RUA AZUSA – O MUSICAL (OPINIÃO)

Segue em cartaz neste momento em São Paulo, o espetáculo chamado Rua Azusa, O Musical que contempla todos os principais requisitos para ser no mínimo considerado um bom musical – impecável argumento narrativo, um elenco composto por mais de 40 atores que buscam o jogo teatral o tempo todo, escolhas musicais que te guiam e convocam sua presença enquanto espectador e cenários que contribuem diretamente para a história contada.

Baseado na história de William Joseph Seymour, homem negro, filho de um casal escravizado, o musical narra em meio ao grande conflito da segregação dos EUA em 1906, o Chamado que William atendeu para liderar o movimento que quebrou barreiras raciais, criando buscar espaços onde não houvesse distinção entre brancos e negros e, ainda, num jogo metalinguístico existe um casal contemporâneo que nos conduz o olhar para sua busca pela paternidade.

O que seria mais um musical em cartaz no circuito teatral de São Paulo, me salta aos olhos quando compreendo que se trata de um musical autoral produzido por um coletivo cristão, e é em meio a esta informação e o privilégio de ter tido o encontro com esta história na última quinta dia 20 de junho de 2.019, que pretendo exercitar meu pensamento.

Não é novidade nenhuma que estamos vivendo nestes tempos tortos, onde há intolerância, perseguição religiosa, racismo e genocídio negro e indígena, homofobia, misoginia e tantos outros males nomeados que ganharam força nesta nossa sociedade atual. Logo qualquer ação que busca ao menos a tentativa da comunhão/do encontro, particularmente já diz muito sobre muita coisa.

Penso que existam três vertentes principais que culminam em RUA AZUSA:

A primeira seria o cunho histórico no âmbito teatral mesmo, de um coletivo teatral cristão que existe há 19 anos, com uma missão – acredito eu – que antes de evangelizar me parece ser a busca do se ENCONTRAR com o outro, este outro que não o conheço e por vezes é tão diferente de mim mesmo, mas por reconhecer que o OUTRO do OUTRO sou EU eu me coloco como instrumento e ajo, agir, ação, atua sobre algo, no nosso caso ATUAÇÃO!

Com um histórico de peças apresentadas em lugares não comuns ao clássico italiano como presídios, asilos, orfanatos, ruas etc. No qual não existe uma igreja oficial, pois os membros do coletivo provem de várias vertentes da igreja pentecostal, decidem produzir, sem patrocínio direto, um espetáculo musical do zero.

E este trabalho, no principal polo de teatro do brasil, que é a cidade de São Paulo, ganha voos tão altos, que uma temporada prevista para apenas 1 mês, ganha outros palcos e já esta findando seu primeiro semestre em cartaz, com um movimento de recomendação boca-a-boca (um trabalho de formação de público catártico) no qual a página oficial do instagram conta com mais de 40 mil seguidores. E ainda mais surpreendente quando o coletivo garante para os próximos 10 anos o arrendamento de um espaço teatral histórico de São Paulo que é o antigo teatro Brigadeiro. Isso de longe, é o sonho de qualquer coletivo teatral paulista, que possui ou busca fomentação para sua criação artística.

A segunda vertente que é outra força gigantesca que me arrebata, e talvez onde o exercício da fala começa a me dificultar é sobre o cunho carismático, ecumênico, religioso/sagrado, rito e metalinguístico que ocorre a cada apresentação de Rua Azusa. Espinosa já dizia sobre as paixões alegres e as paixões tristes que nos provocam revoluções que pode ou não nos impulsionar pra vida.

Como espectador não leigo de teatro e sendo negro, meus olhos brilharam por diversos momentos por diversas razões, por ver no palco tantos artistas gigantes e parecidos comigo fisicamente, por ver o cuidado em contar uma história que não é contada no Brasil, muito pelo contrario, consciente de que existe um racismo estrutural que insiste em nos retirar de toda e qualquer possibilidade/responsabilidade de entendimento sobre nós mesmos, afinal não se pode falar sobre política, políticas públicas-sociais, publico e privado sem entender a formação da sociedade em que estamos inseridos, não há como falar sobre cotas raciais, se o Brasil mais do que nunca vive um movimento de meritocracia efervescente, não há como vislumbrar melhorias sem entender que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e hoje o que esta em voga quando se trata destes temas são três sílabas repetidas “Mi Mi Mi”.

Falar sobre o avivamento da Rua Azusa é diretamente encarar as nossas próprias cicatrizes coloniais. Estar sentado na plateia e me ver rodeado de um público rapidamente identificado como “não público” cativo de teatro e/ou teatro musical é surpreendente, acompanhar os comentários, as respirações, os embates com o terceiro sinal e/ou o embate sobre lugar correto para se sentar em meio ainda de sussurros ou gritos de Aleluia – Glória a Deus! Onde acaba o teatro e onde começa a vida? Quando acaba o teatro realista e inicia o épico… ou ainda quando acaba o épico e se inicia o performativo!

Há muito a ser pensado antropologicamente falando sobre este interim de encontro, entre palco e plateia. O teatro por si só busca o tempo todo o convite pela convocação da presença, a presença dos atores e daqueles que fazem o espetáculo acontecer e principalmente a convocação do público, um público que não seja apenas conivente ou contemplativo, mas que haja conforme sua corporeidade  e vida se manifesta em detrimento aquilo que se vê, e isto sem dúvida acontece em Rua Azusa. O público está por que quer estar e se interessa em estar, o espetáculo como num diálogo abre espaço para o respiro e encanto que gera ação física e emocional  a plateia, ex: do meu lado havia um senhor negro, que no segundo ato quando um dos personagens fala textos racistas sobre uma criança negra – ele diz, como pra si mesmo e pra quem conseguir ouvir – Hey vou jogar o sapato em você!! Mas não posso porque é teatro (…). Isto pra mim é mágico é o vislumbre de algo que não está, é o sonho se manifestando como energia física e real, não é a toa que o teatro na história se apresenta como algo diretamente ligado a política, e hoje sem dúvida nenhuma, teatro é política e ele sim, sem sombra de dúvida atua e age como influenciador direto de uma sociedade, por isso fica mais evidente este momento de ataque aos movimentos de cultura do nosso país por partes de grandes conservadores que hoje mais do que nunca possui uma força gigante nas decisões do nosso país.

Aqui entra a terceira e última vertente sobre este meu exercício de pensamento sobre Rua Azusa. Eu cresci dentro da igreja católica, no interior de São Paulo, numa cidade de 4000 habitantes em que o tempo é literalmente outro, a força sensível de um instituição religiosa nestas áreas pode ser, e normalmente é imensa! Grande parte deste SER artista que tenho buscado ser, se semeou dentro das paredes desta igreja no interior; tenho um irmão mais velho que é Frade Franciscano, e portanto creio e para além de acreditar eu sinto energeticamente e exercito minha fé, e estou mais que familiarizado com palavras e conceitos como Espirito Santo e etc.

Porém, todavia, entretanto… nestas andanças, não posso ser hipócrita, e fechar os olhos para toda a barbárie que existiu e ainda existe dentro destas instituições religiosas, o teatro tem por princípio ser SUBVERSIVO, logo em Rua Azusa por mais que possa existir a instituição religiosa por trás e por tanto, provável, muitos membros adeptos a um conservadorismo extremo que separa, divide e julga, o movimento que se dá com este espetáculo é o de tolerância e busca pelo respeito e vislumbre do indivíduo privado e social, percebo a busca por validar a existência divina/sagrada do ser humano independente de sua aparência – vide que Rua Azusa coloca em cena o personagem de um Pastor Racista que consegue parar e encarar seus próprios monstros, e isto é lindo! Logo o que me pulsa é saber para onde vai este movimento?

Até onde esta luta artística pretende ir a favor destes direitos humanos que deve ser para todos e há de esbarrar em outras temáticas para além da questões raciais sobre negritude. Nesta “Rua Azusa” há espaço para os Índios, para questões LGBTs e tantos outros que ainda sofrem diariamente na nossa sociedade?

Como parte deste publico que esteve na plateia de Rua Azusa, meu sentimento é de encantamento, gratidão, vislumbre e sem dúvida Fé, esta Fé que crê em movimentos assim para que de fato haja a mudança, e quiçá um dia poder estar perto de alguma maneira e contribuir da maneira que puder para que este exercício de tolerância se expanda para lugares que outrora nem imaginávamos.

Vida LONGA a “RUA AZUSA”
Vida LONGA ao Teatro Nissi

 

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Renato Caetano (ator – julho 2019)

FACE

Rua Azusa, o Musical

Com Adhemar de Campos, Aline Menezes, Benner Jacks, Fabricio Bittencourt, Jéssica Augusto, Kaiky Mello, Otavio Menezes, Soraya Moraes, Thales César e grande elenco composto por 47 atores.

Teatro Nissi (Av. Brigadeiro Luís Antonio, 884 – Bela Vista, São Paulo)
Duração 180 minutos
Sexta – 19h30, Sábado – 14h30 e 19h30, Domingo – 14h
$72/$92
Classificação 12 anos

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