ENTRE

Nova produção da Barracão Cultural conta um dia na vida de dois irmãos (Alexandre Cioletti e Cláudio Queiróz) e a irmã (Eloisa Elena) que se encontram para organizar a festa de bodas dos seus pais. Este encontro, aparentemente banal, vai sendo afetado por acontecimentos no apartamento vizinho. Apesar de ser um encontro superficialmente afetuoso, a relação dos irmãos já evidencia aspectos do patriarcado nessa relação familiar. Um olhar mais profundo sobre como somos afetados pelo entorno, o quanto nos alienamos e onde está nosso medo, permeiam este encontro familiar.

ENTRE é um espetáculo que pretende gerar uma reflexão sobre os processos que alimentam a nossa sociedade patriarcal. A dramaturgia de Eloisa Elena parte da diferença de papéis e representatividade de gênero na sociedade e como esta questão está presente, muitas vezes de forma extremamente sutil e adaptada ao cotidiano, para abordar a nossa cumplicidade e passividade diante dos mais diversos desdobramentos e consequências do histórico patriarcal que estrutura nossa formação.

Para a trilha sonora, que ao longo do espetáculo vai permeando a trama, Dr Morris gravou uma encenação real com os atores Lavinia Pannunzio e Joca Andreazza. A dramaturgia de Eloisa Elena propõe essa coexistência de histórias; a que está acontecendo na frente do público, e a que se ouve ao longe. Essa situação expressa pelo texto tem grande potencial para gerar discussões acerca do quanto nos permitimos afetar pelos fatos a nossa volta, o quanto estamos dispostos a assumir posicionamentos efetivos e arcar com as consequências disso.

A encenação de Carlos Gradim e Yara de Novaes propõe também um paralelo na interpretação dos atores, que ora narram, ora vivem a história. Um caleidoscópio de existências, pensamentos e realidade colocado na frente do público.

Entre trata da correlação entre afetação, alienação e medo. O quanto somos afetados pelo que ocorre ao nosso redor e as consequências desta afetação, são questões cada vez mais cotidianas para todos nós. Ao mesmo tempo que somos bombardeados por informações do que ocorre no mundo inteiro e estamos o tempo todo nos manifestando e nos posicionando nas redes sociais e nos nossos pequenos círculos, continuamos muitas vezes fechando os olhos e ignorando o que ocorre ao nosso lado. Violências acontecem dentro de casa, pessoas morrem na nossa esquina e por uma infinidade de razões, muitas vezes não nos damos conta disso e do que não fizemos para evitar.

A constituição de nossa sociedade patriarcal, o machismo estrutural no qual somos formados, nos fazem repetir grandes ou pequenos comportamentos de opressão, de diferenciação, de continuidade do que como disse Caetano Veloso é “o macho adulto branco, sempre no comando.” É neste lugar incômodo que nos colocamos neste espetáculo e estamos a cada dia nos perguntando: como saltar sobre isso?”, comenta Eloisa Elena.

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Entre

Com Alexandre Cioletti, Cláudio Queiroz e Eloisa Elena

Duração 55 minutos

Classificação 14 anos

Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Bela Vista, São Paulo)

04 até 07/04

Quinta, Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 19h

Grátis (Retirar ingressos 1h antes do espetáculo)

Oficina Cultural Oswald de Andrade – Anexo (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

11 a 20/04

Dias 11, 12 e 18 – quinta e sexta – 20h

Dia 13 – sábado – 18h

Dias  19 e 20 – sexta e sábado – 18h  (em função do feriado)

DISTOPIA BRASIL

Núcleo do Pequeno Ato apresenta uma narrativa original anti-utópica inspirada nos problemas sociopolíticos brasileiros atuais no espetáculo imersivo Distopia Brasil, que estreia no Centro Cultural São Paulo (CCSP), no Espaço Cênico Ademar Guerra, no dia 29 de março. O terceiro trabalho do coletivo – depois dos premiados Fortes Batidas e 11 Selvagens.

Com direção de Pedro Granato, a montagem surgiu de um processo criativo colaborativo, no qual o núcleo se debruçou sobre distopias clássicas e contemporâneas, como 1984Fahrenheit 451, Handmaid’s Tale, Blade Runner, Matrix, Laranja Mecânica, Admirável Mundo Novo, Black Mirror, Ensaio sobre a Cegueira e V de Vingança.

Sinto que vivemos a Era de Ouro das distopias, pois muita gente tem consumido e revisitado livros clássicos desse gênero. Entretanto, temos quase sempre uma perspectiva e uma cultura vindas de fora. É difícil entender uma distopia sobre controle absoluto em um Brasil no qual o Estado é cronicamente incompetente; ou sobre o tratamento desumano, pois muitos cidadãos já vivem isso em seu cotidiano graças ao nosso passado escravocrata e com subemprego”, comenta o diretor Pedro Granato, sobre os motivos para criar essa crítica da realidade brasileira.

A ideia era partir dessas obras para criar uma reflexão sobre como seria um futuro sombrio do país se os seus problemas atuais se agravassem. “Quando começamos esse processo, não imaginávamos que o Brasil se deterioraria tão rápido; sabíamos apenas que a situação do país ficaria violenta. O teatro segue na sua profunda impotência diante do macro; o que pretendemos fazer é atuar na escala individual. Que o espectador consiga por um instante entrar em contato com o que pode acontecer e reagir a isso. Pensando nos princípios de Augusto Boal, não trabalhamos com o espectador passivo, que é um mero consumidor daquilo que o agrada ou não. Aqui ele é um agente, tem que responder às provocações e sentir-se impelido a reagir”, explica Granato.

As principais questões sociopolíticas escolhidas para discussão foram: a intervenção militar no Estado, manifestada nas forças de pacificação do exército no Rio de Janeiro, que controlam e ficham os moradores das comunidades periféricas; o avanço do Estado Religioso, representado pelo crescimento da bancada BBB (boi, bíblia e bala) no congresso; o controle e fim da privacidade, que ficaram evidentes nos recentes grampos norte-americanos para políticos brasileiros e na vigilância dos cidadãos comuns exercida pelas novas tecnologias e mídias sociais; e os desastres ambientais, como a crise hídrica que tem ameaçado os reservatórios de água de São Paulo nos últimos anos. Também foram investigados grupos atuais de resistência para tentar imaginar como seria a luta contra esse regime totalitário proposto.

Assim como as peças anteriores do coletivo, Distopia Brasil propõe uma experiência imersiva ao espectador, arrastando-o para dentro da cena. Na entrada, por exemplo, a plateia deve responder perguntas dos interventores e será acomodada em bancos como se estivesse na igreja – ou na fila de espera por um serviço estatal burocrático. Além disso, todos são filmados o tempo todo, participam dos ritos da República Teocrática do Brasil, aplaudem o discurso do líder, rezam e participam do julgamento de um casal de meninas que tentou esconder sua relação para conseguir um visto de saída do país.

Não queríamos fazer um espetáculo discursivo em um país que já está saturado de opiniões e ideias; achamos muito mais interessante fazer uma distopia da qual todos fariam parte. Ou seja, a plateia pode experimentar um pouco o que é um procedimento ditatorial, uma intervenção militar e você ser controlado. Gostaríamos que a plateia sentisse essa experiência – que envolve a angústia e o constrangimento – para entender o real perigo dos discursos radicais que estão ganhando cada vez mais força no país”, comenta.

Para o núcleo, o futuro do Brasil se parece muito com uma mistura do passado e do presente do país, nos quais a justiça é mesclada com a moral religiosa, a escravidão, o machismo e a homofobia são traços marcantes da sociedade e poucos conseguem romper o conforto da passividade. “Começamos a pensar em um futuro para o Brasil e percebemos que os tempos que virão estarão imersos no retorno de coisas horríveis que já aconteceram e de feridas adormecidas. A História não é uma evolução contínua, mas um ciclo de recuos e avanços. Vivemos um momento em que se defende o autoritarismo, a catequização, o preconceito e a perda de salários e direitos trabalhistas. Temos uma ótica medieval e obscurantista sendo retomada, na qual há luta do bem contra o mal e inimigos a serem linchados”, acrescenta.

Ao contrário das distopias clássicas, que trabalham com a ideia de um Estado com avanços tecnológicos inimagináveis, o espetáculo procura focar na face humana da questão. ”Ao invés do progresso da ciência, temos o retorno de uma narrativa religiosa maniqueísta e fantasiosa. Ao mesmo tempo, também trazemos quais são os perigos tecnológicos. A peça não trabalha com iluminação teatral, mas com fontes de luz alternativas e manuais, equipamentos celulares e pequenas câmeras. Com isso, queremos mostrar que essa distopia não está tão distante assim da nossa realidade”, esclarece o diretor.

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Distopia Brasil

Com André Salama, Jade Pereira, Isabela Tortato, Beatriz Silveira, Luisa Galatti, Rafael Abrahão, Felipe Aidar, Juliana Navarro, Bruna da Matta, Alvaro Leonn, Helena Fraga, Renan Pereira, Manuela Pereira, Bruno Lourenço e Leticia Calvosa

Centro Cultural São Paulo – Espaço Cênico Ademar Guerra – Porão (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso – São Paulo)

Duração 90 minutos

29/03 até 21/04

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

Ingresso gratuito (distribuídos uma hora antes)

Classificação 12 anos

PORNOTEOBRASIL

Diante do conturbado cenário sociopolítico brasileiro atual, o Tablado de Arruar apresenta Pornoteobrasil, com texto do dramaturgo Alexandre Dal Farra, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, onde segue em cartaz até 6 de abril. As sessões acontecem às quintas e sextas-feiras às 20h e sábados às 18h, com ingressos grátis.

Co-dirigido por Dal Farra e Clayton Mariano, o espetáculo se passa no Brasil contemporâneo, no cenário de um acidente ou atentado – não é possível afirmar ao certo. É neste espaço de destruição e catástrofe que a peça se dá. Depois de uma situação traumática como essas é comum que o sujeito tenha as suas estruturas abaladas, estruturas estas que constituíam o seu próprio olhar para si mesmo, para o seu passado, para o seu presente, e para o futuro.  Depois do acidente, três cenas procuram abordar aspectos diversos de um mesmo trauma. Primeiramente, um texto reflexivo discorre sobre perspectivas religiosas diversas, na tentativa de construir um olhar teológico para o presente. Em seguida, pessoas procuram lidar com as próprias memórias, sem conseguir ordená-las. E, finalmente, brota, do meio das memórias destroçadas, uma cena de violência e desespero, como se o terror da violência sofrida no passado recente emanasse para o presente em forma de terror em relação ao futuro.

Em alguns momentos, a encenação sugere que o país pode não ter saído completamente do tempo histórico que começou com o Golpe Militar de 1964. “O que se percebe de maneira indireta e oblíqua nas memórias dos personagens é que, de alguma forma, a sombra da ditadura não eram apenas sombras. Ela estava mascarada sob outras formas. Vemos também fragmentos dos caminhos da esquerda e pedaços de uma história que resultou no que vivemos atualmente”, esclarece Alexandre Dal Farra.

O cenário devastado, de acordo com Clayton Mariano, é uma metáfora para a situação sociopolítica brasileira atual. “O acidente é tanto uma referência mais direta à greve dos caminhoneiros de 2018 como também a imaginação de um desastre na estrada, no qual vários caminhões tombam e derrubam seus produtos na pista. E, como a peça começa com essa imagem, é como se no Brasil já vivêssemos nessa tragédia antes mesmo do recente avanço da extrema direita”, explica.

As figuras se comportam como o príncipe Míchkin, protagonista do romance O Idiota, do russo Fiódor Dostoievsky. “Eles comentam fatos e momentos políticos vivenciados no passado, mas não conseguem criar um pensamento crítico – nem nas memórias, nem no presente. Eles não conseguem se posicionar ou concatenar ideias”, revela Mariano.

Além do clássico russo, a encenação teve como referências o romance O Estrangeiro, do argeliano Albert Camus, a Pornochanchada brasileira e o livro Três Mulheres de Três Pppês, de Paulo Emílio Sales Gomes. “Creio que o ‘O Estrangeiro’ e ‘O Idiota’ confluem na construção de um ponto de vista sobre algo perplexo para o agora, que é o que defendemos como a única possibilidade de olhar realmente para as coisas. Por outro lado, as demais obras entraram como parte dessa tentativa de construir um olhar sobre o outro, a elite brasileira – sobre o que não somos e que não soubemos perceber”, acrescenta Dal Farra.

Há, além disso, uma referência às novas teologias que se propagam na sociedade brasileira atual. “O próprio termo ‘pornoteo’ do título tem a ver com a junção de uma elite pornográfica – no sentido de explicitude – e essa teologia nova do Estado Teocrático, no qual estamos inseridos. No entanto, tal junção não é, para nós, uma crítica à igreja pura e simples, e sim, a aceitação da sua importância e centralidade”, elucida Mariano.

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Pornoteobrasil

Com André Capuano, Alexandra Tavares, Gabriela Elias, Ligia Oliveira e Vitor Vieira

Oficina Cultural Oswald de Andrade – Sala Anexo (Rua Três Rios, 363, Bom Retiro – São Paulo)

Duração 90 minutos

21/02 até 06/04

Quinta e Sexta – 20h; Sábado – 18h

Entrada gratuita (distribuídos uma hora antes)

Classificação 14 anos

 

SENHORA X, SENHORITA Y

Tendo como ponto de partida o texto A mais forte, de August Strindberg, o espetáculo Senhora X, Senhorita Y se debruça sobre alguns dos papéis que a mulher  desempenha na sociedade contemporânea, investigando aspectos muitas vezes contraditórios de sua inserção social e política, de seus investimentos afetivos e dos agenciamentos simbólicos que a cercam. O foco é a construção do feminino do modo como ele se revela por meio da relação entre mulheres.

Sinopse
Senhora X e Senhorita Y encontram-se em uma casa de chá e entram em conflito ao confrontarem suas vidas. Esse encontro se repete, com variações de humor e grotesco, em outros tempos e em outras circunstâncias, revelando novas possibilidades de  compreensão do lugar que cada uma ocupa em relação à outra e em relação à sociedade.

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Senhora X, Senhorita Y

Com Ana Paula Lopez, Sol Faganello e Camila Couto

Oficina Cultural Oswald de Andrade – sala 7 (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

Duração 70 minutos

14 a 30/03

Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h

Entrada gratuita (ingressos distribuídos com 1 hora de antecedência)

Classificação 14 anos

ERA UMA VEZ NO OESTE

O minifestival “Era uma Vez no Oeste”, acontece desde 2017 e já reuniu mais de 30 artistas independentes do folk nacional. No dia 09 de março, às 20h, no palco do ‘teatro-balcão’ – Piccolo Teatro acontece a edição especial ‘mulheres no folk’.

Para a edição, sétima do festival, o idealizador do festival, Douglas Mam, convidou a curadora e assessora Nany Gottardi para montar a programação do evento. Os co-curadores optaram por reservara data apenas para artistas mulheres.

O Era Uma Vez no Oeste já contou com a apresentação de diversas mulheres da nova cena folk, como Nô Stopa, Bruna Ryan, Elisa Moreira – da Antiprisma – e Natalia Lobado – da Versos Polaris -, entre outras. Quando convidei a Nany para assumir a co-curadoria desta edição, ela propôs que somente artistas mulheres subissem ao palco. Achei que faria muito sentido …” , comenta Douglas.

Acho importante a questão da representatividade. Em outro festival, que acontecerá este ano no interior do estado e ajudei a idealizar, chamei a atenção para a questão da presença das mulheres, criamos um prêmio para esse público e inserimos mulheres na programação e nas atividades formativas. É um movimento crescente e necessário, vejo festivais e redes que destacam a participação e protagonismo da mulher na música. Nesta edição do Era Uma Vez no Oeste, até o próprio curador, que sempre toca, abriu mão de sua participação. Foi para os bastidores, deixando o palco para as mulheres convidadas. Se a ideia era chamar a atenção para as mulheres do folk esse seria o caminho mais lógico e natural. Estou muito entusiasmada”.Complementa Nany

Piccolo Teatro

Desde sua 6ª edição, o minifestival acontece no Piccolo Teatro, ‘teatro-balcão’ localizado na Rua Avanhandava e idealizado pelo empresário Walter Mancinni. O público tem acesso gratuito e poderá assistir ao show, ao ar livre, da calçada da consagrada rua do centro da cidade.

★ Flávia Felício

Com mais de 150 mil execuções em seu trabalho autoral nas plataformas digitais (mais de 100 mil somente no hit “Mesa Pra Dois”, com Caio Razec), a cantora e compositora paulista Flávia Felício vem conquistando um espaço cada vez maior na cena da música independente brasileira, unindo o Folk, Rock e Pop em suas canções marcadas por uma essência enérgica e vibrante.
Ouça: https://goo.gl/tDUxss

★ Lívia Mendes

Unindo a delicadeza de sua voz e a doçura de suas letras, a cantora e compositora paraense Lívia Mendes combina folk e pop em sua sonoridade. Com um EP disponível em streaming, Lívia agora se prepara para o lançamento de seu primeiro álbum, apresentando um show intimista e romântico, onde prega o amor e a liberdade.

Ouça: https://goo.gl/NbkVCV

★ Magê

Atriz que tem a versatilidade de estar no palco, na tv, no cinema e agora assume mais uma faceta ao se lançar como cantora e compositora com a música “Força de Maria”. O trabalho de Magê na música se destaca pela intersecção de linguagens audiovisuais e performáticas com a musicalidade das palavras.

Ouça: https://goo.gl/J3LtwV

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Era uma vez no Oeste: Edição Mulheres no Folk

Com Flávia Felício, Lívia Mendes e Magê

Piccolo Teatro (Rua Avanhadava, 40 – Consolação, São Paulo)

Duração 75 minutos

09/03

Sábado – 20h

Grátis

Classificação Livre

ILHADA EM MIM – SYLVIA PLATH

Os últimos meses de vida da poeta norte-americana Sylvia Plath (1932-1963),  antes de cometer suicídio aos 30 anos, são um enigma. Recém-separada do poeta britânico Ted Hughes, com quem teve dois filhos e viveu uma intensa história de amor, Sylvia coloca-se simultaneamente entre o extremo desespero e a liberação de uma energia criativa sem precedentes. Uma identidade poética única se forma neste período. E não é com o objetivo de decifrar este enigma, mas de experienciá-lo, que a Cia. Estúdio Lusco-Fusco apresenta “Ilhada em mim – Sylvia Plath”, a partir de 11 de março no Biblioteca Mário de Andrade, com sessões às segundas-feiras, 19h. Já apresentado em diversos festivais e cidades como Rio de Janeiro, Santos, Recife, Belo Horizonte, Tiradentes, Jundiaí e Londrina, o espetáculo retorna, assim, ao local de sua criação, São Paulo.

Com direção e cenografia de André Guerreiro Lopes e dramaturgia de Gabriela Mellão, a partir da obra de Sylvia Plath, o espetáculo é sucesso de crítica e público desde sua estréia em 2014, indicado ao Prêmio APCA de Melhor Direção (Associação Paulista de Críticos de Arte), ao Prêmio Especial Botequim Cultural pela “brilhante fusão de linguagens” e contribuição à cena teatral carioca, e ainda Prêmio APTR de Melhor Iluminação. No palco, a premiada atriz Djin Sganzerla vive Sylvia Plath e André Guerreiro Lopes interpreta o poeta Ted Hughes, em um espaço cênico de forte simbologia visual: o cenário concebido pelo diretor é composto por um espelho d’água, onde o mobiliário e os atores vão aos poucos submergindo. Objetos congelados relacionados à vida de Sylvia – como livros, sapatos e um telefone – vão degelando lentamente durante a apresentação. O elemento água é a metáfora articuladora de toda a encenação, em diálogo simbólico com os estados mentais da persona

Para o diretor e ator André Guerreiro Lopes, a força poética e revolucionária da poeta, seus tormentos internos, o conflito com as convenções sociais dos anos 50 e a relação de amor obsessivo com o poeta Ted Hughes são abordados no espetáculo em um registro que se distancia do realismo e da linearidade. “Mais do que narrar a vida de Sylvia Plath, busquei transpor poeticamente para o palco seu universo único, paradoxal, vanguardista, cheio de contrastes e extremos, criando um poema cênico. Todos os elementos trabalham de forma integrada – a atuação, a simbologia visual, os sons, a luz, as palavras e o movimento preciso dos atores – criando um ambiente de imersão sensorial em que a imaginação e sensibilidade do espectador são convidadas a participar do jogo.”, descreve.

A montagem pretende ser fiel a poética de Sylvia, com sua ferocidade e ironia. “Incorporo na encenação elementos da sua obra, como o surrealismo tenso, a energia condensada e ironia feroz. Há um mistério em torno da persona artística de Sylvia que o espetáculo não pretende solucionar, mas compartilhar. Utilizamos todos os elementos possíveis para criar uma atmosfera de suspensão e perigo em cena”, completa André.

Para a atriz Djin Sganzerla, “representar Sylvia Plath no palco é uma mistura de muito prazer com desafio. Passo por muitos estados físicos e emocionais na peça, acho que parte da riqueza da montagem também está nisso, o público se depara com a complexidade humana desta mulher. Nesta montagem, Sylvia é uma brasa de vulcão que anda sobre as águas… Carregando o mar em sua alma, com olhar infinito. Uma mulher decidida, frágil, intensa, que pode ser infantil, capaz de escrever uma obra absolutamente genial três meses antes de sua morte, o livro “Ariel”.

Os figurinos assinados pelo estilista Fause Haten também vão se desintegrando conforme o espetáculo avança. “Pensei em uma Sylvia Plath que aparece, se constrói e desconstrói aos olhos da plateia. Ela é revelada, revela-se, vai se despindo e escorre pelo palco. Perde as cores e se veste de todas as cores”, define o estilista.

A trilha original do espetáculo é especialmente composta pelo premiado músico Gregory Slivar, colaborador da Cia. Estúdio Lusco-fusco em diversos trabalhos.

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Ilhada em mim – Sylvia Plath

Com Djin Sganzerla e André Guerreiro Lopes

Biblioteca Mário de Andrade – Auditório Rubens Borba de Moraes (Rua da Consolação, 94 – República, São Paulo)

Duração 60 minutos

11/03 até 01/04

Segunda – 19h

Entrada gratuita (As senhas começarão a ser distribuídas uma hora antes)

Classificação 12 anos

PORNOTEOBRASIL

Diante do conturbado cenário sociopolítico brasileiro atual, o Tablado de Arruar apresenta Pornoteobrasil, novo espetáculo com texto do dramaturgo Alexandre Dal Farra, que estreia no dia 21 de fevereiro na Oficina Cultural Oswald de Andrade, onde segueem cartaz até 6 de abril. As sessões acontecem de quinta a sábado, sempre às 20h, com ingressos grátis.

Co-dirigido por Dal Farra e Clayton Mariano, o espetáculo se passa no Brasil contemporâneo, no cenário de um acidente ou atentado – não é possível afirmar ao certo. É neste espaço de destruição e catástrofe que a peça se dá. Depois de uma situação traumática como essas é comum que o sujeito tenha as suas estruturas abaladas, estruturas estas que constituíam o seu próprio olhar para si mesmo, para o seu passado, para o seu presente, e para o futuro.  Depois do acidente, três cenas procuram abordar aspectos diversos de um mesmo trauma. Primeiramente, um texto reflexivo discorre sobre perspectivas religiosas diversas, na tentativa de construir um olhar teológico para o presente. Em seguida, pessoas procuram lidar com as próprias memórias, sem conseguir ordená-las. E, finalmente, brota, do meio das memórias destroçadas, uma cena de violência e desespero, como se o terror da violência sofrida no passado recente emanasse para o presente em forma de terror em relação ao futuro.

Em alguns momentos, a encenação sugere que o país pode não ter saído completamente do tempo histórico que começou com o Golpe Militar de 1964. “O que se percebe de maneira indireta e oblíqua nas memórias dos personagens é que, de alguma forma, a sombra da ditadura não eram apenas sombras. Ela estava mascarada sob outras formas. Vemos também fragmentos dos caminhos da esquerda e pedaços de uma história que resultou no que vivemos atualmente”, esclarece Alexandre Dal Farra.

O cenário devastado, de acordo com Clayton Mariano, é uma metáfora para a situação sociopolítica brasileira atual. “O acidente é tanto uma referência mais direta à greve dos caminhoneiros de 2018 como também a imaginação de um desastre na estrada, no qual vários caminhões tombam e derrubam seus produtos na pista. E, como a peça começa com essa imagem, é como se no Brasil já vivêssemos nessa tragédia antes mesmo do recente avanço da extrema direita”, explica.

As figuras se comportam como o príncipe Míchkin, protagonista do romance O Idiota, do russo Fiódor Dostoievsky. “Eles comentam fatos e momentos políticos vivenciados no passado, mas não conseguem criar um pensamento crítico – nem nas memórias, nem no presente. Eles não conseguem se posicionar ou concatenar ideias”, revela Mariano.

Além do clássico russo, a encenação teve como referências o romance O Estrangeiro, do argeliano Albert Camus, a Pornochanchada brasileira e o livro Três Mulheres de Três Pppês, de Paulo Emílio Sales Gomes. “Creio que o ‘O Estrangeiro’ e ‘O Idiota’ confluem na construção de um ponto de vista sobre algo perplexo para o agora, que é o que defendemos como a única possibilidade de olhar realmente para as coisas. Por outro lado, as demais obras entraram como parte dessa tentativa de construir um olhar sobre o outro, a elite brasileira – sobre o que não somos e que não soubemos perceber”, acrescenta Dal Farra.

Há, além disso, uma referência às novas teologias que se propagam na sociedade brasileira atual. “O próprio termo ‘pornoteo’ do título tem a ver com a junção de uma elite pornográfica – no sentido de explicitude – e essa teologia nova do Estado Teocrático, no qual estamos inseridos. No entanto, tal junção não é, para nós, uma crítica à igreja pura e simples, e sim, a aceitação da sua importância e centralidade”, elucida Mariano.

FACE.png

Pornoteobrasil

Com André Capuano, Alexandra Tavares, Gabriela Elias, Ligia Oliveira e Vitor Vieira

Oficina Cultural Oswald de Andrade – Sala 3 (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

Duração 90 minutos

21/02 até 06/04 (não haverá apresentação 01/03)

Quinta, Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 18h

Entrada gratuita (distribuídos uma hora antes)

Classificação 14 anos