O NÁUFRAGO

Lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 1996, foi um enorme sucesso de vendas, e mesmo com uma segunda edição em 2006, encontra-se esgotado nos catálogos das livrarias, transformando-se na obra mais conhecida e vendida do autor. O romance foi adaptado para teatro por William Pereira, para um elenco de dois atores, Luciano Chirolli e Dagoberto Feliz.

William queria muito trabalhar com Dagoberto e Chirolli nesta montagem, o talento e experiência destes dois atores foram essenciais na decisão do diretor. Luciano Chirolli e William Pereira fizeram USP na década de 80. William na ECA e Chirolli na EAD. “Eu dirigi muitas obras em que ele atuava, enquanto estávamos na faculdade, e sempre quis voltar a trabalhar com este excelente ator, Náufrago é a oportunidade perfeita. Dagoberto Feliz, além do grande ator, músico e diretor que é, tem muita intimidade com o piano, o que contribuirá bastante para a encenação” comenta William.

Sinopse

Em uma prosa convulsiva e exasperada, a história de três exímios estudantes de piano, um dos quais teve sua vida aniquilada a partir do momento em que ouviu Glenn Gould, um dos outros três, tocar as Variações Goldberg, de Bach.

Sobre a encenação

O grande desafio na transposição de uma obra literária para a cena é criar teatralidade para que o espetáculo não se transforme somente em um ator narrando fatos, uma leitura dramática. No espetáculo “O Náufrago” essa narrativa que no romance é feita por um único personagem, é realizada por dois atores. O protagonista/Narrador (Luciano Chirolli) e Wertheimer (Dagoberto Feliz), o personagem que é citado durante toda a obra e é um alter-ego, uma sombra daquele que conta a história e está sempre em um segundo plano, atrás de uma tela transparente, sobre os destroços de um piano de cauda, que surge e desaparece como em um grande corte cinematográfico.

Em cena, William propõe dois planos: memória e tempo presente, estes planos vão se fundindo ao longo do espetáculo e os limites entre lembrança e realidade se rompem. “Eu trabalhei para que a densidade do texto esteja emoldurada por uma dramaticidade visceral, sinto como se em vez de dirigir, eu estivesse regendo, inclusive pedi ao atores que chegassem no primeiro dia de ensaio com os textos completamente decorados, para que eu pudesse reger as pausas, o ritmo, os volumes e os tempos, já que o grande foco nesta peça é a palavra, o texto”, completa o diretor.

A trilha sonora é o terceiro personagem. Um contraponto entre a genialidade da execução de Glenn Gould e a interpretação medíocre de Wertheimer em seus últimos dias.

Os figurinos e o cenário também são assinados pelo diretor William Pereira, a luz é de Caetano Vilela, que desenvolve grandes parcerias artísticas com o diretor há mais de 20 anos, e a direção de produção é de Leopoldo de Leo Jr, com quem William Pereira faz parceria desde 2001, além de serem sócios na LNW Produções Artísticas desde 2009. A produtora é uma sociedade entre Leopoldo, William e o dramaturgo e diretor Newton Moreno.

FACE

O Náufrago

Com Luciano Chirolli e Dagoberto Feliz

SESC Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185 – Campos Elíseos, São Paulo)

Duração 80 minutos

07/03 a 12/04

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 18h (não haverá sessão 10/04)

$40 ($12 credencial plena)

Classificação 14 anos

Obs: a sessão do dia 3/4 contará com Tradução em Libras e Audiodescrição

FILOMENA 25 ANOS DE PELEJA

Gorete Milagres faz única apresentação de seu espetáculo “FILOMENA 25 anos de Peleja”. O solo celebra os 25 anos de sucesso de sua famosa criação, já entre as maiores personagens de humor do Brasil. 

No espetáculo são retratados os melhores causos vividos em todos estes  anos. A direção é de Ana Kutner. “Optamos pelo formato stand-up por entender que Filomena precisa estar não só em teatros, mas em praças, bibliotecas, museus e escolas contando suas histórias, emocionando e retratando o Brasil de todos nós”, fala Kutner.

FILOMENA, ou melhor, FILÓ,  é o retrato da população brasileira com suas lutas, conquistas, afetos, encontros, criatividade, amor, humor, amizade e solidariedade. Graças ao seu perfil popular a personagem alcançou um público de todas as idades e classes sociais. Ela estreou em Belo Horizonte em maio de 1994 e chegou a televisão em 1997 e a identificação foi imediata junto ao povo brasileiro. O sucesso nacional foi imediato.

Esperta como ela só e com traços de anti-herói nacional, a mineirinha saiu da roça rumo à cidade trabalhou como empregada doméstica, faxineira e governanta. Acompanhando as mudanças sociais e percebendo a escassez de empregados domésticos no mercado ela abriu a sua própria agência de domésticas, a “FilóDaEmprego.com”, que depois virou o aplicativo de celular “Diaristas”.

FILOMENA protagoniza uma visão crítica de duas classes: a da empregada doméstica que agora quer ter empregada e deixar de ser doméstica para virar balconista, atendente, recepcionista, etc. e a da patroa que se vê obrigada a pegar no batente e que, muitas vezes, rejeita as melhorias impostas pelas leis trabalhistas a essa classe tão desprestigiada.

“FILOMENA 25 anos de Peleja” mostra estas transformações da personagem nos últimos anos até chegar aos dias atuais, em que, devido à crise enfrentada pelo país, Filó retorna à sua peleja como faxineira, diarista e vendedora. Como todos os brasileiros, ela não perde a fé em um futuro melhor e vai à luta em busca de oportunidades. 

FACE (2)

“Filomena 25 anos de peleja”

Com Gorete Milagres

Teatro Gazeta (Av. Paulista, 900 – Bela Vista, São Paulo)

Duração 90 minutos

28/03

Sábado – 18h

$60

Classificação Livre

AQUILO QUE ACONTECE ENTRE NASCER E MORRER

Diante da vida, como lidar com a morte? Diante da morte, como lidar com a vida? Partindo destas questões, surgidas a partir da morte trágica de seus pais num acidente de trânsito, que o diretor e ator Fabricio Moser iniciou uma pesquisa artística que resultou no espetáculo “Aquilo que acontece entre nascer e morrer” que, após uma temporada de sucesso, volta em cartaz de 7 a 29 de março na Casa 136, em Laranjeiras.

A dramaturgia da peça toma como parâmetros dramáticos os verbos nascer e morrer, com base nas experiências autobiográficas do artista e do público. Com uma atmosfera artesanal, Fabricio articula todos os elementos da encenação — luz, som e projeção — e convida o público a conhecer sua história como se estivesse na sala de casa, entre abajures, caixas com objetos pessoais e os quadros que ele pinta. Para conduzir a narrativa documental, a atuação aposta no cruzamento de diferentes linguagens artísticas, transitando entre a performance, a contação de histórias, a dança e o audiovisual. O trabalho é fruto do encontro do ator e diretor com artistas de diversas áreas, como Cassiana Lima Cardoso, Gabriel Morais, Gabriela Lírio, Ricardo Martins, Silvana Rocco e Tato Teixeira.

Em determinados momentos da peça, motivada pelas questões que sustentam o espetáculo, a plateia é convidada a dividir suas experiências. Em cena, Fabricio coloca no horizonte da criação artística as vozes do passado, do presente e do futuro, entre memórias e variados documentos. Artista e plateia são confrontados a buscar, por meio do teatro, a força dramática da vida numa tentativa de assegurar um sentido à jornada humana.

Acredito que o teatro é um espaço onde podemos transformar nossos dramas pessoais em experiências coletivas de aprendizado e assim descobrir, através dele e a cada novo encontro entre artista e público, um pouco mais sobre a natureza e o sentido da vida, com toda a poesia e toda a crueldade que ela tem”, analisa Fabricio. “A cena, o instante que nos é dado de presente através do encontro proporcionado pelo teatro se torna, então, um espaço fértil para evocar o passado e fortalecer a nossa caminhada em direção ao futuro”, acredita.

Cada apresentação de “Aquilo que acontece entre nascer e morrer” provoca no público uma sensação particular e, com isso, uma resposta diferente às perguntas colocadas pela peça. Para o artista, o teatro existe por meio desse risco e das relações de troca: ele nasce da presença e sobrevive através do encontro, da interação e do conhecimento que pode ser adquirido com ele.

Se morrer e nascer são os verbos que delimitam aquilo que entendemos por vida e a vida é uma sucessão de nascimentos e mortes, o teatro, que nasce e morre diante dos nossos olhos a cada vez que acontece, pode ser compreendido como um grande ritual de passagem, em que viver pode ser um limite”, acredita. “O desejo é proporcionar um espaço de experiência significativa tanto para o público quanto para mim. Essa me parece a melhor forma de aprender sobre a vida – e investigar o sentido dela, no teatro, é uma inclinação dos meus trabalhos artísticos”, defende.

FACE

Aquilo que acontece entre nascer e morrer

Com Fabrício Moser

Casa 136 (Rua Ipiranga 136, Laranjeiras – Rio de Janeiro)

Duração 60 minutos

07 a 29/03

Sábado e Domingo – 20h

$ Contribuição Voluntária

Classificação 16 anos

AO VIVO

O espetáculo AO VIVO é composto por textos curtos de Bruna Pligher, Carla Kinzo, Lucas Mayor e Marcos Gomes que se relacionam com o universo dos programas televisivos. A peça estreia no dia 3 de março no VIGA Espaço Cênico, onde segue em cartaz até 1º de abril. As apresentações acontecem às terças e quartas, às 21h.

Dirigida por Lucas Mayor e Marcos Gomes, que pesquisam as cenas curtas em seu núcleo no Cemitério de Automóveis, a peça reúne quatro situações independentes unidas apenas pelo universo da televisão. “Temos investigado há algum tempo a questão das formas breves nas narrativas. E nossos trabalhos nesse tempo, por vezes, tem sido convidar outros dramaturgos para escrever conosco cenas ligadas por algum tipo de temática. Na nossa oficina de dramaturgia, pensamos a estrutura do conto para a concepção de uma peça”, revela Mayor.

Em “Não foi isso que eu quis dizer”, o autor Marcos Gomes narra uma entrevista ao vivo conduzida por uma jornalista com a dramaturga de uma peça polêmica, que tem sido bastante atacada nas redes sociais. As duas começam a conversar em clima ameno, mas, aos poucos, a sabatina vai esquentando ao tratar de temas como o fazer artístico nos tempos atuais.

Já no texto “Ninguém me conhece tão bem”, de Lucas Mayor, um casal participa daqueles programas de relacionamento nos quais os casados devem provar que conhecem bem seu/sua companheiro(a). Claudio e Fátima não conseguem ouvir o que o outro está respondendo e a apresentadora gera uma enorme confusão com as suas perguntas.

Uma repórter investigativa não consegue se desligar do trabalho em “Plantão”, de Carla Kinzo. A cena narra a conversa dessa profissional com sua analista em uma sessão de psicanálise. A jornalista tenta a todo custo ter o controle daquela “entrevista”.

Finalmente, em “Trem Louco”, de Bruna Pligher, um casal, que já está junto há bastante tempo, participa de um programa de entrevistas sobre casamentos bem-sucedidos. As perguntas da apresentadora e as reações dos espectadores pela internet podem colocar essa relação à prova, sobretudo quando o tema da conversa é a traição.

FACE

Ao Vivo

Com Andrea Tedesco, Antoniela Canto, Daniela Schitini, Monalisa Vasconcelos, Rodrigo Sanches e Walter Figueiredo

Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1.323, Pinheiros, São Paulo)

Duração 60 minutos

03/03 a 01/04

Terça e Quarta – 21h

$40

Classificação 16 anos

DEVE SER DO CARALHO O CARNAVAL EM BONIFÁCIO

O Teatro Cemitério de Automóveis apresenta o espetáculo Deve Ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio, texto que Mário Bortolotto considera um de seus trabalhos que mais se aproxima da obra do saudoso Plínio Marcos (1935-1999), uma de suas maiores influências. A peça estreia no dia 28 de fevereiro e segue em cartaz até 27 de março, com sessões às sextas-feiras, às 21h.

Bortolotto conta que escreveu a peça a convite de Renato Borghi. “Em 2002, ele estava organizando a Mostra de Dramaturgia Contemporânea no Teatro do SESI junto com o Elcio Nogueira, a Luah Guimarães e a Débora Duboc. Eles convidaram 15 dramaturgos para escreverem 15 peças curtas e eu fui um dos convidados. Fiquei pensando no que eu poderia escrever para eles e me veio a ideia desses personagens ‘perdedores’, lado b da sociedade. Foi uma montagem muito maneira sob a direção do meu Mestre Fauzi Arap. Aí, um tempo depois eu dirigi a minha própria versão”, revela.

Justamente por conta dos personagens, da ambientação e da temática. Tem tudo a ver com as primeiras peças do Plínio Marcos. Quando estava escrevendo e já sabendo que teria direção do Fauzi Arap, pensava muito no Plínio. Queria uma peça que remetesse ao universo dele. Acho que ficou muito próximo do que ele faria se tivesse trabalhando com esses mesmos personagens”, acrescenta o dramaturgo.

A trama gira em torno de Bel, uma garota de programa que começa um caso promissor com um francês que quer levá-la para viver com ele na Europa. Elcio, o irmão de Bel, vislumbra a oportunidade de sua vida de conseguir sair do Brasil e fugir da situação miserável em que se encontra tendo que se sustentar como michê.

São três personagens sem nenhuma perspectiva de vida. A garota faz programas. O Irmão dela é michê o melhor amigo deles é um “homem placa”, um desses caras que passam os dias com placas penduradas no pescoço com algum tipo de indicação para empreendimentos imobiliários, oculistas ou empregos. Quer dizer, um tipo de exemplares perdedores como são, aliás, os personagens das primeiras peças do Plínio. Eles evidentemente vislumbram uma vida melhor e se agarram a qualquer possibilidade que apareça para tirá-los de suas vidas miseráveis. Então, quando a garota descola um francês medianamente abastado e que promete levá-la para a terra dele, os outros dois só pensam em colar na banca dela. Acho que esses personagens são sempre atuais em um país com alto índice de miséria como o nosso”, comenta o autor sobre essas figuras.

Sobre sua direção, Bortolotto conta: “É uma peça realista. Não há muitos segredos. Faço um trabalho de direção de ator mais especificamente. O mais importante é sempre o ator servindo ao texto, é claro. Mas o ator em primeiro lugar, já que o texto também está lá para servir a ele. Então, a minha preocupação é sempre com o ator para que ele compreenda todas as intenções e sub intenções que o texto oferece e que possa com isso fazer um bom trabalho”.

FACE

Deve Ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio

Com Gabriela Fortanell, Rodrigo Cordeiro e Walter Figueiredo

Teatro Cemitério de Automóveis (Rua Frei Caneca, 384 – Consolação, São Paulo)

Duração 45 minutos

28/02 a 27/03

Sexta – 21h

$40

Classificação 16 anos

GRACIAS A LA VIDA OU OS ÚLTIMOS DIAS DE SOLIDÃO DE ROBINSON CRUSOÉ

Livremente inspirado na obra de Jérôme Savary, na cultura latina e na célebre Violeta Parra, o espetáculo Gracias a La Vida ou Os Últimos Dias de Solidão de Robinson Crusoé estreia no dia 6 de março, sexta, no Teatro Nair Bello, às 21 horas.

A montagem é uma realização da Escola de Atores Wolf Maya, com adaptação e direção de Kleber Montanheiro, tendo no elenco alunos formandos da turma M6A da Escola. A temporada vai até o dia 15 de março com sessões às sextas-feiras e aos sábados, às 21 horas, e aos domingos, às 19 horas.

A peça é uma epifania lítero-carnavalizada circense, que conta a história de um homem que, após um naufrágio, consegue chegar a uma ilha deserta próxima, onde vive em profunda solidão. A lenda diz que esse homem existiu e a ilha se localiza no Chile. Ela foi primeiramente nomeada Santa Cecilia pelo seu descobridor, o capitão espanhol que ali chegou, oficialmente, em 22 de novembro de 1574. Numa época desconhecida, foi também chamada pelo nome do seu descobridor e, mais recentemente, por Más a Tierra (ou “Mais Próxima de Terra”).

 O marinheiro escocês Alexander Selkirk permaneceu ali solitário por mais de quatro anos. Os relatos do navegante teriam dado vida a Robinson Crusoé, famoso personagem do livro homônimo de Daniel Defoe. A ilha tornou-se famosa por causa dessa história e, em 1966, o governo chileno deu-lhe o nome da personagem. O romance foi, originalmente, publicado em 1719, no Reino Unido, em forma de folhetim no The Daily Post, sendo o primeiro romance-folhetim da história. A obra é uma autobiografia fictícia da personagem-título, que passou 28 anos em uma remota ilha tropical próxima a Trinidad, refletindo sobre ética e moral, enfrentando canibais, cativos e revoltosos, antes de ser resgatado.

A adaptação para os palcos por Jérôme Savary foi feita no início da década de 1970. O trabalho desse diretor e ator de teatro argentino-françês democratizou e ampliou o apelo do teatro musical na França, reunindo e misturando gêneros como ópera, opereta e comédia musical. Foi com a Compagnie Jérôme Savary – que evoluiu para Le Grand Magic Circus e, finalmente, para Le Grand Magic Circus et Ses Animaux Tristes – que Savary encontrou o teatro de variedades, o circo-teatro e a linguagem burlesca.

Gracias a La Vida ou Os Últimos Dias de Solidão de Robinson Crusoé faz um paralelo com a atualidade – debochada, feroz e crítica, nessa montagem, adaptada e aproximada ao Brasil de nossos dias pelo diretor Kleber Montanheiro.

FACE

Gracias a La Vida ou Os Últimos Dias de Solidão de Robinson Crusoé

Com Bia Méll, Carol Lazarin, Catharina Viezzer, Edu Queiroz, Fernanda Novoa, Flávio Macch, Gonçalo Segre, Hiago Trindade, Letícia Nerak, Luana Pessi, Lucas Lorca, Nathi Oliveira, Raffah Beletti, Raissa Abreu, Ramon Fischer, Ricardo Paiva, Sabrina Nask, Sarah Angelis, Vic Baccarelli e Vinicius Fontana

Teatro Nair Bello – Shopping Frei Caneca (R. Frei Caneca, 569 – Consolação, São Paulo)

Duração 90 minutos

06 a 15/03

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$30

Classificação 12 anos

OCUPAÇÃO JANAINA LEITE

Pesquisadora em Foco na 7ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a atriz e diretora Janaina Leite apresenta uma Ocupação com três trabalhos no Centro Cultural da Diversidade – Teatro Décio de Almeida Prado, de 28 de fevereiro a 15 de março. Estarão em cena as montagens Stabat Mater, indicada como melhor espetáculo ao Prêmio APCA e melhor dramaturgia ao Prêmio Shell, além de ser eleita como melhor espetáculo de 2019 pelos críticos do Guia da Folha (Folha de SP) e Divirta-se (O Estado de SP), e Feminino Abjeto 1 e Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino.

Sucesso de público e crítica, o espetáculo Stabat Mater, texto e direção de Janaina Leite, que está em cena ao lado de sua mãe Amália Fontes Leite e Príapo, abre a Ocupação e sobe ao palco de 28 de fevereiro a 1º de março, sexta-feira e sábado, às 21h e domingo, às 19h. Já os espetáculos Feminino Abjeto 1 e Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino, dirigidos por Janaina Leite, são complementares, mas independentes. Neles, a diretora e duas equipes de performers investigam a construção dos gêneros e as relações entre homens e mulheres a partir de episódios históricos e biográficos, música pop e performance.

Feminino Abjeto 1 se apresenta dias 8 e 15 de março, domingos, às 19h, e é uma performance ritualizada em que 12 artistas — 10 mulheres cis e 2 pessoas trans não-binárias — investigam suas relações com os ideais de feminino, suas obscuridades e contradições. A obra coloca em evidência as tensões presentes no conceito de abjeção, na misoginia cotidiana e nas percepções de papéis sociais e de gênero. Já Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino com sessões dias 7 e 14 de março, sábados, às 21h, apresenta 19 performers, que revisitam memórias, estereótipos e contradições do masculino e do feminino em uma sequência vertiginosa de cenas que borram os limites de ficção, realidade, teatro e performance. Uma jornada de afetos, violências e renúncias que constitui, ainda, questão fundamental de nossos dias: afinal, do que se faz um homem?

FACE

Stabat Mater

Contemplado pelo Edital da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, do Centro Cultural São Paulo, Janaina Leite investiga em Stabat Mater os limites entre efeito e risco, experiência e representação, trazendo para a cena sua mãe real e um ator pornô. Essa estranha coabitação dá margem para pensar temas historicamente inconciliáveis como maternidade e sexualidade. Na montagem, Janaina Leite se utiliza do formato palestra-performance para falar da história da Virgem Maria ao longo dos séculos ao mesmo tempo que tenta dar conta do apagamento da mãe em Conversas com meu pai seu trabalho autobiográfico anterior.

Onde estava a mãe? é a pergunta que é indiretamente respondida através da Virgem Maria e o stabat mater – ou “a mãe lá estava” – referência ao poema do século XII que consagrou o tema da jovem mãe aos pés do filho padecendo na cruz. Stabat Mater é também o nome do artigo de Julia Kristeva em que a filósofa e psicanalista defende que Maria, essa mulher que deu à luz “sem prazer e sem pecado”, fecundada enquanto dormia, tornou-se o protótipo para a construção no ocidente de um feminino que se dá entre a santa e a caída, entre a abnegação e o masoquismo. A partir dessa tese, o espetáculo parte de um jogo de dramatização ou psicodramatização de memórias e sonhos, além do material teórico de uma suposta palestra, para investigar o tropo do corpo da mulher como receptáculo. Como nos contos de fada em que a princesa é visitada pelo príncipe, ou ainda, nos filmes de terror, por monstros e demônios, a imagem de um corpo inerte, de uma mulher que dorme, opera em looping no espetáculo fazendo avançar o ambiente real para o ambiente de sonho ou pesadelo.

No trânsito do racional ao sonho, do real ao mítico, duas referências fundamentais oferecem as bases estéticas do trabalho: o terror e a pornografia. Erotismo e violência compõem o aparente paradoxo que se depreende dessa mãe “mais arcaica que real” que o espetáculo buscará revelar como um duplo da própria filha, recompondo uma espécie de matrioska que remonta até essa Virgem Maria, passiva, abnegada, mas também onipotente, porque simbolicamente impenetrável.

Janaina Leite e sua mãe real Amália Fontes Leite sustentam as camadas biográficas dessa secular dimensão mítica revivendo juntas em cena, por exemplo, um estupro sofrido pela filha na adolescência. Para completar esse romance familiar, Janaina vislumbrou ainda uma terceira figura que responde na peça por Príapo, figura sempre mascarada, oscilando entre algo de sedutor, mas também ameaçador. No vídeo, camada fundamental da encenação acompanhamos todo o processo de casting para a escolha do ator pornô que faria Príapo assim como as curiosas reações à pergunta lançada aos profissionais da indústria pornográfica brasileira à queima roupa: você aceitaria fazer uma cena de sexo comigo dirigido pela minha mãe?

Esse mote provocador fez de Stabat Mater também um programa performativo em si pois que se tratou de um processo que se deu no desconhecido desse enunciado e sujeito à experiência que seria essa aproximação com o universo da pornografia, somada à presença da mãe de Janaina no trabalho. O final da peça com todos os lances de surpresa que o processo revelou, termina por ressignificar essa presença materna – esse stabat mater – não mais, somente, como uma abnegação cega ou passividade, mas também como sustentação do afeto, como permanência daquelas que se dispõem a profundos deslocamentos, onde o amor pelo outro pode sugerir também uma ética da transformação, da presença e do vínculo.

FACE (1)

Feminino Abjeto 1

A partir de longa pesquisa sobre representações do feminino, e sobre o conceito de abjeção proposto pela filósofa e psicanalista Júlia Kristeva, Janaina Leite orientou o processo de criação coletiva de Feminino Abjeto 1, montagem performática que também é atravessada por referências à artista espanhola Angélica Liddell, conhecida por sua radicalidade e exploração de limites entre arte e vida. A dimensão fronteiriça presente na ideia de abjeção somada à provocativa dialética misógina que marca a obra de Liddell foram os principais nortes para a pesquisa que se desenrolou, gerando um material inteiramente autoral.

Com cenas solos e outras coletivas, o espetáculo tem como foco principal o tema da abjeção em relação ao feminino. “O eixo da montagem é a mãe, figura que nos identificamos e rejeitamos e que apareceu em quase todos os depoimentos das performers”, conta Janaina.

A primeira cena lembra uma cozinha com várias comidas, que na cena final vira um desenho de uma mãe, na qual antropofagicamente, as artistas devoram. “Feminino Abjeto 1 não é apenas um espetáculo denúncia, mas sim de contradição. Com certeza há uma provocação ao masculino, mas tratamos principalmente do inimigo que está dentro de cada uma de nós nascidas como o que se convencionou historicamente chamar de “mulher“. O que eu abjeto em mim? Isso é de dentro para fora e não dá para separar”, explica Janaina.

FACE (2)

Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino

Do que se faz um homem? A partir dessa questão, a obra aprofunda a pesquisa de Janaina Leite sobre a crise das representações do feminino e do masculino. Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino é um mergulho em escrituras pessoais, textos sobre feminismos, história da arte, rituais de passagem, improvisações, dança e música pop, emergindo um painel arriscado e caótico de arquétipos masculinos e femininos que põem em jogo o que é, enfim, ser “homem” e “mulher” nos dias de hoje.

À procura de entender as fragilidades e forças do masculino, seus elementos tóxicos e magnéticos, os 19 performers narram suas primeiras referências de gênero, recuperam memórias e revisitam as relações constituídas, principalmente, a partir dos estereótipos e das contradições das figuras materna e paterna.

A obra, mistura de teatro e performance, é formada por uma sequência vertiginosa de cenas que borram a jornada da construção das masculinidades, dos primeiros afetos e renúncias até a violência e agressividade que são partes fundamentais das interações entre homens e mulheres na sociedade ocidental contemporânea.

FACE (3)

OCUPAÇÃO JANAINA LEITE

Centro Cultural da Diversidade – Teatro Décio de Almeida Prado (Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo)

28/02 a 15/03

Stabat Mater

Com Janaina Leite, Amália Fontes Leite, Lucas Asseituno e Loupan

Duração 110 minutos

28/02 a 01/03

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$30

Classificação 18 anos

Feminino Abjeto 1

Com Bruna Betito, Cibele Bissoli, Débora Rebecchi, Emilene Gutierrez, Flo Rido, Gilka Verana, Juliana Piesco, Letícia Bassit, Maíra Maciel, Oli Lagua, Ramilla Souza e Sol Faganello

Duração 120 minutos

08 e 15/03 (sessão extra dia 15 – às 15h)

Domingo – 19h

$20

Classificação 18 anos

Feminino Abjeto 2: O Vórtice do Masculino

Com Alexandre Lindo, André Medeiros Martins, A Saboya, Carlos Jordão, Chico Lima, Dante Paccola, Diego Araújo, Eduardo Joly, Filipe Rossato, Guilherme Reges, Gustavo Braunstein, Jeffe Grochovs, João Duarte, João Pedro Ribeiro, Leonardo Vasconcelos, Lucas Asseituno, Marco Barreto, Nuno Lima, Thompson Loiola

Duração 120 minutos

07 e 14/03 (sessão extra dia 14 – às 15h)

Sábado – 21h

$20

Classificação 18 anos