GAIVOTA: QUAL O GESTO DE UM SONHO?

O espetáculo Gaivota: qual o gesto de um sonho?, quinta montagem dos Heterônimos Coletivos de Teatro, estreia no dia 11 de janeiro, sexta, no Sesc Belenzinhoàs 21h30.

Com dramaturgia de Eduardo Joly e direção de Felipe Rocha, a peça investiga a obra do russo Anton Tchékhov (1860-1904) para indagar o que pode ser feito quando os sonhos estão desfeitos.

A partir da sensação de fracasso político e de ruína dos sonhos coletivos, o grupo iniciou o Projeto: Fracasso e Resistência que consiste npesquisa das quatro principais obras de TchékhovA GaivotaAs Três IrmãsTio Vânia e O Jardim das Cerejeiras. A peça Gaivota: qual o gesto de um sonho? é a primeira parte do projeto e tem elenco formado por Alexandra Tavares, Ametonyo Silva, Caio Caldas, Danilo Arrabal, Felipe Rocha, Lívia de Souza, Marcela Grandolpho, Naia Soares e Thaina Muniz.

Com uma dramaturgia criada coletivamente, o espetáculo move, no espaço vazio e reorganizável da cena, uma ação que se aproxima da questão: qual o gesto de um sonho? Da obra original do dramaturgo russo, o coletivo chegou a três acontecimentos principais que norteou a criação do trabalho: o fracasso de uma peça de teatro, a morte de uma gaivota em pleno voo e as tentativas de seguir sonhando diante dessa sensação de vazio. É a partir desses três pontos principais que a obra orbita.

Em uma arena vazia, os atores são atravessados por essas questões e se colocam em ação diante do público. Como em uma revoada de pássaros, as cenas se transformam continuamente sempre movidas pela ação dos atores. Segundo o diretor Felipe Rocha, “pensar a obra pelo viés de uma gaivota, que migra, gera a possibilidade de movimento”. Ele esclarece que migrar é como uma situação criativa, como uma atitude de revolta contra as condições estabelecidas. “É uma forma de engajamento para possibilitar transformações”, diz. 

Quando começaram a criar, em outubro de 2017, o que moveu o coletivo foi uma sensação, percebida após os acontecimentos políticos da época: “uma sensação de fracasso percorria os caminhos invisíveis entre as pessoas; algo que se assemelhava ao susto de acordar num sobressalto, após um sonho”, comentam os atores. Ao mesmo tempo, movimentos se articulavam por novas formas de ações de resistência. A nós parece que são esses dois vetores, essas duas sensações que mais fortemente têm percorrido nossos corpos enquanto cidadãos brasileiros, e então foi daí que partimos”, esclarecem. E foi dessa busca de dramaturgias, que também tivessem essas duas linhas de ação pulsando forte, que o coletivo chegou a Anton Tchékhov. Vivendo em uma Rússia em transformação, as obras carregam em suas personagens a potência da ação em busca de novas formas de se viver, ao mesmo tempo em que aflora uma profunda sensação de fracasso de diversos ideais e instituições. É um tentativa de existência em momentos de crise.

 A partir disso, as questões iniciais do processo criativo foram: o que fazer no campo artístico diante da sensação de vazio? Como reinventar as formas de sonhar e de se projetar como ação para o futuroA primeira resposta que pareceu possível ao coletivo foi “criar espaços de resistência coletiva em meio à sensação de fracasso”, concluem. Assim, foi por essa necessidade de repensar qual prática teatral era essa que gostariam de pesquisar nesse momento que o coletivo resolveu iniciar o projeto com a pesquisa de A Gaivota, texto em que a própria arte do teatro é colocada como um dos temas de discussão.

 Gaivota: qual o gesto de um sonho? foi elaborado ao longo de 2018, mediante a constatação, diante dos acontecimentos que percorreram esse ano, de que a sensação de fracasso se aprofundava e se tornava mais palpável e assustadora. “O teatro, então, se mostrou para nós como o campo possível dos afetos nesses dias tão áridos. Viver esse processo foi uma maneira de reaprender como estar juntos no mundo. E é isso que desejamos nesse encontro com o público: criar uma relação real de troca e afeto”, conclui diretor Felipe Rocha.

 

Encontros: Como uma Multidão Ainda É Capaz de Coexistir e Sonhar Junto?

Com: Heterônimos Coletivo de Teatro  

Tendo como ponto de partida os procedimentos para investigar o que o grupo chama de “Ação Coletiva”, os encontros buscam um aprofundamento na técnica física e vocal do ator. Para que os atores pesquisem caminhos para agir coletivamente em cena, o grupo propõe treinamentos de movimento, ação psicofísica e canto na busca por criar estados de escuta e jogo. O trabalho do grupo vem se articulando numa tentativa de resistir na prática de uma cena feita por muitas pessoas e que se constrói através de diferentes olhares sobre os materiais. Como uma multidão ainda é capaz de coexistir e sonhar junto? Ainda é possível? É a partir dessas questões que o coletivo pretende mover esses encontros. No último dia de trabalho o grupo se interessa em abrir publicamente, em espaços da unidade, o material cênico investigado.

Datas: 29/01 a 07/02. Terça a quinta, das 16h às 20h

Público: Profissionais e estudantes de artes cênicas. Vagas: 30.

Local: Sala de Espetáculos I. 90 lugares.

Grátis. Não recomendado para menores de 16.

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Gaivota: Qual o gesto de um sonho?

Com Alexandra Tavares, Ametonyo Silva, Caio Caldas, Danilo Arrabal, Felipe Rocha, Lívia de Souza, Marcela Grandolpho, Naia Soares e Thaina Muniz

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I ( R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 90 minutos

11/01 até 10/02

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 12 anos

PÉ DE PALHAÇO

Durante o mês de dezembro, o Sesc Belenzinho apresenta o infantil circense Pé de Palhaço com a Cia. Pelo Cano. A temporada tem sessões aos sábados e domingos, às 16h, até o dia 22/12. Já no dia 23/12, a apresentação ocorre às 12h. O espetáculo acontece na Área de Convivência da unidade, com entrada franca.

Pé de Palhaço reúne esquetes, números clássicos de circo, criações próprias e muita criatividade. Duas palhaças, Emily e Manela, contam histórias de princesas, organizam uma festa surpresa, adivinham o pensamento da plateia, se transformam em homensn, tentam aprender origami, brincam com água e sabão e, claro, limpam tudinho depois.

Toda essa aventura é narrada com o auxílio de papel, caneta e muita paspalhice. Com recursos despojados, as palhaças se divertem com as crianças numa grande brincadeira, bem próximas do universo infantil onde a magia se instaura nas coisas simples e as coisas mais cotidianas podem ser grandes descobertas.

Cia. Pelo Cano é formada por Paola Musatti e Vera Abbud, ambas trabalham com a linguagem do palhaço há mais de 20 anos. Começaram a praticar as disciplinas circenses e o teatro no início da década de 90. Profissionalmente, dividiram o palco nas apresentações da Cia. Cênica Nau de Ícaros, em 1992, dos Parlapatões, em 1996, são palhaças improvisadoras no Jogando no Quintal, desde 2002, e parceiras nos Doutores da Alegria, desde 1991.

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Pé de Palhaço

Com Paola Musatti e Vera Abbud

Sesc Belenzinho – Área de Convivência térreo (Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho – São Paulo)

Duração não informada

01 a 22/12

Sábado e Domingo – 16h (23/12 – Domingo – 12h)

Grátis

Classificação Livre

EU OUTRO

No dia 30 de novembro, sexta, às 20 horas, o Sesc Belenzinho recebe única apresentação de Eu Outro, montagem da Cia. Fragmento de Dança.

O espetáculo tem direção e coreografia assinadas por Vanessa Macedo que também está em cena ao lado dos outros intérpretes: Chico Rosa, Daniela Moraes, Diego Hazan, Letícia Mantovani e Maitê Molnar.

O espetáculo de dança contemporânea parte da investigação de um procedimento que a companhia nomeia como ‘dança depoimento’, no qual invade, expõe e divide ambientes íntimos, não somente para falar de si, mas para tornar-se o outro. O espetáculo busca sondar o que arte e vida dizem uma sobre a outra e de que forma memórias não são propriedades exatamente privadas. Assuntos como sexualidade, gênero e instinto atravessaram o processo criativo numa perspectiva da alteridade – quem é o outro que olho e me olha? Quem é o outro de mim mesmo?

O processo Eu Outro é fruto do Projeto Atravessamentos, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo. Estreou e ficou em cartaz na ocupação Encontros na Cena Depoimento, na Funarte SP, em dezembro de 2017.

Dirigida por Vanessa Macedo e sediada em São Paulo, a Cia. Fragmento de Dança desenvolve pesquisa e criação em dança contemporânea, desde 2002, já tendo 15 montagens em sua trajetória. Na busca por uma dança teatralizada, preocupa-se com a construção de uma dramaturgia do corpo e da cena coerente com os temas pesquisados. Suas criações são marcadas pela inspiração em artistas, obras e conteúdos, especialmente, confessionais. A partir do tema, discute as relações vividas pelo homem – ser social e ser solitário. A companhia constrói vocabulário de movimento próprio que visa uma estética dramatúrgica autoral.

Eu Outro

Com Chico Rosa, Daniela Moraes, Diego Hazan, Letícia Mantovani, Maitê Molnar e Vanessa Macedo – Cia Fragmento de Dança

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos II (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 70 minutos

30/11

Sexta – 20h

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 16 anos

POSIÇÃO DE ARMAZENAMENTO

Dias 5 e 6 de outubro, sexta e sábado, a bailarina Thiane Nascimento apresenta o solo Posição de Armazenamento no Sesc Belenzinho, às 20 horas. O espetáculo tem como proposta articular de modo irônico e crítico as relações entre corpo e gênero.

A artista também ministra a oficina Que Corpo É Esse?, partindo da discussão inserida no espetáculo, nos dias 3 e 04 de outubro, quarta e quinta, das 15h às 18 horas. As inscrições são grátis.

Posição de Armazenamento tem como ponto de partida os termos sexistas que relacionam a mulher a um animal cuja carne serve de alimento diário para diversos povos, cujo corpo é utilizado em rituais religiosos, que bota ovos não fecundados todos os dias e não pode voar. A fertilidade e infertilidade, potencial de voo e a incapacidade de decolar, o sagrado e o profano servem como exploração de uma qualidade corporal precária e instável.

A obra surgiu em 2013 durante uma residência artística em Lisboa, onde Thiane Nascimento pôde experimentar a fronteira entre bicho e humano em uma granja. No ano de 2016, a autora compartilhou parte do processo de criação e os procedimentos corporais desse corpo instável em uma penitenciaria feminina, em São Paulo, e em uma mini residência na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Em 2017, a peça participou da mostra de solos em processos no espaço Kasulo. Desde então, o que existe sobre o espetáculo é um arsenal dramatúrgico sendo formatado no espetáculo.

Oficina: Que Corpo é Esse? – A atividade parte da discussão sobre corpo e gênero do espetáculo Posição de Armazenamento e busca criar um campo de experimentação. Fazer e conversar, conversar e fazer. A oficina também propõe aos participantes procedimentos corporais como instabilidade e estabilidade a serem investigados no corpo de cada um presente.

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Posição de Armazenamento

Com Thiane Nascimento

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos II (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 90 minutos

05 e 06/10

Sexta e Sábado – 20h

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 18 anos

Oficina: Que Corpo é Esse?

Data: 3 e 4 de outubro. Quarta e quinta, das 15h às 18h

Local: Sala de Espetáculos II.

Não recomendado para menores de 18.

Grátis. Público: interessados em geral pelas artes do corpo.

Inscrições: oficinadedanca@belenzinho.sescsp.org.br – enviar de carta de interesse até dia 29/09.

 

WENDY E PETER

Anos após ter vivido aventuras mágicas na Terra do Nunca, onde conheceu fadas, piratas malvados, feras selvagens, tribos indígenas, os garotos perdidos e o temido crocodilo tic tac, Wendy (Ziza Brisola) cresceu. Já adulta, recebe em seu quarto a visita de Peter Pan (Patrícia Rizzi), companheiro de aventuras que já não consegue se lembrar dos momentos que viveram juntos. Esse é o mote do espetáculo Wendy e Peter, da Cia Linhas Aéreas, que entra em cartaz dia 14 de abril, sábado, meio-dia, no teatro do Sesc Belenzinho.

Adaptado pelas próprias atrizes do livro Peter e Wendy, escrito por J. M. Barrie, publicado em 1911 – sete anos após a estreia da peça que tornou famosa a história de Peter Pan – o espetáculo da Cia. Linhas Aéreas propõe uma encenação de artes integradas, onde circo, teatro, dança contemporânea e Kung-Fu se encontram. Quem assina a direção e colaboração na dramaturgia é Bruno Rudolf, parceiro artístico da companhia desde 2006.Na nova montagem, as intérpretes-criadoras privilegiam a figura feminina na obra de Barrie. “Entendemos que o livro e a peça de teatro homenageiam as mulheres e também as boas mães”, diz Ziza. Foi a partir desse entendimento que as artistas fizeram com que o nome de Wendy viesse antes do de Peter na peça.

Peter Pan é uma figura que está o tempo todo em busca de uma mãe – ele procura isso na Wendy e é muito ressentido por ter sido abandonado da infância. Refletir sobre o feminino na arte é um foco constante na trajetória da Cia.Linhas Aéreas e nos parece especialmente necessário num momento como o atual, em que esse tipo de debate ganha mais força e gera reações na sociedade.”, complementa Ziza. Para criar a figura dúbia de Peter Pan, um menino que carrega a infância em si – com suas ingenuidades, fantasias, emoções e crueldades – a companhia apostou no uso do Shen She Chuen Kung-Fu, luta oriental praticada pela atriz Patrícia Rizzi há 22 anos. “Entendemos que o movimento da luta tinha tudo a ver com algumas características do Peter, como a astúcia, a molequice e a determinação”, diz Patrícia.

Para ela, a fusão das artes funciona muito bem com os pequenos. “As crianças são o melhor público para experimentarmos essas misturas. Na cabeça deles a arte não está dividida, então eles estão livres de julgamentos e prontos para receber as nossas propostas”, complementa. A artista teve os movimentos de luta dirigidos por Luis Pelegrini, seu professor de Kung-Fu desde o início da sua trajetória nesta arte marcial. Pelegrini já participou do elenco do Cirque du Soleil entre 1999 e 2002 como um dos personagens principais do espetáculo Dralion, que fez temporada pelos Estados Unidos da América e Austrália.

Wendy e Peter. Foto - Francisco Miguez (20)

Árvore Cenográfica

Da casa de Wendy a um navio pirata; do céu em que as crianças voam até à casinha na árvore subterrânea da Terra do Nunca: tudo que se passa no espetáculo está representado numa única estrutura cenográfica, uma árvore de 4 metros de altura – peça de ferro criada pelo diretor de arte, cenógrafo, figurinista, arquiteto e artista visual Renato Bolelli Rebouças.

Nessa árvore, equipada com diversos aparatos técnicos de circo, as atrizes realizam voos e suspensões utilizando técnicas de dança aérea e penduradas por elásticos, cordas e tecidos. Transitam o tempo todo pela estrutura com movimentos acrobáticos e coreografias aéreas que vão transformando seus espaços nos diferentes lugares por que a história passa. No chão há o Kung-Fu estilo serpente sagrada, acrobacias de solo e dança contemporânea. Esta cenografia já foi utilizada pelo grupo em 2009, em um espetáculo adulto de dança-teatro chamado O Animal na Sala, com direção de Renata Melo.

Bruno Rudolf, diretor da peça, conta que já tinha certa intimidade com a árvore antes de assumir a direção. “Assisti ao espetáculo anterior e também participei de uma instalação na árvore em uma edição da virada cultural”, conta. O artista é integrante da Cia. Solas de Vento, que também tem se destacado na criação de espetáculos multiartísticos. Nos seus trabalhos, são usados recursos audiovisuais, de circo e de teatro físico. “Entrei como diretor da peça após dois meses que as meninas já tinham começado a levantar materiais. Meu papel foi trazer esse olhar externo e ordenar tudo que elas já vinham desenvolvendo”, diz. Wendy e Peter é o quarto espetáculo dirigido por Bruno, sendo o primeiro voltando para crianças. Bruno tem vasta experiência de atuação em peças infantis e mais de dez anos de experiência como professor de arte-edução.

Wendy e Peter. Foto - Francisco Miguez (2)

Wendy e Peter
Com Patrícia Rizzi e Ziza Brisola
Sesc Belenzinho (R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)
Duração 60 minutos
14/04 até 13/05
Sábado, Domingo e Feriado – 12h
$20 ($6 – credencial plena SESC)
Classificação Livre

ISTO É UM NEGRO?

Como transformar teoria em cena? Como discutir negritude e questões raciais a partir da experiência singular de cada um dos intérpretes? ISTO É UM NEGRO?, que estreia no dia 2 de março, sexta-feira, às 21h30, no Sesc Belenzinho, propõe algumas hipóteses possíveis para essas perguntas. A montagem, com direção de Tarina Quelho e dramaturgismo de José Fernando Peixoto de Azevedo, traz no elenco Ivy Souza, Lucas Wickhaus, Mirella Façanha e Raoni Garcia.

ISTO É UM NEGRO? é  também um estudo sobre como implicar e  estar implicado em um assunto e, para tanto, explora na cena os limites entre autobiografia e ficção, assim como entre o humor e o constrangimento, misturando diversas linguagens e formatos, do stand-up ao vídeoclipe. Sempre buscando engajar a plateia nestes acontecimentos, é  a  conversa que dita o tom despretensioso do discurso levado ao palco.

Para a diretora Tarina Quelho, discutir negritude numa equipe formado por negros, negras, brancos, mestiços indígenas e japoneses, foi desafiador e muito importante para construção do espetáculo, e revelou com quem queremos dialogar: um Brasil mestiço e racista. “Enquanto não entendermos que racismo é um sistema e que todos estamos dentro dele, e somente pessoas negras se interessarem por discussões raciais, avançaremos pouco nesta conversa. É preciso que todxs  estejam engajados para o fim dessa sociabilidade excludente, escravocrata e cruel, e a peça, como tantas outras iniciativas em vários campos, que falar sobre isso”, explica ela.

Cadeiras amontoadas

Pela mesma porta que o público entra no teatro para assistir ao espetáculo, entram três intérpretes molhados – vestidos e encharcados de água. Olham as pessoas que ali estão para assistir, olham uma pilha de cadeiras brancas amontoadas no proscênio e se perguntam: nós? E logo concluem: nós! Tiram as roupas molhadas, com dificuldade porque estão pesadas e coladas no corpo, e sobem no palco empurrando a montanha de cadeiras brancas. Empurram juntos até que haja espaço para que eles ocupem aquele lugar.

Uma atriz que toma de assalto o espaço que não é dela, um “ex-branco”, uma mulher negra num show de stand up e um menino negro e “bicha” são algumas das figuras  criadas pelos atores e que aparecem nas cenas do espetáculo, que tem estrutura episódica e faz da metalinguagem seu brinquedo.

Foi lendo e estudando Angela Davis, Fred Moten, Achille Mbembe, Bel Hooks, Grada Kilomba, Frantz Fanon, Sueli Carneiro, Mano Brown e Aimé Cesaire, que o grupo elaborou as questões presentes em cada uma das cenas do espetáculo.

Diálogo com público

De acordo com Tarina Quelho, a pergunta ISTO É UM NEGRO? do título do espetáculo não busca uma resposta ou conclusão e sim friccionar a invenção do negro e tentar elaborar a experiência do que é ser e existir como negro, hoje no Brasil. “A interrogação é uma proposição para o diálogo com o público, a partir do encontro, pensamos sobre como o reconhecimento de nossas trajetórias são pontos de partida para a construção de novas experiências”, conta a diretora.

Em um país que possui maioria da sua população negra  e que ao mesmo tempo é cenário de processos de aniquilação desta, da sua cultura e identidade, é necessário enxergar que o racismo opera como método de controle social, regendo desigualdades, velando sua atuação de forma sofisticada, se enraizando de maneira truculenta através das relações de opressões cotidianas e contínuas.

A inquietação que busca respostas para os efeitos que o racismo produz em nossa sociedade, gera paralelamente uma contra-força que evoca um coro de indivíduos que pretendem através do reconhecimento do seu percurso e compreensão de sua identidade, causar uma ruptura da manutenção de práticas que neguem sua subjetividade. Perguntar é uma forma de negar a manutenção dessas estruturas”, defende Tarina.

Liberdade de expressão

Como campo de experiências sensíveis, a arte tem potência para dar forma a territórios poéticos heterogêneos, onde coexistem liberdades de expressão e expressões de liberdades diversas. Por meio da presente atividade, o Sesc reitera o seu compromisso com a cultura e com a educação, ao trazer à baila produções e processos artísticos que debatem a liberdade de expressão concretamente, em sua imbricação com a liberdade dos corpos – que precisa ser construída permanentemente.

03.2018 - Teatro - Isto e um Negro - Lucas Brandao

Isto é um Negro?
Com Ivy Souza, Lucas Wickhaus, Mirella Façanha e Raoni Garcia
Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)
Duração 90 minutos
02 a 11/03
Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30
$20 ($6 – credencial plena)
Classificação 18 anos

TERRÁRIO – DANÇA PRIVÊ NUM PORTAL INTERDIMENSIONAL

Em TERRÁRIO – DANÇA PRIVÊ NUM PORTAL INTERDIMENSIONAL o artista curitibano Maikon K trabalha nas fronteiras entre performance e dança, teatro e ritual. A ação faz apresentações dias 23, 24 e 25 de fevereiro, sexta-feira e sábado às 21h30 e domingo às 18h30.

O foco da arte de Maikon K é o corpo como instaurador de realidades e os limites entre humano e não humano. A ação dá continuidade à pesquisa do artista também presente em DNA de DAN, selecionada pela artista Marina Abramovic para integrar a exposição Terra Comunal, em março de 2015, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Estruturada em duas partes distintas, a performance é sobre observar e ser observado, sem no entanto se deixar tocar. O nome da ação remete ao recipiente que recria as condições ambientais para a criação de animais ou plantas, fora do qual é possível observar o comportamento dos seres vivos em seu interior.

Cubo negro

Na primeira parte de TERRÁRIO – DANÇA PRIVÊ NUM PORTAL INTERDIMENSIONAL, Maikon K está em pé e aguarda a entrada do público. No chão à sua frente, uma superfície feita com pedaços de espelhos. Ao fundo da sala, um cubo negro de três metros de altura. O performer se ajoelha e, enquanto fala, tira sua roupa. Ele então executa uma dança sobre os espelhos: ilusionismo erótico, corpo estilhaçado, manipulação biológica, hipnose. “Nesta etapa, o foco está na relação com os espelhos, na luz que se reflete e na música”, explica ele.

Num segundo momento, Maikon K entra no cubo. Essa caixa preta é forrada com areia e espelhos cobrem as paredes. Um microfone está posicionado no teto e os sons produzidos no interior do cubo saem em caixas acústicas do lado de fora, manipulados pelo músico Beto Kloster. O público se coloca na posição de voyeur e assiste à performance através de pequenas janelas, podendo escolher para onde quer olhar, captando pedaços e reflexos do corpo que ali se move. O jogo de espelhos permite ao espectador criar diversas perspectivas. O artista se relaciona com a areia e desenterra peças de roupa: um arreio de couro e uma saia negra. “Neste peep show xamânico construo gradativamente uma persona, que emerge através da minha voz, respiração e movimentos. Um jogo de espelhos onde o público observa e também é observado. Contemplando o aparecimento e morte de sucessivos estados e imagens”, conta o artista.

Para Maikon K no mundo atual de webcams e fotos instantâneas, capturamos, selecionamos e oferecemos nossa imagem a uma multidão de olhos. Imagem que se alastra sem controle, viral. “Podemos nos comunicar com o mundo de dentro de nosso quarto, carro, banheiro, prisão. E o mundo vem até nós, fibra ótica, sorvido pelas retinas vidradas. Consumimos um mundo-imagem, e somos por ele consumidos”, acredita ele.

Liberdade de expressão

Como campo de experiências sensíveis, a arte tem potência para dar forma a territórios poéticos heterogêneos, onde coexistem liberdades de expressão e expressões de liberdades diversas. Por meio da presente atividade, o Sesc reitera o seu compromisso com a cultura e com a educação, ao trazer à baila produções e processos artísticos que debatem a liberdade de expressão concretamente, em sua imbricação com a liberdade dos corpos – que precisa ser construída permanentemente.

Terrário – Dança Privê num Portal Interdimensional
Com Maikon K.
Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos I ( Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)
Duração 60 minutos
23 a 25/02
Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30
$20 ($6 – credencial plena)
Classificação 18 anos