AOS DOMINGOS (OPINIÃO)

“É domingo. Dia de visita. Dona Evangelina está na porta da sua casa recebendo os convidados. A medida em que vão entrando, a simpática senhora, acompanhada de seu marido, Petrônio, vai oferecendo cadeiras para todos se sentarem na sala de estar. Ao centro, uma mesa posta com uma garrafa térmica de café, xícaras, um bolo recém assado, biscoitos caseiros.

O casal recebe todos com hospitalidade. Sempre conversando, oferecendo mais uma xícara de café, um pedaço de bolo, fazendo com que todos sintam-se a vontade. Uma autêntica casa de avós.

Durante a peça, vamos conhecendo mais a fundo o casal. Esquecidos por seus filhos, convidam estranhos para um café ao final da tarde de domingo. É a maneira de poderem conversar e se sentirem lembrados. E também é a forma com que Petrônio encontrou para manter a sua esposa, que tem mal de Alzheimer, viva e acolhida”.

Primeiro texto de Adriano Tunes (dona Evangelina), “Aos Domingos” trata de dois assuntos interligados – a memória e a falta dela. A memória através da saudade dos pais, que relembram de seus filhos com um carinho; de seus momentos pessoais; dos esforços que fizeram para que os filhos se tornassem adultos. Mas ao mesmo tempo da falta da memória: seja a dos filhos que esquecem seus pais, que não os visitam mais; quanto do mal de Alzheimer, que faz com que os enfermos se esqueçam, mas que não deixa nunca que seus cuidadores se esqueçam de quem seus companheiros foram e são.

Eu quis escrever pensando no lado de quem fica, pois quem fica, fica sempre à espera, fica com saudade, se limita a viver à espera do outro e muitas vezes sem nem sequer saber o que esperar. Quem fica ama, um amor incondicional e na maioria das vezes inexplicável, um amor que só se entende quando se vive e só se vive através da solidão. Quero fazer com que as pessoas saiam do teatro e pensem em seus pais, coloquem a mão no celular e liguem para eles“, ressalta Adriano.

Não tem como não se impressionar com a atuação de Adriano Tunes. Com os cabelos vermelhos, por causa do “O Musical Mamonas” (onde interpreta o tecladista Júlio Rasec), Adriano incorpora todos os toques e gestuais de uma senhora. O tremor das mãos, o segurar do vestido, o sorriso no rosto, o andar arrastado pelo peso da idade. Não tem como olhar para dona Evangelina e ver um homem a interpretando. Pela magia do teatro, você vê através de Adriano, uma senhora.

Adriano também mostra todas as mudanças de humor que passam os pacientes que tem o mal de Alzheimer. Vai da alegria, ao esquecimento total, passando pela raiva. Uma raiva que, na peça, é quando ela consegue ter um momento de lucidez e perceber o quão foi esquecida pelos seus descendentes, e que está numa sala com um bando de estranhos.

Emerson Grotti (“Roleta Russa“) é o ator que interpreta Petrônio. Ambos, Emerson e Adriano, trabalham em sintonia, num perfeito jogo teatral, onde o trabalho de um é apoiado pelo do outro. Emerson vai caminhando aos poucos para seu ápice, quando explica a todos, ao final da peça, o motivo do porquê daquela tarde de café aos domingos.

Tem-se ainda que destacar o trabalho de direção de Bernardo Berro (“O Musical Mamonas“), que costura uma história que facilmente cairia para o lado piegas e de sentimentalismo barato. Faz com que o público vá se envolvendo nessa história comum de um casal de idade, mas com tanto para transmitir e se pensar depois.

O figurino e cenário é de Fábio Namatame, e a trilha sonora original de Peter Mesquita e Edson Penha.

Não esqueça de levar um lenço para as lágrimas que, certamente, irão teimar em aparecer.

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Aos Domingos
Com Adriano Tunes e Emerson Grotti
Espaço Cutucada Cultural (Rua Matias Aires, 61, Casa 3 – Consolação, São Paulo)
Duração 70 minutos
21/03 até 18/04
Terça – 19h30 e 21h
$60
Texto: Adriano Tunes
Direção: Bernardo Berro
Figurino e Cenário: Fábio Namatame
Trilha Sonora: Peter Mesquita e Edson Penha
Produção: Valentina Produções
Fotos e Vídeos: Félix Graça
Preparação Corporal: Gisele Nallini
Preparação Vocal: Bernardo Berro
Arte Gráfica e Ilustrações: Bruno Nitz
Coreografia: André Luiz Odin e Marco Azevedo
Assessoria de Imprensa: Atreva-se Comunicação

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