O ESPECTADOR CONDENADO À MORTE (OPINIÃO)

O título é sugestivo – “O Espectador Condenado à Morte“. Neste caso, você (espectador) poderá ser condenado a morrer. Será que são todos os espectadores que forem a plateia ou um específico? Fui conferir.

Após estar com o ingresso na mão, todos ficam esperando no saguão do teatro. E quando pensava sobre a peça, muita coisa vinha à cabeça – como será esse julgamento; como será escolhido o espectador que será condenado; qual crime ele cometeu,..

Abre a porta da sala e começa o processo da fila. A pessoa que pega nossos ingressos é meio suspeita (será que é funcionário do teatro ou é um ator? Afinal, as roupas dele não são muito condizentes com a de alguém que trabalha em um teatro).

Quando entramos na sala, percebemos que estamos em um tribunal, numa sala de julgamento. Atores já estão a postos. O único que dá para saber quem é, é o juiz, por causa de suas roupas.

Você escolhe o seu lugar e percebe que todas as cadeiras são numeradas (mas não numa sequência, como em qualquer teatro, mas com números aleatórios – 3, 145, 27, 209, 13,….). Por causa do meu tamanho, fui sentar na primeira fileira, para poder esticar as pernas. A sorte estava lançada.

Deu-se o terceiro sinal, apagaram-se as luzes. Começa a peça.

iluminadosQuem está no palco é o juiz, o escrivão e o advogado de acusação. Este, pede ao juiz, a pena de morte ao acusado. Parece que é algo grave, pela eloquência e tamanho da fúria dos três. Até que o advogado de acusação estende a mão pra mostrar quem é o culpado. EU! (Ferrou!)

Começa o discurso, ele olhando direto nos meus olhos (eu mantenho o olhar). Acusa-me de um crime que eu “cometi” (Mas qual? Ele não menciona) A plateia começa a virar para me olhar. Minha reação? Rir muito.

Rio principalmente pelas provas forjadas que são apresentadas. O cara que pegou os ingressos, é uma testemunha. Diz que me reconheceu pelas minhas mãos. Aparece uma funcionária da chapelaria (que chapelaria, não vi nenhuma no hall do teatro, como posso ter sido tão desligado assim). Ela apresenta mais provas, mas são inverdades. Rio mais.

Até que me é designado um advogado de defesa (antes tivesse eu me defendido só). Percebe que há um conchavo entre todos os funcionários do tribunal para me incriminarem (nessa hora não sei se estou mais em um teatro ou num julgamento). Quando eu poderei falar???

Intervalo de 10 minutos

Durante o intervalo, é servido um café ou uma limonada. As pessoas ficam me olhando. Eu rio. Vou até o meio da sala ver os itens que eles “apreenderam em minha residência”. Tem um urso de pelúcia, uns livros, uns brinquedos, peças de roupa infantil, alguns discos (LPs). Graças a Deus, nada do que tive de verdade, senão iria começar a duvidar da minha própria inocência.

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Volta para o julgamento. E aparecem mais testemunhas. Testemunhas estas que são manipuladas, são compradas, que tem seus testemunhos dirigidos.

Ou seja, nesta hora, o riso some do meu rosto. Porque você começa a pensar que não é tão diferente da nossa realidade, onde muitas “verdades” são fabricadas; pessoas são corrompidas; sentenças são compradas. Termina a ficção e chega na realidade.

Até que termina a peça. (Não se preocupe, não estragarei as surpresas que o espetáculo ainda guarda. E o que falei até agora, é algo que se observa na própria página do facebook do espetáculo).

O Espectador Condenado à Morte” é uma peça do dramaturgo romeno, Matéi Visniec. Ele é conhecido como “o novo Ionesco”, com suas peças encenadas em mais de vinte países. O tom de sua obra é marcada pela linguagem do absurdo e do surreal, usada para desviar da realidade na qual ele viveu na Romênia sob a ditadura de Nicolae Ceausescu.

É uma peça que foi escrita na Romênia, mas que poderia ter sido escrita em muitos outros países. Infelizmente, o Brasil é um deles.

Recomendamos o espetáculo para além de você conhecer o texto de Visniec e o trabalho da Companhia Teatro da Dispersão (a montagem está muito boa), também repensar sobre a nossa realidade e o que queremos para o nosso país neste momento de incertezas e mudanças. A peça merece ser vista!

P. S. Antes de sair de casa, ao me despedir, minha mãe falou “Tenho certeza que você será julgado“. E não é que ela estava certa!

(Ah, e faça reserva na página do grupo, liga para o teatro, o que for… são apenas 40 possíveis condenados por sessão)

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Raphael Nespule, Patrícia Vieira Costa, Caio Balthazar, Guilherme Iervolino, Rony Álvares, André Camargo, Drica Czech, Vanessa Rodrigues e Cadu Batanero (que não faz mais parte do elenco)

“O Espectador Condenado à Morte”
Com André Camargo, Caio Balthazar, Drica Czech, Guilherme Iervolino, Patrícia Vieira Costa, Raphael Nespule, Rony Álvares, Vanessa Rodrigues.
Pequeno Ato (Rua Dr. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)
Duração 75 minutos
01/10 até 06/11
Sábado – 21h; Domingo – 20h
$40
Classificação 14 anos
Texto de Matéi Visniec
Produção: Companhia Teatro da Dispersão
Direção: Thiago Ledier
Cenografia e Iluminação: César Bento
Figurinos: Guilherme Iervolino
Sonoplastia: Marcus Couto
Tradução: Fábio Fonseca de Melo
Fotos: Patricia Mattos
Design: Lucas Lage
Produção executiva: André Camargo, Caio Balthazar, Drica Czech, Guilherme Iervolino, Rony Álvares

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