NUREMBERG

Um jovem neonazista se prepara para um atentado, do qual não sairá vivo. Suas histórias, seus ideias políticos e seus desejos são revelados enquanto se exercita freneticamente, esperando seus companheiros. Esse é o mote de NUREMBERG, texto inédito no Brasil do dramaturgo uruguaio Santiago Sanguinetti, que estreia dia 2 de setembro, sábado, às 20 horas, no Centro Compartilhado de Criação.

O solo, montagem do grupo Na Cia dos Homens, tem tradução e direção de César Maier e atuação de Osmar Pereira. Sem cenografia, NUREMBERG é apoiado em projeções do documentário O Julgamento de Nuremberg, além de nomes de pessoas brasileiras que sofreram algum tipo de violência, como o pedreiro Amarildo, a travesti Dandara, o índio Galdino e Claudia, a mulher arrastada por uma viatura policial no Rio de Janeiro.

NUREMBERG é a segunda montagem da Cia de um autor da América Latina. A primeira foi Uma Ferida Absurda, da argentina Sonia Daniel, em 2011. O diretor César Maier tem focado seus estudos na dramaturgia contemporânea dos países da América do Sul e já planeja montar em 2018 um texto do uruguaio Sérgio Blanco.

Superioridade

Filho de um pai autoritário e de uma mãe dura e cruel, violado em sua adolescência, o personagem – um skinheadneonazista – proclama histericamente sua fúria contra o mundo e contra os alvos tradicionais da extrema direita, incluídos o homossexuais e os judeus, enquanto aguarda um sinal de seus companheiros, que virão buscá-lo para a execução de um atentado contra a embaixada de um país não nomeado.

Mas se em alguns momentos a personagem vocifera seu ódio, através de discurso contra a ordem existente e os ‘seres inferiores que transformam o mundo em uma repugnante pocilga’, expresso em saudações nazistas, em outros se transforma em uma criança assustada, cuja intenção é ser bom e se comportar bem”, explica o diretor César Maier.

Através destes recursos, NUREMBERG nos aproxima de sua personagem, quando coloca o público em contato com o sentimento de superioridade que se faz presente em cada indivíduo, em diversos momentos e situações, seja por razões sociais, raciais, intelectuais ou físicas. Para o dramaturgo Santiago Sanguinetti, o que nos diferencia do personagem do monólogo é que esse sentimento não nos leva ao desejo de aniquilar o outro. “Trata-se de um ser humano. Horrível, mas um ser humano do início ao fim. E por isso, o teatro há de nos servir para entender as grandezas e as misérias dos seres humanos“, afirma ele.

Claustrofóbico

Em NUREMBERG, o personagem skinhead e neonazista dispara vários relatos em um fluxo de pensamento. As projeções de vítimas do nazismo e de estrema violência fazem um contraponto com o discurso dele, reforçando uma atmosfera claustrofóbica.

Segundo o ator Osmar Pereira, a cidade de Nuremberg constituiu-se no grande símbolo do apogeu do regime nazista e foi transformada no símbolo de sua destituição quando abrigou os julgamentos contra seus principais artífices, responsáveis por um dos mais terríveis genocídios da história da humanidade. “E se Nuremberg nos parece distante, geográfica e culturalmente, devemos enxergá-lo como símbolo de toda intolerância, seja racial, de gênero ou social”, sentencia ele.

César Maier acredita que o espetáculo e seu personagem dialogam com atual e crescente onda de manifestações de ódio, que resultam em crimes hediondos, como machismo, racismo e homofobia, e com os chamados haters cujo contato pode se dá facilmente através dos comentários nos portais da internet e das redes sociais. “Deste modo,NUREMBERG cumpre um dos mais importantes papeis do teatro: refletir sobre os aspectos sociais e políticos que constituem as relações no mundo contemporâneo.

Nuremberg 1 bx

Nuremberg
Com Osmar Pereira
Centro Compartilhado de Criação (Rua Brigadeiro Galvão, 1010 – Barra Funda, São Paulo)
Duração 40 minutos
02/09 até 01/10
Sábado – 20h, Domingo – 19h
$40
Classificação 16 anos