EX-GORDO

Após fazer uma cirurgia bariátrica, um homem que vive isolado em seu microapartamento no 48º andar confronta figuras do passado, com o objetivo de descobrir sua verdadeira essência. Este é o ponto de partida de “Ex-gordo”, novo trabalho do Núcleo de Pesquisa Caxote, com texto e direção de Fernando Aveiro, que estreia no projeto Teatro Mínimo, do Sesc Ipiranga, no dia 24 de outubro. No elenco, estão Bárbara Salomé, Camila Biondan, Humberto Caligari e Murilo Inforsato, além do próprio Fernando Aveiro, que interpreta o protagonista.

Esse Ex-gordo convida um grupo de artistas para ir à sua casa e interpretar os personagens que habitam sua memória, para que ele possa, quem sabe, se sentir parte de uma sociedade e resolver sair do seu caótico mundo particular”, conta Aveiro, que trabalha o texto desde 2011. “A peça surgiu quando, ainda no CPT, tive uma ideia para desenvolver uma cena de ‘Prêt-à-porter’ entre um gordo religioso (não praticante) e uma travesti. Essa cena nunca foi montada, mas o processo de reescrita dela culminou em um espetáculo. Por isso, ao longo desses anos, busquei extrair da ideia original todas as possibilidades de criação entre ficção e realidade”, completa.

Em meio a uma atmosfera onírica e surrealista, o público é convidado a passar 80 minutos na casa desse protagonista e a acompanhar uma espécie de sessão de psicodrama teatral. Todos se sentam em cadeiras de diferentes estilos e formatos posicionadas dentro da cena, em uma semiarena. Enquanto assistem ao desenrolar da história, os espectadores podem até tomar um cafezinho. Ao final do espetáculo, a ideia é que cada pessoa possa olhar a obra com autonomia de cocriação.

Aveiro explora alguns elementos autobiográficos na narrativa. “Tive uma formação religiosa, fui gordo e sofri muito com isso; justamente pelo fato de ter sido privado por eles… ‘eles todos que nos confinaram à margem, que destituíram nossa personalidade’… e não é nenhum exagero. Verbos como confinar e destituir precisam aparecer para dar a dimensão trágica da coisa toda. Hoje, sei que não estou falando apenas sobre meu ponto de vista privado, ou do ponto de vista do grupo dos renegados. Estou falando de todos nós, pois quem não estava no bando marginalizado, ou estava na posição de ataque ou como observador”, afirma o dramaturgo.

A encenação carrega uma série de referências das artes plásticas, do teatro e do cinema, como “Hamlet”, de William Shakespeare, o mito de Prometeu, as obras de Marcel Duchamp, “A Vênus de Milo”, de Alexandre de Antioquia, entre várias outras. “Acontece nessa peça uma espécie de colagem, em todos os pilares: dramaturgia, direção, atuação, figurinos, cenografia, trilha e luz para compor uma obra de diálogos entre mundos prováveis e improváveis”, define Aveiro. No cenário, essa noção é ainda mais evidente. Haverá um painel-memória criado por Camila Biondan com a função de representar o imaginário do protagonista, criando uma geografia viva que será constantemente atualizada ao longo da montagem.

Ex-gordo” é a terceira parte da Trilogia da Evolução, projeto do Núcleo de Pesquisa Caxote que apresenta peças que provocam reflexões sobre o despertar da consciência de indivíduos para processos sociais que os aprisionam/moldam e os padrões sociais que afastam o ser humano do que é essencial ou genuíno. Os outros espetáculos são “Por acaso, navalha” (2014), uma adaptação do texto de Plínio Marcos, e “Obra sobre Ruínas” (2017-18), escrito e dirigido por Fernando Aveiro.

O Núcleo de Pesquisa Caxote investiga o teatro intimista e em espaços alternativos a partir da montagem de textos clássicos e de novos dramaturgos. Em seus trabalhos, explora a relação entre as artes cênicas e outras linguagens.

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Ex-Gordo

Com Bárbara Salomé, Camila Biondan, Fernando Aveiro, Humberto Caligari e Murilo Inforsato

Sesc Ipiranga – Auditório (Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo)

Duração 80 minutos

24/10 até 17/11 (não haverá sessão no dia 27/10, e, no feriado de 15/11, apresentação acontece às 18h30)

Quinta e Sexta – 21h30, Sábado – 19h30, Domingo – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 16 anos

INIMIGO OCULTO

INIMIGO OCULTO estreia no dia 15 de outubro, terça, às 19 horas, no Hotel Selina, novo espaço na Vila Madalena. A peça tem texto de Roberta Simoni e Rodrigo França, que assina a direção ao lado de Andrea Bordadagua, e marca a estreia da dupla de diretores no teatro adulto paulistano. O espetáculo teve uma montagem carioca, mas ganha uma nova versão para a temporada paulista. No elenco de São Paulo, temos os atores Carlota Joaquina, Gabrielle Araújo, Naloana Lima,  Silmara Deon, Bruno Kott, Luciano Chirolli, Ricardo Gelli e Sidney Santiago Kuanza.
O espetáculo acontece em movimento, com cenas em diversos ambientes de um hotel, com as personagens em situações que expõem diversas formas de opressão contra a mulher, em diversas intensidades. Rodrigo França, que também é cientista social, sempre trouxe temas que levantassem questões que abordassem fissuras sociais e problemas políticos e resolveu falar sobre a opressão cotidiana contra as mulheres (principalmente aquela mais velada e psicológica, que nem sempre é considerada violência) há cerca de 2 anos e meio.
Números alarmantes de violência contra a mulher sempre chegaram até mim e isso sempre me deixou assustado, principalmente quando olhamos a porcentagem de mulheres negras nesses dados. Falar sobre o assunto se tornou urgente e, infelizmente, ainda temos essa necessidade”, afirma Rodrigo, que se juntou a duas mulheres para o projeto por acreditar que a visão do homem não seria completa e nem tocaria o público da maneira que peça precisava fazer. “Apesar de me juntar às causas femininas, esse não é o meu lugar de fala. Esse projeto é feito para dar voz às mulheres. Isso é de extrema urgência numa sociedade em que o machismo é estrutural. Fomos construídos em cima de conceitos que colocam a mulher num papel de objeto sem muita importância, o que dá aos homens o direito de fazer com elas o que bem quiserem. Isso precisa parar”, diz.
Rodrigo chamou Roberta Simoni para escrever a peça ao seu lado, que disse ter tirado a ideia da peça de um sonho. “Um dia, eu sonhei que caminhava por um museu que contava histórias de mulheres que sofreram feminicídio. Fiquei tão impressionada com o sonho que contei pro Rodrigo, que imediatamente sentenciou: “nós vamos fazer uma peça sobre isso, mana”. Nada disso teria acontecido sem ele. Até mesmo a mulher engajada nas causas feministas que me tornei foi ele quem ajudou a formar. O Rodrigo esteve do meu lado quando eu tinha acabado de sair de uma relação abusiva e me ajudou a transformar o trauma em trama. Ele teve o papel fundamental não só de idealizar o espetáculo, como de me estimular a escrever cada cena. Ou seja, ele teve a sensibilidade de me fazer perceber que, através do meu ofício de dramaturga e roteirista, eu tinha as ferramentas para curar minhas feridas e, simultaneamente, ajudar outras mulheres a se curarem também e, sobretudo, a buscarem ajuda”, relata.
Andrea Bordadagua define INIMIGO OCULTO como uma peça silenciosa. “Ela desperta inúmeras vozes dentro de nós. Mas, ao mesmo tempo, é silenciosa. E ela simboliza o silêncio que deveríamos ouvir ao passar a chave na porta de casa e entrar nesse espaço que era para ser de tranquilidade e segurança. O espetáculo mostra que nem sempre é isso que acontece. Que esse lugar de acolhimento, em alguns casos, desperta uma enorme insegurança”.
Rodrigo diz que a violência que vemos em cena não é violência física, facilmente identificada. “Algumas pessoas enxergam esse tipo de opressão como uma forma de cuidado ou um tipo de romance. Mas o público é confrontado de maneira a perceber que aquilo causa dor e sofrimento às mulheres. Já recebemos, inclusive, relatos de pessoas que só perceberam que viviam num relacionamento abusivo depois de ver algumas cenas e se identificarem no papel da vítima”, conta.
Versão paulista
Gabrielle Araújo, diretora de produção de INIMIGO OCULTO e também uma das atrizes do elenco, já tinha vontade de trazer o espetáculo para São Paulo há algum tempo. Ela e Rodrigo já fizeram outras parcerias e conversavam sobre o assunto até que ela resolveu apostar suas fichas e montar uma versão paulista mesmo sem o patrocínio ou algum edital como apoio. “O tema e a maneira como ele desperta o público são extremamente necessários nesse momento maluco de Brasil que vivemos. Projetos como esse são aqueles que nos lembram porque acreditamos no teatro. Mais do que levar arte, a peça mexe com o público, fazendo pensar sobre questões importantes. INIMIGO OCULTO é uma grande experiência também”, explica Gabrielle.
Conversando com os diretores, a produtora e a dupla viram que a peça precisava de uma versão paulista, com atores daqui e também com algumas cenas que regionalizassem o discurso, aproximando a cena da plateia. “Essa é a minha primeira experiência em São Paulo e com artistas daqui. Comecei muito bem com uma espécie de elenco dos sonhos, repleto de nomes fantásticos da cena teatral paulistana”, comemora Andrea. Outra curiosidade é que equipe técnica de apoio é toda composta por mulheres por iniciativa da própria Gabrielle.
Quando começou, há mais de dois anos, o espetáculo acontecia em um apartamento. Em São Paulo, a produção fechou uma parceria com um hotel recém-inaugurado na Vila Madalena, o Selina, que também recebeu a montagem na sua versão carioca, na sua unidade da Lapa. “A ideia é tirar o público do teatro e trazer ele para cena, no papel do voyeur, proporcionando uma experiência com o tema e questionando até o seu papel ao ouvir brigas de vizinhos, por exemplo”, conta Gabrielle.
A dramaturga Roberta diz que, desde o início, percebeu que essa é uma montagem que tem um enorme papel social e comemora a chegada a São Paulo. “A medida que o espetáculo foi tomando forma no Rio, fomos recebendo retorno do público, entendemos a potência desse projeto como ferramenta de construção, reflexão e transformação social. Hoje, depois de várias montagens no Rio e de ficarmos por mais de dois anos em cartaz, ver INIMIGO OCULTO ganhando asas e chegando à São Paulo, capital mais cultural do país, sentimos uma alegria profunda e uma esperança muito grande de alcançar e conscientizar um público cada vez maior”, diz.
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Inimigo Oculto
Com Carlota Joaquina, Gabrielle Araújo, Naloana Lima, Silmara Deon, Bruno Kott, Luciano Chirolli, Ricardo Gelli e Sidney Santiago Kuanza
Hotel Selina (R. Aspicuelta, 237/245 – Vila Madalena, São Paulo)
Duração 70 minutos
15/10 até 17/12 (não haverá sessão 19/11)
Terça – 19h
$ – Contribuição consciente ao final do espetáculo
Classificação 14 anos

3 MANEIRAS DE TOCAR NO ASSUNTO

Um tema, três solos curtos. O espetáculo inédito “3 maneiras de tocar no assunto” é um manifesto artístico contra a homofobia na sociedade moderna. O ator e diretor Leonardo Netto está de volta à dramaturgia depois de “A ordem natural das coisas” – peça cujo texto levou o Prêmio Cesgranrio 2018 e foi indicado ainda aos prêmios Shell, APTR e Botequim Cultural. Com direção de Fabiano de Freitas, “3 maneiras de tocar no assunto” estreia em 3 de outubro no Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, onde fica em cartaz até 22 de dezembro (de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h).

Interpretados por Leonardo Netto, os três solos independentes colocam em pauta questões relacionadas à homossexualidade e ao preconceito e intolerância contra o homossexual e a comunidade LGBT em geral. “Homofobia mata todo mundo: o pai que teve a orelha arrancada por beijar o filho, os irmãos que foram linchados por andarem abraçados. Não adianta achar que você está livre porque você não é gay. Estamos vivendo um retrocesso de entendimento sobre isso, um conservadorismo estúpido. A população LGBT no Brasil está alijada de quase setenta direitos previstos na Constituição”, ressalta o autor, que abordou o tema por três instâncias distintas, uma para cada texto: Escola, Lei e Estado.

No primeiro solo, O homem de uniforme escolar, o público assiste a uma aula de bullying homofóbico: o que é, como praticar e quais as suas consequências físicas e emocionais. São histórias reais de crianças e jovens que sofreram com o preconceito e a intolerância na escola.

Na sequência, O homem com a pedra na mão parte do depoimento ficcional de um dos participantes da Revolta de Stonewall, ocorrida em junho de 1969 em Nova York, marco fundamental da luta pelos direitos da comunidade LGBT, que completou 50 anos em 2019. Desenrola-se, então, uma descrição minuciosa da noite em que os frequentadores (gays, lésbicas, travestis, drag queens) do bar Stonewall Inn reagiram, pela primeira vez, a mais uma batida policial no local.

O último solo, O homem no Congresso Nacional, foi construído a partir de falas do ex-deputado federal Jean Wyllys, proferidos entre janeiro de 2011 e dezembro de 2018. Para criar o texto, Leonardo assistiu e transcreveu discursos, pronunciamentos, entrevistas e declarações do Jean e, cuidadosamente, criou o depoimento de um deputado gay e ativista na tribuna da Câmara.

Os textos propõem uma interlocução direta com o público: o que há, afinal, de tão incômodo, maléfico e repugnante na homossexualidade? Por que, através dos tempos, ela teve sempre de ser punida? Por que a orientação sexual de uma pessoa a transforma num cidadão de segunda classe, com menos direitos que o resto da população?

Para dirigir a montagem, Leonardo convidou o ator, dramaturgo e diretor Fabiano de Freitas, um artista-pesquisador dos temas LGBTI+. É a primeira vez que eles trabalham juntos. “Sempre quis trabalhar com o Dadado (apelido de Fabiano). Vi ‘O Homossexual ou a dificuldade de se expressar’, ‘Balé ralé’ (peças que abordavam a homossexualidade) e achei espetacular. Achava que ele teria o olhar perfeito para essa peça”, diz o autor. “Pesquiso e estudo esse personagem que é a bicha e sua identidade negligenciada. Essa peça fala a partir desse lugar. Quando li o texto, pensei: é parte da minha pesquisa”, conta o diretor.

Durante a temporada, estão programados três debates (datas e nomes a confirmar) após a apresentação do espetáculo, com os temas: “Maneira 1 – LGBTI+, Infância e Educação”, “Maneira 2 – As conquistas do movimento LGBTI+ na história” e “Maneira 3 – LGBTI+ e o poder”.

FACE (1)

3 Maneiras de Tocar no Assunto

Com Leonardo Netto

Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 104 – Botafogo, Rio de Janeiro)

Duração 80 minutos

03/10 até 22/12

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$50

Classificação 14 anos

CROCODILAGEM

A peça conta a história de um encontro improvável. Afonso e Luci estão acabando de chegar esbaforidos e assustados a copa de uma árvore. Eles estão sendo perseguidos por um jacaré. Afonso é o guia de uma excursão que tem como única cliente Luci. Eles precisam pensar em como descer de cima da árvore sem serem devorados pelo jacaré. De forma divertida e engraçada o espetáculo aborda questões como orientação sexual, fidelidade, solidão, casamento e família.

Com delicadeza e humor, o público irá reconhecer o nascimento de uma amizade nessa situação inusitada, abrindo uma reflexão sobre as possíveis causas dessa relação. A solidão, nesse mundo grande e cheio de redes sociais virtuais, faz com que os dois personagens se encontrem e se interessem um pelo outro, porém com um desfecho totalmente inusitado.

A peça é uma comédia inteligente, que aborda temas contemporâneos, de forma leve e divertida, provocando o riso através de uma dramaturgia ágil com assuntos do cotidiano.

Crocodilagem é um texto inédito aqui no Brasil. A comédia romântica teve uma montagem em Portugal em 2017, fazendo apresentações em várias cidades como Lisboa e no Porto.

Cláudio Torres Gonzaga é diretor de diversos espetáculos como “Enfim Nós”, em cartaz há 10 anos, e roteirista de vários seriados de sucesso como “Brava Gente”, “Zorra Toral”, “Sob Nova Direção”, “Saí de Baixo” e “A Grande Família”.

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Crocodilagem

Com Dani Brescianini e Pablo Diego Garcia

Teatro Itália (Av. Ipiranga 344 – República, São Paulo)

Duração 80 minutos

09 a 31/10

Quarta e Quinta – 21h

$60

Classificação 14 anos