AS PALAVRAS DA NOSSA CASA

O Núcleo Teatro de Imersão estreia a peça imersiva e itinerante “As Palavras da Nossa Casa”, livremente inspirada em obras do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), no dia 17 de janeiro de 2020, na Casa das Rosas, da Rede de Museus-Casas Literários da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, gerenciada pela Poiesis. Sem separação entre palco e plateia, a ideia é que o público seja conduzido por diferentes cômodos dessa mansão histórica na Avenida Paulista para acompanhar a história. A temporada segue até 27 de março (totalizando 20 apresentações), com sessões duplas às sextas-feiras, às 18h30 e às 20h. Os ingressos custam até R$60.

A dramaturgia da peça foi escrita por Adriana Câmara, que também assina a direção, e Glau Gurgel a partir de vários filmes de Bergman. “A principal referência é o ‘Sonata de Outono’ (1978), que tem uma personagem a mais. Fomos reduzindo os personagens, situações e a quantidade de espaços para poder fazer na Casa das Rosas. Mas também fazemos referências a ‘Morangos Silvestres’ (1957), ‘Através do Espelho’ (1961) e ‘Gritos e Sussurros’ (1972). O espetáculo tem elementos de vários longas dele”, revela a diretora.

Situada nos anos de 1960, a trama narra a visita da famosa cantora lírica Charlote (interpretada pela atriz Gizelle Menon) ao casarão que sua filha única, Eva (Adriana Câmara), divide com o marido Victor (Glau Gurgel), que é um pastor presbiteriano. As duas, que não se vêm há bastante tempo, tentam se reaproximar e resolver questões dolorosas do passado, como o fato de que a filha precisou lidar com a perda de seu único filho, enquanto a mãe tentava administrar as demandas de sua carreira internacional.

Para resgatar os sentimentos nobres que ainda existem entre elas, mãe e filha precisam encarar todas as mágoas, e, nesse processo, acabam proferindo palavras muito duras, de que, possivelmente, se arrependerão. A montagem sensível busca a identificação imediata com o espectador, ao tratar de temas como o amor, as cobranças e expectativas na criação dos filhos, as diferenças de geração, a falta de comunicação em relacionamentos, a esperança e os recomeços após dores profundas, em uma abordagem que parte de situações e conflitos parecidos com os que todos já vivenciaram ou testemunharam.

Os espectadores assistem a tudo isso acomodados em cadeiras espalhadas pelos diferentes cômodos da Casa das Rosas, como se estivessem mesmo na residência das personagens, e são obrigados pela própria cena a mudar de ambiente. “Pensamos em fazer a peça para a Casa das Rosas, que foi moldando totalmente a encenação. Nesse tipo de teatro, temos que fazer tudo pensando em um espaço, porque se mudamos de lugar, temos que trocar, por exemplo, todas as marcações”, revela Adriana sobre o processo criativo.

“As Palavras da Nossa Casa” é o segundo espetáculo do Núcleo Teatro de Imersão. A primeira peça do grupo, “Tio Ivan”, ganhou o Aplauso Brasil 2018 na categoria Melhor Espetáculo de Grupo por voto popular.

FACE

As Palavras da Nossa Casa

Com Adriana Câmara, Glau Gurgel, Gizelle Menon

Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37, Bela Vista – São Paulo)

Duração 60 minutos

17/01 a 27/03 (exceto dia 21/2)

Sexta – 18h30 e 20h

$60 (Venda de ingressos no local da apresentação é realizada apenas 30 minutos antes de cada sessão)

Classificação 14 anos

MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO

O Teatro-D, projeto do ator, diretor e produtor Darson Ribeiro, que idealizou o local com base numa plataforma inédita de negócios, um espaço contemporâneo, multifuncional e rico em possibilidades, abrirá sua programação 2020 com o monólogo “Meu Quintal é Maior do que o Mundo”, em curta temporada entre os dias 10 de janeiro e 9 de fevereiro de 2020, às sextas e sábados, 21h, e domingos, 19h, com ingressos a partir de R$ 45.

A peça traz 18 poemas de Manoel de Barros (1916 – 2014), extraídos do livro “Memórias Inventadas”. Conhecedora da obra do poeta, a atriz se considera uma excelente leitora do escritor mato-grossense. Após descobrir sua poesia em 1980, estabeleceu uma relação não só com a obra do autor, mas com o próprio Manoel, com quem se correspondia e de quem se tornou amiga. E foi justamente um livro de Manoel que a atriz escolheu para marcar sua volta aos palcos depois de 10 anos (sua última peça foi O Zoológico de Vidro, de 2009). A nova montagem se passa em um quintal, representado no palco por um tapete, no qual Cássia interpreta quatro diferentes personagens: um menino com 5 anos, um jovem de 15, um homem de 40 e um idoso de 85. A peça tem direção, cenário e figurinos de Ulysses Cruz, parceiro de trabalho de Cássia há 40 anos e com quem ela divide a criação do texto e, ainda, Gilberto Rodrigues, responsável pela execução da música ao vivo e pela direção e criação musical.

Em “Meu Quintal é Maior do que o Mundo” a atriz Cássia Kis abre a cena revelando as fontes de inspiração do poeta: a criança, o passarinho e o andarilho. Em seguida, ao pisar num tapete no centro do palco e com um livro em mãos, a atriz evoca o universo poético do cerrado brasileiro, tão bem descrito pelo poeta. A participação do músico Gilberto Rodrigues é fundamental: ao vivo ele executa a trilha sonora que costura a encenação. A luz de Nicolas Caratori valoriza a narrativa da montagem. “A peça é literatura, pois pede que o espectador ouça frases bem construídas, a forma como ele dizia essas palavras, as dores que estavam ali escondidas. Manoel era como um andarilho que inventava caminhos, ” descreve Cássia.

O ESPETÁCULO

Para realizar o antigo sonho da atriz, que acalenta o desejo de criar uma versão para o palco da obra de Manoel de Barros há quatro décadas, Ulysses Cruz decidiu rever estudos iniciais desenvolvidos por Cássia e Jayme Compri (que integrava o grupo do diretor, Boi Voador, que o próprio Ulysses indicara), para a construção de possíveis cenas. “Quando Cássia retomou o projeto da peça, história recorrente em sua vida, eu gelei. Ao perceber sua determinação e o risco de ela montar o trabalho com qualquer outra pessoa, eu – que tenho um prazer absoluto em trabalhar com ela, sua qualidade como atriz é superlativa – topei na hora“. A sacada de Ulysses ao ler o livro “Memórias Inventadas” foi perceber que todos os textos continham um enredo. “De cara entendi que não dava para fazer o livro todo pela quantidade de textos e o risco da fragmentação em pequenas histórias, que geraria dificuldade de compreensão“.

Assim, com base em três conceitos – onde se passa a ação, quem está na ação e o que estão fazendo – Ulysses organizou 18 textos para a montagem. O trabalho incluiu a necessidade de ligar um texto ao outro para ampliar a ideia de continuidade. A estrutura da peça permite que o público entenda quais são as fontes do poeta por meio de uma divisão em blocos. O primeiro bloco reúne textos com as descrições do cenário que Manoel de Barros faz de seu mundo: o quintal, simbolizado pelo tapete. O segundo bloco mostra quem é a pessoa que descreve tais cenários, ou seja, o menino, o homem ou o velho Manoel de Barros. Finalmente, os textos trazem os objetos de inspiração do poeta. Ulysses também se colocou no lugar do público e gostaria que ele sentisse “a alegria de ouvir textos tocantes, surpreendentes, lindos, felizes, angustiados, dramáticos, engraçados e bem-humorados”.

Meu Quintal é Maior do que o Mundo

Com Cássia Kis

Teatro-D – Hiper Extra Itaim (Rua João Cachoeira, 899/Piso-G-2 – Itaim Bibi, São Paulo)

Duração 70 minutos

10/01 a 09/02

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 18h

$90 (moradores do bairro Itaim Bibi pagam meia mediante comprovante residência)

Classificação Livre

RAPTE-ME AGORA – DEVE HAVER VIDA INTELIGENTE EM OUTRA PARADA DE ÔNIBUS

A descoberta do outro, ruídos das relações familiares, dilemas sobre o futuro e outras questões que envolvem o mundo dos jovens é tema da peça Rapte-Me Agora – Deve Haver Vida Inteligente Em Outra Parada De Ônibus. Com direção de Cynthia Falabella, dramaturgia de Ed Anderson e com José Sampaio e Michelle Boesche no elenco, a estreia acontece dia 17 de janeiro, sexta-feira, às 21h, no Espaço das Artes do Sesc Santo Amaro. A temporada tem sessões às sextas, às 21h; sábados, às 20h; e domingos, às 18h, até 16 de fevereiro.

Na montagem, UMA vai ao encontro de OUTRO, e isso seria um fato corriqueiro se este OUTRO não se recordasse mais de UMA. A trama traz o (des)encontro de dois jovens desajustados, e a sua relação com o meio em que vivem – amores, família, amigos, – permeando entre “verdades padronizadas” e “mentiras originais”. A encenação acontece em um ambiente cotidiano, ao se passar em um ponto de ônibus.

O enredo faz alguns giros sobre a memória e a afetividade dos personagens. Elenca o que nos é caro e o que está sujeito ao descarte. Será que o que guardamos foi realmente o mais importante? E este ato de “guardar” não seria uma prisão ao espírito das juventudes?

O dramaturgo Ed Anderson contou sobre o universo da peça. “Existe uma lacuna em peças que retratam jovens protagonistas. O grande mote do texto é a memória, um jogo sobre verdade e mentira. Os personagens mostram suas fragilidades, querem romper o caos urbano, são encontros e desencontros que não sabe onde vai parar. Representam uma negação até das redes sociais, são seres que questionam essas novas mídias”.

Uma das inspirações para a criação dramatúrgica foram os filmes dos Irmãos Dardenne, cineastas belgas que trabalham com um viés mais humanista e de transformações em suas obras, características que estão impregnadas no texto.

O ator José Sampaio ressaltou a atmosfera que envolve a montagem. “É uma relação ambígua e misteriosa, trazendo identificação e distância entre os dois em cena. São jovens adultos que não têm uma carga de maturidade, diferentemente das gerações anteriores. Eles são altamente ligados à infância e juventude. Meu personagem está em um ponto de ônibus e não sabe qual o destino final. Se encontra no meio em um limbo cheio de fragilidades diante desse mundo”.

O outro lado da história fica com o papel interpretado por Michelle Boesche. “Minha personagem vive com a bicicleta, possui uma visão crítica em relação a poluição e tecnologia, é extrovertida, criativa, poética, tem sempre opinião para tudo. Ela tenta uma conexão com o outro personagem. Valoriza a questão da presença física em tempos virtuais”.

O espetáculo abre muitas interpretações, é um jogo sobre memória, relações perdidas, trabalha com a questão de nostalgia. São pessoas que vivem no mundo da fita K7, vinil e possuem uma nostalgia de outra época. Fala sobre uma juventude que todos temos ou já tivemos”, conclui Cynthia Falabella.

FACE (1)

Rapte-Me Agora – Deve Haver Vida Inteligente Em Outra Parada De Ônibus

Com José Sampaio e Michelle Boesche

Sesc Santo Amaro – Espaço das Artes (R. Amador Bueno, 505 – Santo Amaro, São Paulo)

Duração 80 minutos

17/01 a 16/02

Sexta – 21h, Sábado – 20h, Domingo – 18h

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 16 anos

BRINCANDO COM FOGO

Em seus mais de 40 anos de carreira, o Grupo Tapa já trabalhou com incontáveis textos de autores internacionais e nacionais. Um dos dramaturgos mais presentes em seu repertório é o sueco August Strindberg (1849-1912) com os espetáculos CamaradagemCredoresSenhorita Julia, além de uma leitura dramatizada de A Mais Forte. Em 2020, o Tapa encena mais uma peça do autor obcecado pelas relações conjugais, Brincando com Fogo estreia dia 9 de janeiro, quinta-feira, às 20h30, no Teatro Aliança Francesa.

Eduardo Tolentino de Araujo assume mais uma vez a batuta da direção e conta com o elenco formado por Bruno Barchesi, Camila Czerkes, Daniel Volpi e Luana Fioli, além da participação especial de Oswaldo Mendes e Mara Faustino. A temporada é somente até 16 de fevereiro com sessões de quinta à sábado, às 20h30, e domingo, às 19h.

Escrita em 1897, a trama mostra um casal entediado que cria um jogo para discutir e testar a relação envolvendo um amigo e uma prima da família. Os protagonistas “brincam com fogo” ao vivenciar situações que levam a reflexão sobre os limites do amor e da fidelidade em uma relação conjugal.

A história é uma espécie de um “quadrângulo amoroso”. Traz uma família burguesa com um jogo perverso das relações, onde existe um mergulho no domínio e poder de um sobre o outro. Strindberg soube, como poucos, ir fundo nas questões conjugais, tinha obsessão na relação entre homem e mulher. Lidava com assuntos que ultrapassavam os tabus de sua época, Brincando com Fogo é quase que discutindo uma relação aberta”, conta o diretor.

Tolentino ressaltou a ligação entre as obras de Strindberg, um especialista de histórias que se passam entre quatro paredes. “Mesmo sendo escrita posteriormente, Brincando com Fogo desencadeia como resultado Credores, de 1884. Uma peça complementa a outra, Credores é sobre um triângulo, as consequências do que houve com o quadrângulo de Brincando com Fogo. Essa é a temática que o dramaturgo conhecia e habitava bem.

Cenário e figurino possuem elementos que deixam o visual atemporal, mais próximo de algum tempo do século XX. Os personagens ficam em um ateliê de pintura que ganha um caráter mais onírico ou um limbo com a iluminação. Funciona também como uma espécie de purgatório quando os personagens expurgam os sentimentos por meio das palavras.

Strindberg tratava de personagens ligados ao mundo da arte e boêmia. Foi o primeiro autor a colocar sua própria vida nas peças, a chamada dramaturgia do eu. Chegou a declarar que nós não podemos conhecer plenamente a vida de outros personagens, pois só temos conhecimento de nós mesmos; só assim para alcançar todos os detalhes e profundezas de uma alma.

Iniciou o chamado drama de estações, onde uma cena não necessariamente precisava ter conexão direta com a anterior, trabalhando pela primeira vez de forma épica com cenas isoladas, e todas em torno da história de um personagem, geralmente o seu alter-ego. Quebrou paradigmas e padrões da dramaturgia da época, fonte de inspiração para a modernidade, como a do próprio Nelson Rodrigues.

Para o diretor, “Strindberg é o pai da Modernidade no teatro, um renovador da linguagem da cena, abriu a porta para explicitar o inferno das relações, é moderno tanto na forma quanto no conteúdo, um autor para a vida inteira”.

FACE

Brincando com Fogo

Com Bruno Barchesi, Camila Czerkes, Daniel Volpi e Luana Fioli, Oswaldo Mendes e Mara Faustino

Teatro Aliança Francesa (Rua Gen. Jardim, 182 – Térreo – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 60 minutos

09/01 a 16/02

Quinta a Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$50/$60

Classificação 12 anos