CCSP RECEBE PROGRAMAÇÃO DE DANÇA PARA CRIANÇAS COM BALANGANDANÇA CIA

Com 23 anos de carreira e uma referência em dança contemporânea para crianças, a Balangandança Cia apresenta espetáculo e uma série de atividades no Centro Cultural São Paulo. A programação é totalmente gratuita e gira em torno de um tema que o grupo tem pesquisado durante anos que é o corpo, a natureza e a ludicidade.  Esse trabalho faz parte do Programa de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.

A programação continua no Centro Cultural São Paulo com mais sessões de Presente! Feito Da Gente nos dias 20, 21 e 22 de março (sexta-feira, às 14h30, sábado e domingo, às 16h); a ação Cabaninha procura criar uma vivência com crianças, d17 de março a 9 de junho, sempre às terças, das 14h às 17h; e  a sétima edição do tradicional Forinho acontece no dia 2 de abril, quinta-feira por meio de duas ações: a palestra Caminhos da Pesquisa, das 14h às 17h, para discutir e demostrar o processo criativo da cia; e das 18h às 21h, uma mesa reúne profissionais e público para discussões sobre a dança contemporânea para crianças.

Balangandança Cia. tem estudos em desenvolvimento motor e cognitivo, educação, arte contemporânea e estética. É reconhecida por desenvolver um trabalho sólido e pioneiro no Brasil, que vê e escuta a criança em seus processos e na comunicação com o público.  Assim, oferece à criança – de todas as idades – a possibilidade de apreciar espetáculos de dança contemporânea   que estimulam movimentos e a imaginação, resgatando o lado lúdico, saudável e criativo do corpo.

Veja a programação completa abaixo:

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PRESENTE! FEITO DA GENTE

É uma aventura de movimentos-danças criada a partir de um processo de pesquisa sobre a relação entre a natureza, o corpo e o imaginário das crianças. O espetáculo abre espaço para a imaginação de forma lúdica, delicada e sensível, ao se relacionar brincando de diferentes formas com materiais naturais coletados pelo grupo, como areia, sementes, folhas secas e galhos de árvores.

A partir de técnicas de improvisação e da brincadeira, os bailarinos criadores interagem de várias formas com esses objetos de acordo com a disposição que eles aparecem em cena a cada apresentação. Junto com a iluminação e a trilha sonora, que evocam elementos de paisagens naturais, eles estimulam a plateia a inventar mundos. Na preparação corporal a companhia conta com técnicas de Educação Somática, que fazem parte de seu treinamento, ampliando a percepção do corpo e novas possibilidades de movimento.

Com Alexandre Medeiros, Alan Scherk, Clara Gouvêa, Ciro Godoy e Isabel Monteiro

Duração 50 minutos

20 a 22/03

Sexta – 14h30, Sábado e Domingo – 16h

Grátis

Classificação Livre

CABANINHA

Esta ação compreende uma nova forma de encontro, convívio e investigação com crianças. Viabiliza a continuidade do convívio da Cia. com crianças como parte integrante da práxis da companhia.  A ideia é ter a possibilidade de contato e convívio com um mesmo grupo de crianças que vivem na cidade de São Paulo: com suas referências corporais, referências do que possa ser “natureza”, de movimento e do imaginário. A duração será de 12 encontros, uma vez por semana.

17/03 a 09/06

Terça – 14h Às 17h

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VII FORINHO

Mesa e palestra

Palestra – Caminhos da Pesquisa com a Balangandança Cia.

Dia 2 de abril, quinta-feira, das 14h às 17h

Companhia expõe seu trabalho para discuti-lo frente às variadas questões levantadas no forinho como um todo. Constitui-se também como um espaço de troca com pensantes e dançantes para crianças. A palestra contará com a exibição dos registros em vídeo como por exemplo o documento: “Cabeceiras” – vídeo editado e registros das pesquisas acerca do tema corpo-natureza-imaginário realizadas com crianças em diferentes habitats/localidades.

Mesa

Dia 2 de abril, quinta-feira, das 18h às 21h, na sala de ensaio 1.

Iniciado em 2010, o forinho vem tendo grande repercussão e demanda de público em suas edições. A sétima edição tem uma proposta de continuar a refletir e debater a dança, o brincar e a improvisação. Durante o encontro, haverá a participação de convidados especialistas Paula Mendonça (Brincar), Tica Lemos (Improvisação) e Elizabeth Menezes (Dança Para Crianças), com mediação de Georgia Lengos (Balangandança Cia.)

O ARQUITETO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA

Escrita em 1967 pelo dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, O Arquiteto e o Imperador da Assíria é uma das peças fundamentais da reflexão sobre o pós-guerra e o totalitarismo que culminou no confronto. Uma montagem inédita do espetáculo, criada pelo grupo Garagem 21, estreia no Centro Cultural São Paulo, no dia 27 de março de 2020, sexta-feira, às 20h30. A direção é de Cesar Ribeiro. No elenco, os atores Eric Lenate (Arquiteto) e Helio Cicero (Imperador).

Situada em uma ilha deserta, a peça se inicia com um desastre aéreo que leva seu único sobrevivente a entrar em contato com um nativo que jamais teve contato com outro ser humano. A partir dessa interação, o sobrevivente busca impor ao outro suas ideias de cultura e civilização.

Ao contrapor um homem civilizado com um ser sem origem reconhecida, sem ascendência e que nunca teve contato com outro humano, a obra retrata a violência inserida no processo de formação da sociedade. Utilizando a cultura para seduzir o Arquiteto sobre as supostas maravilhas da civilização, além da construção da linguagem, há o processo de formação do Estado e do conhecimento de toda a estrutura social, em que entram conceitos como política, religião, família, relações afetivas, artes, filosofia e a própria noção de humano, termos desconhecidos pelo nativo e sempre apresentados pelo Imperador de modo distorcido, trazendo conexões com as ideias de fake news e pós-verdade”, analisa o diretor.

A escolha de montar O Arquiteto e o Imperador da Assíria representa uma continuidade da proposta de Cesar Ribeiro em dirigir peças que abordem sistemas diversos de violência. “De acordo com o conceito de Triângulo da Violência, proposto pelo sociólogo norueguês Johan Galtung, pode-se dividi-la em três tipos: a violência direta, que é a forma mais reconhecível na sociedade, em que há um agente que comete a violência, um que a sofre e uma ação violenta, como o assassinato; a violência estrutural, em que a violência se imiscui na estrutura da sociedade, como a desigualdade social, por meio de questões como o desemprego; e a violência cultural, que retrata os modos de discurso e visão de mundo que buscam validar a violência direta e a estrutural, como o racismo, o machismo e a homofobia. Na peça, há as três tipificações, mas o alicerce da criação do poder do Imperador está na violência cultural, ao utilizar o conhecimento do mundo dito civilizado para seduzir o Arquiteto e fazer com que o jogo de dominação seja aceito por ele”, diz Cesar.

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O texto original de Arrabal foi preservado na adaptação, mas o grupo inseriu trechos de obras de outros autores, como do dramaturgo irlandês Samuel Beckett e do carioca Nelson Rodrigues. Segundo o diretor, trata-se de inserções pontuais que complementam frases de Arrabal e reforçam as semelhanças que regimes totalitários têm entre si. “Também foi possível inserir texto de editorial do dia seguinte ao golpe militar de 1964, em uma busca de intensificar a crítica da montagem ao autoritarismo atual”, conta.
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Houve a opção de não representar na cena os elementos que poderiam remeter a uma ilha deserta – a escolha foi criar um terreno distópico não facilmente identificado, por meio de uma estética contemporânea que remete a jogos eletrônicos e HQs para representar uma sociedade que se vale do artifício e do arbítrio, em oposição à alegação de suposta “natureza das coisas”. Do mesmo modo, o desastre também deixa rastros que são utilizados cenicamente, como a cabine e a poltrona do avião, que se tornam, respectivamente, o trono do Imperador e sua cabana.

A inspiração para esse cenário apocalíptico é múltipla. Há elementos da saga japonesa Ghost In The Shell; do artista plástico suíço H. R. Giger, reconhecido pela estética metalizada e futurista de Alien; do cinema expressionista alemão; e das propostas cênicas do encenador polonês Tadeusz Kantor.

O figurino também responde a uma estética futurista fundida à moda elisabetana, com influências do estilista britânico Gareth Pugh. “Há uma busca de não localizar tempo e espaço na montagem, ao mesmo tempo em que esse espelhamento em um futuro de ruínas industriais e tecnológicas aponta para a transformação da sociedade a partir de sua periferia, de seus produtos, mas não do humano em si”, complementa Cesar.

O diretor reforça que o ponto central da encenação é abordar como determinados modos da narrativa, que representam uma visão da realidade, servem a um projeto totalitário de poder que se pretende salvador, mas que, para exercer essa ideia de salvação, constrói a destruição do outro, do divergente, seja por meio de crimes diretamente executados por agentes do Estado ou por diversos mecanismos de coerção e perseguição. “Trata-se de uma necropolítica, do constante retorno a modos de tratar o outro como inimigo, seja por aspectos morais, religiosos, econômicos, políticos, raciais, sexuais ou afins. O poder de agentes, intra ou extra Estado, de determinar quem é útil ou inútil a determinada sociedade e dispor sobre sua vida e sua morte. Esse princípio de aniquilação do outro visando a um suposto bem comum, sempre excludente, é característica de toda ditadura e de uma civilização em estado de guerra contra sua própria população, solidificando a barbárie como aspecto do cotidiano”, conclui.

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O Arquiteto e o Imperador da Assíria

Com Eric Lenate e Helio Cicero

Duração 120 minutos

Classificação 16 anos

Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho (Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, São Paulo)

27/03 a 19/04

Quinta a Sábado – 20h30, Domingo – 19h30

$20 (entrada gratuita para estudantes e professores da rede pública de ensino)

Teatro Cacilda Becker (R. Tito, 295 – Lapa, São Paulo)

01 a 24/05

Sábado – 21h, Domingo – 19h (sessão extra 01/05 – sexta 21h)

$20 (entrada gratuita para estudantes e professores da rede pública de ensino)

AS MÃOS SUJAS

Depois de uma bem-sucedida temporada no Sesc Ipiranga, a versão de José Fernando Peixoto de Azevedo para As Mãos Sujas, do filósofo, crítico e escritor Jean-Paul Sartre (1905-1980), reestreia no dia 7 de fevereiro no CCSP – Centro Cultural São Paulo. O elenco traz Gabriela Cerqueira, Georgina Castro, Paulo Balistrieri, Paulo Vinícius, Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Vinicius Meloni, além do músico Ivan Garro e do câmera Yghor Boy.

A montagem, que foi indicada ao prêmio APCA 2019 (Associação Paulista de Críticos de Arte) nas categorias de melhores espetáculo e ator, conta a história de um jovem intelectual que decide matar o líder de seu partido após este propor uma aliança com conservadores.

A encenação de Azevedo estabelece diálogo entre o teatro e o cinema, à medida que imagens captadas ao vivo por uma câmera são projetadas em um telão que é posicionado em vários lugares no palco. “Em seus deslocamentos espaciais, a câmera de fato contracena com os atores. Ela assume uma função de saturar as suas presenças e intensificar planos”, conta o diretor.

A escolha por esses recursos cinematográficos é inspirada no filme Terra em Transe, uma das obras-primas do cineasta Glauber Rocha, lançada em 1967, cuja estética também inspirou os figurinos e as músicas executadas ao vivo por Ivan Garro. A trilha sonora sobrepõe sonoridades presentes no filme a outras que foram pensadas a partir do texto de Sartre.

José Fernando Peixoto de Azevedo conta que o desejo de montar esse texto  surgiu há mais de uma década, em meio a pesquisas feitas em conjunto com a companhia Teatro de Narradores  (1997-2016) sobre engajamento político nas artes, que contemplava textos do francês, de Glauber Rocha, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini.

O espetáculo elabora o que o diretor nomeia como “deslizamentos temporais”, de modo que a cena transita entre 1943 (ano em que Sartre situa a ação), o presente e interrogações a um futuro próximo. Com esses deslizamentos temporais, a peça discute questões como o conceito de um partido político, o sentido e as consequências das alianças com forças conservadoras e guerra ideológica que vivemos nos dias de hoje.

O diretor complementa que a reflexão também se estende para as condições que o engajamento político impõe a um indivíduo. “Quais são as alianças necessárias para a sobrevivência da esquerda e qual é a real necessidade disso?”, questiona-se.

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As Mãos Sujas

Com Gabriela Cerqueira, Georgina Castro,  Paulo Balistrieri, Paulo Vinícius, Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Vinicius Meloni

CCSP – Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso – São Paulo)

Duração 180 minutos

07/02 a 01/03 (não haverá sessão 21 a 23/02

Sexta a Domingo – 20h

$20

Classificação 14 anos.

BLACK BRECHT: E SE BRECHT FOSSE NEGRO?

Espetáculo Black Brecht: E se Brecht fosse Negro?, montagem do coletivo Legítima Defesa livremente inspirada na peça O Julgamento de Luculus, de Bertolt Brecht volta em cartaz no dia 31 de janeiro, sexta-feira, às 21h, no Centro Cultural São Paulo, Espaço Cênico Ademar.

Perante o Supremo Tribunal do Reino das Sombras apresenta-se Luculus Brasilis, o general civilizador, que precisa prestar contas da sua existência na terra para saber se é digno de adentrar no Reino dos Bem-Aventurados. Sob a presidência do juiz dos Mortos, cinco jurados participam do julgamento: um professor, uma peixeira, um coveiro, uma ama de leite e um não-nascido. Estão sentados em cadeiras altas, sem mãos para segurar nem bocas para comer, e os olhos há muito apagados. Incorruptíveis.

O diretor Eugênio Lima, partiu das questões centrais da obra de Brecht para a concepção da montagem. “Pensamos nas dimensões que unem classe, raça e gênero e também o legado colonial dessa construção social. A partir daí convidamos a dramaturga Dione Carlos para trabalhar junto com o grupo. Construímos a peça em três tempos não lineares: o tempo dos vivos, o tempo dos mortos e o tempo dos não nascidos. Para quebrar com essa linearidade, esses tempos se tocam. É o que chamo de uma oferenda na esquina do futuro. A gente precisa recuperar a capacidade de imaginar outros futuros e para isso é preciso desconstruir o legado colonial sobre o passado. Carregar as memórias dos nossos ancestrais e trazer para dentro da nossa vida cotidiana”, fala o diretor.

Durante a pesquisa o coletivo Legítima Defesa se debruçou sobre aquilo que começou como uma provocação: E se Brecht fosse Negro? Nesta provocação, qual seria o lugar ocupado pela raça? Sua obra seria lida por uma perspectiva interseccional? Unindo classe, raça e gênero? Seria possível construir um espetáculo sobre uma perspectiva afro brasileira diaspórica da obra e dos procedimentos de Brecht?

O espetáculo estreou no Sesc Pompeia no dia 18 de abril de 2019. A trama da peça foi construída durante uma ocupação do Legítima Defesa, no próprio Sesc Pompeia, em novembro de 2017. Em março de 2018, também na Unidade, foi apresentado ao público mais uma etapa, com um módulo de imersão (encenação). Em junho de 2018 o projeto Black Brecht: E se Brecht Fosse Negro? Foi comtemplado com o Prêmio Zé Renato de apoio à produção e desenvolvimento da atividade teatral para a cidade de São Paulo. A peça foi eleita pelo Guia da Folha entre as melhores estreias do ano de 2019 e, também foi escolhida pelo blog Cacilda, da fotógrafa Lenise Pinheiro, para figurar entre os destaques do ano.

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Black Brecht: E se Brecht fosse Negro?

Com Eugênio Lima, Walter Balthazar, Luz Ribeiro, Jhonas Araújo, Palomaris Mathias, Tatiana Rodrigues Ribeiro, Fernando Lufer, Luiz Felipe Lucas, Luan Charles, Marcial Macome e Gilberto Costa

Centro Cultural São Paulo – Espaço Ademar Guerra (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso, São Paulo)

Duração 110 minutos

31/01 a 01/03 (dia 21, 22 e 23/02 não haverá apresentação)

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

$20

Classificação 18 anos

RES PÚBLICA 2023

REPÚBLICA. [do latim, res publica (“coisa pública”)] 1. Bairro do centro histórico de São Paulo, formado no entorno da Praça da República, limitado ao norte pela av. Duque de Caxias, ao leste pelo Vale do Anhangabaú, a oeste pelo bairro de Higienópolis e ao sul pela Praça Franklin Roosevelt; 2. Utopia do filósofo grego Platão, escrita no século IV a.C. sob a forma de diálogos, ao longo dos quais a personagem de Sócrates descreve a formação de uma cidade ideal, A República, de onde os artistas deverão ser expatriados; e 3. Como é conhecida popularmente uma casa onde moram diversas pessoas de laço não-consanguíneo.

Depois de ter seu texto eleito por dois anos consecutivos como o quarto melhor inscrito no “Edital de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos” (2017 e 2018), obtendo a primeira suplência entre os mais de 260 inscritos nas duas ocasiões, RES PÚBLICA 2023, d’A MOTOSSERRA PERFUMADA, foi recentemente censurado pela diretoria da Funarte SP, onde estava com a estreia marcada. A decisão arbitrária da instituição, baseada exclusivamente em uma sinopse, foi acompanhada pela explicação de que a peça não teria “qualidade artística” para ocupar uma das salas do complexo cultural.

O espetáculo escrito e dirigido por Biagio Pecorelli finalmente estreia no dia 11 de outubro, no Espaço Cênico Ademar Guerra, no porão do CCSP – Centro Cultural São Paulo, onde segue em cartaz até 10 de novembro. O elenco, além do próprio diretor, fica completo com Bruno Caetano, Camila Rios, Edson Van Gogh, Jonnata Doll e Leonarda Glück.

A trama da peça se passa no Réveillon de 2023, quando o movimento Anaconda Brazil leva às ruas grandes massas patrióticas. O Brasil vive um período de grande prosperidade econômica, mas não para Tom, Billy, Suzanne, Vincent, John e Vallentina, que vivem amontoados numa pequena república no centro de São Paulo. No limite entre ficção e realidade, eles contam histórias e se revezam na tarefa de trazer da rua objetos com os quais vão construindo uma trincheira, atrás da qual estarão sempre entre combater ou esperar misticamente por dias melhores.

A pesquisa que originou este projeto

Em sua famosa obra “A República” (século IV a.C.), o filósofo grego Platão discorre sobre diversos temas que sedimentam a fundação de uma cidade ideal. Feita sob a forma de diálogos e dividida em dez livros, a obra é uma exaustiva reflexão sobre a Justiça, ao longo da qual a figura de Sócrates conduz seus aprendizes a uma compreensão racional de tudo aquilo que faz a cidade prosperar para o Bem, propiciando à alma do homem não a sua degeneração, mas o “discernimento” da Verdade.

Conferindo a esse “discernimento” o status de baliza não apenas para sua visão de Justiça, mas também a estendendo para toda a concepção política e ética da República, Platão desenhou os contornos de uma cidade ideal, da qual o artista deve ser expulso por ser ele quem copia a realidade ao criar ilusões que afastam os cidadãos da Verdade. Mas, a quem serviria uma cidade ideal?

O descompasso na relação entre o Poeta e a Cidade, podemos dizer de maneira mais ampla entre o Artista e a Cidade, permanece aceso no século 21, mesmo com todas as ressignificações do estatuto da arte. Não faltam exemplos no século passado no qual a Arte (e o Teatro) foi reduzida a um mero instrumento propagandístico de Estados totalitários, de esquerda e de direita. O regime Nazista alemão, por exemplo, alcunhou de “Arte Degenerada” a Arte Moderna, censurando toda arte (inclusive o Teatro) que não exaltasse o que chamava de “sangue e solo” (Blut und Boden). O suicídio de Maiakovski em 1933, por sua vez, bem como o assassinato de Meyerhold em 1940, também provam o quão trágico pode ser o destino de um artista na caminhada de uma sociedade rumo ao Comunismo.

E o que dizer das acusações que recentemente têm sido deferidas por setores mais conservadores da sociedade contra artistas brasileiros cujas obras, segundo esses setores, ferem os valores morais, afastam os homens do Bem? Não teriam como pano de fundo o mesmo secular embate entre Artista e Cidade exaltado por Platão em “A República”? Não colocariam mais uma vez em jogo o descompasso entre Arte e Cidadania, descompasso este que parece se agravar sempre que se acirram as disputas políticas e econômicas no espaço público?

Para a criação de “RES PUBLICA 2023”, A MOTOSSERRA PERFUMADA buscou estender, enquanto pesquisa cênica desenvolvida por 2 anos no bairro, essa visão do artista como um “degenerado” para toda uma legião de “expatriados” – gays, prostitutas, michês, travestis, imigrantes, adictos, etc. – que vive na República, coração da cidade de São Paulo. Como a figura do poeta na cidade ideal platônica, essas populações se encontram hoje exiladas, nesse caso, exiladas dentro mesmo da cidade, resistindo aos regimes de ordenação moral e econômica do espaço urbano que sufocam e restringem, muitas vezes silenciosamente, seu usufruto da coisa pública.

Sobre a Encenação (por Biagio Pecorelli) 

Nascida de uma pesquisa em site-specific no bairro da República, a dramaturgia de RES PUBLICA 2023 faz referências a pontos estratégicos da vida noturna desta localidade, à geografia urbana do bairro, ao passado de prática de touradas na Praça e às perseguições de sua população “expatriada” (imigrantes, gays, travestis, artistas, baixa classe teatral, etc.). Em cena, o elenco instaura um clima de convivência e partilha de objetos e desejos, semelhante ao de uma república (moradia coletiva); e atua a partir da construção dos seus personagens e das suas próprias biografias – que aqui se misturam. Para o palco, trazem objetos – um vaso sanitário, uma placa luminosa “2023”, um gramofone, etc. – que vão compondo a cenografia e depois se tornam uma espécie de trincheira. 

O prólogo da peça compreende uma espécie de live terrorista, no qual o elenco (vestindo máscaras que lembram as da KKK) fala para uma câmera, deixando para o público a sensação de que está num set de gravação, bastante precário. Ao final do Prólogo, o elenco conduz a mesa ao palco ao som de um trecho de “Marcha Fúnebre de Siegfried”, de Richard Wagner. 

Os três quadros da peça, que se passam no ínterim de uma festa de Réveillon, têm como referência a linguagem do Teatro de Revista, uma linguagem popular, já apontada na própria dramaturgia, com entradas e saídas rápidas de personagens. Em pontos estratégicos da peça, a encenação estabelece “clareiras” nas quais as personagens atuam textos ou números que parecem descoladas da dramaturgia, mas oferecem, sobre esta, novas perspectivas (políticas, estéticas, éticas, sociais, etc.). É o caso do número de Billy e Vallentina, com um texto extraído de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, com a travesti fazendo o papel de Heloisa de Lesbos, ao som de uma versão naïf de Aquarela do Brasil pela orquestra do Ray Conniff; do spoken word da personagem Suzanne ao microfone, entre os Quadros I e II; das digressões sobre o movimento punk no Ceará, feitas pelo cantor cearense Jonnata Doll; e do depoimento, em voz off, do personagem Tom, vestido de coelho, sobre a monogamia e o Amor Universal no Quadro III da peça. 

O Epílogo da peça retoma a mesa disposta no Prólogo, mas desta vez para mesclar uma Santa Ceia com uma aula – entendida como performance –, na qual as personagens descrevem os acontecimentos posteriores à narrativa a partir de imagens fotográficas e pictóricas colhidas na pesquisa de dois anos sobre o bairro da República. Aqui, temas como touradas, perseguições a travestis, guerras e pintura a óleo se mesclam para oferecer ao público uma cena onde os tempos – passado, presente e futuro – se devoram. 

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Res Pública 2023

Com Biagio Pecorelli, Bruno Caetano, Camila Rios, Edson Van Gogh, Jonnata Doll e Leonarda Glück

Centro Cultural São Paulo – Espaço Cênico Ademar Guerra (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso – São Paulo)

Duração 100 minutos

11/10 até 10/11

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

$40

Classificação 16 anos

BRIAN OU BRENDA?

Cada vez mais pulsante na sociedade, a discussão sobre identidade de gênero ganha uma abordagem surpreendente em Brian ou Brenda?, com dramaturgia de Franz Keppler e direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, que recria com liberdade ficcional o polêmico caso de David Reimer. O espetáculo tem sua temporada gratuita de estreia no Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho, entre 27 de setembro e 20 de outubro, e, em sequência, segue para uma temporada popular no Viga Espaço Cênico, de 25 de outubro a 17 de novembro, com ingressos a R$20.

Em 1965, nascem os gêmeos Brian e Bruce, que são submetidos a uma cirurgia de fimose aos 8 meses. Durante esse procedimento, o pênis de Brian é acidentalmente cauterizado. Atônitos, os pais procuram o psiquiatra John Money, que defende a tese de que os bebês nasceriam neutros e teriam seu gênero definido pela criação. Ele aconselha a família a fazer em Brian uma operação de redesignação sexual e a educá-lo conforme uma menina.

A criança passa a ser chamada de Brenda. O resultado é uma menina que cresce infeliz em um corpo que não é seu e, ainda adolescente, tenta se matar. Os pais decidem contar a verdade e, então, Brenda resolve ir em busca da real identidade que nunca havia deixado de ter.

Conhecida como um dos casos mais polêmicos da psiquiatria, a violência sofrida por David Reimer é usada por pesquisadores e instituições de todo mundo para fomentar a discussão sobre identidade de gênero. Os grupos conservadores argumentam que este é um exemplo de que uma pessoa biologicamente nascida com o sexo masculino sempre se identificará como um homem. Já os teóricos de gênero defendem que o sofrimento causado pela tentativa de impor uma identidade a David é o mesmo pelo qual as pessoas transgêneras passam na sociedade conservadora que tenta impor seus padrões.

A encenação mescla fatos reais e ficcionais para propor uma reflexão sobre gênero e o direito às escolhas e desejos de cada um, bem como os limites dos tratamentos médicos e psiquiátricos. O grupo faz questão de frisar o respeito pelas diferentes identidades, colocando a pauta, inclusive, na boca de David. Ao final da trama, por exemplo, ao ser questionado em uma entrevista, ele afirma que não é contra a cirurgia de redesignação sexual, se isso for um desejo de uma pessoa que se sente no corpo errado, contrapondo essa possibilidade ao que aconteceu.

Para celebrar a diversidade e contribuir ainda mais com essa discussão, o elenco escolhido traz Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Marcella Maia e Paulo Campos, pessoas com diferentes origens, condições físicas, etnias e identidades de gênero.

O texto começou a ser escrito em 2015, quando Franz Keppler foi contemplado em um edital de dramaturgia do ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Em 2018, o grupo foi contemplado na 1ª edição do Prêmio Cleyde Yáconis, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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Brian ou Brenda?

Com Augusto Madeira, Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Fabia Mirassos e Paulo Campos

Duração 100 minutos

Classificação 14 anos

Centro Cultural São Paulo (CCSP) – Sala Jardel Filho (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso – São Paulo)

27/09 até 17/11

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

Entrada Gratuita (distribuídos uma hora antes de cada sessão)

 

Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros – São Paulo)

25/10 até 17/11

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h

$20

HAMLET-EX-MÁQUINA

42 Coletivo Teatral vai estrear a 4ª temporada seu espetáculo “Hamlet-ex-Máquina” no Centro Cultural São Paulo no dia 17 de setembro.  Montagem singular adaptada e dirigida por Érika Bodstein a partir da obra de Heiner Müller, com trechos do original de Shakespeare, a peça é uma performance experimental falada em português, alemão, inglês e espanhol – sem legendas, outra proposição de Müller, uma investigação sobre a natureza do teatro comunicar independente de língua ou linguagem.

A encenação de Érika Bodstein se passa em um bunker, um lugar de resistência para o teatro, que sobrevive apesar de tudo. Lá a peça e os atores sobreviveram às grandes catástrofes que percorrem as histórias de Shakespeare e Müller e do próprio grupo. Dois músicos ao vivo em cena completam o espetáculo. A temporada se estende de 17/09 a 23/10, sempre de terças e quartas às 20h.

Hamlet-ex-Máquina é uma peça sobre a capacidade humana de se transformar diante de suas (pequenas ou grandes) tragédias diárias. Hamlet deve vingar o pai e lutar por justiça. Esse jovem, criado por William Shakespeare, e relido por Heiner Müller, e pelo 42 Coletivo Teatral, usa a arte para lutar contra a corrupção, contra “algo de podre” que existe no “reino da Dinamarca”.

A peça apresenta um novo Hamlet, que está para além da máquina, não é mais um número na engrenagem do sistema, ao contrário, promove reflexões sobre a condição do homem no mundo globalizado.

O espetáculo Hamlet-ex-Máquina foi indicado para IV Edição do Prêmio Aplauso Brasil (referente aos espetáculos do 1˚ Semestre de 2017) nas categorias de arquitetura cênica, trilha sonora e elenco.

42 Coletivo Teatral que se reúne desde 2009, celebra na estréia desta nova temporada seus 10 anos de união e pesquisa, trazendo seu excelente trabalho novamente ao público.

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Hamlet-Ex-Máquina

Com 42 Coletivo Teatral

Centro Cultural São Paulo – Sala Adoniran Barbosa (Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, São Paulo)

Duração 60 minutos

17/09 até 23/10

Terça e Quarta – 20h

$20

Classificação 16 anos