FIM DE PARTIDA

Depois de uma temporada de sucesso no Sesc Pinheiros, FIM DE PARTIDA, espetáculo com texto de Samuel Beckett, dirigido por Eric Lenate – indicado ao Prêmio APCA de Teatro 2016 como melhor ator pela montagem –, reestreia na SP Escola de Teatro, no próximo dia 19 de novembro, sábado, às 21h30.

Em FIM DE PARTIDA, os personagens Hamm, Clov, Nagg e Nell estão presos em um abrigo, supostamente, à beira-mar e a plateia compartilha do desconforto ao qual os personagens estão submetidos. Propriamente encarcerados e enlatados, eles travam diálogos poéticos, impactantes e, por vezes, abismais sobre a condição humana, a solidão e o sem sentido da existência. Hamm é um artista fracassado. Encontra-se cego e paralítico. Clov é seu serviçal e possui uma doença que não o permite sentar. Nagg e Nell são os pais de Hamm e também têm mutilações. Vítimas de um apocalipse emocional, os quatro dividem o abrigo. Espiam o mundo, ou melhor, o que restou dele, pela luneta de Clov.

Função dupla

Essa é a primeira vez que Lenate dirige uma montagem em que está no elenco. Sem subir ao palco para interpretar desde 2013, um dos discípulos de Antunes Filho diz que sua fonte de inspiração é Chaplin. “Ele sempre atuou e se dirigiu e me espelho nele para levar ao palco algo com qualidade. Tenho uma vantagem em FIM DE PARTIDA: quando entrei no projeto, a peça já estava de pé. Só tive que me inserir na engrenagem e fazer com que ela continuasse rodando. Para isso, antes de entrar na sala de ensaio, mergulhei no texto profundamente com o meu assistente de direção”, explica.

O texto, aliás, é um dos principais pontos focais do trabalho do diretor Eric Lenate. “Desde a minha época do CPT, nunca tive medo de nenhum autor e sou um apaixonado por literatura e dramaturgia no geral. Fiz algumas experimentações cênicas ao longo da carreira, mas já há algum tempo vi que o meu estilo está centrado no trabalho do autor, com foco na valorização do texto em cena”, conta Lenate.

Beckett, segundo Lenate, é um dos autores que serviram de base para a sua formação. E, apesar da idade do texto, FIM DE PARTIDA ainda é muito atual. “A peça fala sobre conflitos humanos e, enquanto a gente tiver problemas éticos, de valores e comportamentais apresentados nesse texto, Beckett será atual. Ele constrói seu texto com uma arquitetura linguística tão fantástica, que essa estrutura não envelhece jamais”.

Da mente de Hamm para o palco

Há uma linha de interpretação da peça que acredita que tudo (cenário, os outros personagens) são projeções da mente de Hamm. O que o público vê, na verdade, são os estertores de sua consciência lutando contra a falência generalizada do corpo. “Esse é um caminho possível, embora nenhuma interpretação definitiva se consolide em se tratando de Beckett. Se pensarmos em Malone Morre temos também lampejos de uma mente que mantém uma sobrevida execrável num corpo agonizante. Só que numa narrativa é possível manter-se confinado  nos limites da consciência e do discurso do narrador – no ‘manicômio do crânio’, expressão que aparece em Mal Visto Mal Dito, de 1981.  Mesmo que nada aconteça  em termos de ação dramática em FIM DE PARTIDA, o teatro tem exigências cênicas e dramáticas que não permitiriam, mesmo a mais ousada radicalidade, não mostrar nenhum confronto entre personagens no palco. Seguindo essa linha, uso as rubricas de Beckett para orientar minha direção e também sobre as pequenas atividades que acontecem em cena, enquanto as figuras enunciam o texto”, diz o diretor.

O cenário e figurino, também assinados por Lenate e Rosângela Ribeiro, respectivamente, reforçam o texto. Roupas, elementos cênicos, tudo é preto. Os únicos pontos de claridade são as peles dos atores. No palco, Lenate usa latões de vários tamanhos que ajudam a criar um ambiente abandonado mostrado na peça.

Um dos destaques da montagem e que mereceu elogios da crítica foi a trilha musical, criada e executada ao vivo, no palco, por L. P. Daniel que, com seu piano, assume o papel de uma espécie de quinta voz na peça. Segundo o próprio criador, a trilha se encaixa num procedimento musical denominado indeterminação musical, movimento que surgiu no começo da segunda metade do século XX e foi adotado por músicos norte-americanos e europeus, como Morton Feldmann, John Cage e György Ligeti. “Para cada movimento da trilha, existe um caminho central a se seguir, fixo, porém, com uma gama de possibilidades relacionadas harmonica e melodicamente. Durante a execução, como que em um “improviso”, opções são feitas dentre estas possibilidades. Fazendo com que, cada vez que a trilha é tocada, apesar de parecer igual, tenha algumas diferenças”, explica ele.

Fim de Partida-118.jpg

Fim de Partida
Com Rubens Caribé, Ricardo Grasson, Miriam Rinaldi, Eric Lenate e L. P. Daniel.
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 60 minutos
19/11 até 19/12
Sábado – 21h30; Domingo – 19h; Segunda – 21h30
$30
Classificação 14 anos
 
Autor – Samuel Beckett.
Tradução – Fabio de Souza Andrade.
Direção, Cenografia e Adereços – Eric Lenate.
Figurino e Adereços – Rosângela Ribeiro.
Iluminação e Adereços – Aline Santini.
Videografia – Laerte Késsimos e Eric Lenate.
Trilha Sonora, Sonoplastia e Engenharia de Som – L. P. Daniel.
Assistência de Direção – L. P. Daniel.
Projeto Gráfico – Laerte Késsimos.
Fotos e Registro Documental – Leekyung Kim.
Direção de Produção – Ricardo Grasson.
Produção Executiva – Eric Lenate.
Assistência de Produção – Ana Araripe.
Produção – Gelatina Cultural.
Idealização e Realização – Sociedade Líquida.
Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta

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