A PROFISSÃO DA SRA. WARREN

Com diálogos ácidos e brilhantes, a tragicomédia A Profissão da Sra. Warren, do irlandês Bernard Shaw, considerado um dos maiores dramaturgos de língua inglesa ganha uma nova encenação com direção de Marco Antônio Pâmio e tradução da atriz Clara Carvalho.

A trama começa em uma casa de campo em Surrey, que a jovem e inteligente Vivie Warren (Karen Coelho) alugou para estudar direito. Com apenas 22 anos, a menina foi criada longe de casa e estudou nos melhores colégios e frequenta a Universidade de Cambridge. Por isso, ela não conviveu com a mãe, Sra Warren (Clara Carvalho).

Neste lugar, Vivie recebe a visita de amigos da mãe que não conhecia, como o arquiteto Praed (Mário Borges), um tipo romântico e esteta; o jovem de moral duvidosa Frank Gardner (Caetano O’Maihlan), que logo se enamora da moça; o barão milionário Sir. George Crofts (Sergio Mastropasqua); e o reverendo Samuel Gardner (Cláudio Curi), pai de Frank, o mais velho conhecido da Sra. Warren, cujo passado esconde uma chocante revelação.

Entre discussões fervorosas e bem-humoradas sobre o enriquecimento, a hipocrisia social e os paradoxos morais, a filha descobre que sua educação refinada foi financiada por uma rede internacional de bordéis comandada pela Sra. Warren. A mãe entrou para essa vida por necessidade, mas, no final das contas, torna-se uma bem-sucedida empresária do ramo e trabalha por puro prazer.

Escrita entre 1893 e 1894, “A Profissão da Sra. Warren” foi proibida de ser encenada na Inglaterra e nos Estados Unidos no começo do Século 20. “A peça tem um caráter transgressor, com discussões muito à frente de seu tempo, principalmente no que tange ao papel da mulher na sociedade. Shaw nos fala do hoje tão discutido ‘empoderamento feminino’ quando esse tipo de debate era impensável na época. Ele nos fala de ‘uma nova mulher’: independente, ‘dona do seu nariz’, com opinião e personalidade próprias. Na época da peça, as mulheres sequer podiam votar”, comenta Pâmio.

A montagem assume a opção estética de deslocar a ambientação da trama, que foi escrita na última década do século 19, para os anos de 1950. “Manter a encenação fiel à época original nos faria correr o risco de soar anacrônicos diante de tantas conquistas da mulher durante este século e pouco que nos separa da época em que a peça foi escrita e os dias de hoje. Trazer a história para a atualidade também soaria estranho. Assim, a década de 1950 nos situa nesse terreno intermediário, quase ‘pré-feminista’. Estamos falando de assuntos bastante espinhosos, mas ainda num contexto ‘de época’“, acrescenta.

Essa mudança de contexto implica mudanças na cenografia e figurino. “Os figurinos seguirão essa tendência de uma maneira bastante fiel. O texto possui quatro atos, sendo que nenhum deles acontece no mesmo ambiente. Para evitar a quebra da fluência na narrativa através de trocas de cenário durante os entreatos, optamos por uma cenografia mais neutra e abstrata, em que os ambientes são mais sugeridos do que traduzidos de maneira realista. A trilha sonora preencherá os climas de tensão e distensão da trama, alicerçada fundamentalmente nos embates verbais entre os personagens e as ideias que eles defendem, através não só de temas musicais mas também de outras sonoridades”, comenta o diretor.

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A Profissão da Sra. Warren

Com Clara Carvalho, Karen Coelho, Caetano O’Maihlan, Cláudio Curi, Mario Borges e Sergio Mastropasqua

Auditório MASP (Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo)

Duração 100 minutos

11/05 até 22/07

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

$30/$50

Classificação 12 anos

 

CARMEN

Sucesso de público e crítica, Carmen tem sua nova temporada no Auditório do MASP prorrogada até o dia 25 de fevereiro de 2018.  Texto de Luiz Farina, direção de Nelson Baskerville com Natalia Gonsales, Flávio Tolezani e Vitor Vieira no elenco.

Como idealizadores, Natalia Gonsales e Flávio Tolezani, responsáveis pela produtora cultural BEM CASADO PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA, optaram pela montagem de um clássico que relata a história de uma das personagens mais conhecidas: “Já ouviu falar de Carmencita?”.  De fato, a cigana não demorou a passar das páginas aos palcos e destes, às telas. No cinema, diversos diretores assinaram adaptações próprias da história, entre eles se destaca Chaplin, Peter Brook, Lubitsch, Saura e Godard. Mas o sucesso da narrativa teve o seu preço.

A figura esquiva e inconstante criada por Mérimée foi perdendo espaço para uma “femme fatale”.  Portanto, esse projeto tem como objetivo a montagem do espetáculo, o resgate dos principais personagens criados por Mérimée para que o público volte a se intrigar e querer decifrá-los. E assim, basear-se na literatura de Prosper Mérimée também permitirá que a construção cênica explore a cultura cigana numa linguagem contemporânea. Com intuito de unir num único espetáculo o teatro, a dança e a música, os movimentos e as coreografias serão dirigidos pela bailarina do Balé da Cidade Fernanda Bueno. Nelson Baskerville assina a direção geral do espetáculo.

Em Carmen o público conhece o mundo fascinante e perigoso da boêmia que se opõe às normas burguesas, já que a sua figura foi deformada da original, principalmente na ópera e no ballet, tornando-a assim familiar, o que não deixa de ser uma situação insólita para quem, como ela, sempre se recusou terminantemente a constituir um laço familiar. Uma mulher que não teme a morte, fascinada pelo risco e capaz de prever o seu trágico destino.

Admiração, pulsão, curiosidade, interesse pela cultura cigana e pela personagem CARMEN foram fundamentais para essa iniciativa artística. O desejo impulsionou a ideia e a vontade de levar essa personagem, carregada de uma forte personalidade e de uma trágica história, ao teatro.

Uma dramaturgia clássica merece ser conhecida, visitada, discutida e revistada. Pois, quando são vivenciadas de fato, mais se revelam novas, inesperadas e inéditas. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira. Um clássico é uma história que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer e que, por isso, atravessa o tempo e atualiza questões verdadeiramente fundamentais à existência, ao expandir, de maneira contínua, a percepção da realidade daqueles que, com ele, entram em contato.

Porém, a dinâmica da dramaturgia criada pelo dramaturgo Luiz Farina, a partir da obra do Mérimée, não admite apenas uma interpretação. Carmen, também como narradora, poderá relatar os acontecimentos que levaram à sua tragédia. E assim, a montagem tem como intuito não apenas encenar essa história, mas oferecer ao público elementos conflitantes e contraditórios de uma mesma realidade contados por duas pessoas com pontos de vista divergentes e que são surpreendidas pelo desejo e pela paixão.

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Carmen
Com Natalia Gonsales, Flávio Tolezani e Vitor Vieira.  
Auditório MASP (Av. Paulista 1578 – Bela Vista, São Paulo)
Duração 60 minutos
20/01 até 25/02
Sábado – 21h, Domingo – 20h
$50
Classificação 12 anos

MARTE, VOCÊ ESTÁ AÍ?

Na peça, as ruas do país estão em chamas e tempestades espaciais afetam as redes elétricas e os sistemas de comunicação. Neste mundo de asfalto em brasa e sistemas de poder em combustão, uma militante (Michelle Ferreira) se esconde numa casa esquecida, posta à venda. Sua mãe (Selma Egrei), sobrevivente de uma nem tão distante ditadura, a procura há muito tempo, até que um misterioso Intruso (Jorge Emil) a encontra.

Para Silvia Gomez, vencedora dos prêmios APCA e Aplauso Brasil de 2015 pelo texto de Mantenha Fora do Alcance do Bebê, o mundo contemporâneo é sempre inspiração para a construção dramatúrgica. “Quando se está diante de tamanho caos como o que vivemos, dentro e fora do país, com políticas intolerantes e injustas ganhando bizarra aceitação e com tantas visões muitas vezes contraditórias sendo colocadas como verdades absolutas a todo instante, tudo se torna mais irracional do ponto de vista da criação. Bernard-Marie Koltès, dramaturgo francês que admiro, colocou certa vez – Ao descobrir a violência política por dentro, eu não podia mais falar em termos políticos, mas em termos afetivos. Nesse sentido, acho que a peça tenta observar a contradição mais profunda de cada personagem – um olhar que passa por dentro para quem sabe ter alguma pista sobre o que se dá lá fora”.

O texto tem muitas camadas. Quando parece chegar ao fundo, você se surpreende ao perceber que pode ser mais fundo ainda. A Silvia Gomez escreve poesia. É uma peça aberta que abraça instabilidades sem polarizar. A cena propõe uma leitura múltipla em diálogo com o momento que vivemos. Sem apontar certezas – e muito mais levantando perguntas – tentamos entender sob a ordem poética o mundo em carne viva que aí está”, comenta Gabriel Paiva.

Marte, Você Está Aí? celebra muitos reencontros profissionais. Gabriel e Silvia trabalharam juntos pela primeira vez há exatos 20 anos, ainda em Belo Horizonte (MG), quando se conheceram. Silvia e Michelle se conheceram no Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), em 2003, e ambas são dramaturgas da mesma geração. A parceria entre Jorge Emil e Gabriel também vem de longa data, quando integraram o elenco de Ricardo III, em 1999, em Belo Horizonte. Recentemente, Jorge atuou em Uma Espécie de Alasca, peça dirigida por Gabriel, em 2015. Silvia Gomez ainda assinou a dramaturgia de O Amor e Outros Estranhos Rumores (a partir da obra de Murilo Rubião) e fez as traduções de Contrações, de Mike Bartlett, e de O Continente Negro, de Marco Antônio de La Parra, projetos do Grupo 3 de Teatro, do qual Gabriel é integrante e fundador, junto com Yara de Novaes e Débora Falabella.

Selma Egrei, que completa 47 anos de uma carreira dedicada ao cinema, ao teatro e à televisão, com muitos prêmios ao longo dessa trajetória (ela acaba de receber o APCA), foi convidada para integrar o elenco. “Selma possui grande expressividade corporal e sofisticada interpretação do texto. Ela contribui a cada palavra. Michelle, Selma e Jorge são o trio precioso para o espetáculo por serem atores propositores da cena: suas interpretações multiplicam as possibilidades de entendimento”, comenta Gabriel Fontes Paiva.

Dr Morris, vencedor do último Prêmio Shell, faz a trilha sonora do espetáculo. O premiado cenógrafo André Cortez assina o cenário e Fábio Namatame, também premiadíssimo, o figurino. Ana Paula Lopez assina a assistência de direção e a direção de movimento. A experiente Marlene Salgado está na direção de produção.

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Texto: Silvia Gomez. Elenco: Selma Egrei, Michelle Ferreira e Jorge Emil. Direção: Gabriel Fontes Paiva. Assistência de direção: Ana Paula Lopez. Trilha sonora: Dr Morris. Cenário: André Cortez. Figurino: Fábio Namatame. Direção de produção: Marlene Salgado.

Serviço

Auditório MASP: Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista

Temporada: de 9 de junho à 30 de julho, sextas e sábados às 21h e domingos às 20h.

Ingressos: 20,00

Duração: 90 min

Censura: 14 anos