JARDIM DE INVERNO

Com direção de Marco Antônio Pâmio (vencedor de três Prêmios APCA) e adaptação dramatúrgica de Fabrício Pietro o espetáculo estreia no dia 11 de outubro, sexta-feira, às 21h30, no Teatro Raul Cortez. A direção de produção é de Danielle Cabral (DCARTE). Aline Jones, Erica Montanheiro, Iuri Saraiva, Luciano Schwab, Martha Meola, Ricardo Ripa, Julia Azzam e Lucas Amorim completam o elenco.

A peça se passa em uma época pré-feminista e levanta questões como a liberdade, os padrões de vida impostos pela sociedade e a sensação de sufocamento na vida familiar. A obra foi adaptada para o cinema (em português com o título Foi Apenas Um Sonho), protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

A trama retrata a vida cotidiana de April Wheeler (Andréia Horta, protagonista da cinebiografia de Elis Regina) e seu marido Frank (Fabrício Pietro), um casal de classe média aparentemente feliz, que mora com seus dois filhos em um idílico subúrbio de uma pequena cidade nos Estados Unidos, na década de 1950. A história revela momentos intensos da vida cotidiana deste casal que ao cumprir as convenções sociais impostas sufocam seus mais profundos anseios, envenenando sonhos e aspirações.  O espetáculo nos apresenta a progressiva frustração que acomete os dois, conforme assistem a suas vidas passar como um acúmulo de instantes sem sentido.

A obra, mesmo tendo sido escrita no início da década de 60 e contando a história de uma família americana suburbana dos anos 50, carrega em seu cerne uma atemporalidade de proporções gigantescas, pois ela fundamentalmente nos fala de como nossos projetos de realização pessoal podem ser sufocados em nome da estabilidade social e financeira. Esse assunto não diz respeito a uma época específica, e sim à problemática humana mais profunda, independente de tempo ou lugar”, diz o diretor Marco Antônio Pâmio.

Nessa época pré-feminista, April é uma dona de casa que tem o sonho de ser atriz frustrado.  Ela elabora um plano romântico para se mudar com a família para Paris, onde será possível reavivar seu relacionamento com o marido, cumprindo seu profundo desejo de liberdade e dando a ele a chance de se “encontrar”.

Sobre sua personagem, Andréia Horta comenta: “Sinto a alegria de ter vivido até agora muitos personagens, com alguns tenho semelhanças com outros não. Sempre tentamos encontrar pontos de contato, mas nem sempre acontece, o que é bom também, porque, a partir do desconhecido, começa a criação. Para April, tenho me conectado com tantas histórias de mulheres que viveram oprimidas, sufocadas pela idealização da família e do papel que acreditaram que nós mulheres deveríamos ocupar como se tivéssemos que representar o papel que nos foi dado sem que pudéssemos escolher outro destino”.

Já Frank tem um emprego relativamente bem remunerado, mas muito tedioso, e espera conseguir em breve uma promoção. Inicialmente, ele fica entusiasmado com a ideia da esposa, mas, aos poucos, passa a sabotá-la, alarmado com a possibilidade de mudança, pois acredita que precisa encontrar a felicidade em sua vida concreta.

Para construir sua personagem, Fabrício Pietro inspira-se nos modelos de família tradicional ao seu redor. “Fui criado em uma sociedade na qual a figura masculina tem obrigação de ser forte, provedora, maliciosa, chefe da casa, e bem-sucedida. Ainda que eu tenha consciência destas questões e lute contra elas, sei que estão plantadas no meu DNA social”, acrescenta.

O casal não sabe se abre mão de seus verdadeiros desejos ou enfrenta o peso do conformismo. Eles descarregam suas frustrações um no outro e raramente compreendem o ponto de vista do parceiro, refletindo a desilusão do sonho americano, o “american way of life”. Mas, diante dos olhares de seus vizinhos, eles representam os pilares de tudo o que há de bom; são pessoas charmosas, contagiantes, exemplares e especiais, o que afirma a maneira como se vêem.

Essa dicotomia entre a realidade (para o casal) e a ficção (para os vizinhos) faz com que a história seja um inquietante retrato da busca desesperada por uma única chance na vida de se fazer o que se quer para que tudo valha a pena. “A própria dramaturgia nos conduz a isso, uma vez que enxergamos o casal na sua intimidade e no convívio com os outros personagens que os cercam no mundo exterior. Nosso elemento inspirador é o próprio teatro, na medida em que essa vida levada pelos dois é, de certa maneira, representada para os outros. Todos representam papéis sociais, mas o que eles vivem entre quatro paredes se distancia bastante do que deixam transparecer para o mundo. E, tanto quanto no teatro, esses papéis precisam ser extremamente bem representados”, explica Pâmio.

Tal como uma tragédia grega, a obra gira ao redor das falhas morais de suas personagens centrais ao discutir temas como a liberdade, o quanto as pessoas são capazes de se autossabotar para caber nas expectativas sociais, a distância entre a felicidade idealizada e a vida concreta, a busca por uma vida autêntica, os modelos irreais de felicidade impostos pela sociedade, como o homem lida com o sucesso da mulher, seu desejo de autoafirmação e o medo diante de certezas questionadas.

Questões femininas

Publicado em 1961, o primeiro romance de Yates foi finalista do National Book Award em 1962, vendeu milhares de cópias, foi amplamente traduzido e publicado em outros países e, em 2005, foi eleito pela revista TIME como um dos 100 maiores livros da literatura em inglês. A obra ficou ainda mais conhecida graças à adaptação cinematográfica dirigida por Sam Mendes em 2008, com o título Foi Apenas um Sonho, estrelada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

Quando assisti ao filme em 2009, senti o mesmo vazio desesperador e vontade de resgatar uma certa ‘sensação de vida’ que April, a protagonista, sentiu. Eu vinha de uma fase na qual conforto e estabilidade eram meus objetivos de vida. Com o passar dos anos, meus desejos mais genuínos foram minados pelo comodismo e algo importante se perdeu: minha coragem e autenticidade. O filme me fez enxergar isto. Adquiri a obra original, um romance, e me debrucei sobre ele inúmeras vezes. Então decidi escrever a versão teatral. Minha adaptação foca na reflexão sobre o sufocamento dos desejos, a massificação dos valores, o desperdício dos potenciais individuais em virtude de um único modelo de família próspera e feliz estabelecido por interesses econômicos. Mas em si, a história carrega questões femininas urgentes, expostas muito claramente pela protagonista e que lamentavelmente 60 anos depois (o romance foi escrito em 1961) seguem devastando as mulheres”, revela Pietro sobre a idealização e adaptação da peça.

FACE (1)

Jardim de Inverno

Com Andréia Horta, Fabrício Pietro, Erica Montanheiro, Iuri Saraiva, Martha Meola, Ricardo Ripa, Luciano Schwab, Aline Jones, Julia Azzam e Lucas Amorim.

Teatro Raul Cortez (Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista, São Paulo.)

Duração 100 minutos

11/10 até 17/11

Sexta – 21h30, Sábado – 21h, Domingo – 20h

$50

Classificação 14 anos

ELLA, ESTRANGEIRA DE SI

Você já pensou em ter que escolher qual seria a próxima cena que veria num espetáculo? É isso que acontece em Ella, estrangeira de si, que estreia no dia 11 de outubro, sexta, às 21 horas, na Zona Franca. Com texto e direção da carioca Luiza Prado, que também faz algumas participações como atriz, a peça mostra uma personagem que está em busca da sua identidade e do seu lugar no mundo, se descobrindo em meio a uma série de acontecimentos. No elenco também estão as atrizes Beatrix Oliva, Mitzi Evelyn, Yasmin Gomes e Yana Sardenberg, além das musicistas Beatriz Abade e Danielle Vasconcelos.
A peça traz uma voz feminina e traça um diálogo feminista. O centro da montagem é a mulher, mas a temática é universal. Afinal, quem nunca se sentiu estrangeiro, passageiro ou forasteiro do próprio corpo? Ou de alguma relação que viveu? Da cidade que nasceu ou que mora? É a partir destes questionamentos que Ella, estrangeira de si encontra identificação e temas infindáveis para refletir com o público.
O livro que originou a peça surgiu simultaneamente à mudança de Luiza para São Paulo. Em busca do seu espaço, ela saiu do Rio de Janeiro e começou a colocar no papel, em forma de texto, seus anseios com a sua troca de endereço, seus questionamentos após o fim de um relacionamento, a sua descoberta como homossexual e como ela, mulher, se colocava no mundo. Os textos, que tinham diversos formatos (poesia, roteiro, prosa e até um boletim de ocorrência) tinha algo em comum: Luiza sempre escreveria na 3ª pessoa. “Percebi que aqueles textos tinha esse ponto de encontro é que aquela ela que mencionava sempre era uma personagem e tanto. Foi assim que surgiu Ella, estrangeira de si, que além do livro e peça também foi transformada num perfil de Instagram (@ella.estrangeiradesi)”.
No lançamento do livro, Luiza fez algumas leituras dramáticas do texto e percebeu uma embocadura para o teatro. “Acabei dirigindo algumas cenas e vi que poderia ter uma peça ali. Chamei as meninas que estão no elenco e começamos a levantar esse projeto”.
Estrutura não convencional
Na hora de fazer adaptações do texto para uma dramaturgia de teatro, Luiza optou por uma dramaturgia não-cartesiana e não-linear. Por isso, ela buscou fugir de um palco italiano e ir para um espaço alternativo, com uma peça itinerante, que acontece em diversos espaços de uma casa, com cenas simultâneas, inclusive, colocando o público numa posição mais ativa.
O texto tem diversos atravessamentos. Queria que isso ficasse muito claro em cena. Cada pessoa na plateia verá a peça sob uma perspectiva e de uma maneira diferente. O elenco não leva as pessoas até a próxima cena; é a plateia que decide o que verá a seguir ou para que espaço vai seguir. Não será possível ver todas as cenas porque algumas acontecem no mesmo momento. Minha intenção com essa proposta cênica é fazer com que as pessoas se sintam como a mulher na sociedade. Obrigadas a tomar decisões, fazer escolhas cruciais ou abrir mão de situações quando não gostaríamos de fazê-las.”, explica.
FACE
Ella, Estrangeira de Si
Com Beatrix Oliva, Mitzi Evelyn, Yana Sardenberg e Yasmin Gomes.
Zona Franca (R. Alm. Marques de Leão, 378 – Bela Vista, São Paulo)
Duração 80 minutos
11/10 até 08/11
Sexta – 21h
$30
Classificação 16 anos

ODARA – TRADIÇÃO, CULTURA E COSTUMES DE UM POVO

Entre 4 e 27 de outubro, o Teatro Oficina recebe o espetáculo “Odara – Tradição, Cultura e Costumes de um Povo”, que reúne, em seu elenco, mais de 65 pessoas entre atrizes, bailarinos, dançarinos, cantoras, músicos, percussionistas,  capoeiras, sambistas, técnicos, produtores e promotores da cultura e das tradições de matriz africana que estão no alicerce da construção da sociedade brasileira.

Em um momento necessário e de protagonismo, o que “Odara” propõe ao espectador? “As pessoas podem se questionar: mais um espetáculo que resgata a ancestralidade? O que traz de diferente?”, provoca o diretor, Márcio Telles, que há 20 anos levou a mesma proposta para os palcos de periferias e centros culturais e que também atua como diretor criativo no G.R.E.S.  Nenê de Vila Matilde. “Bom, essa foi exatamente a pergunta que me fiz quando resolvi trazer a montagem de volta para os palcos e batalhei para que se desenrolasse especificamente no Oficina e que tivesse no elenco pessoas reais que praticam em suas vidas cotidianas o que entregam no teatro. Por que “Odara” agora? Ainda é extremamente urgente falar de “Odara” por razões que estão aí, todos os dias, nos jornais e nas ruas”, afirma Telles.

Após curta temporada em agosto, às quartas e às quintas, a montagem será apresentada aos finais de semana.  Com duração de 120 minutos e elenco majoritariamente negro, o espetáculo reúne diversas manifestações importantes para a manutenção e a resistência de narrativas yorubás, seja na música, na dança, na literatura e na dramaturgia.

A criação do mundo segundo a diáspora e uma visão yorubá são os fios condutores de uma montagem cujo conceito une a singela tradição Griot com a explosão inerente de quem pisa no chão do Oficina. “Este teatro, como seus próprios integrantes falam, inclusive eu que estou aqui há 11 anos, é um terreiro eletrocandombléico. Tem vida própria, assim como o corpo. Essa união impregna a peça de uma energia singular”, diz o diretor.

Acho que Odara tem um conceito de narrativa e uma visão estética que lhe são muito peculiares. Caminho nesse chão há muito tempo e recolhi dentro de todo o período de pesquisa aquilo que me tocava de forma muito profunda dentro do nosso território negro. Além desse garimpo e dessas vivências, admiro extremamente o trabalho e a trajetória do Balé Folclórico da Bahia e o bailarino e coreógrafo Ivaldo Bertazzo”, diz Telles.

SINOPSE

“Odara – Tradição, Cultura e Costumes de um Povo” traz a narrativa da criação do mundo segundo referências da mitologia yorubá.  Olorun, o Senhor Supremo do Universo, resolveu acabar com o ócio reinante no Orun e decidiu criar um mundo habitado por seres semelhantes a Ele. Para tanto, convocou todos os Orixás e, sob o comando de Obatalá, ordenou que partissem para criar o Ayê, a terra.

A peça segue com o surgimento de novos povos, desde a vida livre do negro na África, passando pelo tráfico de escravos até o período contemporâneo, mostrando que, além do sofrimento, houve resistência que manteve vivos os costumes, a tradição e a cultura, apresentando ao longo de 120 minutos uma dramaturgia enriquecida com manifestações populares como dança dos Orixás, capoeira, samba-reggae, puxada de rede e samba de roda, ilustrando um patrimônio cultural inestimável e preservado.

Nesse sentido, “Odara” propõe um novo grito, uma nova revolução, uma retomada dos territórios e das ruas, uma chamada de alegria e afeto, aguerridos, contra qualquer tipo de escravidão, violência e intolerância,

FACE

Odara – Tradição, Cultura e Costumes de um Povo

Com Lena Silva, Mare Black, Vera Afrikana, Vera Luz, Jurema Pessanha, Raquel Tobias e Rafaela Romam. Elenco Dança:Alex Rodrigues, Alexandra Souza, Alexandre Índio, Brandon Diciri, Bruno Souza, Carlos Vitor, Cristina Matamba, Cibele Souza, Debora Zum, Ellen Vieira, Gabi Santos, Gislaine Roshelly, Jaque Barbosa, Nani Salles, Priscilla Alves, Teka Peteca e Ysmael Ribeiro. Elenco Capoeira:Chocolate, Debora Oliveira, Kleber da Silva, Magnata, Mestre Tijolo, Milton Quilombola , Biribinha, Surikatte e Webert Rodrigues

Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520 – Bixiga, São Paulo)

Duração 120 minutos

04 a 27/10

Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 19h

$40 ($5 – estudantes secundaristas de escola pública, imigrantes, refugiados, moradores de movimentos sociais de luta por moradia mediante a comprovante – limitados a 10% da lotação diária)

Classificação 12 anos