MÁRTIR

O fundamentalismo religioso, os discursos de ódio e a violência provocada pela intolerância, pautas cada vez mais atuais no Brasil, são os temas da peça Mártir, de Marius Von Mayenburg, um dos principais nomes do teatro alemão contemporâneo.

A trama narra a transformação do jovem Benjamin, que, ao começar a ler a Bíblia, para de frequentar as aulas mistas de natação na escola porque elas ferem o seus sentimentos religiosos.

A mãe do protagonista atribui o seu novo comportamento, a um possível envolvimento com drogas ou a conflitos com sua sexualidade. A única que parece se preocupar com ele é Érica, sua professora de biologia, que logo vira alvo dos ataques do menino.

Benjamin mergulha profundamente na Bíblia e usa trechos das escrituras sagradas para combater radicalmente a ciência e qualquer fé diferente da sua. Ele cria para si uma verdade absoluta e inabalável a medida em que vai criando conflitos com os outros personagens. O espetáculo mostra essa trajetória da conversão religiosa até a radicalização do discurso, uma forma de “crucificação” da alteridade.

Com direção de Soledad Yunge, o espetáculo levanta questionamentos: até que ponto as pessoas estão dispostas para aceitar a fé das outras? Em que circunstância elas devem impor as próprias crenças? Como elas se comportam ao se deparar com doutrinas diferentes das suas? Qual é o limite entre um discurso de mudança e um comportamento extremista? O que é a verdade? Como alguém é capaz de transformar uma opinião em “verdade absoluta” para justificar os próprios desejos?

A ideia de pesquisar cenicamente esses temas surgiu em 2015, depois que a Cia. Arthur-Arnaldo ministrou oficinas de teatro em escolas públicas e particulares no projeto #JOVENS contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. Na ocasião, os artistas perceberam a existência de uma juventude religiosa que tem ganhado força nos últimos anos.

Ao finalizar a leitura de ‘Mártir’, tive o impulso de começar a ensaiar imediatamente e tornar tridimensional as sensações que o texto despertou. A agilidade dos diálogos cortantes e precisos em contraponto aos solilóquios de citações bíblicas me lançou em um redemoinho, no qual vozes e forças se confrontam constantemente. Ao longo das 27 cenas somos convocados o tempo todo a pensar nas nossas crenças e traçar os limites em relação a temas como racismo, sexualidade, machismo, religião, extremismo, deficiência entre outros”, comenta Yunge.

A cenografia de Rafael Souza cria um espaço fictício único a partir de dois elementos simples, cadeiras e mesas, que poderiam ser encontrados em qualquer um dos diversos ambientes da narrativa. Todos atores o ocupam simultaneamente, de forma que as cenas borram seus limites e seguem o fluxo vertiginoso da dramaturgia. A iluminação, por sua vez, fragmenta este espaço híbrido e dá visibilidade às trajetórias.

A montagem é parte do projeto )Entre Jovens( contemplado pela 30a edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. O elenco conta com a participação dos atores: Ana Andreatta, Carlos Morelli, Edu Guimarães, Georgina Castro, João Bienemann, Júlia Novaes, Taiguara Chagas e Tuna Serzedello.

 Escrita em 2012, a peça ficou em cartaz no Teatro Schaubühne em Berlim com direção do próprio autor. Foi descrita pelo jornal britânico The Guardian como “provocativa e terrivelmente engraçada” por ocasião da montagem britânica do texto em 2015. A tradução do texto alemão para o português, assinada por Christine Röhrig, foi concedida à Cia. Arthur-Arnaldo pelo Goethe Institut.

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Mártir
Com Ana Andreatta, Carlos Morelli, Edu Guimarães, Georgina Castro, João Bienemann, Júlia Novaes, Taiguara Chagas e Tuna Serzedello.
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 80 minutos
23/11 até 16/12
Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h
Ingresso Grátis (Distribuição de convites uma hora antes de cada sessão)
Classificação 14 anos

VOCÊS QUE ME HABITAM

Sinopse

Em um consultório, o encontro de uma mulher e uma médica se torna o disparador da revelação de situações limite. Suas memórias emergem, trazendo à tona relações familiares e desejos de liberdade frente às regras de uma sociedade patriarcal.

Sobre a direção de Vocês que me habitam, por Erica Montanheiro

“Nosso tempo é áspero, duro, “asfáltico”. Querem nos obrigar a fechar fronteiras, levantar muros e não querer atravessar para ver o outro. Querem nos conduzir a negar a empatia. Um tempo de securas. De construção de muros que bloqueiam qualquer tipo de afetividade.

Pensando na construção cênica (e desconstrução desses fatos sombrios), optei por uma linguagem que pudesse gerar uma aproximação imediata com o público.

Assim, na encenação, utilizo elementos do Melodrama (gênero que conheci quando estava ainda na escola de Philippe Gaulier, em 2003. Inaugurei minha pesquisa sobre o melodrama junto à Cia. Os Fofos Encenam, dentro da linguagem do Circo-Teatro orientada por Fernando Neves. Posteriormente, em Paris, aprofundei meus estudos em uma residência artística).

O corpo como disparador de situações, a imagem corporal como suporte para os estados que as atrizes devem acessar, a sustentação da emoção e a suspensão dos tempos melodramáticos. Estes elementos servem como estrutura para a composição das cenas e alicerce para as atrizes. A ambiência sonora e as partituras corporais fazem parte desta linguagem, ora impulsionando os estados, ora propondo uma oposição.

Esta linguagem do Melodrama foi escolhida por criar uma dramaturgia cênica capaz de prender o interesse do espectador sobre a narrativa, enquanto o texto passeia por campos poéticos e por uma ordem não-cronológica dos acontecimentos, fragmentos de memória e um plano de reconstituição dos fatos da vida de uma mulher.

Somos muitas, temos infinitas camadas e queremos fazê-las emergir para o público através de uma dramaturgia que faça ecoar nossas vozes. Os acontecimentos retratados na peça falam de momentos vividos por muitas mulheres dentro de uma sociedade estruturada sob o olhar do patriarcado. Outros, evocam as crianças que um dia fomos, sempre dispostas a brincar e acreditar que é possível ser o que se queira ser.

Vocês que me habitam pretende convocar um outro tempo. Um tempo capaz de dar a possibilidade de nos vermos, ouvirmos e lermos essas pequenas histórias de mulheres que instauram um tempo da delicadeza – um lugar que agora talvez não exista, mas que insistimos – enquanto ato político – em fazer emergir. É uma forma de resistir, de dizer ao país que nosso corpo é nosso, que nosso útero é só nosso, que somos um ajuntamento de mulheres fortes – e ao mesmo tempo, sensíveis – que juntas podem mais, que juntas não se julgam, que se perdoam, prontas para a revolução dos afetos. Será que ainda é possível chorar de um jeito bonito?”

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Vocês Que Me Habitam
Com Ana Elisa Mattos e Joyce Roma
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo)
Duração 80 minutos
13/11 até 20/12
Segunda, Terça e Quarta – 20h
Entrada Gratuita (Retirada de ingressos 1h antes do espetáculo.)
Classificação 16 anos

 

 

O BUDA QUEBRADO

O que se quebra é uma fatalidade. E o que se deixa quebrar?” Quando escreveu este questionamento na primeira versão do texto em formato de cena breve o autor Ed Anderson convidou o diretor e amigo Marcelo Costa para uma primeira leitura encenada no evento Satyrianas, em 2015, logo em seguida o texto foi ampliado e adotado para encenação pelo Coletivo Flama.

Marcelo Costa é um artista pernambucano radicado em São Paulo com passagens em produções adultas e infantojuvenis. O elenco é protagonizado por Priscila Scholz e Flavio Costa, atores casados há 20 anos, e que só agora realizam o desafio de dividir a cena em uma temporada teatral.

Depois da temporada do seu texto “Os Dois e Aquele Muro”, dirigido por Francisco Medeiros no ano passado, Ed Anderson se arrisca agora no universo de um buda em pedaços e um casal aparentemente tradicional, mas que é regido por inconstâncias de vontades em uma década que abarcou conflitos e rebeldias.

O percurso descrito pela obra se inicia num espaço privado e se transfere para uma dimensão coletiva, que por sua vez ganha nova e crescente dimensão íntima. O casal – HERMES e MATILDA – segue por caminhos arenosos para tratar de temas residentes no indizível – amor, liberdade, limites e censuras – ao eleger algumas possibilidades de trajetória onde não existem caminhos claros além de possíveis ramificações a serem compartilhadas junto a uma plateia intimista que possa se alimentar das questões propostas.

Para Marcelo Costa, “Apesar da ação cênica ocorrer na década de 70, o encontro entre estas duas pessoas está também associado ao mundo de hoje onde ocorre com muita frequência o território da disputa de poder. É cada vez mais comum vermos casais indiferentes ao que possam sentir um pelo outro e não recuperar a essência que os uniu. E isto parece hoje ser elemento presente na vida do homem em sociedade vigiada.

Assim também ocorre com HERMES e MATILDA, personagens criados por Ed Anderson. Segundo ele: “Um dos aspectos mais interessantes da peça é que, à medida que o jantar se desenrola, os dois não só veem diante de si os fragmentos do ‘buda’ que os separa e ao mesmo tempo os convida a um encontro, como também experimentam um momento propício para que se revelem diante de si próprios e do outro, sem espelhos.

O BUDA QUEBRADO – Exercício nº 01 é uma tragicomédia que mescla de maneira intrigante humor, lirismo e drama, numa sucessão de cenas com variadas pulsações.

A iluminação de Fê Guedella sugere a passagem da atmosfera cheia de sombras, reflexos e transparências, típicas da noite e do universo das aparências;

De uma certa maneira esta é também a opção do cenário de Paola Ribeiro, um espaço versátil, móvel, e de grande agilidade que se modifica a partir da ação dos personagens: uma mesa desmembrada como os pensamentos do casal;

O figurino de Murilo Carvalho busca dialogar entre formas e cores a época e a personalidade dúbia dos personagens.

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O Buda Quebrado
Com Flávio Costa e Priscila Scholz. Voz em Off: João Acaiabe
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 50 minutos
26/10 até 18/11
Quinta, Sexta e Sábado – 20h
Entrada Gratuita
Classificação 14 anos

 

UMA PILHA DE PRATOS NA COZINHA

Peça que marcou a estreia do ator Alexandre Borges como diretor teatral estreia em São Paulo dia 9 de novembro na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro. “Uma pilha de pratos na cozinha”, escrita em 2007 por Mário Bortolotto, narra o drama em que quatro amigos reunidos em um apartamento falam sobre a vida e morte ao som de muito rock’n roll, drogas e bebidas. A peça fica em cartaz de quinta a sexta, 20h e aos sábados, 18h, com entrada franca, até dia 18 de novembro.

Montagem que estreou no Rio de Janeiro em 2014, circulou pelo interior de São Paulo, fez uma única apresentação na capital paulista, participou do Festival de teatro de Tiradentes, Minas Gerais, foi uma oportunidade para comemorar os 30 anos do grupo Cemitério de Automóveis criado por Bortolotto.

Considerado um dos melhores textos de Bortolotto, Uma pilha de pratos na cozinha é um drama em que Júlio (Rodrigo Rosado), um jovem avesso às relações com outros seres humanos está enclausurado em seu apartamento, enquanto sua pilha de pratos cresce na pia. Chegam três presenças em série que mexem com essa monotonia: Daniel (Akin Garragar), um amigo sanguessuga fracassado; Breno (Fioravante Almeida), o síndico do prédio e Cristina (Silvana D’lacoc), ex-namorada de Júlio e doente terminal. A peça é marcada por tiradas ácidas, sarcásticas, inteligentes e entremeadas com a inação das personagens que sabem bem analisar suas próprias vidas, mas não conseguem se mover. “Uma Pilha de Pratos na Cozinha” é uma peça que naturalmente faz com que o espectador saia do teatro pensando sobre a vida. Como é a sua vida? O que você faz dela, ou não faz? Enfim, não existe certo nem errado. É tudo um grande ensaio.

A estreia de Alexandre Borges como diretor teatral aconteceu pela admiração que ele tem pelo autor, um de seus contemporâneos. A dupla já havia trabalhado nos cinemas e agora renova a parceria nos palcos.

Essa estreia como diretor veio por acaso. O Mário liberou um de seus textos para uma montagem carioca. A conversa inicial aconteceu em 2013 e a produção achou que eu seria um cara legal para acompanhar a produção desde o começo e prestar uma homenagem aos 30 anos do Cemitério de Automóveis que aconteceu em 2014. Topei pelo entusiasmo! – celebra Borges.

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Uma Pilha de Pratos na Cozinha
Com Akin Garragar, Fioravante Almeida, Rodrigo Rosado, Silvana D’lacoc
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 40 minutos
09 a 18/11
Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h
Entrada Gratuita
Classificação 14 anos

 

SEI LÁ VI

Montagem da Companhia do Estevão MaravilhaSei Lá Vi estreia dia 5 de outubro, quinta-feira, às 20h, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Com direção de Caco Mattos, traz no elenco Fernando Stelzer, Lucas Pinheiro Paiva, Rafael Senatore e Rodrigo Horta. O espetáculo foi contemplado pelo ProAc Primeiras Obras de Teatro em 2016. Ingressos gratuitos.

A concepção do espetáculo surgiu a partir de questionamentos sobre a postura do ser humano perante as mais diversas situações do cotidiano e como ela escancara nossas fragilidades dentro da sociedade. No interesse em explorar modos com que a farsa, a mentira e a ilusão colocam a humanidade cada vez mais na posição de espectadora da própria vida.

A partir da pergunta “o que é ilusão para você?” o diretor pediu aos atores pequenas cenas, músicas, depoimentos pessoais e imagens. Durante o processo de pesquisa visitaram instituições com crianças, adolescentes, adultos e idosos, analisando de que maneira a ilusão atua nessas fases da vida. “Esse foi um momento de levantamento de materialidades cênicas. Em seguida o grupo foi provocado a escolher quais eram as cenas que poderiam potencializar o discurso sobre a ilusão que eles gostariam de emitir. Priorizei e apostei na autonomia dos integrantes, questionando e orientando suas escolhas. Minha função teve uma abordagem artística pedagógica nessas provocações”, conta Caco Mattos.

Ao observar o nonsense dos movimentos surrealista e dadaísta, a fantasia dos desenhos animados e os antigos espetáculos de variedades (por sua pluralidade de atrações, como palhaços, ilusionismo, música, dança etc), Sei Lá Vi traz uma estética simplista, mas que busca atingir o público pelo deslumbre sinestésico e imaginativo, traduzindo a vida através do não-convencional e da subversão à lógica.

A peça faz uma metáfora sobre a vida, as vezes muito sutil, subliminar. Constantemente, estamos imersos numa relação de ilusão sem perceber, seja nas relações afetivas, nas questões tabus como a morte, nas relações de poder, na solidão. Estabelecemos, conscientes ou não, uma relação com a ilusão e muitas vezes somos manipulados por ela sem nos darmos conta disso”, fala Mattos.

A peça é encenada a partir da metalinguagem com os próprios atores realizando uma peça de teatro, cujas cenas são divididas em números de variedades, referentes a cada fase da vida, como infância, juventude, maturidade, velhice. Ao falar de ilusão, a linha entre realidade e fantasia torna-se mais tênue e o jogo, mais vivo.

A trilha sonora traz diversos temas característicos de seus tempos como música clássica, valsa, jazz, e o chá chá chá, além de algumas composições próprias, que auxiliam no jogo cênico.

A provocação é instaurar nos espectadores a ruptura da ilusão e colocá-los para pensar a partir da sua experiência pessoal sobre a vida e questões que a Companhia quer abordar”, explica Mattos.

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Sei Lá Vi
Com Fernando Stelzer, Lucas Pinheiro Paiva, Rafael Senatore e Rodrigo Horta. 
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 70 minutos
05 a 14/10
Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h
Ingresso Grátis (Retirada de ingressos a partir de 1 hora antes da apresentação)
Classificação 10 anos

 

DADESORDEMQUENÃOANDASÓ

DADESORDEMQUENÃOANDASÓ tem direção de Carlos Baldim e propõe o encontro entre a ARTERA Companhia de Teatro e a Cia. Provisório-Definitivo para a idealização, realização e produção do espetáculo. A peça foi contemplada pelo edital do Prêmio Zé Renato.
 
No palco, o elenco composto por Andrea Tedesco, Anna Cecilia Junqueira, Paula Arruda, Pedro Guilherme Ricardo Corrêa dão vida aos narradores e personagens da história de Stevie, um garoto portador da síndrome de Asperger, que sofre com a ausência do seu pai e com a dificuldade de se relacionar com o mundo por conta dessa síndrome. 
Davey Anderson oferece uma dramaturgia contemporânea, que instigou uma encenação que a acompanhasse nessa experimentação de linguagem, propondo a mistura de elementos épicos e dramáticos, e utilizando o espaço cênico com uma mescla de teatro e cinema. 
 
A temática é, sobretudo, universal. A partir do mundo particular desse garoto, o espectador pode enxergar o seu próprio mundo. Superar traumas e medos, separações e ausências e a morte. Tudo isso com a inerente individualidade que cada um carrega em si. “A síndrome de Asperger é assim uma grande peculiaridade da personagem para mostrar o que a sociedade tem dificuldade de admitir: diferença e a diversidade fazem parte do humano. Por portar uma doença, por pensar ou sentir desta ou daquela maneira, pelas escolhas que são feitas, e, apesar das semelhanças, não existe um ser humano igual ao outro. Exaltar a beleza e importância disso é um dos motores desse projeto tanto para a Companhia ARTERA de Teatro, quanto para a Cia. Provisório-Definitivo.“, comenta a atriz Paula Arruda
 
É traço marcante dos dois grupos essa temática: peças infantis, jovens e adultas essas companhias investem em histórias que salientam a importância da individualidade em todas as questões que nos desafiam na relação com o outro e com o mundo: relacionamento, escolhas, sexualidade, sonhos, perdas, moral e ética, tolerância, intolerância e comportamento.
 
A união desses dois grupos vem também corroborar para outro traço marcante do texto: a co-dependência. “DADESORDEMQUENÃOANDASÓ nos mostra que somos seres individuais interligados um ao outro não por uma pretensão altruísta de solidariedade, mas porque assim funciona a natureza, inclusive a natureza humana quer se queira isso ou não.  Assim, admitir a importância da individualidade, nos abre as portas para admitirmos o que muitos consideram paradoxalmente oposto: a importância da convivência.“, acrescenta o diretor Carlos Baldim.
 
Os desafios propostos para Stevie são no fundo também os desafios de todas as personagens. As desordens que acontecem pela ausência do pai, pela falta de dinheiro da mãe,  pelo despertar da sexualidade de Julie e pelas dificuldades de comunicação de Stevie oriundas da Síndrome, não são só de um, mas de todos os envolvidos.  “Como se um ato imprevisto desencadeasse uma série de desordenamentos, desconcertos, como na vida uma ação resulta em reação, uma rede de utopias e mazelas humanas que nunca estão sozinhas. Ruas entupidas de pessoas ensimesmadas em seus fones de ouvidos, anunciando a trilha sonora daquilo que se pode escutar, apenas pressentir. As dificuldades de expressar o que sente não diz respeito apenas da Síndrome, mas diz a todos nós. Acredito que a peça seja uma saga a respeito das diferenças e um apelo a alteridade.” comenta Ricardo Corrêa da Cia ARTERA de Teatro.
 
SINOPSE – DADESORDEMQUENÃOANDASÓ conta a história de uma família de classe média. Por causa da ausência do marido, Maureen trabalha em diversos lugares e não tem tempo para cuidar dos filhos. Stevie, portador da síndrome de aspenger, é deixado sozinho no seu quarto ao seu próprio cuidado, enquanto sua irmã, a adolescente Julie, faz tentativas desastradas de entrar no mundo adulto. Julie resolve sair escondida descumprindo o combinado com sua mãe. Preocupado com o paradeiro da irmã, Stevie resolve procurá-la e acaba indo parar no Parque de Diversões e sem intenção acaba causando um grande acidente: ele acredita ter se tornado um assassino.  A partir daí, inicia-se uma história permeada de encontros e desencontros que mistura ficção, realidade e poesia, na qual Stevie procura compreender, solitário, as consequências dessa intensa e inesquecível aventura.
 

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Dadesordemquenãoandasó
Com Andrea Tedesco, Anna Cecilia Junqueira, Paula Arruda, Pedro Guilherme, Ricardo Corrêa.
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo)
Duração 80 minutos
16/10 até 07/11
Segunda e Terça – 20h
Classificação Livre
 

ALA DE CRIADOS

Premiada na Argentina, ALA DE CRIADOS estrutura-se em um fato real portenho ocorrido em janeiro de 1919 quando a cidade de Buenos Aires foi agitada por uma greve selvagem. Texto do dramaturgo argentino Mauricio Kartun, direção de Marco Antonio Rodrigues e tradução de Cecilia Boal e Rodrigo Arreyes, a montagem estreia dia 15 de setembro, sexta-feira, às 21 horas, no Sesc Bom Retiro.

Com Eduardo Pelizzari, Gabriel Miziara, Maria Manoella e Rodrigo Scarpelli, ALA DE CRIADOS apresenta, em uma linguagem tragicômica, uma “história de disparo e sexo entre as rochas”. A peça tem como pano de fundo um clube de tiro ao pombo em frente ao mar e mostra os conflitos entre o mundo dos salões e a sociedade.

Regados a bloody mary, banho de sol e jogos de tiro, três primos aristocratas da família Guerra – Tatana (Maria Manoella), Emilito (Gabriel Miziara) e Pancho (Rodrigo Scarpelli) – veraneiam em um elegante clube de Mar del Plata enquanto Buenos Aires enfrenta um cenário incandescente de greves e repressão (conhecido na história da Argentina como ‘Semana Trágica’ – janeiro de 1919). Os acontecimentos que paralisam a capital foram recebidos pelos primos inicialmente como rumores distantes. A cada nova informação e proximidade das ações grevistas, no entanto, eles passam a agir de maneira a reafirmarem suas posições sociais e de poder frente ao olhar rígido de Tata, o patriarca da família.

Repleta de ambiguidades, a história intercala o mundo desses primos ao do empregado e comerciante emergente Pedro Testa (Eduardo Pelizzari). A diferença entre classes alimenta a trama, enquanto os confrontos divididos por trabalhadores, empresários e políticos em Buenos Aires geravam aproximadamente 1.350 mortes e mais de 4.000 mil feridos.

Há no encontro desses personagens, a construção de metáforas que deslocam seus diálogos a temas atuais que podem reger a situação política, o estado social e de costumes de diversas nações, dentre elas a brasileira. ‘ALA DE CRIADOS traz a questão da luta de classes, centro da Revolução Soviética que comemora em 2017 seu centenário, reafirmando a oportunidade de debate. A História é o pano de fundo para a língua.

Identidade latino-americana

ALA DE CRIADOS foi encenada pela primeira vez no Teatro del Pueblo, de Buenos Aires, em setembro de 2009. Reestreou em fevereiro de 2010 na mesma sala. As duas temporadas renderam 19 prêmios entregues por importantes entidades teatrais da Argentina (nas categorias Direção, Atuação, Figurino, Cenografia, Iluminação, Fotografia, Dramaturgia e Melhor Espetáculo) e gerou convites para festivais de teatro regionais e organizados na Bolívia e Uruguai.

Para o diretor Marco Antonio Rodrigues, montar ALA DE CRIADOS no Brasil significa também entender a origem de duas grandes forças que ainda afetam o estado social, político e de costumes de seu povo: a colonização europeia e a escravidão. “Descontadas as particularidades históricas e regionais, a maioria dos países latino-americanos possuem esses dois fenômenos como ponto comum na construção de sua identidade e que determinam até hoje princípios autoritários, de corrupção, impunidade e de violência que se sobrepõem muitas vezes até mesmo à democracia”, conta ele.

Apresentar uma peça que trata sobre discussões de classe e de direitos civis não só dialoga com as recentes manchetes de jornais, mas suscita no público a desconstrução de uma tendência bovarista histórica para o Brasil. “Síndrome de uma nação colonizada, os brasileiros já passaram, e continuam passando, por diversos modismos que encontram em paradigmas europeus e/ou norte-americanos as melhores soluções para a vida pública e privada. Cultiva-se uma cultura que minimiza as qualidades e peculiaridades regionais. Nesse contexto, perde-se o olhar para o próximo, para o que é vizinho e divide os mesmos problemas. Olhar para ALA DE CRIADOS é deixar surgir diálogos que podem ser feitos entre as cenas de países fronteiriços; é reforçar a identidade latino-americana do Brasil que hoje é mantida por um fio muito tênue”, fala o diretor.

Tragicomédia

Texto premiado, porém inédito no Brasil, ALA DE CRIADOS apresenta Mauricio Kartun ao público brasileiro. O autor, que mescla drama e trechos narrativos, desenha personagens que se afastam da objetividade esperada de um narrador frente à história contada para exprimir uma reação crítica, um comentário. Como nas fábulas brechtianas (Bertolt Brecht), a peça contém o recorte de uma situação cotidiana que acaba desenhando o retrato de um país inteiro – utilizando, então, algo distante ou particular para conquistar a aproximação de temas e discussões comuns.

Oficina

Com Mauricio Kartun e introdução de Cecilia Boal, a oficina Dramaturgia de Emergência, que acontece de 15 a 17 de setembro, de sexta-feira a domingo, das 14 às 17 horas, abordará técnicas da criatividade, concepção de personagem, dinâmica da ação e desenho da estrutura, além de traçar um panorama do Teatro Latino-americano dos anos 60/70. Destinada a dramaturgos, roteiristas, narradores, diretores, atores, bailarinos, docentes e estudantes, a oficina tem inscrições na Central de Atendimento.

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Ala de Criados
Com Gabriel Miziara, Maria Manoella, Rodrigo Scarpelli e Eduardo Pelizzari
SESC Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 75 minutos
15/09 até 15/10
Sexta e Sábado – 21h, Domingo e Feriado- 18h
$30 ($9 – credencial plena)
Classificação 14 anos