AS SIAMESAS – TALVEZ EU DESMAIE NO FRONT

Imersos num tempo que insiste em cisões e onde coexistir com o diferente está provocando convulsões, não diálogo, é possível dar luz a uma possibilidade de convivermos num mesmo organismo? Assim, As Siamesas – Talvez eu Desmaie no Front coloca em discussão as relações humanas e nos leva a discutir a diferença, o outro, a alteridade. A peça, que tem direção de Carolina Bianchi, Fernanda Camargo e Felipe Rocha e elenco formado por Carla Zanini e Caroline Duarte, que está em cartaz no Centro Compartilhado de Criação.

O espetáculo se passa em um país em guerra. As irmãs estão nos fundos da casa de um “coyote” (agenciadores que ajudam a ultrapassar as pessoas nas fronteiras). As duas irmãs gêmeas siamesas – Soraia e Carmem – sofrem a separação enquanto o país explode em conflitos, a partir dai elas lutam para conseguir se reencontrar.

Direção compartilhada e independente

Assim como duas irmãs siamesas podem ser duas cabeças dividindo uma mesma coluna vertebral e negociando vontades, a peça também é uma história dirigida por várias cabeças diferentes que negociam um mesmo espetáculo. “Queríamos entender, não só no conteúdo mas também na forma, como é possível a coexistência de ideias e linguagens. Como dialogar com o outro ao invés de suprimi-lo? Como existir com o outro?”, explicam Carla Zanini e Caroline Duarte, idealizadoras do projeto.

A montagem se divide em três partes – Ode ao Amor, digirido por Fernanda Camargo; Ode ao Ódio, dirigido por Carolina Bianchi; e Prólogo e Intermezzos por Felipe Rocha. Essas direções aconteceram sem que um soubesse quais os caminhos que os outros diretores tinham escolhido até as últimas semanas de ensaio onde os diretores se reuniram para fechar o espetáculo.

A ideia de serem três direções que não se encontram, ou seja, cada diretor produz sua parte da peça sem influencia dos outros dois, surge da própria forma das irmãs siamesas. O desafio de existir num mesmo organismo com partes distintas formalmente estrutura o espetáculo.  Cada um dos três diretores se interessa pelas irmãs siamesas por um motivo, propõem procedimentos diferentes, provocações outras. Nós atrizes, passamos por três maneiras de se fazer teatro, e essas três maneiras vivas vão dialogar, conviver, vão existir num mesmo espetáculo” continuam as atrizes.

O projeto surgiu a partir de uma notícia encontrada na internet sobre a história verídica das irmãs Hilton, duas irmãs siamesas que fizeram sucesso nos anos 30 mas morreram como caixas de supermercado, uma morreu primeiro e três dias depois a outra. Além dessa matriz factual – a história verídica das irmãs Hilton – a montagem se realiza a partir do ambiente no qual elas estão colocadas: Molvânia (a partir do livro Molvânia, um país intocado pela odontologia moderna, de Santo Cilauro, Tom Gleisner e Rob Sitch). Essa é a espinha dorsal que guiou a criação do espetáculo para os três diretores.

Caio Oviedo - As Siamesas baixa 1

A história verídica das Irmãs Hilton

As meninas nasceram em 1908 unidas por seus quadris e nádegas; elas compartilhavam a circulação sanguínea e eram fundidas na pelve, mas não compartilhavam órgãos importantes. De acordo com a autobiografia das irmãs, Mary Hilton – mãe adotiva das irmãs -, junto com o marido e a filha, mantinham as gêmeas sobre estrito controle com abusos físicos. Eles treinaram as meninas para o canto e dança.

Na época, foi considerada uma possível separação, mas decidiram por unanimidade contra a intervenção, pois acreditavam que a cirurgia certamente levaria à morte de pelo menos uma das gêmeas. As irmãs terminaram a vida trabalhando em um supermercado. Em 1969 elas foram encontradas mortas em sua casa. Segundo a perícia médica, elas morreram vítimas da Gripe de Hong Kong. Daisy faleceu primeiro, e Violet depois de dois ou quatro dias.

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Molvânia, um país intocado pela odontologia moderna – de Santo Cilauro, Tom Gleisner e Rob Sitch.

Este livro faz parte de uma coleção inédita no Brasil de guias ficcionais. Nele há simulação de lugares, de opiniões de nativos, dicas de viagens, dados sobre moeda, medida, peso, língua nativa, hino nacional e até mesmo tradições culturais. Os autores brincam de certa maneira com o gênero sério de um guia turístico que na sua essência tem um contrato factual com a realidade.

Os curiosos costumes molvãos nos são estranhos mas na verdade refletem nossas próprias tradições. Por exemplo, nele podemos aprender sobre a complexa cordialidade dos molvãos, com seus gritos histéricos e atitudes agressivas.

Trabalhar um terço de um espetáculo é uma experiência assustadora e mágica. Sabemos que três núcleos estão refletindo sobre momentos diferentes de um mesmo tema. Fazer parte da construção de um discurso que só se finaliza como ideia conjunta no momento da apresentação abre possibilidades para nossas construções e, com certeza, gera leituras múltiplas para as linguagens que estamos construindo” disse a diretora Fernanda Camargo.

Sou apaixonado pela diferença.  Acredito muito na diferença. Saber que os outros trechos tem pontos de vista diversos me encanta. Além disso, são quatro mulheres incríveis nesse processo, as quais sempre admirei e tenho maior orgulho de trabalhar com essas pessoas. Então existe uma confiança enorme no cuidado, no carinho que está sendo depositado em cada parte. Para mim é muito instigante dirigir apenas uma parte. Isso obriga a obra final a abarcar pontos de vista múltiplos” continuou o diretor Felipe Rocha

Dirigir apenas uma parte de um trabalho é alucinante e  faz todo o sentido no contexto do que as criadoras propõem como coluna do projeto. Esse mistério que atravessa os diretores quanto ao que já foi produzido ou será produzido me parece deixar tudo mais impetuoso e arriscado, é uma linda ponte com a própria narrativa, arriscada e impetuosa como a Carla e a Caroline. É delas a possibilidade de viverem linguagens diferentes, em uma mesma situação. Se atirando com força nos universos desses diretores” finaliza a diretora Carolina Bianchi.

 

As Siamesas – Talvez eu Desmaie no Front
Com Caroline Duarte e Carla Zanini
CCC – Centro Compartilhado de Criação (Rua James Holland, 57 – Barra Funda, São Paulo)
Duração 80 minutos
28/07 até 14/08
(não haverá sessão dia 07/08 – sesssão estra dia 08/08)
Quinta, Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 20h
$20
Classificação 14 anos
 
Direção: Carolina Bianchi, Fernanda Camargo; Felipe Rocha.
Dramaturgia:Caroline Duarte, Carla Zanini. Carolina Bianchi, Fernanda Camargo e Felipe Rocha.  
Iluminador: Rafael Souza Lopes.
Direção de arte: Angela Ribeiro.
Edição de vídeo: Fernanda Zotocivi, Bruno Lopes;
Sonoplasta: André Teles
Fotos – Caio Oviedo
Assessor de Imprensa: Renan Ferreira.
Produção: Renato Cruz

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