HOJE É DIA DE MARIA, A FÁBULA MUSICAL (OPINIÃO)

          “Sonhos são o alimento para a alma. Fazem com que consigamos enxergar saídas em momentos onde elas não estão tão visíveis”.

Assistimos “Hoje é dia de Maria, a Fábula Musical” ontem (03/10) na sessão para convidados. E já entregando spoilers, amamos o que vimos (mas leia a nossa opinião inteira, você irá gostar).

Esqueça a minissérie transmitida pela rede Globo em 2005. O espetáculo assemelha-se mais ao texto original, escrito por Carlos Alberto Soffredini, adaptado por Francisca Braga.

Como diz o título, uma fábula brasileira descortina-se no palco do Teatro Cetip, desde o dia 30 de setembro, em sessões de sexta a domingo. Mas como as fábulas, ela não deve ser vista com os olhos materiais, mas sim com o olhar da imaginação e da pureza das crianças. “Quem tiver olhos para ver, que veja.

Sinopse

O musical conta a história de Maria. Uma menina como qualquer outra. Vive no interior do estado de São Paulo com sua família, ou o que restou dela. Órfã de mãe, mora apenas com o pai num sítio humilde. Seus irmãos foram todos embora para lutar pelo sustento numa outra fazenda. Em mais um infortúnio da vida, ela sofre um abuso pelas mãos do pai.

É quando chega no sítio uma senhora viúva, vinda com sua filha. Cuida de Maria e casa com seu pai. Mas a madrasta não é tão boa assim. Quando o pai sai de casa para cuidar dos negócios, a senhora transforma Maria em sua empregada. Para fugir dos maus tratos, Maria inicia uma viagem a procura das “franjas” do mar. Esta jornada será decisiva para o seu crescimento pessoal.

“A Jornada de Maria”

Soffredini ao escrever sua peça, bebeu dos contos de Câmara Cascudo e Silvio Romero (“A Menina da Figueira”, “Lenda do Dia e da Noite” e “Cinderela”). Mas pode-se ir mais além. Foi influenciado pelo que o antropólogo americano Joseph Campbell denominou de “A Jornada do Herói

O conceito criado por Campbell é uma mescla dos arquétipos (Jung), com as forças inconscientes (Freud), com a estruturação dos ritos de passagem (von Gennep). Apresenta uma estrutura própria, que é dividida em três partes: a Partida (ou Separação), a Iniciação e o Retorno.

Esta estrutura está presente em vários mitos (fábulas), como é o caso das histórias de Prometeu, Osíris, Buda, Jesus Cristo, Cinderela, e Hoje é Dia de Maria.

Maria precisa ter o seu crescimento pessoal. Se continuar vivendo no sítio, como uma ‘princesa’, não crescerá, não se tornará mulher dona de si. Será sempre dependente de uma figura masculina (pai, marido). As coincidências da vida fazem com com que ela parta (Partida) em busca da sua jornada (a ‘busca pelas franjas do mar’).

Durante esta procura, vive uma série de aventuras (Iniciação), pelo país do sol a pino, até o encontro com os índios que guardam a noite dentro de um coco. Mas ela não está só. Como todo bom herói, Maria tem os seus protetores – os Encantados (Água, Fogo, Terra, Ar e Conexão com Deus). Não podendo esquecer o principal, o Pássaro Incomum (a força interna que transforma a dor em renovação, que nos faz prosseguir).

Ao término desta aventura (Retorno), Maria atingiu o conhecimento pleno. Madura e consciente de si, dona de um poder pessoal, perdoa o pai, abandona o destino que se repetirá com o casamento com o príncipe e parte novamente para novas jornadas.

P.S. Quer saber mais? Leia o livro “O Herói de Mil Faces” (editora Pensamento) ou “O Poder do Mito” (editora Palas Athena), ambos de Joseph Campbell.

Opinião

Pode-se dizer que o musical também é um pouco de uma das jornadas da atriz/produtora/coreógrafa/diretora Lígia Paula Machado. A montagem deste texto era um dos seus sonhos. E foi feito no momento certo. Precisou cada peça produzida antes para que chegasse neste resultado apresentado. É a conclusão vitoriosa de sua jornada.

Lígia uniu-se, como ela diz, de amigos (família) para este projeto, que encerra o ciclo de musicais luso-brasileiros (“O Primo Basílio, o Musical” e “Lisbela e o Prisioneiro, o Musical“). Estão presentes :

Francisca Braga, na adaptação do texto e escolha das músicas. As canções – de grandes artistas (Victor e Leo, Caetano Veloso, Renato Teixeira, Jessé, entre outros) ou de domínio público – parece que foram feitas especialmente para a peça. Suas letras casam perfeitamente com o que os personagens precisam falar naquele momento específico

Já que falamos da música, temos a direção musical e arranjos lindos de Dyonisio Moreno, que escolheu a dedo os músicos que acompanhariam a jornada desta heroína. O som, feito por André Breda, preenche todo o espaço interno do teatro. Realmente uma pena que não teremos o registro em cd deste espetáculo, para podermos ouvir em casa.

Falando de escolha a dedo, temos o elenco: Luiz Araújo, que foi par romântico de Lígia em outras produções, está lá novamente com sua voz e atuação marcante. Kleber Montanheiro que faz uma madrasta má (honrando a tradição), maravilhosa e divertidíssima. Cleto Baccic que se junta a trupe de amigos, com toda sua forma de interpretar e cantar única (bom tê-lo novamente nos palco). Acompanhados de Camila Brandão, Felipe Machado, Alberto Goya, Guilherme Pivetti, João Canedo, Roger Ciel, Vittor Fernando e Hicaro Nicolai, que se multiplicam e ocupam todo o espaço cênico com suas coreografias, canto e atuação.

Kleber também é responsável pelos figurinos e cenários que retratam a simplicidade do interior do país, mas com uma riqueza de detalhes que fica lindo de se ver. Está lá presente a estrutura do circo de Leléu (Lisbela e o Prisioneiro, o Musical), transformado na casa de Maria. É uma estrutura circular, que mostra movimento; que tudo tem um início, meio e fim, e um recomeço; e serve para o caminhar da protagonista.

Para finalizar, tem a presença de Dan Rosseto, que juntamente com Lígia, Kleber e Dyonisio, colocou as peças todas juntas, e formou este espetáculo que é uma linda opção de entretenimento para toda a família. Prevejo várias indicações para os prêmios teatrais do próximo ano.

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Cleto Baccic, Dyonisio  Moreno, Dan Rosseto, Ligia Paula Machado, Francisca Braga, Kleber Montanheiro e Luiz Araújo

Uma música que combina com a jornada da heroína, e faz parte da trilha sonora da peça, é “Tocando em Frente“, de Almir Sater e Renato Teixeira, que diz assim em um trecho:

“Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz”

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Hoje é Dia de Maria – A Fábula Musica
Com Ligia Paula Machado, Cleto Baccic, Kleber Montanheiro, Luiz Araújo, Camila Brandão, Felipe Machado, Alberto Goya, Guilherme Pivetti, João Canedo, Roger Ciel, Vittor Fernando e Hicaro Nicolai
Músicos: João Paulo Pardal (guitarra), Murilo Emerenciano (piano), Renan Cacossi (flauta), Guto Brambilla (baixo), Felipe Machado (violão), Jonatan Motta(violino), Mathilde Fillat (violino), Rafael Lourenço (Percussão).
Teatro Cetip (Rua Coropé, 88 – Pinheiros, São Paulo).
Duração 145 minutos
30/09 até 27/11
Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 19h
$60 / $120
Classificação 12 anos
Texto: Carlos Alberto Soffredini
Adaptação do roteiro original: Francisca Braga
Equipe de Direção: Dan Rosseto, Ligia Paula Machado e Kleber Montanheiro
Direção Musical: Dyonisio Moreno
Cenografia e Figurinos: Kleber Montanheiro
Coreografias: Ligia Paula Machado
Designer de Som: André Breda
Designer de Luz: Wagner Pinto
Supervisão Circense: Circo Garcia
Técnicos de palco: Jackson Oliveira e Beto Boing.
Assistentes de produção: Tiago Queiroz e Wallace Toledo
Assessoria de Imprensa: Fabio Camara
Realização: MP Produção Cultural

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