NASTÁCIA

Baseado em Nastácia Filíppovna – heroína do clássico “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski – o espetáculo une o teatro a outras linguagens artísticas (como instalação e videoarte) para contar a história de uma das mais instigantes personagens femininas da literatura universal. Com direção de Miwa Yanagizawa e dramaturgia de Pedro Brício, “Nastácia” estreia em 23 de outubro no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil RJ, onde fica em cartaz até 22 de dezembro. A peça fez sua estreia nacional em agosto deste ano no CCBB Belo Horizonte – onde os ingressos de toda a temporada esgotaram em duas semanas. “Nastácia” tem patrocínio do Banco do Brasil.
 
Idealizadora do projeto, a atriz Flávia Pyramo interpreta Nastácia. “Ela é um exemplo de mulher que transformou fragilidade em força, que lutou por sua dignidade com muita coragem, mesmo vivendo um turbilhão interno e uma violência terrível. Contar sua história foi meu objetivo nos últimos seis anos. Falar sobre Nastácia no teatro, hoje, é uma forma de dar um grito coletivo: chega!”, destaca. No elenco, ao lado de Flávia, estão Julio Adrião (que vive Totski) e Odilon Esteves (interpretando Gánia).
 
A peça se passa no apartamento de Nastácia, na noite do seu aniversário. Ela deve anunciar seu casamento com Gánia, união articulada pelo oligarca Totski, homem que a transformou em concubina desde a adolescência e a submete a um verdadeiro leilão naquela noite. Flávia conta que a ideia de fazer o espetáculo sobre uma personagem, com um recorte específico de um momento da sua história, veio de Kamas Ginkas, diretor de teatro russo que montou “KI from Crime”, uma adaptação de “Crime e Castigo”.
 
Essa peça me marcou bastante. Já amava o livro e fiquei com muita vontade de fazer um espetáculo sobre a Sônia, uma personagem linda de ‘Crime e Castigo’, mas quando eu conheci Nastácia, fiquei louca por ela. A escolha do recorte na festa do seu aniversário se deu pela importância deste momento da história dela, o momento em que ela enfrenta seu algoz e toda a sociedade que a rodeia, e trata a todos e ao seu dinheiro (com o qual tentaram comprá-la) com o mais altivo desdém”, destaca Flávia.
 
Para o dramaturgo Pedro Brício, repulsa e atração são forças conflitantes nos três personagens. “Na festa há outros convidados que não vemos, estão subtraídos na encenação e são apenas mencionados. São aparências e ausências”, conta. A festa não acontece de maneira cronológica. “O passado irrompe de repente e toma conta da cena. A força do que aconteceu antes da festa está ali. A potência do drama dos personagens é o que nos arrebata, por ser tão vertiginoso, por se transformar de uma hora para outra diante dos nossos olhos”, conclui.
 
Passado e presente
 
Concebido entre 1867 e 1869, “O Idiota” está longe de ser anacrônico. Segundo o Datafolha, no ano passado 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil; e 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Para a diretora do espetáculo Miwa Yanagizawa, a arte é um espaço em que o artista pode, como mediador, reumanizar estatísticas devastadoras como essas.
 
Às vezes, os números são terríveis, eles nos espantam sem tocar. São séculos de opressão e crueldade contra as mulheres e, muitas vezes, acho que não nos vemos responsáveis pela manutenção de tais tragédias humanas. Tomamos distância como se elas pertencessem a outro universo, como coisas que acontecem somente fora de nossas casas. Lemos números e seguimos nossas vidas repetindo gestos que alimentam a irracionalidade e a negligência com os outros, mas, sem perceber, estamos colaborando com o crescente e alarmante número da violência contra a mulher”, analisa.
 
Principal tradutor da obra de Dostoiévksi para o português, Paulo Bezzera destaca que a história de Nastácia, como tudo em Dostoiévski, é de uma espantosa atualidade. “Primeiro ela é vítima de um grão-senhor e gentleman pedófilo, que se vale do repentino estado de miséria dela e do muito dinheiro que possui e a transforma em concubina aos 12 anos de idade, sem sofrer qualquer censura da sociedade: é o poder do dinheiro falando mais alto. Depois, já adulta, é vítima de um amante paranoico, que, por não conseguir conquistar seu amor, simplesmente a mata. Portanto, duas formas de crime contra a mulher: o crime alicerçado no dinheiro e o crime derivado da impossibilidade de conquistar o coração e a mente da mulher. Ou seja, o crime motivado pelo sentimento de posse, pela tentativa de coisificação da mulher”, explica.
 
Instalação artística
 
Além dos figurinos e da direção de arte, Ronaldo Fraga assina a instalação artística que fica em exibição no Teatro III, de quarta a domingo, das 9h às 17h, com entrada franca. Durante o espetáculo, a instalação é o cenário que abriga a trama. É uma forma de amplificar a crítica presente em “Nastácia” e dialogar ainda com outros fortes temas abordados em “O Idiota”, como a descrição dos rostos dos personagens. O Príncipe Míchkin (o homem positivamente belo retratado por Dostoiévski) diz que, ultimamente, se fixa muito nos rostos. “Ele é o único que consegue ver as pessoas além da aparência”. A questão da beleza é muito presente no romance: o contraste da beleza enquanto matéria e a beleza dos valores de amor e compaixão.
 
A narrativa dos retratos de Dostoiévski também foi inspiração para o cineasta Cao Guimarães, autor da videoarte que integra a instalação. Em sua primeira incursão no teatro, ele diz que o trabalho foi realizado por meio de imagens e sons que se relacionam direta e indiretamente com “Nastácia” e “O Idiota”. Mas o principal objetivo, segundo ele, é ampliar a crítica e a reflexão em torno de um comportamento costumaz e perverso: a objetificação da mulher.
 
FACE
Nastácia
Com Flávia Pyramo, Julio Adrião e Odilon Esteves
Centro Cultural Banco do Brasil RJ (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro, Rio de Janeiro)
Duração 100 minutos
23/10 até 22/12
Quarta a Domingo – 19h30
$30
Classificação 16 anos

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