DOGVILLE

O diretor paulistano Zé Henrique de Paula (vencedor dos prêmios Shell, APCA, Reverência, Aplauso Brasil e Arte Qualidade Brasil) dirige a primeira adaptação teatral brasileira para Dogville, obra-prima do cineasta dinamarquês Lars Von Trier.

O elenco é formado por Mel Lisboa, Eric Lenate, Fábio Assunção, Bianca Byington, Marcelo Villas Boas, Anna Toledo, Rodrigo Caetano, Gustavo Trestini, Fernanda Thurann, Thalles Cabral, Chris Couto, Blota Filho, Munir Pedrosa, Selma Egrei, Dudu Ejchel e Fernanda Couto.

A trama se passa na fictícia cidade de Dogville, uma pequena e obscura cidade situada no topo de uma cadeia montanhosa, ao fim de uma estrada sem saída, onde residem poucas famílias formadas por pessoas aparentemente bondosas e acolhedoras, embora vivam em precárias condições de vida. A pacata rotina dos moradores daquele vilarejo é abalada pela chegada inesperada de Grace (Mel Lisboa), uma forasteira misteriosa que procura abrigo para se esconder de um bando de gangsteres.

Recebida por Tom Edison Jr. (Rodrigo Caetano), que, comovido pela sua situação, convence os outros moradores a acolhe-la na cidade, Grace, apesar de afirmar nunca ter trabalhado na vida, decide oferecer seus serviços para as famílias da Dogville em agradecimento pela sua generosidade. Porém, no decorrer da trama, um jogo perverso se instaura entre os moradores da cidade e a bela forasteira: quanto mais ela se doa e expõe a sua fragilidade e a sua bondade, mais os cidadãos de bem exigem e abusam dela, levando a situação a extremos inimagináveis.

A obra faz uma crítica mordaz ao mundo contemporâneo e à sociedade de consumo por meio de uma radiografia precisa da alma humana. “São situações reais e muito próximas de nós, que colocam uma lente de aumento na alma do ser humano. É como se não acreditássemos que aquelas pessoas fossem capazes de explorar essa mulher de forma tão cruel. O filme discute questões muito atuais como a xenofobia, a intolerância e põe em cheque a máxima do sistema capitalista onde, para se obter lucros exorbitantes, é preciso explorar ao máximo o outro, por vezes de formas desumanas”, revela o produtor e idealizador da peça Felipe Lima.

Para o diretor Zé Henrique de Paula, é desafiador transformar o filme de Lars Von Trier em uma peça porque a obra já evoca essa estrutura teatral. “Acho que o filme é uma referência muito forte, é icônico e sinônimo de Lars Von Trier e daquela linguagem mais teatral. Adotamos o caminho inverso: na peça flertamos com a linguagem cinematográfica, utilizando não somente projeções e videomapping, mas também projetando cenas filmadas ao vivo durante o espetáculo. Como se não bastasse, ainda há os desafios da própria narrativa – o caminho rumo à nossa sombra, nosso lado escuro, nossos sentimentos mais negativos e mesquinhos. Trabalhar isso com os atores envolve muita energia e desprendimento por parte de todo o elenco e equipe”, revela.

Além da linguagem cinematográfica, a montagem flerta com estéticas importantes do teatro e do teatro físico, como de Tadeusz Kantor, Pina Bausch e Dimitris Papaioannou. “A ideia é explorar a secura do texto, a aridez da cidade e a precariedade dos personagens de forma a trazer isso também para o corpo dos atores e os elementos de encenação”, diz o diretor.

CARMEN

Dogville

Com Mel Lisboa, Eric Lenate, Fábio Assunção, Bianca Byington, Marcelo Villas Boas, Anna Toledo, Rodrigo Caetano, Gustavo Trestini, Fernanda Thurann, Thalles Cabral, Chris Couto, Blota Filho, Munir Pedrosa, Selma Egrei, Dudu Ejchel e Fernanda Couto

Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea (R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro)

Duração 120 minutos

02/11 até 16/12

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

$50/$100

Classificação 16 anos

NA CAMA

O premiado filme chileno “En La Cama” (2005), com roteiro de Julio Rojas, ganha sua primeira adaptação brasileira para o teatro em Na Cama, com direção de Renato Andrade, que estreia no dia 18 de outubro no Teatro Viradalata. A peça segue em cartaz até 29 de novembro, com sessões às quintas-feiras, às 21h.

A comédia romântica narra o primeiro e último encontro entre Bruno (Pedro Bosnich) e Daniela (Cristiane Wersom), que se conheceram em uma festa horas antes. Entre os lençóis, eles compartilham algumas de suas verdades e fantasias. Sem expectativas ou compromisso, o casal se revela aos poucos.

Com direção de Matias Bize, o filme foi premiado nos festivais de Valladolid, na Espanha, de Havana, em Cuba, e de Viña Del Mar, no Chile; foi indicado ao Prêmio Goya 2007; e fez parte da seleção oficinal dos festivais de Locarno, na Suíça, e Los Angeles, nos Estados Unidos.

Sobre Julio Rojas

O chileno Julio Rojas é um dos mais premiados roteiristas da América Latina. Outros filmes seus são “Mi mejor enemigo”, indicado ao Goya em 2006; “La vida de los peces”, indicado em 2012 ao Goya e ao Colón de Prata e representante chileno na disputa ao Oscar naquele ano.

Foi diretor de conteúdos de ficção na TV, docente em diversas universidades chilenas e estrangeiras e professor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños, em Cuba.  Como escritor, acaba de publicar seu primeiro romance “El visitante extranjero”. “Na Cama” é sua primeira obra encenada no Brasil.

SINOPSE

Em um quarto de motel, Bruno e Daniela, dois estranhos que se conheceram poucas horas antes numa festa de casamento, dividem lençóis e confidencias. Aos poucos, a intimidade do casal extrapola o sexo e aquela relação descompromissada passa a ser uma possibilidade.

CARMEN (2)

Na Cama

Com Cristiane Wersom e Pedro Bosnich

Teatro Viradalata (Rua Apinajés, 1387, Sumaré – São Paulo)

Duração 55 minutos

18/10 até 29/11

Quinta – 21h

$40

Classificação 16 anos

MEIA-MEIA

A busca pelo poder e o lado mais mesquinho e sórdido do ser humano são motes de MEIA-MEIA, texto livremente inspirado no romance O anão (1944), do sueco Pär Lagerkvist (vencedor Prêmio Nobel de Literatura em 1951). Com direção de Juliana Jardim e Georgette Fadel, o espetáculo estreia no dia 19 de outubro no Sesc Pompeia, e segue em cartaz até 11 de novembro.

Este é o primeiro monólogo de Luís Mármora, que também foi idealizador da montagem. “O espetáculo nasceu de um convite meu para o Vadim Nikitin. Eu queria fazer um monólogo que tivesse a política como temática central. Não queria um personagem que fosse a representação do poder, mas que desfrutasse dele, bebesse dos privilégios. E o Vadim lembrou dessa obra que é praticamente desconhecida no Brasil, teve uma única edição em 1970. Embora tenha sido escrito em plena 2ª Guerra Mundial, em alguns trechos do romance dá quase para dizer que é uma ficção para a teoria de Maquiavel, sobre como ele descreve as possíveis tomadas de poder”, comenta o ator.

Ainda que ambientada em época indefinida, leitor e espectador podem deduzir que o texto se passa numa possível Renascença, por desdobradas sugestões de relações entre arte e guerra, por exemplo. A trama apresenta um anão inescrupuloso e manipulador que aparece indissociável de seu Printz, quase como um prolongamento seu. Acompanha o Printz em uma guerra, que MEIA-MEIA tem como a potência máxima de vida, “uma experiência maravilhosa” que lhe traz a suprema felicidade.

O anão tem uma potência muito destrutiva. Claro que o apelo teatral faz com que tonemos a figura dele de modo ainda mais sedutor do que no romance. E o humor vem sempre pela inversão de tudo o que seria uma demonstração de amor. Então, ele diz coisas do tipo ‘como o amor é uma coisa repugnante’, ‘como é desprezível a mão de uma criança’”, diz Mármora.

A ideia é justamente explicitar como esse tipo de comportamento desprezível também faz parte do ser humano. “Ele expõe o que há de mais sombrio na força humana, que é uma coisa com a qual temos nos deparado cada dia mais nas relações político-sociais. As relações se tornam cada vez mais explicitamente violentas e dominadas pelo ódio. Ele vem para questionar como lidamos/domamos isso”, revela.

Além das obras de Pär Lagerkvist e Nicolau Maquiavel (1469-1527), a pesquisa que gerou a encenação tem como referência o trabalho dos pintores espanhóis Diego Velázquez (1599-1660) e Francisco de Goya (1746-1828); o filme “Os Anões Também Começaram Pequenos”, do cineasta alemão Werner Herzog; e o conceito de materialismo histórico do filósofo alemão Walter Benjamin (1982-1940).

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Meia-Meia

Com Luís Mármora

SESC Pompéia – Espaço Cênico (R. Clélia, 93 – Água Branca, São Paulo)

Duração 70 minutos

19/10 até 11/11

Quinta, Sexta e Sábado – 21h30, Domingo e Feriado – 18h30

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação: 16 anos

RÉQUIEM PARA O DESEJO

Companhia da Memória cria uma leitura contemporânea para o clássico Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams (1911-1983), emRéquiem Para o Desejo, com dramaturgia de Alexandre Dal Farra e direção de Ruy Cortez. A peça estreia no dia 5 de outubro, no Sesc Ipiranga, onde segue em cartaz até 4 de novembro, com sessões às sextas e aos sábados às 21h, e aos domingos às 18h (uma apresentação extra acontece na quinta-feira, dia 1º de novembro, às 21h).

Essa releitura livre inverte completamente os papéis desempenhados pelos personagens no clássico norte-americano. Stella torna-se uma mulher extremamente dominadora que tortura constantemente sua irmã Blanche. Para isso, Stella conta com a ajuda de seu fracassado marido Stanley e do macho forte e dominador Mitch, pretendente da irmã.

A inversão é uma forma de repensar algumas dessas figuras, como o proletário másculo. Acho que há um declínio dessa figura, no entanto, a estrutura que dá sustentação para ela ainda não se desfez na sociedade, de maneira que ele simplesmente se vê incapacitado de encontrar outro caminho para encaminhar os seus desejos. Stella tampouco consegue lidar com tal situação. Blanche se introduz nesse ambiente menos estável do que o original. No entanto, as alterações e a instabilidade, longe de gerar possibilidade de mudança, tendem a tornar as relações ainda mais estagnadas”, conta o dramaturgo Alexandre Dal Farra.

Em um cenário de terra arrasada, essas figuras buscam maneiras de estruturar as suas relações, que quase sempre resultam em explosões e choques irracionais e sem explicação. A ideia é lançar um olhar negativo para as figuras e situações criadas por Williams para investigar onde e como se instauram as diversas relações de poder, controle e repressão em uma estrutura social contemporânea.

Com uma narrativa polifônica – que mostra o ponto de vista aprofundado dos personagens, a encenação toma como eixos temáticos principais as culturas do patriarcado (do machismo), do capitalismo (neoliberalismo), da misoginia, do racismo, do colonialismo (neocolonialismo), do sucesso (reconhecimento, espetáculo, celebridade, competição e meritocracia) e da violência.  “Creio que o espetáculo trate de um desejo que não encontra mais caminhos para ter vida, porque os caminhos de que se alimenta são autoritários e ele não consegue se estruturar de forma diversa com tanta facilidade”, revela Dal Farra.

Para fazer essa crítica à sociedade capitalista contemporânea, a encenação adota como referências os conceitos da graça e do destino trágico presentes nas obras do cineasta dinamarquês Lars von Tier (sobretudo em Ondas do Destino); e a manifestação da ideologia fascista e da violência contemporânea presentes nos filmes do diretor alemão Michael Haneke (em A Fita Branca e Violência Gratuita).

Assim como a obra original, a encenação parte de uma sobreposição de tempos-espaços narrativos: a casa branca – aristocrática, burguesa e latino-americana -, que é representada pela releitura de Alexandre Dal Farra; e a casa negra – presente na peça de Williams nas imagens do cabaré onde ecoa o piano blues e na residência da vizinha negra. Este segundo plano não ficcional é composto por uma intervenção poética e musical das cantoras/atrizes convidadas Roberta Estrela D’Alva (em vídeo) e Denise Assunção.

Pareceu-me fundamental abrir essa questão por meio do estudo das feministas negras e do filósofo camaronês Achille Mbembe, além da peça A Serpente, de Nelson Rodrigues, que fala da realidade brasileira. A Roberta fará uma intervenção poética em vídeo a partir do spoken word, sobre a presença do domínio da opressão dos corpos dentro da estrutura político-social humana. E a Denise vai cantar um repertório surpresa de canções piano blues, nas quais ressoam cantos negros de trabalho, de opressão, de dominação, de amor, de morte e de desejo”, revela o diretor Ruy Cortez.

O espetáculo é a terceira parte da Pentalogia do Feminino, um conjunto de peças concebidas por Ondina Clais e Ruy Cortez, sobre temas autônomos vistos sob a perspectiva do feminino.

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Réquiem Para o Desejo

Com Gilda Nomacce, Jorge Emil, Marcos Suchara, Ondina Clais e Denise Assunção

Sesc Ipiranga (R. Bom Pastor, 822 – Ipiranga, São Paulo

Duração 90 minutos

05/10 até 04/11

Sexta e Sábado – 21h, Domingo e Feriado – 18h

$30 ($8 – credencial plena)

Classificação 16 anos

NA PAREDE DA MEMÓRIA

Inspirado na poesia do cantor e compositor cearense Belchior (✧1946 – ✙ 2017), o espetáculo Na Parede da Memória faz temporada de 3 de outubro a 28 de novembro, quartas-feiras, às 21h, no Teatro Itália, com ingressos vendidos a R$ 50.

O espetáculo tem direção de Paulo Merisio e texto de Fabrício Branco. Em cena, quatro amigos separados pelo tempo e por suas diferenças se reencontram em um apartamento onde todos já viveram antes. Fechando um ciclo da história, cada personagem deve retirar o que é seu do imóvel. O único desacordo parece estar na propriedade do disco Alucinação, de Belchior, objeto reclamado por todos.

Um reflexo do passado ganha cores contemporâneas, no desenrolar da trama que situa a história política atual do país e do mundo. Cada canção se torna rascunho do destino, tendo a poesia e a ação como forma de narrar essa história.

Músicas de Belchior, como Coração SelvagemGalos, Noites e QuintaisComo Nossos PaisÀ Palo SecoParalelasInspiraçãoVelha Roupa Colorida Apenas um Rapaz Latino Americano são executadas ao vivo em cena e também inspiram a dramaturgia do espetáculo.

A proposta do espetáculo já tinha sido pensada em 2013, mas foi colocada em prática em 2017. “Após a morte de Belchior sentimos que era hora de retomar aquele desejo antigo”, diz o diretor Paulo Merisio. “A percepção de que suas letras tinham potencialidade poética para a construção de uma bela dramaturgia nos inspirou desde aquela época”, completa.

Uma das propostas da encenação é discutir a atemporalidade dos temas de Belchior, artista que teve canções interpretadas por grandes nomes da cena nacional, como Elis Regina, Elba Ramalho e Fagner. “Além de homenagear o artista, a peça traz ainda muitas reflexões e questionamentos sobre sua obra, surpreendentemente contemporânea – Algumas letras que poderiam aparecer anacrônicas passaram a retomar vigor inesperado”, diz a equipe.

A peça fez temporada no Rio de Janeiro entre maio e julho, no Teatro dos Quatro e Teatro Cândido Mendes.

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Na Parede da Memória

Com Dezo Mota, Gloria Dinniz, Filipe Goulart e Nina Alvarenga

Teatro Itália (Av. Ipiranga, 344 – República, São Paulo)

Duração 70 minutos

03/10 até 28/11

Quarta – 21h

$50

Classificação 16 anos

SENHORA DOS AFOGADOS

Dirigido por Jorge Farjalla, o espetáculo “Senhora dos Afogados”, texto de Nelson Rodrigues, estreia no XP Investimento no dia 05 de outubro, sexta, depois de uma temporada de sucesso no Teatro Porto Seguro em São Paulo no primeiro semestre.

O elenco traz Alexia DechampsJoao VittiKaren JunqueiraRafael VittiFrancisco Vitti (que fará uma dobradinha com Rafael durante a temporada), Letícia BirkheuerNadia BambirraJaqueline Farias e Du Machado.

“Senhora dos Afogados” faz parte da saga mítica rodriguiana assim intitulada pelo crítico Sábato Magaldi. Escrita em 1947, segue a linha de“Álbum de Família” (1945), “Anjo Negro” (1946) e “Dorotéia” (1949) e traz uma forte simbologia que se aproxima das tragédias gregas, em que os clãs familiares se entre-devoram num inferno de culpas desmedidas. O projeto desta montagem nasceu de um desejo de Letícia Birkheuer de que Farjalla a desconstruísse num papel de teatro.

Os Drummond, uma família de três séculos, com mulheres que se gabam da fidelidade conjugal, choram a morte por afogamento de Clarinha, uma das filhas de Dona Eduarda e Misael Drummond, e, ao mesmo tempo, prostitutas do cais do porto interrompem suas atividades para lamentar a impunidade do assassinato de uma das suas que morrera há dezenove anos.

Nesta encenação, Jorge Farjalla – depois da ousada e elogiada versão de “Dorotéia” com Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller e de “Vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?”, com Paula Burlamaqui, Vitor Thiré e Yuri Ribeiro, um dos espetáculos mais falados deste ano no RJ – leva outra vez Nelson Rodrigues ao extremo contemporâneo e destaca a singularidade da religião em suas obras, em que o sagrado se alimenta do profano, teatralizando ainda mais, através dos signos e símbolos, revisitando a obra numa estética que comunga cenário, figurino, desenho de luz, som e música original, em um contexto singular aos olhos do teatro pós-moderno, riscando nesta montagem, mais uma vez, sua visão própria e original do texto com a marca arrojada e diferente que imprime nas encenações que dirige.

É uma montagem feita não pra chocar e sim pra refletir. A sociedade está indo para um lugar retrógrado, confundindo liberdade de expressão com exibicionismo. Não quero que o meu modo de ver ou olhar para a obra de Nelson seja rotulado ou criticado sem embasamento. Ao contrário, vamos pensar juntos; não consigo desassociar  religião e rito de sua odisseia mítica”, explica Farjalla.

Os atores vivem todos os personagens em cena, brincando com os arquétipos, para contar e narrar trajetória da família Drummond – nome que tem em seu significado “vindo do mar” – alguns assumindo os ‘vizinhos’, uma espécie de coro da tragédia grega, assim como seus próprios personagens, com sotaque local, pois a peça se passa em Recife, que é o mar da infância de Nelson, onde ele nasceu.

Um farol, sempre presente em cena, teatralmente representado como uma espécie de lamparina que o próprio ator-narrador executará em cena, é cenário para a religiosidade dos nativos que vivem no mar e emergem do mangue, para Iemanjá como símbolo de todo o contexto da obra, assim como as canções do cancioneiro popular da beira do rio e do mar, fazendo da encenação única e teatralmente cheia de signos e apresentando um Nelson trágico, profundo, íntimo, patético e absurdo.

Alexia Dechamps, que participou da encenação de “Dorotéia”, agora divide este segundo projeto com Farjalla assumindo a protagonista Dona Eduarda, junto com Karen Junqueira (Moema, irmã do Paulo), que estará fazendo Rita Cadillac no cinema, com estreia prevista para o segundo semestre. “Dois projetos com o mesmo autor e diretor, um trabalho de identidade de companhia, me colocando num lugar de risco do início ao fim, me provocando e instigando é algo que preciso celebrar. Certamente um momento único, feliz!”, comemora Alexia.

Já João Vitti e Rafael Vitti dividem pela primeira vez o palco e com personagens que remetem à vida real: pai e filho (Misael e o noivo, respectivamente) – que aqui no Rio ganha a dobradinha do Francisco com Rafael, durante a temporada. E um dos personagens masculinos será interpretado por Letícia Birkheuer, que viverá Paulo, filho do casal pescador, além de Du Machado, o vendedor de pentes. No elenco feminino também estão Nadia Bambirra (Dona Marianinha, a avó) e Jaqueline Farias, a prostituta morta, vizinha e outra prostituta do cais. Aqui vale uma observação: tanto os Vitti como Karen, Letícia e Nádia vivem pela primeira vez um texto de Nelson Rodrigues.

O cenário é assinado por José Dias e a trilha sonora por João Paulo Mendonça – ambos parceiros de Farjalla desde a montagem de “Paraíso AGORA! Ou Prata Palomares”, do roteiro do filme de André Faria, e “Dorotéia” – enquanto figurinos e adereços são de Jorge Farjalla em conjunto com Ana Castilho e a luz de Vladimir Freire e Jacson Inácio.

CARMEN (2)

Senhora dos Afogados

Com Alexia Dechamps, Joao Vitti, Karen Junqueira, Rafael Vitti, Francisco Vitti, Letícia Birkheuer, Nadia Bambirra, Jaqueline Farias e Du Machado

Teatro XP Investimentos – Jockey Club Brasileiro (Av. Bartolomeu Mitre, 1110 – Leblon, Rio de Janeiro)

Duração 90 minutos

05/10 até 25/11

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$60

Classificação 16 anos

TRILOGIA DA CIA DO RUÍDO

Uma assassina em potencial, uma noite de Natal em família e uma série de abusos sequenciais: esses são os enredos da trilogia da Cia. Do Ruído, com dramaturgia de Carol Rainatto. Em “Oito Balas”, Marion e Jean se encontram em situações limite e discutem seus atos perante a visão de uma sociedade hipócrita. Já em “Meia noite, feliz Natal” a família Assumpção chega ao estopim das brigas e protocolos familiares nesta noite tão celebrada. E por fim, “Cerbera” reúne personagens que estão em conflito direto com suas verdadeiras essências.

A trilogia e temáticas foram desenvolvidas a partir de preceitos, conceitos, doenças, questões sexuais, obscuridade e profundidade. O labirinto de composições e este ser humano que o habita. O impulso da ação imediata. Oito Balas, Meia noite feliz Natal e Cerbera carregam consigo uma classe média sem coragem de assumir suas perversões, que são usualmente escondidas em seus discursos libertários. A hipocrisia é uma constante na linha do raciocínio das personagens que se encontram em verdadeiras situações de desespero, cada qual em seu âmbito, campo e espaço de situação. Uma concepção crua e de matéria bruta, encontrada até mesmo na cenografia aderida por cada uma das peças, desde sua estética à composição.

Dores humanas são expostas e vividas de forma intensa em cada uma das trajetórias. A contradição, a dualidade, a invenção de si.  As dramaturgias levantam pontos cotidianos. A visão do público é colocada em direta intimidade com as tramas colocadas. Os jogos de organização e desorganização estética jogam diretamente com a contrariedade da realidade da mente de cada um dos personagens, que possuem uma desestruturada e desorganizada psique.

A ironia plantada e semeada dispõe um jogo que se ofusca entre o patético, a comicidade banal, os assuntos velados, os falsos segredos, a sedução e a poesia assustadora. A explicitação de uma sociedade contemporânea deformada, sempre no limite entre a loucura e a morte.

Sinopses

Meia Noite, Feliz Natal

É noite de natal, e a família Assumpção te convida a espiar pela fechadura. Os filhos de Dona Martha se reúnem pela primeira vez sem sua presença e não imaginam que esta noite pode ser o estopim para a família. Em momentos em que a celebração e a nostalgia se encontram, ou sai briga, ou sai festa… Ou saem os dois. Conflitos e revelações muito pessoais vêm à tona ao som dos brindes natalinos. Bem-vindos a MEIA NOITE, FELIZ NATAL.

Cerbera

Planta venenosa. Divulgada vulgarmente como: “a arma do crime perfeito”. Uma vez usada para fins obscuros, pode inclusive matar por intoxicação sem deixar quaisquer vestígios. Em Cerbera, o público é convidado a observar mais claramente questões das quais, muitos de nós, infelizmente ainda não querem ver, ouvir, ou participar. Relações que ainda desafiam nossa compreensão como seres vivos entrelaçam todos esses personagens.

Oito Balas

Um bar decadente. Este é o cenário do encontro de dois seres enigmáticos prontos a explodirem segredos em um jogo psicológico que vai te provar que a mente humana é um grande poço sem fundo. Marion e Jean permitem que os espectadores tirem suas próprias conclusões e julguem a suas histórias. Assassinato, traições e mentiras estão prontos a emergir.

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Meia Noite Feliz Natal
Com Beto Schultz, Carol Rossi, Ynara Marson, Rodrigo Castro, Victória Blat, Eliot Tosta, Frederico Vasques e Mariana Spinola
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 75 min
19, 20, 21 e 22/10
Sexta, Sábado e Segunda – 21h, Domingo – 19h
$40
Classificação 14 anos
 
 
Cerbera
Com Beto Schultz, Carol Rainatto, Carol Rossi, Ynara Marson e Rodrigo Castro
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 80 min
26, 27, 28 e 29/10
Sexta, Sábado e Segunda – 21h, Domingo – 19h
$40
Classificação 16 anos
 
 
Oito Balas
Com Carol Rainatto e Mateus Monteiro
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 50 min
01, 02, 03 e 04/11
Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h
$40
Classificação 14 anos