HÁ DIAS QUE NÃO MORRO

Depois do bem-sucedido Adeus, Palhaços Mortos (prêmios Shell de melhor cenário e Aplauso Brasil de melhores espetáculo de grupo e direção), a companhia Academia de Palhaços dá início a uma nova fase de pesquisa e passa a se chamar ultraVioleta_s. Para marcar essa transição, o grupo estreia Há Dias Que Não Morro no dia 3 de outubro no Espaço Cênico do Sesc Pompeia.

A peça teve uma pré-estreia em maio na Turquia e é a segunda parte da Trilogia da Morte, que teve início em 2016 com a estreia de Adeus, Palhaços Mortos. Agora a busca estética pela linguagem desenvolvida anteriormente se aprofunda e se mescla à criação de um texto original de Paloma Franca Amorim e a uma direção coletiva de Aline Olmos, José Roberto Jardim, Laíza Dantas e Paula Hemsi.

Inspirada na discussão sobre segurança e liberdade e na fricção dessa balança em foco na política atual, a encenação busca ampliar o debate sobre os aprisionamentos contemporâneos e corpos em paranoia. Em cena, estão três atrizes em um cubo-jardim feito para agradar. Elas acordam para seus dias sempre ensolarados, escutam sempre os mesmos pássaros, alegram-se com a mesma nuvem. As intérpretes viram figuras-bonecas exteriormente idênticas. O público acompanha dia após dia o decorrer dessas figuras. Suas falas partiturizadas e seus corpos estáticos passam por uma dimerização de tônus que deslocam seus estados diários.

A visualidade é toda pautada por cores vibrantes e formas graciosas, exacerbando um universo confortável das aparências, uma caixa instagramável, uma representação de armadilha moderna para aprisionamentos contemporâneos. Esse cubo-jardim é um desdobramento do premiado cenário de Adeus, Palhaços Mortos. Já a trilha sonora se instaura como um mantra e cai como uma âncora em alto-mar.

Hoje vivemos a ficção da realidade e essa obra exacerba a ficção. Numa época em que palavras são jogadas ao léu como se fossem desprovidas de peso e consequência, essa obra satura frases corriqueiras em repetições constantes para provocar movimento. Estamos enredados em um sistema inerte e cíclico e a dramaturgia em repetição intensifica essa sensação atual, distanciando o espectador para que ele se projete naquele cubo-jardim e criando nele uma espécie de olhar premonitório. O texto é mutilado ao longo de seu curso e ressignificado com suas próprias palavras em novos contextos.

Antes de entrar na sala de espetáculos, o espectador se depara com uma intervenção do lado de fora do Espaço Cênico. Na parede, um arco-íris luminoso, composto por luzes em movimento, envolve a porta de entrada e sua fachada. Deitado no chão, em frente à porta, está a figura de um palhaço. Sua roupa descaracteriza formas realistas de seu corpo – como braços ou pernas maiores do que o comum – e seu rosto está coberto por uma máscara. No chão, um piso brilhante reflete e enquadra a situação, cria uma outra dimensão do espaço, transformando-o em um loop de si mesmo. Quando a porta se abre, o público deve passar por cima do palhaço para adentrar a sala de espetáculo.

Essa obra-prólogo foi criada para desequilibrar o espectador antes do espetáculo. Uma espécie de introdução constituída pela surpresa diante de uma configuração absurda: um arco-íris, um ambiente feliz e o corpo real de um palhaço estendido no chão que problematiza a entrada do teatro. A intervenção configura-se como um convite para o mundo mágico e absurdo que o espetáculo explorará.

FACE

Há Dias Que Não Morro

Com Aline Olmos, Laíza Dantas e Paula Hemsi

Sesc Pompeia – Espaço Cênico (Rua Clélia, 93, Água Branca – São Paulo)

Duração 50 minutos

03 a 27/10

Quinta, Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 12 anos