A VALSA DE LILI

Depois de grande sucesso de público e crítica em sua participação na 2ª edição do projeto Dramaturgias do Sesc Ipiranga, o espetáculo A Valsa de Lili segue para a Giostri Teatro e Livraria, onde fica em cartaz de 31 de outubro a 13 de dezembro.

Duas Déboras, uma atriz e a outra diretora, se unem para contar a história de uma mulher extraordinária, Lili, que viaja o mundo movimentando apenas a cabeça. Aimar Labaki constrói de forma delicada e emocionante a história de Lili, que vive numa UTI há quase quarenta anos, desde os 2 anos de idade, por conta de uma poliomielite mal diagnosticada.

Lili vive em uma condição muito singular, mas seus questionamentos, medos e verdades são os mesmos de qualquer pessoa na sua idade: a necessidade de amar e ser amada, a relação com a morte, o que fazer da vida, como conseguir o sustento com o trabalho. Lili e seus amigos são uma prova viva da máxima Sartriana: o importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós, diz Débora Duboc.

A luta de Lili para sobreviver em condições tão adversas, sem perder o humor e o amor, são a metáfora perfeita para os dias sombrios que vivemos, entre a violência e a desesperança”, completa o autor Aimar Labaki.

A parceria entre a diretora Débora Dubois e o autor Aimar Labaki é antiga: é de ambos os espetáculos MotoRboy Pirata na Linha, grandes sucessos para adolescentes, além de Poda ou Una Notte Intera, que Débora dirigiu para o Festival Intercity, em Florença, na Itália. Ela também já dirigiu Duboc em espetáculo com curadoria de Gianni Ratto. Sobre A Valsa de Lili, Dubois diz ser “um testemunho forte e sensível, uma forma de vida tão única e singular, que alçou vôo pra falar e tocar fundo em muitos de nós“.

Eliana Zagui, a autora do livro que inspirou a criação da peça esteve presente em uma sessão de A Valsa de Lili. “Foi para todos uma grande emoção recebê-la, pois ela se locomove acompanhada de um grande aparato que inclui ambulância, respiradores e profissionais da saúde”, conta Duboc.

É mais que uma peça, é mais que imaginar. É entrar numa máquina do tempo, no mais profundo inconsciente… Reviver cada detalhe com muita saudade, risada, choro e ver que valeu a pena nunca parar de dançar ao meu ritmo”, emociona-se Eliana.

Eu entendi que viver é um ato político. A existência de Lili é uma escolha diária. A personagem diz: Eu posso não mexer nada do pescoço para baixo, mas a minha alma nunca deixou de dançar. E como diz Suassuna: No meu entender o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: O Sonho e o Riso. Isso Lili tem de sobra!”, finaliza Duboc.

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A Valsa de Lili

Com Débora Duboc

Giostri Teatro e Livraria (Rua Rui Barbosa, 201, Bela Vista, São Paulo)

Duração 55 minutos

31/10 até 13/12 (exceto nos dias 22/11 e 06/12)

Quinta e Sexta – 21h

$50 (Meia-entrada também para portadores de deficiência e acompanhantes)

O PORTAL ENCANTADO

Grupo Dragão7 de Teatro estreia, no dia 2 de novembro (sábado, às 11h), O Portal Encantado, espetáculo de bonecos para bebês com direção de Creuza F Borges. 

A montagem fica em cartaz na Sala Pascoal Carlos Magno do Teatro Sérgio Cardoso somente até o dia 10 de novembro, com sessões aos sábados e domingos, às 11 horas. 

Com enredo sensorial e lúdico, O Portal Encantado apresenta a criação do universo a partir do átomo e suas combinações, dando origem à matéria. A viagem passa pelo surgimento das estrelas, das galáxias, dos planetas, da Terra, dos continentes, das florestas. 

Explorando os efeitos de luzes e de cores, encenação chega à Floresta Amazônica, trazendo para os pequeninos a exuberância de sua fauna e sua flora; apresentando-lhes o índio, além de mitos, lendas e seres da Amazônica: o boto, o curupira, o canto do uirapuru, a arara azul e a boiuna (cobra grande). 

O roteiro foi desenvolvido conjuntamente por Sérgio Portela, Creuza F Borges e pelas atrizes manipuladoras Mônica Negro e Marisa Mainarte. Às falas coube somente o papel necessário, a exemplo do jogo com sinônimos de palavras ou coisas na língua tupi-guarani. No espetáculo predominam o visual, as sensações e encantamento dos bonecos, criados por Lucas Luciano.

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 O Portal Encantado

Com Mônica Negro e Marisa Mainarte

Teatro Sérgio Cardoso – Sala Pascoal Carlos Magno (R. Rui Barbosa, 153 – Bela Vista, São Paulo)

Duração 30 minutos

02 a 10/11

Sábado e Domingo – 11h

$50

Classificação Livre

A PAIXÃO DO VAZIO

Estreia no dia 1º de novembro, sexta-feira, o solo de Helder Mariani, A Paixão do Vazio, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, às 20 horas. O texto do espetáculo teatral, dirigido por Dagoberto Feliz, traz poemas de Horácio Costa, em sua maioria do livro Satori, e escritos autobiográficos da mística espanhola Teresa d’Ávila, alinhados com canções populares.

Ambientado em um cabaré, o monólogo traça um itinerário poético-espiritual do homem moderno, que vive dilacerado entre a fé e a razão. “Ele é um solitário vivendo a noite escura da alma”, comenta o ator. A trajetória da personagem passa pelos tormentos da alma até o êxtase ou “satori”. Os poemas e textos que compõem a dramaturgia ora são apresentados de forma poética, ora diretamente à plateia. E os momentos musicais trazem mais lirismo à encenação.

O ator e dramaturgo – assim como em outros projetos poéticos, entre eles a série de espetáculos Poeta em Cena (de 2008 a 2010), realizados na Casa das Rosas, a qual integra a Rede de Museus-Casas Literários da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, gerenciada pela Poiesis – trabalha com o teatro épico, transformando a poesia em dramaturgia.  Uma passagem representativa desse discurso em A Paixão do Vazio é a cena do poema que dá nome ao espetáculo, escrito por Horácio Costa em memória de Ana Cristina César, poeta marginal que se suicidou em 1983, aos 31 anos, com quem ele se correspondia, mas não houve tempo de se conhecerem. Na encenação, essa história é narrada para o público.

A Paixão do Vazio dá continuidade à linha de pesquisa que Helder vem desenvolvendo nos últimos anos, iniciada com Theresinha, a partir dos textos autobiográficos e poéticos de Theresa de Lisieux. A segunda montagem foi João da Cruz, inspirada nos escritos de São João da Cruz, poeta e místico espanhol do século XVI, assim como Teresa d’Ávila, sua contemporânea. Os três foram carmelitas descalços que viveram essa ‘noite escura’ nos questionamentos de suas existências. Segundo Helder, “esse termo se refere ao conflito pessoal, à busca pelo sentido da vida que sempre atormentou o homem e que, de forma mais intensa, ainda ocorre em tempos atuais, levando à depressão e aos altos índices de suicídio, principalmente entre os jovens”.

Em junho deste ano, A Paixão do Vazio foi apresentado no formato de leitura dramática no Chico Discos, um casarão-bar frequentado por poetas e intelectuais, em São Luiz (MA). E o livro Satori, de Horácio Costa, que teve sua primeira edição em 1989, foi relançado recentemente pela editora Sexo da Palavra, de Uberlândia, MG.

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A Paixão do Vazio

Com Helder Mariani

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Av. Paulista, 37 – Bela Vista. São Paulo)

Duração 60 minutos

01 a 29/11 (15/11 – não haverá apresentação)

Sexta – 20h

$40

Classificação 16 anos

HEATHER

Idealizado pela atriz Laís Marques junto a Cia Razões Inversas, o espetáculo retrata uma reclusa escritora de livros juvenis que torna-se, do dia para a noite, um fenômeno de vendas. Seus livros são como tesouros preciosos estimados, sobretudo, pelos jovens leitores identificados com a heroína Greta. Entretanto, quando os verdadeiros aspectos da sua vida pessoal veem à tona o público pergunta a si mesmo: “o que interessa mais: o autor ou sua obra?

O texto teatral Heather foi escrito no ano de 2017 pelo jovem autor britânico Thomas Eccleshare, vencedor do Verity Bargate Award e Catherine Johnson Award, além de recentemente indicado ao Off West End Award como um dos mais promissores escritores da atualidade.

O texto é estruturado a partir de três narrativas curtas, exibidas diretamente ao espectador através do jogo ágil entre dois atores. Na primeira parte há uma troca de emails entre um editor e uma promissora escritora, misteriosamente reclusa. Na segunda parte do texto, uma conversa presencial entre ambos expõe as suas verdadeiras identidades, o que acarreta uma reviravolta geral em meio ao tremendo sucesso obtido com a estreia de Heather no mercado literário. Finalmente, na terceira parte, o próprio best seller é encenado numa perspectiva cinematográfica, dando margem para que a heroína Greta e sua caneta mágica encarem as trevas de um mundo intolerante.

Heather tematiza de uma maneira caleidoscópica o delicado jogo das aparências na arte e, em especial, no mercado editorial dos best sellers juvenis. A intenção principal da peça é evidenciar o abismo muitas vezes existente entre a obra e o seu criador e, com isso, revelar as facetas mais obscuras do ser humano, inclusive do artista mitificado pelo seu público, tanto quanto pelo lucrativo mercado editorial.

FACE (1)

Heather

Com Laís Marques e Paulo Marcello

Sesc Pinheiros (R. Paes Leme, 195 – Pinheiros, São Paulo)

Duração 80 minutos

17/10 até 16/11

Quinta a Sábado – 20h30, Feriado – 18h

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 12 anos

NASTÁCIA

Baseado em Nastácia Filíppovna – heroína do clássico “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski – o espetáculo une o teatro a outras linguagens artísticas (como instalação e videoarte) para contar a história de uma das mais instigantes personagens femininas da literatura universal. Com direção de Miwa Yanagizawa e dramaturgia de Pedro Brício, “Nastácia” estreia em 23 de outubro no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil RJ, onde fica em cartaz até 22 de dezembro. A peça fez sua estreia nacional em agosto deste ano no CCBB Belo Horizonte – onde os ingressos de toda a temporada esgotaram em duas semanas. “Nastácia” tem patrocínio do Banco do Brasil.
 
Idealizadora do projeto, a atriz Flávia Pyramo interpreta Nastácia. “Ela é um exemplo de mulher que transformou fragilidade em força, que lutou por sua dignidade com muita coragem, mesmo vivendo um turbilhão interno e uma violência terrível. Contar sua história foi meu objetivo nos últimos seis anos. Falar sobre Nastácia no teatro, hoje, é uma forma de dar um grito coletivo: chega!”, destaca. No elenco, ao lado de Flávia, estão Julio Adrião (que vive Totski) e Odilon Esteves (interpretando Gánia).
 
A peça se passa no apartamento de Nastácia, na noite do seu aniversário. Ela deve anunciar seu casamento com Gánia, união articulada pelo oligarca Totski, homem que a transformou em concubina desde a adolescência e a submete a um verdadeiro leilão naquela noite. Flávia conta que a ideia de fazer o espetáculo sobre uma personagem, com um recorte específico de um momento da sua história, veio de Kamas Ginkas, diretor de teatro russo que montou “KI from Crime”, uma adaptação de “Crime e Castigo”.
 
Essa peça me marcou bastante. Já amava o livro e fiquei com muita vontade de fazer um espetáculo sobre a Sônia, uma personagem linda de ‘Crime e Castigo’, mas quando eu conheci Nastácia, fiquei louca por ela. A escolha do recorte na festa do seu aniversário se deu pela importância deste momento da história dela, o momento em que ela enfrenta seu algoz e toda a sociedade que a rodeia, e trata a todos e ao seu dinheiro (com o qual tentaram comprá-la) com o mais altivo desdém”, destaca Flávia.
 
Para o dramaturgo Pedro Brício, repulsa e atração são forças conflitantes nos três personagens. “Na festa há outros convidados que não vemos, estão subtraídos na encenação e são apenas mencionados. São aparências e ausências”, conta. A festa não acontece de maneira cronológica. “O passado irrompe de repente e toma conta da cena. A força do que aconteceu antes da festa está ali. A potência do drama dos personagens é o que nos arrebata, por ser tão vertiginoso, por se transformar de uma hora para outra diante dos nossos olhos”, conclui.
 
Passado e presente
 
Concebido entre 1867 e 1869, “O Idiota” está longe de ser anacrônico. Segundo o Datafolha, no ano passado 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil; e 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Para a diretora do espetáculo Miwa Yanagizawa, a arte é um espaço em que o artista pode, como mediador, reumanizar estatísticas devastadoras como essas.
 
Às vezes, os números são terríveis, eles nos espantam sem tocar. São séculos de opressão e crueldade contra as mulheres e, muitas vezes, acho que não nos vemos responsáveis pela manutenção de tais tragédias humanas. Tomamos distância como se elas pertencessem a outro universo, como coisas que acontecem somente fora de nossas casas. Lemos números e seguimos nossas vidas repetindo gestos que alimentam a irracionalidade e a negligência com os outros, mas, sem perceber, estamos colaborando com o crescente e alarmante número da violência contra a mulher”, analisa.
 
Principal tradutor da obra de Dostoiévksi para o português, Paulo Bezzera destaca que a história de Nastácia, como tudo em Dostoiévski, é de uma espantosa atualidade. “Primeiro ela é vítima de um grão-senhor e gentleman pedófilo, que se vale do repentino estado de miséria dela e do muito dinheiro que possui e a transforma em concubina aos 12 anos de idade, sem sofrer qualquer censura da sociedade: é o poder do dinheiro falando mais alto. Depois, já adulta, é vítima de um amante paranoico, que, por não conseguir conquistar seu amor, simplesmente a mata. Portanto, duas formas de crime contra a mulher: o crime alicerçado no dinheiro e o crime derivado da impossibilidade de conquistar o coração e a mente da mulher. Ou seja, o crime motivado pelo sentimento de posse, pela tentativa de coisificação da mulher”, explica.
 
Instalação artística
 
Além dos figurinos e da direção de arte, Ronaldo Fraga assina a instalação artística que fica em exibição no Teatro III, de quarta a domingo, das 9h às 17h, com entrada franca. Durante o espetáculo, a instalação é o cenário que abriga a trama. É uma forma de amplificar a crítica presente em “Nastácia” e dialogar ainda com outros fortes temas abordados em “O Idiota”, como a descrição dos rostos dos personagens. O Príncipe Míchkin (o homem positivamente belo retratado por Dostoiévski) diz que, ultimamente, se fixa muito nos rostos. “Ele é o único que consegue ver as pessoas além da aparência”. A questão da beleza é muito presente no romance: o contraste da beleza enquanto matéria e a beleza dos valores de amor e compaixão.
 
A narrativa dos retratos de Dostoiévski também foi inspiração para o cineasta Cao Guimarães, autor da videoarte que integra a instalação. Em sua primeira incursão no teatro, ele diz que o trabalho foi realizado por meio de imagens e sons que se relacionam direta e indiretamente com “Nastácia” e “O Idiota”. Mas o principal objetivo, segundo ele, é ampliar a crítica e a reflexão em torno de um comportamento costumaz e perverso: a objetificação da mulher.
 
FACE
Nastácia
Com Flávia Pyramo, Julio Adrião e Odilon Esteves
Centro Cultural Banco do Brasil RJ (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro, Rio de Janeiro)
Duração 100 minutos
23/10 até 22/12
Quarta a Domingo – 19h30
$30
Classificação 16 anos