, se o absurdo existe, ele está infiltrado principalmente nas ações mais rotineiras das personagens.

A peça é um mergulho, muitas vezes cruel, na intimidade de um casal que não atravessa o melhor momento de sua relação”, diz o autor Sérgio Roveri. “Diante de visitantes que parecem desfrutar de uma realidade idílica, os donos da casa são obrigados a encarar a insignificância do seu dia a dia”.

A ação se passa naquele que é considerado o dia mais quente do ano – um elemento que vai influenciar de maneira indisfarçável o ânimo da personagem Sue, dona de casa frustrada e sem filhos que faz do marido Mike e dos visitantes Dorothy e Henry os alvos preferenciais de seu mau humor e de suas críticas. Atormentada pela insuportável onda de calor, Sue move histericamente as hastes de dezenas de ventiladores que não se mostram capazes de aquietar o vazio de sua existência. Por seu lado, o marido Mike é um conciliador adorável, um homem que, talvez por compreender de maneira sublime as frustrações da companheira, empenha-se para que ela ao menos imagine o que possa ser a felicidade. A peça oferece um desafio cênico gigantesco aos atores Bia Seidl e Pascoal da Conceição, que terão suas atuações pautadas pela estranheza dos visitantes.

0E9A9726 copyNão Contém Glúten coloca grande parte de sua potência dramática na questão das aparências, um dos elementos mais presentes na sociedade contemporânea. A peça mostra que não é suficiente apenas estar bem – é preciso, acima de tudo, parecer bem. Neste contexto, o personagem de Sue mostra-se incapaz de se sentir à vontade diante de um casal que desfruta de uma posição social mais privilegiada que a dela e de seu marido. Esta situação torna-se praticamente insustentável quando Sue descobre que Dorothy conseguiu o que ela vem tentando há anos: engravidar. O grande trunfo de Não Contém Glúten é justamente o de obter um efeito cômico a partir da combinação de uma série de elementos que, isoladamente, estariam mais propensos a produzir lágrimas do que gargalhadas.

A peça é o quinto fruto de uma parceria firmada há vários anos entre o dramaturgo Sérgio Roveri e o diretor José Roberto Jardim. Juntos, eles já criaram e encenaram os seguintes espetáculos: Aberdeen, um Possível Kurt Cobain, Ópus 12 para Vozes Humanas, Tempos de Marilyn e Chet Baker – Apenas um Sopro.

Minha função primordial como diretor é tentar conduzir o público a um outro estado perceptivo, por isso busco desenhar na minha cena ritmos e atmosferas sonoras que valorizem mais o que está submerso do que o comumente dito pelos personagens”, diz o diretor José Roberto Jardim. “Confinar Seidl e Pascoal numa pequena área, com menos de quatro metros de diâmetro, fazendo-os desenhar o espaço apenas com suas vozes e tons, é o pedal que utilizo para que o desgaste e a perversidade da relação desse casal cheguem até nós de maneira profundamente cáustica, potente e angustiante.

Não Contém Glúten.
Com Bia Seidl e Pascoal da Conceição.
Teatro SESC Santana (Av. Luiz Dumont Vilares, 579 – Santana, São Paulo)
Duração 55 minutos
06/05 até 12/06
Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 18h
(não haverá sessões nos dias 20, 21 e 22/05)
Recomendação 12 anos
$9 / $30
Texto: Sérgio Roveri.
Direção: José Roberto Jardim.
Trilha Original: Piero Damiani.
Iluminação, cenário e figurino: José Roberto Jardim e Academia de Palhaços.
Vestido da Bia Seidl: Lino Villaventura.
Produção: Gelatina Cultural.
Fotografia: Victor Iemini.
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

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