CARNE DE MULHER

Em Carne de Mulher, a peça dos italianos Dario Fo (Prêmio Nobel) e Franca Rame aparece como parte de um manifesto artístico feminista de uma performer, interpretada por Paula Cohen. A peça estreou no Teatro de Arena em julho deste ano, seguindo para uma temporada no Teatro Pequeno Ato e agora volta em cartaz para sua terceira temporada no Cemitério de Automóveis.

Desde as Pitonisas Gregas, que eram sacerdotisas da maior importância, até escritoras, cineastas, alquimistas e outras que tiveram destaque, mas não são mais lembradas por conta do machismo de nossa sociedade”, conta Paula.

A peça escrita por Dario Fo e Franca Rame em 1977 traz a história de uma prostituta que está presa no manicômio judiciário por ter ateado fogo no escritório de um industrial. A personagem conta sua trajetória de vida, revelando uma sequencia de abusos, onde o transbordar torna-se inevitável, fazendo com que encontre forças para reagir diante de seus opressores.

Paula conheceu o texto ‘Monólogo da Puta no Manicômio’ há 20 anos quando saiu da EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP) e sempre pensou em montá-lo.“Essa poderosa e emocionante obra voltou para mim quando Dario morreu em 2016. Reli e percebi o quanto é atual e senti a urgência de fazer o espetáculo neste momento. É necessário acabar de uma vez por todas com as práticas de violência, repressão e assassinatos que em muitos casos acontecem dentro dos próprios lares.Com isso é preciso que caminhemos para um despertar de uma consciência cada vez maior através de campanhas, políticas públicas, debates sobre gênero nas escolas e todo tipo de discussão nesse sentido.Muitas vezes estes crimes são tidos como passionais, quando é necessário ir direto à verdadeira nomenclatura do ato, e categorizá-los como feminicídios, violência de gênero, evitando correr o risco de romantizar o ato”, conta Paula Cohen.

Quando comprou os direitos para fazer o espetáculo, Paula Cohen convidou Georgette Fadel para dirigir. “É uma poderosíssima artista, inteligente, comprometida com o que faz e com um pensamento crítico maravilhoso. Tínhamos um desejo mútuo de trabalhar juntas um dia e ela foi a primeira pessoa que me veio à cabeça”, conclui a atriz, que também convidou Marisa Bentivegna para assinar a iluminação, Lenise Pinheiro para fazer as fotos e também as produtoras Victoria Martinez e Jessica Rodrigues para completar a ficha técnica de criação composta apenas por mulheres.

SINOPSE

Uma mulher está sendo interrogada por uma médica e sua equipe. A partir do seu depoimento, nos deparamos com a trajetória de alguém que foi alvo de uma sequência de violências de gênero ao longo da vida e que de repente decide colocar em prática, como com a força de um grito, o seu ato de libertação.

Carne de Mulher é o meu manifesto, o meu ato político. Os artistas têm essa responsabilidade de cutucar a sociedade na sua cegueira, na sua burrice, na sua intolerância. Não temos mais como permitir o machismo. A peça é um grito de libertação, um clamor pelos direitos humanos e, portanto, altamente feminista”, diz Paula.

Paula+Gustavo

Carne de Mulher
Com Paula Cohen
Cemitério de Automóveis (Rua Frei Caneca, 384 – Consolação, São Paulo)
Duração 60 minutos
20/11 até 11/12
Segunda – 21h
$40
Classificação 14 anos

PICHE

Esmiuçar a violência urbana e o discurso de ódio, hoje, em ascensão nos grandes centros de todo o mundo, é o objetivo da Cia do Caminho Velho com a estreia de sua mais nova montagem. PICHE, que comemora os 10 anos do grupo, chega ao palco da SP Escola de Teatro no dia 11 de novembro, sábado, às 21 horas.

Com texto e direção de Alex Araújo, o espetáculo traz no elenco os atores Carlos Marques e Daiane Sousa, que se revezam nas 16 figuras presentes na dramaturgia do diretor. PICHE é resultado de um intenso processo de formação dos atores pesquisadores, que se debruçaram por três anos em treinamentos e debates a partir da pesquisa do grupo sobre violência.

Em PICHE um jovem de periferia é capturado por dois policiais milicianos que o torturam barbaramente. Cortam sua carne, escalpelam seu corpo, e desferem inúmeros murros e chutes contra ele, mas de modo inexplicável ele não morre. O caso acaba por comover uma multidão descontrolada que vai as ruas interceder pelo garoto, o que, por sua vez, gera o interesse de políticos e de um líder religioso.

Para o diretor e dramaturgo Alex Araújo, o espetáculo fala sobre indiferença, intolerância e a incapacidade de um sujeito suportar o outro. “A peça investiga como surge a vontade sádica de um sujeito querer tomar posse do corpo do outro. Como é que surge essa ânsia por dominação? O estupro, a tortura, as regras desmedidas da religião e dos bons costumes e a neurose do homem de bem. Aquilo que se exacerba transbordando os limites do aceitável, do inimaginável”, conta ele.

Continuidade da pesquisa

Em 2015, a Cia do Caminho Velho estreou, com dramaturgia de Dione Carlos e dentro do projeto Teatro Mínimo do Sesc Ipiranga, a peça Bonita. A montagem revisitou o mais famoso bando de cangaceiros do Brasil, sob o ponto de vista de uma mulher: Maria Bonita, vivida por Carolina Erschfeld.

A pesquisa dos atores que performam com a iluminação, cenário e figurino, iniciada em Bonita, tem continuidade em PICHE, mas agora construindo um território urbano. A pesquisa e montagem da peça se deu no bairro dos Pimentas, em Guarulhos, onde o grupo desempenha papel social e pedagógico através do teatro para além dos muros da universidade.  Em 2018, o espetáculo estreará também em Guarulhos, no Teatro Adamastor Pimentas.

Em Bonita descobrimos uma forma de guiar a nossa pesquisa em que a encenação e todos os seus elementos como cenário, figurino e iluminação são pautados pela sensibilidade do ator. Nossa iluminação, por exemplo, tomou outra importância quando os atores ficaram livres para manuseá-la, deslocá-la ou esconde-la fazendo surgir sombras”, explica Alex.

Ciclo de conversas

A Cia. do Caminho Velho há dez anos se dedica a prática teatral, através da investigação de novas formas dramatúrgicas, da pesquisa em busca de um ator sensível, singular e autônomo, e do empenho em oferecer gratuitamente cursos, debates, e experimentações voltadas ao teatro.

Para a temporada de PICHE, na SP Escola de Teatro, o coletivo propõe um ciclo de conversas sobre dramaturgia e violência com participação de autoras e diretoras da cena teatral paulista. Os encontros acontecem aos domingos após a apresentação do espetáculo. Entre os convidados estão: Marici Salomão (12 de novembro), Dione Carlos (19 de novembro), Maria Shu (26 de novembro) e Michelle Ferreira (3 de dezembro).

 

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Piche
Com Carlos Marques e Daiane Sousa
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 50 minutos
11/11 até 11/12
Sábado – 21h, Domingo -20h, Segunda – 21h
$20
Classificação 16 anos

VOX

Drama inédito da dramaturga Beatriz Carolina Gonçalves, o espetáculo VOX  está em cartaz na SALA EXPERIMENTAL DO TEATRO AUGUSTA. Com direção de Helio Cicero, a peça traz no elenco os atores Luiza Curvo, Fernanda Viacava, Fernando Trauer e Helio Cicero. O cineasta Cristiano Burlan assina as imagens em vídeo. O projeto tem apoio do ProAC ICMS, da Secretaria de Estado da Cultura.

A peça se passa em 1997, durante 24 horas, e se concentra na trajetória de Mariana (Luíza Curvo), uma mulher de trinta anos, que sofre de amnésia, e de sua irmã Martha (Fernanda Viacava). A ação se inicia quando Mariana recebe um estranho telefonema, que vai tirá-la da zona de conforto em que vive e obrigá-la a enfrentar seu passado, resgatando a história de seus pais e, por flutuação inevitável, a história do País.

A questão da memória e de sua contrapartida, o esquecimento, são pontos essenciais levantados pela encenação. Para Helio Cicero, diretor e personagem do espetáculo, VOX discute a necessidade de lutarmos contra nosso “esquecimento histórico”. “É preciso resgatar e discutir a história recente do País para que possamos nos vacinar contra os regimes ditatoriais, que anulam os direitos democráticos, tão duramente conquistados pelo povo brasileiro.

Segundo Beatriz Gonçalves, um dos objetivos do espetáculo também é o de propor uma reflexão sobre a tortura, praticada indiscriminadamente durante a ditadura militar e institucionalizada pelo do AI 5, cuja promulgação completa 50 anos em 2018. “Estamos vivendo um momento extremamente grave, onde a censura disfarçada de moralismo e de poder jurisdicional cancela exposições e apresentações de teatro; onde militares de alta patente defendem abertamente uma nova intervenção militar”, afirma Beatriz. “Nunca foi tão urgente e necessário refletir sobre a violência institucionalizada, que é o epicentro de qualquer regime autoritário, caso das ditaduras latino-americanas, cujo legado foram milhares de vítimas, entre mortos e desaparecidos.

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Vox
Com Luiza Curvo, Fernanda Viacava, Fernando Trauer e Helio Cicero
Teatro Augusta – Sala Experimental (Rua Augusta 943, Consolação, São Paulo)
Duração 60 minutos
19/10 até 15/12
Quarta e Quinta – 21h, Sexta – 21h30
$40
Classificação 14 anos

LIVING THEATRE, presente!

A partir do dia 31 de outubro, o Sesc Consolação recebe a exposição “LIVING THEATRE, presente!”, que revisita através de fotos, filmes, cartazes, desenhos, depoimentos e textos momentos da trajetória septuagenária de um dos maiores grupos do teatro experimental, num espaço expositivo e cênico aberto à convivência e à criação. A exposição abriga e ativa as bases e as decorrências das encenações e ações diretas sobre a realidade do grupo americano e oferece ao público, ao longo dos seus três meses de duração, atividades formativas e artísticas, entre leituras, encontros, oficinas e apresentações, com os atores remanescentes do grupo e com artistas visuais, músicos e coletivos teatrais de São Paulo.

Com curadoria de Andrea Caruso Saturnino, Ines Cardoso e Ricardo Muniz Fernandes, a exposição LIVING THEATRE, presente! exerce um importante papel formativo ao trazer ao público da cidade a oportunidade de conhecer em profundidade a proposta estética de uma das maiores referências da vanguarda teatral mundial, que, ao longo de sete décadas, conta mais de cem peças, representadas em oito línguas, em 28 países, e segue inspirando novas gerações teatrais.

Fundado em 1947, em Nova Iorque, por Judith Malina e Julian Beck, o Living Theatre já estava, em seu nascimento, diretamente ligado a uma importante renovação no território teatral da segunda metade do século XX. Junto a outros pequenos grupos experimentais nova-iorquinos, deu origem ao movimento off-Broadway, ocupando pequenos teatros ou adaptando armazéns desativados e visando a discutir em cena temas da atualidade e a própria natureza do fazer teatral, numa estrutura frontalmente contrária às produções voltadas para o sucesso de bilheteria e o entretenimento fácil.

Bastante influenciado inicialmente pela tradição do teatro político do alemão Erwin Piscator – de quem Judith Malina foi aluna e por meio do qual tomou contato com o teatro épico de Bertold Brecht – o Living Theatre associou às teorias do teatro engajado de visão marxista outras referências poéticas, filosóficas e teatrais, direcionando-as para uma obra e uma postura política voltadas à revolução não-violenta e ao anarquismo. Absorvendo e antecipando características, percepções e comportamentos típicos da revolução cultural ocorrida após a Segunda Guerra Mundial, o grupo veio a se tornar conhecido como o teatro da contracultura, engajando-se em manifestações teatrais de rua e realizando na cena uma inesperada combinação da racionalidade do teatro dialético com o teatro da crueldade de Antonin Artaud.

Tendo o ativismo político e o entrelaçamento entre arte e vida como suas grandes marcas, o Living Theatre manteve constante em suas criações a colaboração com ativistas, em torno de diversas lutas e numa relação direta com as questões mais urgentes da realidade. Enfrentando, por vezes, as dificuldades práticas da manutenção de uma proposta estética contestatória – a complexa equação entre a necessidade de financiamento das produções e o desejo de não cobrar ingressos, por exemplo, além das constantes mudanças de endereço motivadas frequentemente por problemas com o Estado – o grupo obteve seu primeiro grande sucesso comThe Connection, de 1959, cujo hiper-realismo no retrato de um grupo de usuários de heroína gerou um misto de surpresa e encanto no público e, a partir da qual, os atores passaram deliberadamente a representar a si mesmos.

Desde então, a companhia passou a excursionar pela Europa e a ser aclamada nos mais importantes festivais como o Festival das Nações, de Paris, em 1961, e o Festival de Avignon, em 1968. Ao mesmo tempo, a radicalidade de suas criações não deixou de gerar controvérsias e extremas reações repressivas, como foi o caso de sua expulsão de Avignon pelas autoridades locais com sua peça Paradise Now! Em 1971, quando o grupo preparava um trabalho paralelo para o Festival de Inverno de Ouro Preto, em Minas Gerais, teve sua prisão decretada pelo DOPS, o que repercutiu internacionalmente e mobilizou ações de protesto na Europa e EUA, levando-os a serem expulsos do Brasil por decreto presidencial – Judith só viria a ter sua entrada no país liberada em 1990, por meio da revogação do decreto de 1971 pelo então presidente Fernando Collor; Julian Beck falecera em 1985. Nas décadas seguintes, o Living Theatre continuaria sua atuação alternando-se entre longos períodos de residência na Europa – passando pela Bienal de Veneza em 1975 –, excursões pelo interior dos Estados Unidos e o estabelecimento de sedes com maior ou menor longevidade em Nova Iorque. Mesmo com a morte de Judith Malina, em 2015, o grupo continua ativo, a seu pedido, operando coletivamente com a orientação de várias gerações de membros da companhia.

O “presente!” do título da exposição, emprestado do vocabulário dos protestos populares, nos remete também tanto à radicalidade da presença do ator que o grupo operou em suas criações quanto à presença de um pensamento estético e político, que atravessa gerações. Ao colocarem a arte como ação política contra a opressão e por questões básicas como o fim a fome, das guerras, do abuso sexual, sugerindo, em cena, um modo de agir comunitariamente, buscando meios de atuar com o povo e contribuir para a criação de um mundo mais humano, justo e inclusivo, os atores do Living extravasam o próprio teatro para além do palco e da sala de espetáculos.

Olhar para a atualidade desta prática artística é o grande objetivo desta exposição. Impossível seria fazer um tributo ao Living Theatre. Necessário é fazer dele uma âncora e estabelecer com suas ideias e ações um efetivo diálogo, que se inspire pela íntima conexão entre sua criação e seu engajamento político –  a heterogeneidade de um grupo contra uma vontade e poder de homogeneização. LIVING THEATRE, presente! traça um mapa sobre o Living tomando-o como referência e estímulo para a possibilidade de se pensar um espaço/tempo liberto das instituições, das certezas, da arbitrariedade, do preconceito, das cátedras. Tendo em vista o contexto da arte no país de hoje, tomado de assalto pelo levante conservador que o atravessa, isto torna-se tarefa das mais prementes.

No espaço expositivo, criado por Simone Mina, optou-se por não enquadrar o Living numa caixa preta, mas abri-lo para a área de convivência do próprio Sesc e para as ruas, ampliando o trânsito entre o dentro e o fora e quebrando a separação entre o público e o privado. Aqui, o ator Sérgio Mamberti, que acompanhou o Living no Brasil nos anos 70, vem à memória quando conta que, em Ouro Preto, uma das acusações imputadas contra eles seria deixar sempre porta de casa aberta. Se verdade ou mentira, fato ou lenda, não importa, abrimos e mantemos aberta esta outra porta, mutável como a memória.

À trajetória retratada, somam-se artistas que irão adentrar e dialogar com seus conteúdos numa programação especialmente criada para a exposição. Na semana que antecede sua abertura, os atores do Living Theatre conduzem um workshop com participantes locais, que resultará numa performance a ser apresentada no espaço expositivo. O Coletivo Bijari visita o Living Theatre com uma oficina de lambe-lambe e compartilha seus resultados no Ato Público com Living Theatre, que também será criado por Ilion Troya com artistas locais e apresentado na Praça Roosevelt. Troya, que passou a integrar o grupo quando de sua passagem pelo Brasil nos anos 1970, se encontra num bate-papo com Sergio Mamberti – ator que também acompanhou o grupo naquele período, e Zé Celso, diretor do Teatro Oficina e responsável pelo convite que os trouxe ao país. Maria Thais dirige a leitura encenada Living Theatre no Brasil: a febre dos sonhos, a partir de reunião de escritos do casal Beck-Malina, concebida por Ilion Troya. A Companhia do Latão e o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos ocupam o espaço cênico-expositivo com as apresentações de Os que ficam e Vozes Insurgentes, respectivamente – a primeira, uma adaptação da peça original para o espaço expositivo, acrescida de comentários teóricos e a última, criada especialmente para o contexto da exposição. A construção de imagens é novamente abordada em outros dois workshops: com Luba Lukova, artista gráfica baseada em Nova Iorque responsável por inúmeros cartazes do Living Theatre, e com Guilherme Kramer, artista paulistano que tem o nomadismo como fio condutor de sua prática artística.  A criação musical também será tematizada, na oficina de criação sonora para teatro de rua conduzida por Lívio Tragtenberg. Finalmente, este extenso ciclo de atividades se encerra em janeiro, com o lançamento do livro O Caderno de Piscator, de Judith Malina, com tradução para o português de Ilion Troya.

 

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LIVING THEATRE, presente!
Exposição, Workshop, Cinema,
Sesc Consolação
31/10 até 27/01/18
Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta – 11h às 21h30, Sábado – 10h às 19h30
Entrada Gratuita
 
Programação completa em www.sescsp.org.br/consolacao

ODEIO SER POBRE

Uma família nada convencional invade o Teatro Augusta a partir do dia 28 de outubro na comédia “Odeio ser pobre”, de Cláudio Caramante.

Quando nada mais parece dar certo para Carlos Alberto, a visita surpresa de um tio rico desconhecido pode ser seu ponto de virada tão esperado. Com a intenção de partilhar sua herança ainda em vida, a família de Carlos Alberto tem tudo para levar a bolada. Porém, não tão facilmente assim. A tia Prochaska Borba Gato, esposa do tio Borbinha, possui critérios rígidos no qual seus parentes terão que se encaixar para se mostrarem dignos da herança. Agora, Carlos Alberto precisa passar por poucas e boas para disfarçar os problemas e segredos da família.

Com referências em séries icônicas da televisão brasileira como “Sai de Baixo”, “Toma lá, dá cá” e “Vai que Cola”, a comédia teatral “Odeio ser pobre” explora a vida real da classe média brasileira, em crise no cenário econômico atual, suas peripécias e, claro, as loucuras e segredos escondidos por cada um de seus personagens. A peça pergunta ao espectador, de forma leve e cômica, duas questões: O dinheiro traz felicidade? E até onde as pessoas podem ir para conseguir este dinheiro? Esta reflexão é o principal intuito do roteirista e diretor Cláudio Caramante, inspirado por sua própria história. Infeliz em um alto cargo executivo de uma instituição financeira, algo lhe faltava, e após um infarto, ele decidiu “jogar tudo para o alto” e fazer o que gosta: Viver de arte.

 Em ‘Odeio ser pobre’ é explorado, através de personagens caricatos, como no fundo estamos todos no mesmo barco e como, ainda assim, algumas pessoas vão ao extremo pela ilusão do dinheiro”, afirma Cláudio. “A grande mensagem da peça é que com ou sem dinheiro, precisamos saber viver, fazer o que gostamos de verdade. Seja qual for nossa realidade, fazer dela nossa felicidade. No final, é a única coisa que realmente conta, conclui ele.

Ao lado de Carlos Alberto, este pai de família que tem certeza que só será feliz se for rico, estão sua esposa Suellen, uma ex-miss que sofre de um tipo narcolepsia conveniente, seu filho Carlinhos, um homossexual que sonha em ser transformista, mas usa uma carapuça homofóbica na frente do pai, e sua mãe Zilda, uma mãe de santo trambiqueira. Cada um mostra um ponto de vista e uma dificuldade diferente, representando diversos lados de pessoas gente como a gente, que precisam batalhar muito para sobreviver. ​

Com tantos personagens e situações cotidianas, é impossível não se identificar com os problemas de cada membro desta família, que dão vida ao texto ágil e lúdico que oferece a reflexão sobre preconceitos e problemas sociais, levando ao público temas sérios de forma muito bem humorada.

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Odeio Ser Pobre
Com Alan Ferreira, Erika Resan, Evando Lustosa, Mitsuru Yamada, Mony Gester, Rafael Rosenberg
Teatro Augusta (Rua Augusta, 943 – Consolação, São Paulo)
Duração 80 minutos
28/10 até 19/11
Sábado – 22h, Domingo – 20h
$60
Classificação 14 anos

ALAIR (Opinião)

Em comemoração aos 45 anos de carreira, o ator Edwin Lusijunto de André Rosa e Claudio Andrade – está em cartaz com a peça “Alair” no Teatro Nair Bello (Shopping Frei Caneca).
A peça homenageia o fotógrafo, professor e crítico de arte, Alair Gomes, no ano em que se completam 25 anos da sua morte.
Alair é reconhecido como artista precursor da fotografia homoerótica no Brasil, que conquistou a consagração internacional com seu trabalho cujo tema central era a beleza do corpo masculino.
Morador do Rio de Janeiro, bem em frente a Ipanema, ele tirava fotos – secretamente – dos jovens que se exercitavam e frequentavam as areias da praia carioca. Somente algumas poucas, a pedido do artista, eram posadas no seu apartamento.
Ao total foram mais de 170 mil negativos e 16 mil ampliações entre os anos 1960 até 1992, quando morre.
Durante a peça, vemos Alair (Edwin Luisi) relembrando de fatos acontecidos na sua vida em três fases distintas – quando se apaixonou por um militar, nos anos 50; quando viajou para Europa nos anos 80; e quando veio a falecer nos anos 90 (estrangulado no seu apartamento em situações não esclarecidas até hoje).
André Rosa e Cláudio Andrade interpretam os outros personagens que passaram pela vida do fotógrafo. Em um momento específico, recriam poses dos rapazes que foram captados pela câmera de Alair (uma cena muito bonita com um jogo de luz – claro e escuro, mostrar e esconder).
A peça aborda, além da vida de Alair Gomes e seus trabalhos, dos preconceitos vividos por um homosexual da terceira idade – a solidão; não ter mais o ‘físico desejado’ pelos jovens e com isso ter que pagar para poder ter um relacionamento sexual. Constatando – e verbalizando – este sentimento, Alair/Edwin (e a plateia) vem às lágrimas (ah, juventude! como se todos fossem eternamente Apolos/Narcisos!)
 
Em tempos de discussão sobre a censura nas Artes, a peça continua atual – durante uma exposição dos trabalhos de Alair, na década de 80, num centro cultural carioca, um oficial do exército manda acabar com o evento.
 
“Alair” deve ser vista pela celebração da carreira de Edwin Luisi; pela atuação dos três atores; para homenagear Alair Gomes e seu trabalho; pela iluminação da peça; e para lembrarmos que todos envelheceremos.

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Alair
Com Edwin Luisi, Andre Rosa e Claudio Andrade
Teatro Nair Bello – Shopping Frei Caneca (R. Frei Caneca, 569 – Consolação, São Paulo)
Duração 65 minutos
06/10 até 05/11
Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h
$80
Classificação 14 anos

A AUDIÇÃO

Diva dos musicais, Kiara Sasso continua a explorar novos palcos em “A Audição”, drama que marca sua estreia na Praça Roosevelt. Escrita pelo britânico James Johnson, o texto coloca frente a frente uma diretora e uma atriz em um encontro de tensões e desafios que questiona e debate este momento cotidiano de tantas pessoas no meio artístico.
 
Kiara Sasso divide o palco com a atriz Manu Littiéry (O Príncipe Desencantado) e é dirigida por Lázaro Menezes, com quem encara o desafio de realizar o quarto projeto da própria produtora, O Alto Mar Produções
 
“A Audição” estreia dia 24 de outubro no Espaço Parlapatões e se destaca entre as opções teatrais de terças e quartas na cidade de São Paulo.
 
A peça, que faz metalinguagem com o mundo do teatro, apresenta ao público uma audição não muito comum, conduzida pela diretora Stella (Kiara Sasso). Sarcástica e provocadora, ela desafia a atriz Laura (Manu Littiéry) a todo o momento a embarcar no auto conhecimento. Do lado oposto, a atriz sob constante análise se perturba em seu lugar vulnerável ao obedecer comandos cada vez mais absurdos daquela que parece ser sua maior ponte com a oportunidade certa. Enquanto Estela afirma que o ator por excelência precisa estar preparado para dar a alma ao seu diretor, Laura começa a questionar os métodos e objetivos da diretora, levando a trama para rumos inesperados. 
 
Os limites dessa relação são postos a prova ao longo da peça entre questionamentos como “O que você realmente está fazendo aqui?” e provocações que instigam o espectador e revelam verdades escondidas em cada lado da mesa. As perguntas e suas respostas ressoam pelo palco e plateia, abrindo múltiplas possibilidades e interpretações. O público pode, então, descobrir mais sobre o passado destas duas mulheres e suas reais intenções através de jogos de azar, toques de perversidade e constantes desafios.
 
Em “A Audição”, a realidade do cotidiano de artistas que passam por olhares indiferentes e obscuros de bancas de diretores e produtores como parte de seu ofício é colocada em cena, discutida e aprofundada.  O autor James Johnson convida todos a entrar neste diálogo tenso e tentar compreender seus polos opostos. Afinal, o que a diretora procura? O que a atriz quer? A única certeza é a dinâmica repleta de egos e segundas intenções que impulsiona não apenas Stella e Laura, mas também o espectador, que a cada cena percebe novas motivações e emoções, descobrindo aos poucos o que leva diretora e atriz até A Audição.
A Audição
Com Kiara Sasso e Manu Littiéry
Espaço Parlapatões (Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação, São Paulo)
Duração 90 minutos
24/10 até 06/12
Terça e Quarta – 21h
$40
Classificação 16 anos