AGRÁRIAS

A Cia. Comparsaria é um coletivo que surgiu do encontro dos artistas Bri Fiocca (72 anos), Giancarlo Mastronardi (36 anos), Murillo Marques (28 anos) e Artur Hiroyuki (26 anos). Uma reunião de quatro artistas de gerações distintas do teatro paulista, formados pela Escola de Arte Dramática, Curso de Artes Cênicas da USP e Mozarteum (Famosp). A pesquisa que une este coletivo, surgiu dos desejos de compartilhamento das memórias da atriz Bri Fiocca, formada pela EAD em 1968.

O encontro das diferentes gerações resultou na obra Agrárias. Com texto de Murillo Marques – que também compõem o elenco junto com Bri Fiocca e Giancarlo Mastronardi – e direção de Artur Hiroyuki, a peca estreia sexta-feira, dia 10 de junho, às 21h, na Cia do Pássaro – Rua Alvaro de Carvalho, 177 – Anhangabaú -, e fica em cartaz até 03 de julho.

Ao evidenciar a discussão sobre qual a consequência da especulação imobiliária sobre a memória da cidade como tema pungente da pesquisa do grupo, a discussão pelo viés da memória da cidadã que testemunhou o desenvolvimento urbano, político e artístico de São Paulo nos últimos cinquenta anos, se tornou o ponto nerval da dramaturgia.

O enredo trata do encontro entre dois agentes imobiliários e uma velha senhora que os recebe dentro de sua própria casa para tratar da venda do imóvel, visto que todo o quadrante ao redor da casa já fora desapropriado e a única casa resistente era a sua. Com a negação veemente de qualquer tipo de acordo por parte da proprietária, a dramaturgia se apoia no tencionamento entre interesses públicos e interesses privados.

A partir das figuras dos agentes imobiliários – figuras subalternas que evidenciam a esquizofrenia do poder de grandes e ricas empreiteiras, seres públicos facilmente reconhecidos, sem nome e sem distinção pessoal nos ambientes das negociatas – que ao se encontrarem com o cidadão comum –  representado no texto pela figura da senhora, que vê como objeto de barganha sua propriedade privada -, a dramaturgia de Agrárias deflagra os instrumentos utilizados para o esmagamento e a extinção dos organismos vivos de uma grande cidade”, explica o dramaturgo.

A personagem viu as grandes mudanças do mundo contemporâneo acontecerem ao seu redor: os filhos irem para a guerra, a demolição das casas vizinhas, a morte de um terceiro filho no vale das trincheiras, uma noite no teatro assistindo a fábula do Rei Lear, de William Shakespeare. Suas memórias falham, são hiatos, a realidade se mistura com os fatos históricos e a cada novo dia que nasce, os fatos ocorridos no dia anterior ficam confusos, nublados.. A mente é um fragmentário de sensações, um terreno esburacado de um quadrante em demolição.

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DRAMATURGIA

A dramaturgia de Agrárias trabalha no plano da metalinguagem, utilizando como ponto nerval de sua criação a mitologia de Rei Lear, como um velho rei que precisa distribuir suas posses entre suas filhas, “afim de que as forças mais jovens tomem conta daquilo que as forças mais velhas não querem ou não podem mais tomar”.

Assim como em Lear, a casa será confiada a quem demonstrar maior afeto. Os agentes imobiliários, como as figuras de Goneril e Regan – filhas de Lear -, demonstram seus afetos e preocupações para conseguirem seu objetivo. A velha mulher, ao perceber, neste jogo de barganha, que o que se negocia não é a casa como espaço físico, mas sim a casa como símbolo da memória e constituição de seu ser no mundo, desiste do jogo, distribui as agrárias e passa a vagar pelo deserto, sozinha como um Rei Lear em busca de seu bobo.

O texto é uma metáfora da cidade em demolição com o desaparecimento da memória da proprietária da casa. A cidade que míngua, que morre, que dá vazão a uma nova cidade vertical e apaga a memória e a história inscrita nas arquiteturas com seus tratores e bolas de ferro”, finaliza Murillo.

Agrárias
Com Bri Fiocca, Giancarlo Mastronardi e Murillo Marques.
Espaço Cia. do Pássaro (Rua Alvaro de Carvalho, 177 – Anhangabaú, São Paulo)
Duração 55 minutos
10/06 até 03/07
Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 20h
Recomendação 12 anos
$20
Cia Comparsaria.
Texto: Murillo Marques.
Direção: Artur Hiroyuki.
Trilha Sonora, composição e desenho de som: L. P. Daniel.
Desenho de Luz: Artur Hiroyuki.
Cenário: Marcelo Andrade e Artur Hiroyuki.
Fotos: Leekyung Kim
Assessoria de Imprensa: Renan Ferreira

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