GARDÊNIA

Uma década nos separa da montagem original de Gardênia. Assistimos transformações nas comunicações, na política, no sentimento-Brasil. Há dez anos os smartphones acabavam de surgir no horizonte. Facebook e Twitter eram pequenas redes sociais desconhecidas. Não havia Whatsapp. Tais considerações são para ressaltar a relevância de uma remontagem que remete ao Brasil de uma década.

Livremente inspirado em O amor nos tempos do cólera de García Márquez, “Gardênia” foi concebido num momento quem que falar de amor era possível, em que a vontade política tirava o Brasil do seu lugar de destaque no quadro mundial da fome e enchia de entusiasmo a busca por uma identidade latino-americana expandida na sua inteligência milenar, oprimida pela colonização, mas presente nos costumes, no clima e na geografia destas Américas de tantas tribos.

“Assim se passaram dez anos…” e o Brasil é outro. A América Latina é outra. Reina a distopia. Falar de amor chega a soar cínico. Vitrolas e retroprojetores são ultrapassados e difíceis de carregar, quando se tem o mundo inteiro num smartphone. O próprio fazer teatral é arcaico, manufaturado, abarca poucos e é ao vivo – nessa era de virtualidades. Também atacada e inútil como sempre é a arte em tempos turvos. Eis nossa peça manufaturada com a poesia de recursos tecnológicos obsoletos, nossas palavras ditas no olho-a-olho dos palcos, nossa arte contra a barbárie. Eis nosso amor redivivo em tempos de cólera.

CONCEPÇÃO

Representativa não só no contexto latino-americano, a obra do colombiano Gabriel García Márquez é conhecida mundialmente como um dos maiores amores através do tempo. Sua pertinência com o nosso tempo é não só riquíssima como necessária: uma experiência de amor relembrada pelos mais velhos, desconhecida pelos mais jovens. A história de Florentino Ariza e sua persistência e Fermina Daza e sua consciência de si, ao mesmo tempo que traz ao público idoso um amor consumado na velhice, traz aos mais jovens uma concepção de amor talvez já esquecida.

A estrutura dramatúrgica parte da narração em terceira pessoa, passa pelos testemunhos até culminar no encontro: a cena dialógica. Assim, os personagens, pouco a pouco, saltam da obra. Há um caminho sutil, uma conquista, um combinado silencioso estabelecido entre atores e público.

Nesse sentido, GARDÊNIA se firma na simplicidade de uma boa história, uma boa cena e na relação honesta com o espectador: o espetáculo, o fazer teatral é tão persistente e firme como o amor das suas personagens. A delicadeza com que toca questões humanas importantes torna GARDÊNIA um convite prazeroso ao tempo do teatro, ao tempo da
literatura.

FACE

Gardênia

Com Cybele Jácome e Luís Mármora

Teatro West Plaza – Sala Laura Cardoso (Av. Antártica, 408 – Água Branca, São Paulo)

Duração não informada

01 a 29/10

Terça – 20h30

$50 ($19,90 – venda online)

Classificação 12 anos