ALÉM DO AR (OPINIÃO)

A fundação Lia Maria Aguiar estreou o seu mais novo musical original “Além do Ar”, no dia 22 de novembro, onde homenageia o pai da aviação, Alberto Santos Dumont.

Para contar a história, a ação se passa dentro da cabeça do inventor – que tem o formato de um hangar (uma de suas invenções). Nela, Dumont, com seus quase 60 anos, repassa sua vida em conversas com seus outros ‘eu’: criança, pré-adolescente e jovem adulto.

Em estado de depressão por causa dos acontecimentos – utilização do seu invento como máquina de guerra, morte de amigos no acidente com o aeroplano que levava o seu nome – Santos Dumont precisa aprender a ressignificar a sua vida, com a ajuda dos seus ‘antigos eu’ – descoberta, experimentação e realização. Infelizmente, não foi possível e o inventor tirou sua vida no dia 23 de julho de 1932, aos 59 anos.

A mensagem principal da história deste imortal herói nacional é a sua persistência. Desde criança, apoiado pelo pai e irmã, Virgínia, Santos Dumont leu os livros do escritor francês Jules Verne, que fizeram com que sua curiosidade ultrapassasse barreiras. Questionador, buscava respostas para tudo. Não parava mediante os obstáculos. Parafraseando a canção “reconhecia a queda e não desanimava. Levantava, sacodia a poeira e dava a volta por cima”.

Foi assim que aos 20 anos mudou-se para Paris (França) e aprendeu todo o necessário para construir os balões e os dirigíveis até chegar à invenção do avião. Os erros foram munição para que ele procurasse as respostas e atingisse seu objetivo afinal.

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crédito Caio Gallucci

(aqui faço uma digressão sobre a própria Fundação Lia Maria Aguiar)

Criada há onze anos, com objetivo de fornecer pilares fundamentais – educação, cultura, meio ambiente e inclusão social – para crianças e jovens de baixa renda de Campos do Jordão e adjacências, a fim de que se desenvolvam e tornem-se cidadãos capazes de mudar suas próprias vidas, além das suas famílias e sociedade.

A Fundação oferece ensino extracurricular em três núcleos culturais: Dança, Música e Teatro. A única contrapartida é que os alunos tenham boas notas e sejam aprovados de ano no colégio.

No núcleo de Teatro, cerca de 200 alunos têm aula diária de atuação, dança, canto, sapateado, atividades circenses, para prepará-los para saírem prontos para o mercado de trabalho. No final de cada ano, há a apresentação de um espetáculo musical.

Artistas profissionais e reconhecidos do mercado são convidados para participarem destas montagens. Com isso, compartilham com os alunos suas experiências de palco. Já passaram por estas montagens, atores como Claudia Ohana, Juan Alba, Leonardo Miggiorin, Marcos Tumura, Kiara Sasso, Totia Meirelles.

A escolha dos musicais que serão apresentados também tem um fundo educacional. Seus temas refletem a realidade da vida dos estudantes da fundação. “A Princesinha” é um musical considerado da primeira fase, que retrata a vida de crianças, que precisam trabalhar para se sustentarem, mas que não perderam seus sonhos. “Uma Luz Cor de Luar” foi escolhida para falar sobre o crescimento e a descoberta do amor. Agora com “Além do Ar”, a mensagem passada é a de não desistir, mas sim persistir.

Observa-se esta mudança também no perfil dos próprios estudantes – de crianças tímidas e fechadas tornaram-se crianças capazes, extrovertidas, donas de si. Percebe-se o brilho nos olhos e na felicidade de cada uma delas, pois sabem que tem capacidade para mudarem seus destinos.

(fechando a digressão)

O musical encerra sua temporada neste domingo, 1 de dezembro. Mas não adianta ir até a cidade para assistir o espetáculo pois todos os ingressos estão esgotados. Há a possibilidade de vir para São Paulo? É o que esperamos, pois, um musical como este precisa ser visto por um público muito maior.

O texto de Fernanda Maia, com colaboração de Thiago Gimenes e Viviane Santos, consegue dar conta de em apenas noventa minutos, contar toda a riqueza da vida de Santos Dumont – ter seu pai como ideal, a paixão pelos livros de Jules Verne, a curiosidade, a vida em Paris, o apoio da irmã, a criação dos balões e dirigíveis, as quedas, o 14 Bis levado ao palco – emocionante, a depressão e sua morte.

As canções originais de Thiago Gimenes passeiam pelos vários ritmos musicais da época e do local onde passa a história. Gostosa de se ouvir, dá vontade de ser escutada várias vezes – até mesmo fora do teatro, para não ter a atenção ‘dispersa’ pelas cenas que passam no palco, e ‘ouvir melhor’ a mensagem que passa.

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Dona Lia Maria Aguiar e o quarteto que vive Santos Dumont | Crédito: Rodrigo Scarpa / Agência Brazil News

Temos que ressaltar o trabalho dos quatro atores que representam as várias fases do Santos Dumont: Cássio Scapin volta ao papel que interpretou pela primeira vez há quinze anos numa minissérie, André Torquato, e os dois alunos da fundação, Raí Palma e Francisco Arruda. Cada um transmitindo as características do seu ‘personagem’, e que somados formam o homenageado.

Outros que precisamos ressaltar são Pedro Arrais, Dante Paccola e David Vinicius, que dão vida aos mecânicos ‘palhaços’ de Santos Dumont’: Chapan, Dozo e Gasteau. Momentos de leveza e risos para toda a plateia.

Um destaque especial para Felipe Carvalhido que interpreta o papel do pai do homenageado. Seu personagem transmite a força e o amor paternal para que o jovem Santos Dumont alcance seus objetivos.

Para que este lindo e sensível trabalho fosse levado ao palco, precisa de uma equipe criativa competente: a direção (compartilhada com Thiago Gimenes) e a coreografia de Keila Fuke, a assistência de direção de Viviane Santos, a produção de Leonardo Faé, os figurinos de Fábio Namatame, os cenários de Chris e Nilton Aizner, as pipas e protótipos dos balões e dirigíveis de Ken Yamazato, além do desenho de som de Tocko Michelazzo, a iluminação de Rodrigo Alves e o visagismo  de Claudinei Hidalgo.

Nosso reconhecimento final para todos os professores, pais e familiares destes jovens atores que os apoiaram nesta caminhada de transformação.

FACE (1)

Além do Ar – Um musical inspirado em Santos Dumont

Com Cássio Scapin, André Torquato, Mira Haar, Felipe Carvalhido, Pedro Arrais, Dante Paccola, Thiago Claro França, Giselle Tigre, Francisco Arruda, Raí Palma e mais 41 crianças e jovens da Fundação Lia Maria Aguiar – núcleo de Teatro Musical

Auditório Claudio Santoro (Av. Dr. Luis Arrobas Martins, Campos do Jordão – SP)

Duração não informada

22/11 até 01/12

Sábado e Domingo – 20h

$10 (Vendas: flma.org.br/evento/alem_do_ar ou na Sede da Fundação Lia Maria Aguiar -Av. Dr. Victor Godinho, 455 Campos do Jordão – SP)

Classificação Livre