OCUPAÇÃO JANAINA LEITE

Pesquisadora em Foco na 7ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a atriz e diretora Janaina Leite apresenta uma Ocupação com três trabalhos no Centro Cultural da Diversidade – Teatro Décio de Almeida Prado, de 28 de fevereiro a 15 de março. Estarão em cena as montagens Stabat Mater, indicada como melhor espetáculo ao Prêmio APCA e melhor dramaturgia ao Prêmio Shell, além de ser eleita como melhor espetáculo de 2019 pelos críticos do Guia da Folha (Folha de SP) e Divirta-se (O Estado de SP), e Feminino Abjeto 1 e Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino.

Sucesso de público e crítica, o espetáculo Stabat Mater, texto e direção de Janaina Leite, que está em cena ao lado de sua mãe Amália Fontes Leite e Príapo, abre a Ocupação e sobe ao palco de 28 de fevereiro a 1º de março, sexta-feira e sábado, às 21h e domingo, às 19h. Já os espetáculos Feminino Abjeto 1 e Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino, dirigidos por Janaina Leite, são complementares, mas independentes. Neles, a diretora e duas equipes de performers investigam a construção dos gêneros e as relações entre homens e mulheres a partir de episódios históricos e biográficos, música pop e performance.

Feminino Abjeto 1 se apresenta dias 8 e 15 de março, domingos, às 19h, e é uma performance ritualizada em que 12 artistas — 10 mulheres cis e 2 pessoas trans não-binárias — investigam suas relações com os ideais de feminino, suas obscuridades e contradições. A obra coloca em evidência as tensões presentes no conceito de abjeção, na misoginia cotidiana e nas percepções de papéis sociais e de gênero. Já Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino com sessões dias 7 e 14 de março, sábados, às 21h, apresenta 19 performers, que revisitam memórias, estereótipos e contradições do masculino e do feminino em uma sequência vertiginosa de cenas que borram os limites de ficção, realidade, teatro e performance. Uma jornada de afetos, violências e renúncias que constitui, ainda, questão fundamental de nossos dias: afinal, do que se faz um homem?

FACE

Stabat Mater

Contemplado pelo Edital da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, do Centro Cultural São Paulo, Janaina Leite investiga em Stabat Mater os limites entre efeito e risco, experiência e representação, trazendo para a cena sua mãe real e um ator pornô. Essa estranha coabitação dá margem para pensar temas historicamente inconciliáveis como maternidade e sexualidade. Na montagem, Janaina Leite se utiliza do formato palestra-performance para falar da história da Virgem Maria ao longo dos séculos ao mesmo tempo que tenta dar conta do apagamento da mãe em Conversas com meu pai seu trabalho autobiográfico anterior.

Onde estava a mãe? é a pergunta que é indiretamente respondida através da Virgem Maria e o stabat mater – ou “a mãe lá estava” – referência ao poema do século XII que consagrou o tema da jovem mãe aos pés do filho padecendo na cruz. Stabat Mater é também o nome do artigo de Julia Kristeva em que a filósofa e psicanalista defende que Maria, essa mulher que deu à luz “sem prazer e sem pecado”, fecundada enquanto dormia, tornou-se o protótipo para a construção no ocidente de um feminino que se dá entre a santa e a caída, entre a abnegação e o masoquismo. A partir dessa tese, o espetáculo parte de um jogo de dramatização ou psicodramatização de memórias e sonhos, além do material teórico de uma suposta palestra, para investigar o tropo do corpo da mulher como receptáculo. Como nos contos de fada em que a princesa é visitada pelo príncipe, ou ainda, nos filmes de terror, por monstros e demônios, a imagem de um corpo inerte, de uma mulher que dorme, opera em looping no espetáculo fazendo avançar o ambiente real para o ambiente de sonho ou pesadelo.

No trânsito do racional ao sonho, do real ao mítico, duas referências fundamentais oferecem as bases estéticas do trabalho: o terror e a pornografia. Erotismo e violência compõem o aparente paradoxo que se depreende dessa mãe “mais arcaica que real” que o espetáculo buscará revelar como um duplo da própria filha, recompondo uma espécie de matrioska que remonta até essa Virgem Maria, passiva, abnegada, mas também onipotente, porque simbolicamente impenetrável.

Janaina Leite e sua mãe real Amália Fontes Leite sustentam as camadas biográficas dessa secular dimensão mítica revivendo juntas em cena, por exemplo, um estupro sofrido pela filha na adolescência. Para completar esse romance familiar, Janaina vislumbrou ainda uma terceira figura que responde na peça por Príapo, figura sempre mascarada, oscilando entre algo de sedutor, mas também ameaçador. No vídeo, camada fundamental da encenação acompanhamos todo o processo de casting para a escolha do ator pornô que faria Príapo assim como as curiosas reações à pergunta lançada aos profissionais da indústria pornográfica brasileira à queima roupa: você aceitaria fazer uma cena de sexo comigo dirigido pela minha mãe?

Esse mote provocador fez de Stabat Mater também um programa performativo em si pois que se tratou de um processo que se deu no desconhecido desse enunciado e sujeito à experiência que seria essa aproximação com o universo da pornografia, somada à presença da mãe de Janaina no trabalho. O final da peça com todos os lances de surpresa que o processo revelou, termina por ressignificar essa presença materna – esse stabat mater – não mais, somente, como uma abnegação cega ou passividade, mas também como sustentação do afeto, como permanência daquelas que se dispõem a profundos deslocamentos, onde o amor pelo outro pode sugerir também uma ética da transformação, da presença e do vínculo.

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Feminino Abjeto 1

A partir de longa pesquisa sobre representações do feminino, e sobre o conceito de abjeção proposto pela filósofa e psicanalista Júlia Kristeva, Janaina Leite orientou o processo de criação coletiva de Feminino Abjeto 1, montagem performática que também é atravessada por referências à artista espanhola Angélica Liddell, conhecida por sua radicalidade e exploração de limites entre arte e vida. A dimensão fronteiriça presente na ideia de abjeção somada à provocativa dialética misógina que marca a obra de Liddell foram os principais nortes para a pesquisa que se desenrolou, gerando um material inteiramente autoral.

Com cenas solos e outras coletivas, o espetáculo tem como foco principal o tema da abjeção em relação ao feminino. “O eixo da montagem é a mãe, figura que nos identificamos e rejeitamos e que apareceu em quase todos os depoimentos das performers”, conta Janaina.

A primeira cena lembra uma cozinha com várias comidas, que na cena final vira um desenho de uma mãe, na qual antropofagicamente, as artistas devoram. “Feminino Abjeto 1 não é apenas um espetáculo denúncia, mas sim de contradição. Com certeza há uma provocação ao masculino, mas tratamos principalmente do inimigo que está dentro de cada uma de nós nascidas como o que se convencionou historicamente chamar de “mulher“. O que eu abjeto em mim? Isso é de dentro para fora e não dá para separar”, explica Janaina.

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Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino

Do que se faz um homem? A partir dessa questão, a obra aprofunda a pesquisa de Janaina Leite sobre a crise das representações do feminino e do masculino. Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino é um mergulho em escrituras pessoais, textos sobre feminismos, história da arte, rituais de passagem, improvisações, dança e música pop, emergindo um painel arriscado e caótico de arquétipos masculinos e femininos que põem em jogo o que é, enfim, ser “homem” e “mulher” nos dias de hoje.

À procura de entender as fragilidades e forças do masculino, seus elementos tóxicos e magnéticos, os 19 performers narram suas primeiras referências de gênero, recuperam memórias e revisitam as relações constituídas, principalmente, a partir dos estereótipos e das contradições das figuras materna e paterna.

A obra, mistura de teatro e performance, é formada por uma sequência vertiginosa de cenas que borram a jornada da construção das masculinidades, dos primeiros afetos e renúncias até a violência e agressividade que são partes fundamentais das interações entre homens e mulheres na sociedade ocidental contemporânea.

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OCUPAÇÃO JANAINA LEITE

Centro Cultural da Diversidade – Teatro Décio de Almeida Prado (Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo)

28/02 a 15/03

Stabat Mater

Com Janaina Leite, Amália Fontes Leite, Lucas Asseituno e Loupan

Duração 110 minutos

28/02 a 01/03

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$30

Classificação 18 anos

Feminino Abjeto 1

Com Bruna Betito, Cibele Bissoli, Débora Rebecchi, Emilene Gutierrez, Flo Rido, Gilka Verana, Juliana Piesco, Letícia Bassit, Maíra Maciel, Oli Lagua, Ramilla Souza e Sol Faganello

Duração 120 minutos

08 e 15/03 (sessão extra dia 15 – às 15h)

Domingo – 19h

$20

Classificação 18 anos

Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino

Com Alexandre Lindo, André Medeiros Martins, A Saboya, Carlos Jordão, Chico Lima, Dante Paccola, Diego Araújo, Eduardo Joly, Filipe Rossato, Guilherme Reges, Gustavo Braunstein, Jeffe Grochovs, João Duarte, João Pedro Ribeiro, Leonardo Vasconcelos, Lucas Asseituno, Marco Barreto, Nuno Lima, Thompson Loiola

Duração 120 minutos

07 e 14/03 (sessão extra dia 14 – às 15h)

Sábado – 21h

$20

Classificação 18 anos

SILVIO SANTOS VEM AÍ

Com texto de Marília Toledo e Emílio Boechat, direção de Fernanda Chamma (que também assina a coreografia) e Marília Toledo, além de direção musical de Marco França, a comédia musical Silvio Santos Vem Aí! estreia dia 13 de março (sexta-feira), no 033 Rooftop (Teatro Santander), no complexo JK Iguatemi, em São Paulo.

O espetáculo faz um recorte na vida do apresentador e empresário Senor Abravanel (vivido pelo ator Velson D’Souza) desde sua infância, quando era camelô no Rio de Janeiro, até a década de 90, logo após a consolidação do SBT. Com personagens icônicos como Gugu Liberato, Hebe, Elke Maravilha, Wagner Montes, Bozo, Pedro de Lara entre outros, a peça promete agradar todas as gerações.

O elenco é formado pelos atores Adriano Tunes (Velha da Praça Nahim), Andreas Trotta (Leon), Bianca Rinaldi (Íris), Bruno Kimura (Anestesista, Bailarino Russo), Daniela Cury (Rebeca Abravanel, Hebe Camargo), Diego Montez (Wagner Montez, Sidney Magal, Boni), Gigi Debei (Mara Maravilha, Telemoça), Giselle Lima (Sônia Lima, Cidinha), Gustavo Daneluz (Silvio Jovem), Hellen De Castro (Gretchen, Telemoça), Ivan Parente (Pedro de Lara), Ju Romano (Rosana, Telemoça), Juliana Bógus (Aracy de Almeida), Léo Rommano (Atrasildo, Manoel de Nóbrega Alternante), Lucas Colombo (Bozo), Paula Flaibann (Elke Maravilha), Pedro Passari (Swing), Rafael Aragão (Alberto Abravanel, Silvio Alternante), Roney Facchini (Manoel de Nóbrega), Roquildes Junior (Roque), Thiago Garça (Pablo, Bailarino Russo), Velson D’souza (Silvio Santos), Verônica Goeldi (Boneca, Bolinha de Sabão, Telemoça), Vinícius Loyola (Gugu Liberato, Gilliard, Sérgio Mallandro)

Para Marília Toledo, fazer um musical 100% nacional é um dos principais desafios deste trabalho e também o seu maior orgulho. “Falar de uma figura tão emblemática da nossa cultura popular, usando a música como fio condutor da história, nos permite uma boa liberdade estética. Isso se dá porque conhecemos bem os personagens ligados ao Silvio Santos, além dos ritmos e canções que acompanharam a trajetória do apresentador e empresário desde sua ascensão profissional até a década de 90, que é a linha cronológica da dramaturgia, escrita por mim e pelo Emilio Boechat”. Comenta Marília.

Já Emilio Boechat conta que a peça foi escrita ao longo de um ano e meio. “Investimos um bom tempo levantando uma timeline de eventos importantes na vida do Silvio. Depois jogamos esses eventos dentro da estrutura clássica de um musical. Foi quando decidimos contar a história do Sílvio por meio de um devaneio, como em ‘All That Jazz’. A partir daí, escrevemos poucas cenas juntos. Como era difícil coincidir nossas agendas de trabalho, eu escrevia algumas cenas quando podia e ela idem. Pouco antes do início dos ensaios escrevemos juntos as cenas que faltavam. Mas sabíamos que com a entrada do Marco França muitas cenas com diálogos seriam transformadas em música. Era um desejo dos dois que o espetáculo fosse conduzido pelas canções“, comenta.

O ator Velson D’Souza, de 35 anos, foi o escolhido para interpretar Silvio Santos – ele trabalhou no SBT em novelas como ‘Cristal’, ‘Revelação’ e ‘Vende-se Um Véu de Noiva’, e com o próprio apresentador no Programa Sílvio Santos. Para se preparar para esse papel desafiador, ele conta que tem procurado fugir da caricatura do homenageado, que já foi imitado por tantas personalidades.

Estou tentando partir da desconstrução. Minha abordagem é olhar as situações da vida dele com o máximo de verdade, da maneira mais próxima de mim, do que eu vivi e me colocar no lugar dele. Acho que a convivência com ele ajudou bastante, sobretudo para perceber que ele é daquela forma que conhecemos mesmo quando não está em cena. E trazer um pouco da voz do Silvio, sobretudo do timbre. Não para ficar aquela coisa carregada, mas para termos uma pequena diferenciação de quando é o showman e quando está conversando com outras pessoas fora de cena, como, por exemplo, com Manoel da Nóbrega. O grande lance é não ficar aquela caricatura do Silvio Santos que todo mundo faz. E isso também funciona para o gestual. Tem a questão da mão, que é muito presente, toda aquela postura altiva e elegante do Silvio. Eu acho que temos que entender isso e atravessar. Quando ele era jovem, provavelmente não era igual ao que é hoje. Mas temos que fazer algo que lembre como ele é hoje”, revela o ator

Antes do início do espetáculo, haverá um pré-show com diversas atrações do programa Silvio Santos ao longo de décadas no ar, como a “Porta da Esperança”, o “Foguete do sim ou não” e o “Roletrando”, além de um bar com comidas típicas do Domingo no Parque, como cachorro – quente, algodão doce, pipoca, entre outros. Outra novidade é que o público que for assistir pode se inscrever para concorrer a uma participação da cena do Show de Calouros, como calouro.

É justamente a novidade e o ineditismo que pautam a direção de Fernanda Chamma. “O processo criativo do musical do Silvio está sendo bem bacana. Fechamos um elenco expressivo do teatro musical, então, estou trabalhando com uma liberdade de criação dos personagens de uma maneira bem inusitada e atemporal. Eu não quero rótulos – mesmo que estejamos trabalhando com personalidades bem conhecidas, acho que tudo o que não é previsível será bem aceito. E acho que estamos fazendo um espetáculo com muito ritmo, diversão e um formato diferente. Sempre quero ser diferente e não parar de criar nunca, pois é uma forma de respeito ao público e ao teatro musical. E o Silvio Santos é isto: uma persona única, jamais existiu e nem existirá outra similar. Acho que tem que ter esse ineditismo, humor, alegria e um estilo SBT de se fazer”, explica a diretora.

A trilha sonora é composta por músicas que marcaram a trajetória de Silvio Santos até a década de 1990 e animaram os programas de auditório. “Fazer esse projeto é inevitavelmente olhar para o passado e revisitar minha infância, na qual esse universo não só do programa, mas das músicas – sobretudo da década de 1980 – esteve tão presente. A minha função primeira é ser fiel aos arranjos originais, tentando mudar minimamente, colocando um pouco da minha personalidade, mas sem ferir a identidade dessas canções que estão nesse imaginário e que fizeram parte dessa época. E a outra parte compor canções novas que tenham a ver com a necessidade da dramaturgia. Dentro desse repertório popular que estava presente nas vinhetas do programa do Silvio tem um pouco do jingle publicitário. Para reforçar esse caráter, resolvi trabalhar com o Fernando Suassuna, um grande músico e amigo de infância. Ele escreveu as letras e eu compus todas as canções originais. Acho que todos estão bem felizes com o resultado”, acrescenta o diretor musical Marco França.

FACE

Silvio Santos Vem Aí!

Com Adriano Tunes, Andreas Trotta, Bianca Rinaldi, Bruno Kimura, Daniela Cury, Diego Montez, Gigi Debei, Giselle Lima, Gustavo Daneluz, Hellen De Castro, Ivan Parente, Ju Romano, Juliana Bógus, Léo Rommano, Lucas Colombo, Paula Flaibann, Pedro Passari , Rafael Aragão, Roney Facchini, Roquildes Junior, Thiago Garça, Velson D’souza, Verônica Goeldi, Vinícius Loyola

033 Rooftop – Teatro Santander (Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041 – Itaim Bibi, São Paulo)

Duração 135 minutos

13/03 a 17/05

Sexta – 20h30, Sábado – 15h30 e 20h30, Domingo – 15h e 20h

$75/$180

Classificação Livre

11 SELVAGENS

Espetáculo imersivo onde a plateia acompanha de perto várias situações cotidianas que desencadeiam cenas de violência e intolerância, 11 Selvagens volta em cartaz no Pequeno Ato de 7 a 29 de março, com sessões aos sábados e domingos, às 19h. A peça integra também a programação do FarOFFa, uma mostra off da MITbr, com sessões dias 14 e 15 de março com valor de ingresso “pague quanto puder”.

O elenco reúne os atores Anna Galli, Beatriz Silveira, Bianca Lopresti, Bruno Lourenço, Felipe Aidar, Gabriel Gualtieri, Inês Bushatsky, Isabella Melo, Jonatan Justolin, Fhelipe Chrisostomo, Gustavo Bricks, Mariana Marinho, Mariana Beda, Mau Machado, Rafael Carvalho e Thiago Albanese.

Com texto e direção de Pedro Granato, a peça estreou em 2017 em meio ao clima das manifestações que ocupavam o Brasil e foi ganhando contornos mais densos com a polarização das eleições de 2018.

Assim como em outras montagens, Pedro Granato propõe uma experiência imersiva ao espectador, arrastando-o para dentro da cena, que se desenrolam a poucos metros do público, por vezes até na cadeira ao lado, e a identificação é imediata. Da violência à sensualidade, do absurdo ao trivial, são onze quadros interligados como uma camada de sociabilidade que pode rapidamente ser rompida em nossos dias.

O ponto de partida foi a tensão crescente no país em 2016, mas parece que o espetáculo foi criado hoje. As manifestações, a violência, a sensação de impotência que mexem com os extremos, deixam a peça muito atual”, fala Granato.

O público acompanha tudo de perto, como se a plateia estivesse na mesma situação dos atores. Em algumas situações é cúmplice e voyeur, já que as cenas passeiam pelos diferentes lados da arena colocando-os lado-a-lado.

A peça ficou praticamente um ano em cartaz em 2017 e então passamos pelo Teatro de Arena na época da prisão do Lula, fizemos uma temporada entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais no Centro Cultural São Paulo e em 2019 circulamos pelo interior do estado em pleno país polarizado. A cada momento faz mais sentido, a selvageria da polarização se amplifica e sentimos mais vontade de seguir com essa peça, que retrata a temperatura de nossos dias, para a geração jovem. O jogo com o espaço cênico tem esse aspecto imersivo de colocar o espectador na situação em que os atores estão trazendo. É a sensação de que tudo poderia acontecer com qualquer pessoa ali presente”, explica o diretor e dramaturgo.

Cada quadro é levado ao paroxismo e quando parece não haver mais para onde ir, a música toma o ambiente e os atores extravasam em coreografias. O figurino e a luz se baseiam em elementos minimalistas que são reconstruídos para cada cena. A intervenção musical dá agilidade à narrativa e permite uma explosão estética para além da verossimilhança. Histórias em que a plateia se identifica, músicas contemporâneas, tudo está equalizado para dialogar profundamente com a geração atual. “São fragmentos que formam um conjunto em que se observa essa polaridade e explosão que a gente percebe nas relações hoje em dia”.

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11 Selvagens

Com Anna Galli, Beatriz Silveira, Bianca Lopresti, Bruno Lourenço, Felipe Aidar, Gabriel Gualtieri, Inês Bushatsky, Isabella Melo, Jonatan Justolin, Fhelipe Chrisostomo, Gustavo Bricks, Mariana Marinho, Mariana Beda, Mau Machado, Rafael Carvalho e Thiago Albanese

Teatro Pequeno Ato (Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

07 a 29/03

Sábado e Domingo – 19h

$40 (Dia 14 e 15/03 – pague quanto puder)

Classificação 16 anos

DOC.MALCRIADAS

O espetáculo ‘DOC. malcriadas’, concebido e dirigido por Lee Taylor, estreia curta temporada de 6 apresentações em 21 de fevereiro, sexta-feira, no Teatro João Caetano e segue em cartaz no Centro Cultural Olido para mais 12 apresentações, totalizando neste semestre 18 sessões nos dois espaços.

A peça integra o projeto “Antologia Documental” e é resultado do curso de atuação teatral oferecido gratuitamente pelo Núcleo de Artes Cênicas (NAC) em 2019.

O experimento cênico ‘DOC. malcriadas’ foi criado a partir de uma pesquisa documental e faz parte da proposta artístico-pedagógica vivenciada no curso de atuação oferecido gratuitamente pelo Núcleo de Artes Cênicas (NAC) em 2019, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

A motivação inicial foi pesquisar os valores morais que fundamentam o que se chama de “família tradicional brasileira“. Depois de mais de cem entrevistas realizadas por vinte atores e atrizes com membros de diversas famílias, escolhemos um recorte que oferece um olhar privilegiado para problematizar a família tradicional, por estar sempre presente e não fazer parte e por ser essencial e ao mesmo tempo substituível: as empregadas domésticas.

Na segunda etapa da pesquisa, foram mais de cinquenta entrevistas realizadas por nove atrizes com empregadas domésticas, faxineiras e diaristas que trabalham na cidade de São Paulo. A seleção dos relatos colhidos nas entrevistas foram o ponto de partida para quatro meses de investigação dramatúrgica e experimentação cênica, por meio de um processo colaborativo, que resultou na obra concebida e dirigida por Lee Taylor.

O experimento cênico ‘DOC. malcriadas’ faz parte do projeto Antologia Documental, proposta artístico-pedagógica do NAC, que reúne obras teatrais baseadas em relatos colhidos a partir de entrevistas realizadas pelo próprio elenco.

Sinopse:

Um estranho dia de faxina em que empregadas domésticas paralisaram sua rotina de serviço na casa de uma família tradicional brasileira. A obra poética-documental, concebida a partir do encontro das atrizes com domésticas que atuam na cidade de São Paulo, expõe testemunhos que revelam comportamentos profundamente enraizados em nossa sociedade pós-escravista e que se refletem em desigualdade social no país.

FACE

DOC.malcriadas

Com Alexia Rosa, Bia Barbosa, Gabriela Moreno, Giovanna Pantaleão, Larissa Morais, Mirielen Dollvik, Patrícia Pacheco

Duração 90 minutos

Classificação 14 anos

Grátis

Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino São Paulo)

21/02 a 01/03

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

Centro Cultural Olido (Av. São João, 473 – Centro Histórico São Paulo)

27/03 a 19/04

Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 19h