A NEVE OU FORA DE CONTROLE

Sucesso de público e crítica o espetáculo A NEVE OU FORA DE CONTROLE, um dos textos vencedores da quinta edição da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo, faz nova temporada na capital paulista. A montagem, da Cia dos Imaginários, escrita e dirigida por René Piazentin, sobe ao palco do Teatro Cacilda Becker todas as sextas-feiras do mês de outubro – dias 4, 11, 18 e 25 – sempre às 21h.

Com Aline Baba, Fernanda Gama, Gustavo Xella, Izabel Hart, Leandro Galor, Mateus Pigari, Renata Grazzini e Rodrigo Sanches, a peça procura mostrar o momento atual, em que a perplexidade muitas vezes congela a possibilidade de ação. Desde que começou a nevar no Rio de Janeiro Pedro nunca mais foi visto. Enquanto o país se prepara para a Copa do Mundo sinais de celular são rastreados e um atentado no Maracanã tira a vida de trezentas pessoas. Em meio a tudo isso figuras grotescas tramam um golpe de Estado.

A NEVE OU FORA DE CONTROLE começou a ser escrita por René Piazentin em 1996, inspirada no golpe de 1964, mas com um universo próprio, sem a intenção de constituir-se como registro histórico. O autor, que também dirige a montagem, conta que O Rinoceronte, de Ionesco foi uma influência enorme para a ideia inicial, pela forma com que representa a adesão a um regime de exceção e como ela vai se dando aos poucos, quer pela ignorância, quer pela covardia. Esquecido em um caixa, o texto foi reencontrado em 2015 após uma mudança.

Acho que temos uma tendência em não levar à sério nossa versão de vinte anos atrás quando nos deparamos com ela, mas de súbito me interessei em terminar a peça inacabada. Anotei algumas coisas, pensei em acréscimos e alterações, mas faltava algo que estruturasse o diálogo entre a minha versão de 1996 e a de 2015. Pouco tempo depois, ainda em 2016, uma amiga atriz, Thais Giovanetti, me mandou a seguinte mensagem pelo WhatsApp: “sonhei que você fazia uma peça sobre o golpe e que nevava” (o WhatsApp já estava, naquele momento, sendo decisivo). A mensagem da Thais foi aquele elemento do acaso que joga a nosso favor”, explica o autor.

O impeachment de 2016 e o escancaramento da fragilidade da democracia brasileira foi o elo de ligação e René decidiu que sua peça seria no Brasil, um Brasil imaginário onde começa a nevar no Rio de Janeiro trazendo mais um elemento estranho para a cena.

Narizes pretos de palhaços

Em A NEVE OU FORA DE CONTROLE questões políticas são discutidas sem o compromisso formal com o documental. “Como não é uma peça realista, tenho a liberdade de tocar em alguns temas e retratar figuras muito presentes na atualidade do país”, enfatiza René.

No espetáculo, os personagens vão aderindo ao embrutecimento e passam a usar narizes pretos de palhaço (a cor preta foi a saída para distanciar da figura do clown e de sua técnica específica) ressaltando um aspecto soturno, ainda que evidentemente patético. O nariz de palhaço que não é levado à sério de um lado, a neve que maravilha de outro. Ambos, por fim, tomam conta de tudo, quando já não há tempo para qualquer reação. A partir daí surgiu também a ideia de criar um plano onírico para o texto, onde as memórias do desaparecimento da personagem Pedro se confundem com os sonhos de Carmen, sua irmã e de Thais, sua namorada e amiga de sua irmã.

A NEVE OU FORA DE CONTROLE trata, claro, dos que resistem e se indignam frente a um sistema opressor. Mas também procura mostrar o nosso momento atual, onde a perplexidade muitas vezes congela a possibilidade de ação. Onde ficamos observando a neve cair, até cobrir o Cristo Redentor”, conta o autor e diretor.

Idealizada por Eliseu Weide, a cenografia ajudou a criar a linguagem do espetáculo. São seis módulos móveis (2,5m x 2,5m), que criam recortes e janelas colaborando para o jogo entre os atores, além de facilitar as transformações em cena. Já os figurinos, de Érika Grizendi, mesclam épocas distintas com adereços e texturas de 1964 aos dias atuais.

FACE (6)

A Neve ou Fora de Controle

Com Aline Baba, Fernanda Gama, Gustavo Xella, Izabel Hart, Leandro Galor, Mateus Pigari, Renata Grazzini e Rodrigo Sanches

Teatro Cacilda Becker (Rua Tito, 295 – Lapa, São Paulo)

Duração 105 minutos

04 a 25/10

Sexta – 21h

$30

Classificação 12 anos