DENISE WEINBERG EM DOSE DUPLA

Contemporâneo e tradicional, vida e morte, liberdade e moral, masculino e feminino entram radicalmente em choque na peça Os Imortais, com texto de Newton Moreno e direção de Inez Viana, o mais recente trabalho da veterana Denise Weinberg. Esses conflitos servem para criar uma reflexão sobre a noção de pertencimento e sobre quais aspectos da experiência humana são capazes de tornar um indivíduo imortal.

A trama narra o reencontro entre uma mãe extremamente apegada às tradições e uma filha que não se ajustou ao modo de vida de sua casa, fugiu precocemente e, desde então, nunca mais falou com a família. Doente e desenganada, a matriarca amargurada decide se mudar para o cemitério onde o marido e a outra filha estão enterrados, com a última esperança de que alguém apareça para realizar a coberta de sua alma.

De acordo com esse ritual fúnebre de origem açoriana (também realizado em comunidades conservadoras no sul do Brasil), quando uma pessoa morre, é preciso que um ente querido vista suas roupas e imite seus gestos para que seu espírito possa se despedir de todos e descansar em paz.

A filha retorna à terra natal acompanhada de seu noivo, um homem trans ainda em processo de transição. Enquanto espera pela morte, a mãe precisa assimilar a cultura e o modo de vida da sua única herdeira, além de enfrentar um segredo terrível do passado que a filha carregou durante todos esses anos.

A encenação, segundo Denise Weinberg, trata da necessidade de se resgatar um ritual para que as pessoas possam celebrar a vida, os nascimentos, as mortes, as aventuras, as desventuras, os encontros e os desencontros. “Por que temos essa preocupação em deixar uma saudade, em marcar nossa caminhada fazendo algo ‘importante’, esse incômodo de sermos mortais, finitos? Por que querermos ser tão notados, tão aceitos, tão amados? Essas são perguntas que sempre fiz e sempre farei. Onde ficam aqueles que não pertencem a lugar nenhum?”, complementa a atriz.

Para Newton Moreno a ‘coberta da alma’ surge como meio – dispositivo performático da raiz – proposto para detonar esta reflexão. Até onde a tradição e o contemporâneo podem conviver e se retroalimentar? Qual a negociação ainda possível entre os dois?

Segundo a diretora Inez Viana esta peça fala de tradição, família, traição, morte e desamor. Falamos aqui de escolha e liberdade, através do encontro de três mulheres, no momento em que decidem seguir por outros caminhos, mudar o rumo de suas vidas.

Além de Weinberg, o elenco da peça é formado pelas atrizes Michelle Boesche e Simone Evaristo e pelo músico Gregory Slivar, que interpreta ao vivo a trilha sonora. O espetáculo estreou em junho no Sesc Consolação.

Maria mulher

Já o solo O Testamento de Maria, com direção e adaptação de Ron Daniels, é inspirado no livro homônimo do escritor irlandês ColmTóibin, que também escreveu o bestseller “Brooklyn”, cuja adaptação para cinema foi indicada ao Oscar 2016 em três categorias.

A montagem revela como Maria, a mãe de Jesus Cristo, procura desvendar os mistérios ao redor da crucificação de seu filho. Perseguida e exilada, ela narra a sua trajetória e todo o seu sofrimento com uma voz carregada de ternura, ironia e raiva. Maria se propõe a falar apenas a verdade sobre a enorme crueldade dos romanos e anciãos judeus.

A ideia da encenação é destacar não apenas a importância religiosa de Maria, mas revelá-la como uma figura de enorme estatura moral. “Estava alerta, também, ao fato de vermos Maria como ícone, como mãe, mas nunca como uma mulher que sabe se colocar e que precisa ser ouvida. Para dar-lhe uma voz, olhei para os textos gregos, para as imagens de uma mulher solitária e corajosa, pronta para dizer palavras que são difíceis de ouvir”, esclarece ColmTóibin.

A montagem rendeu à Denise Weinberg o prêmio APCA 2016 (Associação Paulista de Críticos de Arte), na categoria de melhor atriz. “O ponto de partida do nosso espetáculo também é este: uma atriz maravilhosa, que é a Denise, um texto de grande profundidade, e um espetáculo puro, belo e despojado, que possa oferecer à platéia momentos de grande humanidade”, diz Ron Daniels.

Em cena, a atriz é acompanhada apenas pelo músico Gregory Slivar, que assina e executa a trilha sonora ao vivo. O espetáculo foi produzido originalmente na Broadway, por Scott RudinProductions e desenvolvido pelo Dublin Theatre Festival e LandmarkProductions, com o apoio do IrishTheatreTrust.

DENISE WEINBERG

Considerada um ícone no teatro brasileiro atual, a atriz e diretora carioca Denise Weinberg é uma das fundadoras do Grupo TAPA, com o qual trabalhou durante 21 anos. Ao longo de sua carreira, ganhou dois prêmios Molière, três Mambembe, três APCA e um Shell, além de sete condecorações no cinema.

Algumas das peças em que atuou são “As Criadas”, de Jean Genet; “Outono Inverno”, de Lars Nóren; “Dançando em Lúnassa”, de Brian Friel; “Navalha na Carne, Oração para um pé de chinelo”, de Plínio Marcos, Ivanov e Tio Vania de Tchékov, Vestido de Noiva, Viúva porém Honesta, A Serpente, Album de Familia de Nelson Rodrigues. Ela também dirigiu “A Máquina Tchekhov”, de Matéi Visniec; “Salamaleque”, de Kiko Marques e Alejandra Sanz; “O Pelicano”, de Strindberg; “A Refeição”, de Newton Moreno, entre outros.

Nas telonas, Weinberg participou de “Meu Amigo Hindu”, de Hector Babenco, “De Pernas pro Ar 1 e 2”, “Salve Geral, de Sergio Rezende, pelo qual fanhou o Prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Los Angeles e no Grande Prêmio Do Cinema Brasileiro, entre outros. Nas telinhas, atuou em “Psi”, série de Contardo Calligaris (HBO), “Questão de Família”, de Sergio Rezende (GNT), “A Teia”, direção de Rogerio Gomes (Globo),  “Maysa”, de Jayme Monjardim (Globo); “Dalva e Herivelto”, de Dennis Carvalho (Globo);  e ”Alice”, de Karin Ainouz e Sergio Machado (HBO).

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Os Imortais
Com Denise Weinberg, Michelle Boesche e Simone Evaristo
Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182, Vila Buarque, São Paulo)
Duração 80 minutos
22/09 até 03/12
Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h
$50
Classificação 14 anos

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O Testamento de Maria
Com Denise Weinberg
Música originalmente composta e execução ao vivo: Gregory Slivar
Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182, Vila Buarque, São Paulo)
Duração 60 minutos
27/09 até 30/11
Quarta e Quinta – 20h30
$50
Classificação 16 anos

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