PORTAR(IA) SILÊNCIO

A experiência de nove porteiros do Nordeste que migraram para São Paulo somada à sua própria vinda à cidade mais populosa do Brasil tornaram-se metáfora sobre processos migratórios pelas mãos do artista potiguar João Batista Júnior. O monólogo Portar(ia) Silêncio, que une teatro documental e linguagem cinematográfica, estreia dia 11 de janeiro, sexta-feira, 20h30, no auditório do Sesc Vila Mariana. João Júnior, idealizador da peça, também é diretor e fundador do Coletivo Estopô Balaio, grupo de artes integradas composto majoritariamente por artistas migrantes.

O processo de criação do espetáculo partiu de uma pesquisa de João sobre a memória nordestina na cidade de São Paulo. Após entrar em contato com o porteiro do prédio em que vive, o artista descobriu que nessa classe de trabalhadores há inúmeros casos semelhantes de migração, o que condensa outros aspectos do tema, como o olhar colonialista e aristocrático sobre o Nordeste do país, os preconceitos linguísticos e a falta de reconhecimento identitário de sua cultura local nas dinâmicas impostas pela cidade. O recorte da capital paulista a partir do olhar dos porteiros migrantes é um símbolo de como a dinâmica urbana contrapõe hábitos e vivências dessas pessoas, grande parte delas vinda de zonas rurais do Nordeste.

A portaria virou metáfora para implicações existenciais. O porteiro é um trabalhador do silêncio e ocupa um lugar parecido com o da própria história da migração, que é não estar dentro nem fora, não estar num espaço público nem privado, além de receber com frequência um olhar e um tratamento estereotipado sobre seu local de origem”, explica João, que vive há dez anos em São Paulo.

Na peça, uma ficção documental, João entrelaça depoimentos dos porteiros gravados em vídeo e projetados na parede do auditório com sua interpretação. “Ocupo um lugar de ator, mas não de personagem. Transito entre esses homens numa espécie de presentificação das suas histórias. Há um trabalho forte com a palavra, a prosódia, o sotaque e os locais de onde vem cada uma dessas pessoas”, destaca. Os nove porteiros que se dispuseram a gravar os depoimentos para João são dos estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Sergipe e Piauí.

Entre as referências que apoiaram a criação de Portar(ia) Silêncio, João destaca o livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, bem como sua adaptação cinematográfica de 1977 assinada por Zelito Viana; o filme O Homem que Virou Suco, de João Batista de Andrade, sobre um poeta paraibano recém-chegado na cidade de São Paulo que lida com o choque identitário vivido na metrópole, e o documentário Santiago, de João Moreira Salles.

Na área da sociologia, João teve suporte dos livros Não Lugares, do etnólogo e antropólogo francês Marc Augé e Um Nordeste em São Paulo: Trabalhadores Migrantes em São Miguel Paulista (1945 – 1966), estudo do sociólogo Paulo Fontes cujo bairro escolhido para observar o fluxo de migração nordestina era o mesmo que João prestava serviços como professor no período em que entrou em contato com a obra.

Em cena há uma mesa com um rádio de pilha, uma câmera de segurança e pedestais acoplados a focos de luz espalhados pelo palco. Os pedestais fazem as vezes de microfones, justificados por uma espécie de jogo dramatúrgico criado por João: “Faço perguntas que são respondidas pelos porteiros projetados na parede”, explica. Em outros momentos, o ator interpreta textos que se revelam respostas a questões levantadas pelos porteiros, criando uma espécie de entrevista as avessas, onde se alternam os lugares das perguntas e das respostas.

A relação com o cinema é preponderante na peça. O tempo todo há uma fricção da linguagem fílmica com o teatro”, ressalta o artista. Durante a encenação, João também dança e cria com o movimento uma nova camada que traz questões inconscientes da rotina de migrantes, como os deslocamentos, a percepção física, a sensação de despertencimento e o cansaço.

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Portar(ia) Silêncio

Com João Batista Júnior

Sesc Vila Mariana – Auditório (R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo)

Duração 60 minutos

11/01 até 16/02

Sexta – 20h30, Sábado – 18h

(Haverá sessão extra no dia 5 de fevereiro, terça-feira, 20h30.)

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 14 anos

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