LIVING THEATRE, presente!

A partir do dia 31 de outubro, o Sesc Consolação recebe a exposição “LIVING THEATRE, presente!”, que revisita através de fotos, filmes, cartazes, desenhos, depoimentos e textos momentos da trajetória septuagenária de um dos maiores grupos do teatro experimental, num espaço expositivo e cênico aberto à convivência e à criação. A exposição abriga e ativa as bases e as decorrências das encenações e ações diretas sobre a realidade do grupo americano e oferece ao público, ao longo dos seus três meses de duração, atividades formativas e artísticas, entre leituras, encontros, oficinas e apresentações, com os atores remanescentes do grupo e com artistas visuais, músicos e coletivos teatrais de São Paulo.

Com curadoria de Andrea Caruso Saturnino, Ines Cardoso e Ricardo Muniz Fernandes, a exposição LIVING THEATRE, presente! exerce um importante papel formativo ao trazer ao público da cidade a oportunidade de conhecer em profundidade a proposta estética de uma das maiores referências da vanguarda teatral mundial, que, ao longo de sete décadas, conta mais de cem peças, representadas em oito línguas, em 28 países, e segue inspirando novas gerações teatrais.

Fundado em 1947, em Nova Iorque, por Judith Malina e Julian Beck, o Living Theatre já estava, em seu nascimento, diretamente ligado a uma importante renovação no território teatral da segunda metade do século XX. Junto a outros pequenos grupos experimentais nova-iorquinos, deu origem ao movimento off-Broadway, ocupando pequenos teatros ou adaptando armazéns desativados e visando a discutir em cena temas da atualidade e a própria natureza do fazer teatral, numa estrutura frontalmente contrária às produções voltadas para o sucesso de bilheteria e o entretenimento fácil.

Bastante influenciado inicialmente pela tradição do teatro político do alemão Erwin Piscator – de quem Judith Malina foi aluna e por meio do qual tomou contato com o teatro épico de Bertold Brecht – o Living Theatre associou às teorias do teatro engajado de visão marxista outras referências poéticas, filosóficas e teatrais, direcionando-as para uma obra e uma postura política voltadas à revolução não-violenta e ao anarquismo. Absorvendo e antecipando características, percepções e comportamentos típicos da revolução cultural ocorrida após a Segunda Guerra Mundial, o grupo veio a se tornar conhecido como o teatro da contracultura, engajando-se em manifestações teatrais de rua e realizando na cena uma inesperada combinação da racionalidade do teatro dialético com o teatro da crueldade de Antonin Artaud.

Tendo o ativismo político e o entrelaçamento entre arte e vida como suas grandes marcas, o Living Theatre manteve constante em suas criações a colaboração com ativistas, em torno de diversas lutas e numa relação direta com as questões mais urgentes da realidade. Enfrentando, por vezes, as dificuldades práticas da manutenção de uma proposta estética contestatória – a complexa equação entre a necessidade de financiamento das produções e o desejo de não cobrar ingressos, por exemplo, além das constantes mudanças de endereço motivadas frequentemente por problemas com o Estado – o grupo obteve seu primeiro grande sucesso comThe Connection, de 1959, cujo hiper-realismo no retrato de um grupo de usuários de heroína gerou um misto de surpresa e encanto no público e, a partir da qual, os atores passaram deliberadamente a representar a si mesmos.

Desde então, a companhia passou a excursionar pela Europa e a ser aclamada nos mais importantes festivais como o Festival das Nações, de Paris, em 1961, e o Festival de Avignon, em 1968. Ao mesmo tempo, a radicalidade de suas criações não deixou de gerar controvérsias e extremas reações repressivas, como foi o caso de sua expulsão de Avignon pelas autoridades locais com sua peça Paradise Now! Em 1971, quando o grupo preparava um trabalho paralelo para o Festival de Inverno de Ouro Preto, em Minas Gerais, teve sua prisão decretada pelo DOPS, o que repercutiu internacionalmente e mobilizou ações de protesto na Europa e EUA, levando-os a serem expulsos do Brasil por decreto presidencial – Judith só viria a ter sua entrada no país liberada em 1990, por meio da revogação do decreto de 1971 pelo então presidente Fernando Collor; Julian Beck falecera em 1985. Nas décadas seguintes, o Living Theatre continuaria sua atuação alternando-se entre longos períodos de residência na Europa – passando pela Bienal de Veneza em 1975 –, excursões pelo interior dos Estados Unidos e o estabelecimento de sedes com maior ou menor longevidade em Nova Iorque. Mesmo com a morte de Judith Malina, em 2015, o grupo continua ativo, a seu pedido, operando coletivamente com a orientação de várias gerações de membros da companhia.

O “presente!” do título da exposição, emprestado do vocabulário dos protestos populares, nos remete também tanto à radicalidade da presença do ator que o grupo operou em suas criações quanto à presença de um pensamento estético e político, que atravessa gerações. Ao colocarem a arte como ação política contra a opressão e por questões básicas como o fim a fome, das guerras, do abuso sexual, sugerindo, em cena, um modo de agir comunitariamente, buscando meios de atuar com o povo e contribuir para a criação de um mundo mais humano, justo e inclusivo, os atores do Living extravasam o próprio teatro para além do palco e da sala de espetáculos.

Olhar para a atualidade desta prática artística é o grande objetivo desta exposição. Impossível seria fazer um tributo ao Living Theatre. Necessário é fazer dele uma âncora e estabelecer com suas ideias e ações um efetivo diálogo, que se inspire pela íntima conexão entre sua criação e seu engajamento político –  a heterogeneidade de um grupo contra uma vontade e poder de homogeneização. LIVING THEATRE, presente! traça um mapa sobre o Living tomando-o como referência e estímulo para a possibilidade de se pensar um espaço/tempo liberto das instituições, das certezas, da arbitrariedade, do preconceito, das cátedras. Tendo em vista o contexto da arte no país de hoje, tomado de assalto pelo levante conservador que o atravessa, isto torna-se tarefa das mais prementes.

No espaço expositivo, criado por Simone Mina, optou-se por não enquadrar o Living numa caixa preta, mas abri-lo para a área de convivência do próprio Sesc e para as ruas, ampliando o trânsito entre o dentro e o fora e quebrando a separação entre o público e o privado. Aqui, o ator Sérgio Mamberti, que acompanhou o Living no Brasil nos anos 70, vem à memória quando conta que, em Ouro Preto, uma das acusações imputadas contra eles seria deixar sempre porta de casa aberta. Se verdade ou mentira, fato ou lenda, não importa, abrimos e mantemos aberta esta outra porta, mutável como a memória.

À trajetória retratada, somam-se artistas que irão adentrar e dialogar com seus conteúdos numa programação especialmente criada para a exposição. Na semana que antecede sua abertura, os atores do Living Theatre conduzem um workshop com participantes locais, que resultará numa performance a ser apresentada no espaço expositivo. O Coletivo Bijari visita o Living Theatre com uma oficina de lambe-lambe e compartilha seus resultados no Ato Público com Living Theatre, que também será criado por Ilion Troya com artistas locais e apresentado na Praça Roosevelt. Troya, que passou a integrar o grupo quando de sua passagem pelo Brasil nos anos 1970, se encontra num bate-papo com Sergio Mamberti – ator que também acompanhou o grupo naquele período, e Zé Celso, diretor do Teatro Oficina e responsável pelo convite que os trouxe ao país. Maria Thais dirige a leitura encenada Living Theatre no Brasil: a febre dos sonhos, a partir de reunião de escritos do casal Beck-Malina, concebida por Ilion Troya. A Companhia do Latão e o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos ocupam o espaço cênico-expositivo com as apresentações de Os que ficam e Vozes Insurgentes, respectivamente – a primeira, uma adaptação da peça original para o espaço expositivo, acrescida de comentários teóricos e a última, criada especialmente para o contexto da exposição. A construção de imagens é novamente abordada em outros dois workshops: com Luba Lukova, artista gráfica baseada em Nova Iorque responsável por inúmeros cartazes do Living Theatre, e com Guilherme Kramer, artista paulistano que tem o nomadismo como fio condutor de sua prática artística.  A criação musical também será tematizada, na oficina de criação sonora para teatro de rua conduzida por Lívio Tragtenberg. Finalmente, este extenso ciclo de atividades se encerra em janeiro, com o lançamento do livro O Caderno de Piscator, de Judith Malina, com tradução para o português de Ilion Troya.

 

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LIVING THEATRE, presente!
Exposição, Workshop, Cinema,
Sesc Consolação
31/10 até 27/01/18
Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta – 11h às 21h30, Sábado – 10h às 19h30
Entrada Gratuita
 
Programação completa em www.sescsp.org.br/consolacao

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