O BEIJO NO ASFALTO

O Beijo no Asfalto talvez seja o maior legado do teatro rodrigueano ao poder do mundo midiático e todos os seus ilimitados desdobramentos, sua relação com o homem, suas consequências, sua moral, sua ética.

Clássico de Nelson Rodrigues, que estreia dia 18 de outubro, sexta-feira, às 21h, no Teatro do Sesc Santo André. Bruno Perillo assina a direção do espetáculo que conta com os atores Anderson Negreiros, Angela Ribeiro, Heitor Goldflus, Lucas Lentini, Mauro Schames, Natalia Gonsales, Rita Pisano, Roberto Audio e Valdir Rivaben.

Falando de um Rio de Janeiro de 60 anos atrás, a peça ressurge mais atual do que nunca. Nelson Rodrigues expõe, de modo claro e objetivo, o terror que se alastra por uma sociedade diante de uma notícia que se mostra fora do paradigma inconsciente da normalidade, que aparenta estar num plano de percepção diferente do senso comum estabelecido nesta mesma sociedade.

A notícia de que um homem beijou outro homem na boca, no meio da rua, no centro da grande cidade, é o suficiente para servir de célula para disseminar uma tragédia.

Arandir, o protagonista, catalisa em si tudo o que resta de vida humana, em seu sentido simbólico mais poético e fraterno possível. Após este simples e singelo ato (mas indubitavelmente raro e belo) – o beijo na boca de um homem atropelado e prestes a morrer – Arandir passa de mera testemunha de um acidente a acusado de um crime. Por que essa “fábula” trágica, desenhada tão bem por Nelson Rodrigues, nos é tão impactante ainda hoje?

Nossa busca, enquanto artistas e cidadãos, é a tentativa de reverter a cegueira cotidiana, rígida e impermeável (que nos faz sucumbir ao aniquilamento da poesia, do amor) e propor outros olhares possíveis para aquilo que nos cerca.

Em que momento passamos a ser regidos pelas notícias e opiniões ao redor? Em que lugar ficou a nossa capacidade de reflexão e discernimento, de empatia e sensibilidade?

O personagem Amado Ribeiro, o repórter, por sua vez, é o catalisador maior da tragédia. Ele é o rei das manchetes, o homem que domina o talento mais cafajeste numa sociedade.

É imprescindível que se veja no palco esta figura de um jeito cru, no que ele tem de mais nocivo e sórdido; e não da maneira em que costumeiramente vemos os canalhas, “maquiados”.

O nosso mundo só lê manchetes. As manchetes são basicamente aquilo que o nosso mundo é, no aqui e no agora do hoje. Twitter, Facebook, Instagram, Whatsapp e outros afins, são gigantes canalizadores e reprodutores de manchetes e/ou “notícias”, e das mais infinitas opiniões.

A grande desgraça que se abate sobre Arandir talvez seja a intromissão e a usurpação, em sua intimidade mais profunda, de uma alienação e de uma ignorância tóxicas endêmicas, que se originam nos mais antigos resquícios da nossa fundação de país. O pequeno ato de Arandir é um gigantesco ato de resistência.

A devastação de sua privacidade é a consequência direta de sua condenação. Um beijo entre dois homens, no meio da rua, diante da bandeira nacional, é atitude pública inadmissível.

À parte e somando-se a tudo isso, a escolha de um ator negro para o papel de Arandir (o ator Anderson Negreiros) traz instantaneamente novas camadas de conexões, arrastando junto uma história de 500 anos de um Brasil repleto de contradições inexoráveis em sua fragilíssima identidade.

Proposta de Encenação

A encenação partirá da ideia de se realizar uma radiografia do texto, para tentar extrair o que consideramos a sua essência. Para tentar investigar, com um olhar aprofundado, as raízes dos acontecimentos que se abatem sobre os personagens, e as suas questões mais relevantes para o Brasil de hoje.

O texto ágil, potente e fracionado (em total sujeição ao mote principal) é ação. A ação, por sua vez, é diálogo. Tudo principia em decorrência de um evento (o beijo) que se dá em plena rua, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, diante de muitas testemunhas e centenas de transeuntes.

Não há, por assim dizer, necessidade alguma de se estabelecer no palco qualquer espécie de formalização cenográfica. Pelo contrário, vamos trabalhar no sentido de conceber um campo simbólico para todo o desenrolar da trama, como se tudo ocorresse num espaço público.

A ação dramática se avoluma a cada fala, a cada quadro, e se torna autossuficiente, na medida em que se atinja a enorme autenticidade contida nas falas. Aos poucos, elas nos revelam o deserto interior de cada um dos personagens (em contraposição a Arandir), o deserto de amor cuja secura será a matéria do incêndio em que se transforma o horror difundido por Amado.

A simplicidade estética, em benefício da eficiência da narrativa, será a nossa busca. O elenco permanecerá o tempo todo no palco, seja no foco da cena, seja compondo imagens em relação ao foco, mas nunca passivamente (sempre como um grande olhar externo julgador).

Os objetos cênicos irão assumir diversas posições e funções ao longo da montagem. A alegoria do “rolo compressor” – que assenta o asfalto, mas que remete a um enquadramento generalizado da sociedade, e também à rotativa, a máquina que imprime os jornais – é uma imagem que nos apontará caminhos para a encenação.

As interpretações vão caminhar no sentido de tentar expor, no limite, o jogo bárbaro da manipulação, em contraponto ao que vamos chamar de campo poético da existência. Como num raio X, queremos explicitar as entranhas desse texto, sem subterfúgios, e sem qualquer traço de caricatura.

FACE (2)

O Beijo no Asfalto

Com Anderson Negreiros, Angela Ribeiro, Heitor Goldflus, Lucas Lentini, Mauro Schames, Natalia Gonsales, Rita Pisano, Roberto Audio e Valdir Rivaben

SESC Santo André (R. Tamarutaca, 302 – Vila Guiomar, Santo André – São Paulo)

Duração 80 minutos

18/10 até 10/11

Sexta – 21h, Sábado – 20h, Domingo – 19h

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 14 anos

O BEIJO NO ASFALTO

O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues (1912-1980) ganha nova versão em estreia dia 12 de agosto, sábado, às 16h, Praça Roosevelt (frente à Rua Augusta). O diretor Pedro Granato traz a trama para a cidade, a céu aberto, com as avenidas como pano de fundo, na montagem do núcleo de pesquisa do teatro Pequeno Ato – responsável pelas peças Fortes Batidas (vencedora de prêmios APCA, São Paulo e Zé Renato) e 11 Selvagens (que volta em cartaz em setembro).

Unindo técnicas do teatro de rua com o conceito do site specific, a proposta é apresentar a peça ao entardecer transformando a cidade em cenário. As escadas serão as arquibancadas para o público. Para o diretor, na rua a peça consegue atingir um número maior de pessoas que não frequentem uma sala de teatro convencional.

O texto é muito popular e atual ao discutir política, homofobia, violência policial, abuso de poder, manipulação da imprensa.  Eu queria trazer para hoje, para falar dessa lógica de linchamento que acontece a cada dia. O tempo inteiro alguém está sendo linchado publicamente pela internet, o uso das “fakes News” tão utilizadas na politica brasileira, então busquei trazer essa história para esse contexto atual. Acho que todos os elementos que estão na obra estão presentes na rua renovando o olhar da plateia para a cidade”, explica.

Na trama de Nelson Rodrigues, Arandir sofre um massacre midiático por dar um beijo em um homem que morria após ser atropelado. A polícia, procurando abafar escândalos, encampa uma cruzada moralista seguindo a estética do linchamento, tão comum nos dias de hoje.

Utilizando coros e elementos contemporâneos, essa versão revigora o impacto da tragédia rodrigueana. Na rua, a violência e homofobia estão muito mais latentes. O atropelamento é uma possibilidade real e a encenação joga com essa tensão entre a cena e o cotidiano ao redor. Os atores se revezam em vários personagens se multiplicando em cena.

A própria Praça Roosevelt é um espaço de disputa na cidade. Revitalizada especialmente pela ação dos teatros sofre agora um processo de gentrificação e diversas proibições de uso. Ocupá-la com uma obra tão emblemática sobre abusos de poder  é resgatar o potencial provocador da obra de Nelson Rodrigues”, completa o diretor.

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O Beijo no Asfalto
Com André Salama, Diego Dac, Fhelipe Chrisostomo, Gabriela Fontana, Gustavo Pompiani, Isabela Fikaris, Maria Eduarda Machado, Mariana Beda, Mau Machado e Roberto Garcia. 
Praça Roosevelt (Praça Franklin Roosevelt, s/n – Bela Vista, São Paulo)
Duração 90 minutos
12/08 até 03/09
Sábado e Domingo – 16h
Grátis
Classificação Livre

 

 

 

BEIJO NO ASFALTO

eI042687.jpgMesclando a relação entre a dramaturgia e o jornalismo no Brasil, o Grupo de Segunda, da Cia das Artes, retorna aos palcos com o clássico de Nelson Rodrigues – O Beijo no Asfalto.

O espetáculo aborda a forma sensacionalista com que fatos cotidianos são retratados pela mídia. A trama mostra um homem casado que beija a boca de outro homem que acaba de ser atropelado e está à beira da morte. Estampado como manchete de jornal, o ‘beijo no asfalto’ torna-se o assunto mais comentado na cidade. Sexualidade, intrigas, ética na imprensa e crise familiar são os temas principais que englobam o enredo.

Para o diretor Jair Aguiar, um dos trunfos da peça é a dramaturgia de Nelson Rodrigues. “É um estilo bem marcado, frio, não pode trabalhar com a emoção, mas com o sentimento. Cada vírgula e cada palavra tem sua importância. É preciso ter uma atenção e um estudo bem trabalhado”.

Apesar de ser um texto escrito em 1960, o espetáculo dialoga com a atualidade, pois discute a relação do poder, da imprensa e do núcleo familiar. Todas essas camadas estão presentes no dia a dia da contemporaneidade. A montagem traz um choque e uma reflexão na imersão de valores.

A cenografia incorporou aspectos e disposição no palco como se fosse um tribunal. O figurino e a iluminação trabalham com a predominância de tons das cores preto e branco, criando um clima de cinema noir. “O palco virou uma espécie de porão, incorporando o submundo e a marginalidade. Possui um clima gelado que combina bem com a atmosfera de São Paulo em virtude do isolamento do povo e da mídia. Nelson Rodrigues soube como poucos colocar o preto no branco da vida em nossa cara”, enfatiza Jair Aguiar.

O Grupo de Segunda é o primeiro coletivo formado na Cia das Artes, que realiza uma parceria com o projeto Oficina de Atores que objetiva a formação, por meio da pesquisa de linguagem do gesto mínimo, a montagem de textos da dramaturgia brasileira e internacional. “A criação do grupo é resultado do contato e da produção contínua nos últimos anos. Um suporte que privilegia a discussão de todos os fatores que envolvem o fazer teatral”, fala Jair Aguiar.

O Beijo no Asfalto 
Com Antonio Netto, Diego Rodda, Felipe Ramos, Fernanda Gonçalves, Leão Lobo, Niveo Diegues, Edivaldo Gomes, Marcio Vasconcelos,Natália Martins e Samira Aguiar
Espaço Parlapatões (Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação, São Paulo)
Duração 90 minutos
03/03 até 21/04
Quinta – 21h
Recomendação 12 anos
$40
 
Autor: Nelson Rodrigues
Direção Geral: Jair Aguiar
Direção Artística: Antonio Netto
Cenografia: Marcio Tadeu
Figurino: Marcio Tadeu
Iluminação: Will Damas
Assistência Geral: Keese Contino
Operação de luz: Agnaldo Nicoleti
Operação de som: Weverton Caria
Produção: Grupo de Segunda
Realização: Cia das Artes
Assessoria de Imprensa: Renato Fernandes
Fotos: Rodrigo Dionísio.

 

“O Beijo no Asfalto”

O Grupo de Segunda, da Cia. das Artes, apresenta o clássico de Nelson Rodrigues – “O Beijo no Asfalto”, no Espaço Parlapatões.
O espetáculo aborda a forma sensacionalista com que fatos cotidianos são retratados pela mídia. A trama mostra um homem casado que beija a boca de outro homem que acaba de ser atropelado e está à beira da morte.
Estampado como manchete de jornal, o ‘beijo no asfalto’ torna-se o assunto mais comentado na cidade. Sexualidade, intrigas, ética na imprensa e crise familiar são os temas principais que englobam o enredo.
Para o diretor, um dos trunfos da peça é a dramaturgia de Nelson Rodrigues. “É um estilo bem marcado, frio, não pode trabalhar com a emoção, mas com o sentimento. Cada vírgula e cada palavra tem sua importância. É preciso ter uma atenção e um estudo bem trabalhado”.
Apesar de ser um texto escrito em 1960, o espetáculo dialoga com a atualidade, pois discute a relação do poder, da imprensa e do núcleo familiar. Todas essas camadas estão presentes no dia a dia da contemporaneidade. A montagem traz um choque e uma reflexão na imersão de valores.

Beijo na Boca 63
A cenografia incorporou aspectos e disposição no palco como se fosse um tribunal. O figurino e a iluminação trabalham com a predominância de tons das cores preto e branco, criando um clima de cinema noir. “O palco virou uma espécie de porão, incorporando o submundo e a marginalidade. Possui um clima gelado que combina bem com a atmosfera de São Paulo em virtude do isolamento do povo e da mídia. Nelson Rodrigues soube como poucos colocar o preto no branco da vida em nossa cara”, enfatiza Jair Aguiar.
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(crédito fotos – Zé Naklem)

“O Beijo no Asfalto”
Com Grupo de Segunda: Alvaro Costa, Edivaldo Gomes, Marcio Vasconcelos, Natália Martins e Samira Aguiar; e os atores convidados Antonio Netto, Diego Rodda, Fernanda Gonçalves, Leão Lobo e Niveo Diegues
Espaço Parlapatões (Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação, São Paulo)
Duração: não informada
26/08 até 15/10
Quarta e Quinta – 21h
$40