GÓLGOTA FOI APENAS UM PRINCÍPIO

Inspirada pelos frequentes casos de linchamento coletivo, Gólgota foi Apenas um Princípio busca desvendar as estruturas simbólicas que sustentam os discursos de ódio atualmente propagados no país. A montagem do Coletivo Dramaturgia em Movimento estreia sexta-feira, dia 24 de junho, às 21h, no Espaço dos Fofos. Ingressos gratuitos.

Criado a partir do encontro entre dramaturgos que fizeram parte do Núcleo de Dramaturgia do SESI-British Council em 2014, o CDM é um grupo de artistas que tem na dramaturgia sua principal afinidade, mas que transita entre diversos campos de expressão e exercício do teatro, intercambiando as funções de direção, atuação e preparação corporal e vocal. Nessa primeira montagem, quem assume a dramaturgia e direção é Luiz Antonio Farina e os seus outros integrantes, Ave Terrena, Fernando Aveiro e Monalisa Vasconcelos compõem o elenco.

A peça se passa predominantemente dentro de um condomínio fechado, onde uma mulher se dá conta da ausência de seu filho, que deixa de dar notícias, após sair para brincar na rua. Ela o procura e, em seu percurso, se depara com um Sacerdote, com um Político e, também, com dois Vizinhos. Crendo estar o seu filho em perigo, a busca da mãe torna-se progressivamente uma busca pelas pessoas que, segundo o que pensa, escuta e reproduz, podem ser as culpadas pelo seu desaparecimento.
O linchamento coletivo de Fabiane Maria de Jesus, ocorrido no Guarujá em 05 de maio de 2014 após falsas acusações virtuais de realização de magia negra com crianças e a erupção dos mais diversos discursos extremistas durante as últimas eleições serviram de inspiração para a montagem.

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Se, antes, determinadas opiniões costumavam permanecer veladas ou restritas a pequenos grupos – com destaque àquelas que propagam o ódio explícito a determinadas classes ou minorias – hoje, com a internet, são expressadas sem pudor. Além disso, a preocupação com a verdade parece ser cada vez menor. O que importa é a produção de discursos que levem a algum tipo de mobilização e, muitas vezes, à violência. É justamente da urgência de expôr o funcionamento de certos mecanismos discursivos que nasce Gólgota foi Apenas um Princípio”, explica o autor e diretor Luiz Antonio Farina.

Neste contexto, é importante ressaltar a arbitrariedade e os interesses escondidos nesses discursos. Por isso, a estilização declarada das atuações é um ponto fundamental para montagem. “Nossas figuras são inegavelmente artificiais, mas são, também, orgânicas. É justamente por meio das contradições, formais inclusive, que a encenação acredita ser possível provocar uma reflexão mais complexa. Queremos mostrar como podemos enxergar com naturalidade aquilo que é claramente uma construção”, acrescenta.

Por fim, a explicitação da própria estrutura teatral, junto à instabilidade da representação dos atores, opera como um procedimento de encenação que não permite o embarque total na ficção e o esquecimento da realidade. O espetáculo busca, com isso, uma atuação forte, tanto nos planos sensível e ficcional, quanto nos intelectual e mais ligado à realidade. É uma tentativa de proporcionar uma experiência que provoque, de fato, um ‘livre jogo entre a imaginação e o entendimento’” finaliza Luiz Antonio Farina.

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Desse modo, Golgota foi Apenas um Princípio destaca o caráter artificial, não natural e, consequentemente, político, dos sistemas que propagam as sentenças de ódio. E assim, procura revelar quais são as suas verdadeiras intenções e quem são aqueles que delas podem se beneficiar. A montagem fica em cartaz até dia 17 de julho.

Contemplado pelo ProAc Primeiras Obras 2015, o projeto contou, além da montagem, com quatro aberturas de processo, realizadas na Oficina Cultural Oswald de Andrade. E duas palestras, a primeira com a jornalista, formadora e dramaturga, Marici Salomão, sobre “Dramaturgias contemporâneas: espelhamento e intervenção” e a segunda com o psicanalista e professor Christian Dunker com o tema “Apontamentos sobre o ódio no Brasil Atual”, ambas no espaço cultural Tapera Taperá.

Gólgota Foi Apenas um Princípio
Com Ave Terrena, Diego Dac, Fernando Aveiro e Monalisa Vasconcelos.
Espaço dos Fofos (Rua Adoniran Barbosa, 151 – Bela Vista, São Paulo
Duração 80 minutos
24/06 até 17/07
Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 19h
Entrada gratuita
Recomendação 12 anos
 
Texto e Direção: Luiz Antonio Farina.
Cenografia e Figurinos: Diego Dac e Saulo Santos (Ateliê Russo).
Iluminação: Marcela Páez.
Trilha Original: Pedro Montagnana, Rafael Baptista e Thomaz Pimentel (Pé Grande Produções).
Preparação Corporal: Ave Terrena.
Preparação Vocal: Fernando Aveiro.
Produção Executiva: Nara Zocher.
Cenotécnica: Nilton Ruiz.
Design Gráfico: Mariano Mattos Martins.
Assessoria de Imprensa: Renan Ferreira.
Site: Daniele Carolina.
Realização: Coletivo Dramaturgia em Movimento e Governo do Estado de São Paulo.
Fotos de processo: Herbert Baratella
Fotos divulgação: Leekyoung Kim

OS DOIS E AQUELE MURO

Quando escreveu esta peça, o autor convidou Francisco Medeiros para uma primeira leitura encenada. Em seguida, o texto foi publicado e depois de alguns anos ganhou o edital do Prêmio Zé Renato de apoio à produção e desenvolvimento da atividade teatral para a cidade de São Paulo – 3ª edição – 2015. Os Dois e Aquele Muro está em cartaz no Espaço dos Fofos. Em cena, os atores Plínio Soares e Luciano Gatti.

No espetáculo dois homens – Lucio e Jonas – marcam um encontro virtualmente e se veem pela primeira vez em um pub. Depois de alguns drinks e conversa, dirigem-se à casa de Lúcio onde o jogo de sedução e poder começa a ficar mais radical. Dois homens solitários, dois universos tristes em busca de algo se jogam em uma noite de caça.

Em Os Dois e Aquele Muro Francisco Medeiros optou por uma linguagem não realista em que a escritura cênica se organiza partindo de uma relação de paralelismo entre ações verbais e ações físicas. O percurso descrito pela obra se inicia num espaço público e se transfere para um espaço privado, que por sua vez vai ganhando uma dimensão íntima crescente.

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Para o diretor “o encontro entre duas pessoas no mundo de hoje ocorre com muita frequência no território da disputa de poder. É cada vez mais comum vermos que nós, da espécie humana, buscamos o sentido do encontro na necessidade de submeter, subjugar, vencer: uma guerra, um jogo implacável, em que há quase sempre só duas opções: viver ou morrer, ganhar ou perder”.

Os Dois e Aquele Muro mescla de maneira intrigante drama, comédia, suspense, numa sucessão não linear de cenas breves e de variadas pulsações. Imersos na incessante luta pelo poder, nem por isso os dois deixam de experimentar o sabor do afeto, da solidariedade, da ferina ironia, do respeito pelas diferenças, mesmo vivendo as dificuldades ou mesmo as impossibilidades de degustar estas dimensões que também fazem parte da aventura de estar vivo.

Os Dois e Aquele Muro
Com Luciano Gatti e Plínio Soares
Espaço dos Fofos (Rua Adoniran Barbosa, 151 – Bela Vista, São Paulo)
Duração 60 minutos
13/06 até 03/08
Segunda, Terça e Quarta – 21h
$30
Grátis para professores e alunos da rede municipal de ensino.
Recomendação 16 anos
 
Texto: Ed Anderson.
Direção: Francisco Medeiros.
Assistência de direção e trilha sonora: Aline Meyer.
Cenografia: Heron Medeiros.
Figurinos: Marichilene Artisevskis.
Iluminação: Domingos Quintiliano.
Preparação corporal: Bruna Longo.
Direção de produção: Maurício Inafre.
Produção executiva: Ana Elisa Mattos.
Assistência de Produção: Murilo Carvalho.
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

 

O DEUS DA CIDADE

Em “O deus da cidade” gêneros tradicionais como circo-teatro, o teatro de revista e o espetáculo de variedades inspiram a criação de uma série de cenas independentes, que se aproximam por procurarem refletir sobre grandes impasses do nosso tempo.

O Deus da cidade foto ligia jardim ALTA27_Este novo projeto da cia. Os Fofos Encenam propõe a verticalização da estética circense por meio da inclusão de uma temática de maior cunho social, utilizando como primeira inspiração o material artístico do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e do Teatro de Revista, para depois criar uma dramaturgia inédita, junto com o dramaturgo Cássio Pires. “Brecht serviu bem à primeira etapa de trabalho. Quando a companhia se aproximou dele, foi para buscar certos mecanismos de linguagem que permitem lidar com contradições sociais. Depois desse momento, começamos a fazer tentativas a partir de nossas perspectivas, de nossas perguntas sobre o mundo em seu atual estágio de desenvolvimento. Então, nesse sentido, Brecht foi um ponto de partida, não exatamente um ponto de chegada”, comenta o dramaturgo.

Em 2012 / 2013, por meio da Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, Os Fofos realizaram o projeto Baú da Arethuzza que se propôs a investigar o desenvolvimento da teatralidade existente sob as lonas de circo na primeira metade do século XX, período que consolidou o circo-teatro como gênero teatral. O projeto realizou a montagem de 5 peças do acervo do Circo Teatro Arethuzza. Recebeu a indicação do Prêmio Shell de Teatro na categoria Inovação e ganhou o Prêmio APCA na categoria especial.

O Deus da cidade foto ligia jardim ALTA22Se no Baú o interesse era estético (pesquisar a evolução da teatralidade circense), neste novo projeto Os Fofos visam a elaboração dos discursos que interessam ao grupo. Refletir sobre o lugar que o teatro ocupa na configuração cultural e sociopolítica da atualidade e articular o discurso, sem deixar de promover o diálogo com o público. “A dramaturgia que surge daí tem um pouco a cara de um balaio, de uma junção de um tanto de questões que foram surgindo e se transformando em cena. É revisteira no sentido de fazer uma revisão de grandes temas do nosso tempo, de falar sobre uma série de coisas ao mesmo tempo. Tem a ver com circo-teatro por procurar reinventar tipos, por operar em uma perspectiva textual que é não-psicológica. Acima de tudo, o texto tem a ver com o enfrentamento de questões políticas que não podem ser postas de lado. Por outro lado, o texto não gera uma mensagem. Ele partilha um monte de perguntas, sem se preocupar com colocar uma delas no centro”, completa Cássio Pires.

Essa necessidade surge a partir dos desafios encontrados pelos Fofos: a manutenção do grupo e a própria existência enquanto companhia de teatro e espaço cultural (no início de 2014 o Espaço dos Fofos, assim como diversos coletivos teatrais da cidade de São Paulo, sofreram as consequências da especulação imobiliária e por pouco não fechou as portas).

O Deus da Cidade
Com Carlos Ataide, Cris Rocha, Eduardo Reyes, Erica Montanheiro, Katia Daher, Marcelo Andrade, Rafaela Penteado, Simone Evaristo, Silvia Poggetti e Zé Valdir.
Espaço dos Fofos (Rua Adoniran Barbosa, 151 – Bela Vista, São Paulo)
Duração 100 minutos
18/03 até 22/05
Sexta, Sábado e Segunda – 21h; Domingo – 19h
Recomendação 16 anos
$20
Dramaturgia: Cássio Pires
Direção: Fernando Neves.
Direção musical e pianista: Fernando Esteves.
Cenografia: Fernando Neves, Marcelo Andrade e Zé Valdir.
Iluminação:Eduardo Reyes.
Figurino: Carol Badra e Leopoldo Pacheco.
Fotografia: Ligia Jardim.
Direção de produção: Eduardo Reyes.
Produção: Os Fofos Encenam – Cooperativa Paulista de Teatro.
Realização: Programa Municipal de Fomento ao Teatro – Prefeitura de São Paulo – Secretaria de Cultura