A BARRAGEM DE SANTA LUZIA

O impacto da destruição causada pela construção de uma hidrelétrica na vida, memória e cultura dos moradores das comunidades ribeirinhas é o tema do poético A Barragem de Santa Luzia, de Rudifran Pompeu (vencedor do prêmio APCA 2017 de melhor dramaturgia por “Siete Grande Hotel: A Sociedade das Próprias Fechadas”). O espetáculo estreia no dia 11 de junho na Oficina Cultural Oswald de Andrade, onde fica em cartaz até 1 de agosto, com entrada gratuita.

Com direção de Tiche Vianna e Rudifran, a peça narra o drama da jovem Maria Flor, que é obrigada a sair de sua terra em função do rompimento de uma barragem para a construção de uma usina hidrelétrica na região. Ela se recusa a deixar a sua vida e resolve construir um universo próprio, cheio de desejos e descobertas, a partir do barro de seu quintal. Os horizontes e sonhos de Maria são abalados quando ela encontra uma velha caixa-mala repleta de memórias de seu bisavô. Esse artefato é capaz de transformar o pensamento da jovem sobre a vida e sobre tudo que pode decorrer dela.

A motivação do texto é a fábula da resistência. Resistência em todos os sentidos, da terra, da mulher. O espetáculo fala sobre essa mulher que, para não perder o pouco que tem, precisa resistir ao possível desaparecimento de sua história. Fala sobre memória, sobre a fragmentação do pensamento e sobre a terra e o desejo de se permanecer onde se trabalhou, viveu e plantou raízes. No desespero do fim de tudo, a personagem procura uma lacuna de salvação de sua dignidade e de sua trajetória histórica, e, mesmo que tudo seja um campo imaginário, ela resolve criar um novo mundo no quintal da casa onde vive e onde pretende ficar até o fim”, comenta o autor e co-diretor.

A ideia é criar uma discussão sobre a ressignificação de memórias em contraponto com os conflitos vividos no tempo presente pela personagem. Também central na encenação e no texto são as questões de identidade de gênero e a forma como são colocadas na contemporaneidade. A partir de suas idealizações e das perspectivas de um mundo ideal, Maria percebe a dificuldade e a dimensão simbólica de reorganizar-se diante da vida. “Essa ressignificação mostra que é preciso agir de alguma forma mais eficiente para se combater o esquecimento de quem somos e de quem algum dia fomos. Às vezes, é preciso à iminência do fim para entendermos o quão importante são as memórias na nossa linha narrativa e na nossa história, nosso lugar de fala, nossa identidade”, acrescenta Pompeu.

Outra referência do espetáculo é a própria desestruturação – de natureza misógina, machista e patriarcal – do cenário político brasileiro, além de eventos como a catástrofe de Mariana, que possuem uma forte representação simbólica em relação à situação exposta pela trama. “É um espetáculo importante porque não se pode mais confiar nos poderes da República, não existe legitimidade na governança estabelecida, não existe a priori um estudo de impacto para nada nessa nação golpeada. O que se tem é um Estado conservador, que arbitra o direito de determinar quem vive e quem morre. Nada acontece em uma república deformada por um golpe de Estado jurídico e midiático como o que o Brasil sofreu recentemente. É importante falar de resistência, porque é o que nos resta depois de tudo”, revela.

Montado em uma plataforma de metal, com madeiras e tábuas sujas de terra, o cenário da peça, assinado por Zita Teixeira e Entre o Trem e a Plataforma cia de teatro, remete o espectador ao quintal de uma casa humilde no sertão de Seridó, no Rio Grande do Norte. ”A encenação é baseada em uma paleta de cores da terra; ela foi pensada para andar e se contaminar de símbolos de luta e de resistência no Brasil rural. É um trabalho que navega na simplicidade, mas que tem um sentido de enfrentamento de questões por vezes contraditórias exatamente como o somos”, acrescenta.

Já a iluminação de Lui Seixas recria esse ambiente árido com cores quentes. E a trilha sonora de Pedro Felício é composta por uma série de interações com a cena, a partir de instrumentos de percussão, um violão e uma rabeca. A produção geral é de Mônica Raphael, projeto contemplado na 6ª edição Prêmio Zé Renato.

 CARMEN (1).png

A Barragem de Santa Luzia

Com Nataly Cavalcantti e Clayton Nascimento

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363, Bom Retiro, São Paulo)

Duração 70 minutos

11/06 até 01/08

Segunda, Terça e Quarta – 20h

Entrada gratuita (ingresso com 1 hora de antecedência)

Classificação 16 anos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s