ELES NÃO USAM BLACK-TIE (OPINIÃO)

A história de um pai e filho que, por apresentarem posições morais e ideológicas diferentes, se confrontam, ambos lutando por seus ideais, numa São Paulo dos anos 50.

Anos 50? Mas a ação poderia acontecer agora neste final da segunda década do século XXI. E os personagens – pai e filho – poderiam ser substituídos por irmãos, amigos ou até mesmo por compatriotas.

Comemorando os 60 anos do seu lançamento, o diretor Dan Rosseto traz “Eles Não Usam Black-Tie” para o palco do teatro da Aliança Francesa.

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Conceito Histórico da Peça

Eles Não Usam Black-Tie” é a primeira peça do jovem ator/dramaturgo, Gianfrancesco Guarnieri. Escrita para ser encenada no Teatro de Arena (atual Teatro de Arena Eugênio Kusnet) em 1958, é considerada a precursora do movimento em busca pelo verdadeiro teatro brasileiro. Sai dos palcos a burguesia e entra o operariado.

O próprio título é de um humor sagaz, pois o proletariado não se veste assim.

A peça realizou um feito inédito até então – ficar mais de um ano em cartaz. Ela “aliou temas importantes como o movimento operário da década de 50 no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores brasileiros, traçando um panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos e apontando o cerne do abismo social entre dominantes e dominados“, segundo Rômulo Radicchi.

Conta a história de uma família de trabalhadores de uma classe social baixa. De um lado, o pai, Otávio, e outros operários estão organizando uma greve, em busca de melhores condições de trabalho. Do outro, o filho mais velho, Tião, que não deseja participar desse motim e busca uma vida segura ao lado de sua noiva, Maria, que está grávida. No meio do fogo cruzado, está Romana, a mãe, uma mulher corajosa e massacrada pela vida, a quem cabe manter unida a família.

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No elenco original, Eugênio Kusnet (Otávio), Lélia Abramo (Romana), Miriam Mehler (Maria), Gianfrancesco Guarnieri (Tião). além de Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.

A peça deu origem ao filme brasileiro homônimo, que foi dirigido por Leon Hirszman (1981). No elenco, estavam o próprio Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes e Flávio Guarnieri.

O filme recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, além de ter sido também premiada em outros festivais internacionais. Está na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pela Associação Brasileira de Criticos de Cinema (Abraccine).

A nova montagem

Em um país atualmente dividido, bipolarizado, nada melhor do que trazer novamente para o cerne da questão uma peça como “Eles Não Usam Black-Tie”, ainda mais em um ano eleitoral. Os tempos são outros, mas o tema continua tão fresco quanto há 60 anos.

A montagem de Dan Rosseto incomoda – e muito. É um texto denso, que acontece em 90 minutos, que passam um a um. A sala do teatro da Aliança Francesa parece que fica claustrofóbica, não há ar que circula na plateia devido a tensão no palco.

No palco, o cenário do interior da casa da família de Otávio e Romana. Uma casa simples, de parede de madeira, que pelas frestas dá para ver os atores se preparando para entrar em cena. Na verdade, eles quase não abandonam o palco – estão sempre a vista, mas esperando para entrar na parte central da casa, onde acontece a ação. São olhos que vigiam – os outros personagens, bem como a plateia.

Dan acertou na escolha do elenco – algo tão importante para uma peça em que os atores e o diálogo são o foco principal da montagem.

O trio principal é vivido por Adilson Azevedo (Otávio), Kiko Pissolato (Tião) e Paloma Bernardi (Maria). Há a tensão no ar nas figuras de Adilson e Kiko, que interpretam pai e filho. O embate através da atuação, da forma de falar e de olhar. Paloma, a princípio dá o apoio necessário ao noivo, até que decide ficar ao lado de sua comunidade, abandonando-o. Começa a peça de uma maneira ‘simples’, ‘frágil’ até assumir o controle da sua vida, a independência feminina.

Ao redor deles orbitam os outros personagens – operários da fábrica e amigos da família. Carolina Stofella (Dalva), Pablo Diego Garcia (João), Paulo Gabriel (Jesuíno), e Tiago Real (Braúlio) dão suporte a ação da peça, assumindo algumas vezes os papeis de destaque na drama. São os olhos que tudo vêm pelas frestas da casa.

Samuel Carrasco (Chiquinho) e Camila Brandão (Terezinha) representam o frescor da idade, a inocência, a transição da infância para a vida adulta. Cada vez que estão presentes em cena, como ‘protagonistas’, o riso é garantido.

Mas o ponto de convergência da ação recai sobre a figura da atriz, Teca Pereira. Teca interpreta Romana, a mãe da família, de uma forma ímpar. Através de seus diálogos, que como os de qualquer mãe, fazem a plateia rir e até mesmo pensar profundamente. Romana é quem mantém a família unida, e é através dela, que a decisão final – com uma dor profunda – acontece.

A montagem de “Eles Não Usam Black-Tie”, de Dan Rosseto, irá pegá-lo de uma forma, que dificilmente você sairá igual do que quando entrou. Com certeza, facilitará – e muito – no diálogo que precisamos ter para que este país mude. Mas um diálogo em que todos saibam ouvir e falar.

Sugestão – chegue um pouco mais cedo, pegue o programa da peça e leia. Irá complementar a experiência teatral.

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Eles Não Usam Black-Tie

Com Adilson Azevedo, Camila Brandão, Carolina Stofella, Kiko Pissolato, Pablo Diego Garcia, Paloma Bernardi, Paulo Gabriel, Samuel Carrasco, Teca Pereira e Tiago Real

Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 90 minutos

20/07 até 16/09

Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$60

Classificação 12 anos

Quer conhecer um pouco mais sobre a obra? Abaixo, um documentário feito pela Central Única dos Trabalhadores, com depoimentos de atores que participaram do filme.

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