AS MAMAS DE TIRÉSIAS

O escritor e crítico de arte francês Guillaume Apollinaire (1880 – 1918) é conhecido por ter inaugurado o termo surrealismo nas artes. A peça As Mamas de Tirésias, de sua autoria, foi escrita em 1903 e é reconhecida por muitos como a obra que inaugurou o termo do movimento vanguardista.

A partir do dia 1º de fevereiro de 2020, o diretor André Capuano estreia uma montagem desse texto na Oficina Cultural Oswald de Andrade. No elenco estão as atrizes Gilka Verana, Ana Paulla Mota e Priscilla Carbone. Também está em cena Almir Rosa como O Povo de Zanzibar, personagem representado pela discotecagem do espetáculo. A temporada vai até 25 de abril, todos os sábados, às 11h.

O drama surrealista conta a história de Teresa, que ao romper com seu marido – um homem alucinado por toucinhos – o amarra, se veste com suas roupas, corta as próprias mamas e reivindica a liberdade assumindo a identidade de General Tirésias. Em seguida, ela inicia uma campanha contra a procriação. Seu marido, numa afronta, gera sozinho dezenas de milhares de bebês macabros. O enredo, absurdo, se soma a uma escrita fragmentada e em versos, elementos representativos da dramaturgia de Apollinaire.

Em processo de criação há três anos, a equipe composta pelas três atrizes fez o convite para que André Capuano dirigisse a peça. “O acordo que fizemos quando assumi a direção era de que materializássemos ao extremo todos elementos propostos pelo texto, com cada atriz concebendo cada cena a partir de suas próprias inquietações e vontades artísticas”, conta André.

Segundo o diretor, as cenas propostas eram muito diferentes entre si e, não raro, uma contrapunha a outra, o que gerou a concepção da peça. A dificuldade de olhar para a peça como um todo, por causa das diferentes visões apresentadas pelas atrizes, se revelou o gesto principal do espetáculo. A solução foi o aproveitamento máximo das propostas trazidas por cada uma das atrizes para cada parte do texto. Em seguida, André selecionou e sobrepôs os materiais criados, acrescentando também sua visão e conduzindo a criação coletiva das versões finais das cenas e do espetáculo.

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Além de anteceder muitas das inovações dramáticas vistas até hoje, Apollinaire usa o mito do profeta cego de Tebas, Tirésias, para provocar reflexões sobre igualdade de gênero, o militarismo ostensivo e a manipulação midiática. A peça foi escrita diante do clima de destruição, desilusão e incerteza causado pelos horrores da Primeira Guerra Mundial. No texto, ele renuncia à lógica discursiva e da “seriedade” ao lidar com as questões de sua época.
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Nós tínhamos três versões e discursos completamente diferentes entre si – esse choque dialoga com a postura de Apollinaire, que após ter retornado ferido da Primeira Guerra Mundial, revisou o texto e escreveu uma análise absolutamente contraditória com todo discurso que a obra carregava até então. Essa também é uma realidade que se aproxima do Brasil atual, em que múltiplos discursos estão sobrepostos, gerando choques constantes que precisam ser observados e urgentemente colocados no campo da criação artística se quisermos avançar”, conta Capuano.

Além de uma possível leitura sobre o Brasil contemporâneo, a peça também lança um olhar sobre a questão da emancipação feminina. Segundo a equipe, é simbólico que ao ser abandonado por Teresa, seu ex-marido assuma para si uma responsabilidade de dar conta do mundo e acabe gerando milhares de criaturas macabras.

As Mamas de Tirésias é uma peça de reinvindicação e elogio à liberdade do teatro, fundamental em tempos de emergência poética, de sufocamento causado pelo avanço do conservadorismo, do ódio e da intolerância”, diz Gilka Verana. A trilha sonora composta coletivamente é fragmentada e, em seus retalhos, traz desde os sons de uma guerra em processo até músicas brasileiras de artistas como Tim Maia A Cor do Som. A discotecagem fica por conta do ator e DJ Almir Rosa, que assume o papel do Povo de Zanzibar.

SOBRE A CONCEPÇÃO CÊNICA

Para materializar o absurdo do texto, Capuano apostou em uma estética do precário e do excesso. A cada cena, se sobrepõem figurinos, adereços e objetos utilizados no momento anterior. O acúmulo vai se formando por todo o ambiente cênico e resulta em um amontoado de resíduos. “É a escolha de uma linguagem. O entulho, o lixo e a sensação das sobras diz muito sobre a contradição de discursos, sobre as relações fragmentadas”, conta o diretor. Compõem esse espaço confetes de carnaval, tecidos, groselha, macarrão instantâneo, tomates e muito mais.

As três atrizes interpretam todos os personagens da peça e se alternam em cada um dos papéis. Os figurinos, trocados com frequência, são compostos por roupas puídas, velhas, indicativas desse ambiente inóspito que vai sendo construído. “A sala de espetáculo que estamos ocupando, que nunca havia sido usada para apresentações, se torna uma espécie de instalação repleta de precariedade. Entendemos que uma beleza previsível e propagada, aceita à priori por causa de um bom gosto institucionalizado, poderia matar nosso trabalho”, diz Capuano.

A peça também propõe duas aproximações diretas com o público. Uma delas é quando as atrizes movem o cenário de forma a transformá-lo em um bar. Se desejarem, as pessoas podem beber algo e comer os petiscos servidos na hora ao som das músicas selecionadas pelo Povo de Zanzibar. Já ao final do espetáculo será servida feijoada a quem tiver solicitado o prato antes do início da peça, conforme indicação da produção. O alimento faz referência à paixão desenfreada do ex-marido de Teresa por toucinho.

FACE

As Mamas de Tirésias

Com Ana Paulla Mota, Gilka Verana, Priscilla Carbone e Almir Rosa

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

Duração 150 minutos

01/02 a 25/04

Sábado – 11h

Grátis (ingresso entregue 1 hora antes)

Classificação 18 anos

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