KIWI (OPINIÃO)

“Parado no trânsito, você fecha a janela do carro para eles. Na rua, desvia para não ver. Eles são os pombos e ratos sem rumo que enfeiam a cidade. São o resto da xepa jogado no chão e pisoteado. No entanto, se você vai assistir a uma peça como Kiwi (premiada duas vezes no Canadá e uma na Alemanha, atualmente indicada ao Prêmio FEMSA de Melhor Espetáculo Jovem), eles estão na sua frente. Agora é impossível desviar o olhar.

A direção de Lucianno Maza para o texto do canadense Daniel Danis engana. Você pensa que está adentrando um mundo futurista. Só que não. Pensa que está vendo jovens brancos de classe média alta. Só que não. Pensa que encenarão ali um drama muito distante da sua realidade. Só que não. Como pano de fundo, o espetáculo inicia apresentando o drama dos desalojados no processo de “higienização” das grandes cidades às vésperas de opulentos eventos esportivos.

Sim, precisamos saber que pessoas são periodicamente despejadas de suas casas porque “o mundo” quer ver coisas bonitas.

Rapidamente o foco se volta para a menina – a pirralha – sem pai nem mãe nem nome nem lar, rebatizada de Kiwi.

Sim, devemos tomar conhecimento de que crianças de 10, 11 anos são jogadas nas ruas quando se tornam inconvenientes para suas famílias desestruturadas.

Kiwi encontra em outros moleques e meninas de rua, todos com nomes de frutas e legumes (alguém ainda se lembra de Acerola e Laranjinha, da série Cidade dos Homens?), o que passa a chamar de família. Uma família quebrada, de regras tortas, na qual crianças sem referências de amadurecimento saudável emulam a vida adulta como elas imaginam que deva ser. Uma família cujo sustento vem dos roubos, das drogas, da prostituição e do crime.

Sim, estas famílias existem.

Muito sabiamente, os atores Rita Batata e Lucas Lentini usam uma inflexão curiosa, às vezes distante do tom coloquial, para prender a atenção da plateia (que, em condições normais, não pararia para escutar o que têm a contar esses moleques). A narrativa também é estranha, quase toda indireta – como se uma personagem Batata (o paralelo é inevitável!) lesse, em um cenário completamente antisséptico, o diário da amiga Kiwi.

Sim, vivemos distantes da realidade cruel dos menores de rua infratores, drogados, prostituídos e sem perspectiva, mas estamos todo o tempo cercados desta história. Apenas escolhemos não ouvi-la. E fechamos a janela.”

12278906_10153839933960337_6738104131258837289_nRebecca Celso, colaboradora do Opinião de Peso, foi assistir a peça “Kiwi“, que está em cartaz no Teatro Augusta, e fez sua Opinião sobre o espetáculo.

Kiwi
Com Rita Batata e Lucas Lentini
Teatro Augusta – Sala Experimental (Rua Augusta, 943 – Cerqueira César, São Paulo)
Duração 50 minutos
01/10 até 27/11
Sábado – 21h30; Domingo – 19h
$30
Classificação 14 anos
 
Texto: Daniel Danis
Direção e tradução: Lucianno Maza
Assistência de direção: Náshara Silveira
Trilha-sonora: Dr. Morris
Figurino: Anne Cerutti
Cenário e iluminação: Lucianno Maza
Assistência de iluminação: Melissa Guimarães
Arte gráfica: André Kitagawa
Projeto (programação visual): Caesar Moura
Fotos de divulgação: Arô Ribeiro
Fotos de cena: Bob Sousa
Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques
Produção executiva: Berenice Haddad
Produção e idealização: Lucianno Maza
Realização: Projeto Grande Elenco

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