O OVO DE OURO (Opinião)

A peça “O Ovo de Ouro” (Sesc Santo Amaro) retrata um episódio  da nossa história – as memórias de um trabalhador do “Sonderkommando” nos campos de concentração, durante o Nazismo, na Segunda Guerra Mundial.

Sonderkommando é a denominação dada a um grupo especial de pessoas – de origem judia – que atuava em campos de concentração. Tinha a função de executar os trabalhos mais árduos e críticos, que os soldados alemães não fariam, como enterrar os corpos dos prisioneiros mortos e a limpeza das câmaras de gás. Por realizar estes serviços, seus integrantes eram separados dos outros presos e tinham alguns privilégios. Só que não duravam muito tempo nesta função, pois após algum tempo de serviço, eram exterminados e substituídos por novos presos.

“Surge da minha necessidade de não deixar morrer esse pedaço tão importante da História que é a Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto. A ideia de escrever a peça surgiu em 2014, quando eu fui apresentado ao universo do Sonderkommando por meio de um pequeno artigo em uma revista. Essa figura do judeu que tem que auxiliar com o extermínio do próprio povo mexeu muito comigo e minha noção de humanidade, e me incentivou a tentar entender por que eles faziam isso, por que eles não se recusavam. Com este espetáculo temos a oportunidade de falar sobre Segunda Guerra sob o ponto de vista dessa figura pouco conhecida”, explica o autor e ator Luccas Papp.

Aqueles que não podem lembrar o passado
 estão condenados a repeti-lo”
 (George Santayana)

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“O Ovo de Ouro”

O judeu Dasco Nagy (Sergio Mamberti) é entrevistado por uma jornalista (Rita Batata) sobre o período em que viveu no campo de concentração de Auschwitz. Como fantasmas que rondam o presente, suas memórias dos horrores vividos voltam à tona. Memórias estas que não apresentam uma ordem cronológica, nem se sabe se são verdadeiras ou frutos de sua imaginação.

São relembradas histórias da relação do protagonista quando jovem (Luccas Papp) com seu melhor amigo Sándor (Leonardo Miggiorin), com a prisioneira Judit (Rita Batata) e com o comandante alemão Weber (Ando Camargo).

"… É fácil esquecer para quem tem memória; 
difícil esquecer para quem tem coração”…
Gabriel Garcia Marques

FACE

O assistir o espetáculo

Fui preparado para assistir a peça. Afinal, sabemos o que aconteceu durante o período histórico retratado. Sentado no teatro, ao chegar próximo do início do espetáculo, parecia que as paredes iam se fechando, como se quisessem me sufocar.

A direção de Ricardo Grasson comanda de uma maneira precisa o desenrolar da narrativa. O cenário de Kleber Montanheiro é constituído de placas gigantescas – seriam fornos, lápides, portais? – que se abrem e se movimentam, permitindo que os fantasmas das lembranças de Dasco adentrassem na história. Tem o desenho de luz de Wagner Freire – ou a sua inexistência – que vai mostrando, ou escondendo, o que está sendo contado.

Durante vários momentos, fechei os olhos para não ver o que acontecia (não há imagens explícitas na peça), como uma forma de fuga. Mas era pior. Ouvindo os diálogos, o barulho dos trens que traziam os presos para os campos de concentração, os gritos de dor (design de som de I. P. Daniel), imagens vívidas se formavam na minha mente.

Até que ao final – com várias lágrimas no rosto – junto com a plateia, levantei-me para aplaudir merecidamente o trabalho dos cinco atores Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo e Luccas Papp. Uma atuação controlada, mínima, sem arroubos gestuais. Há momentos na peça em que tudo que é necessário é apenas a voz dos personagens/atores.

Se quiser saber mais sobre o tema, há os filmes “Cinzas da Guerra” (“The Grey Zone”, 2001) e “O Filho de Saul” (“Saul fia”, 2015), além dos livros “Os Afogados e os Sobreviventes: Os Delitos, os Castigos, as Penas, as Impunidades” (Primo Levi, 1990), “Depois de Auschwitz – o Emocionante Relato de uma jovem que Sobreviveu ao Holocausto” (Eva Schloss, 2013) e “Sonderkommando: No inferno das câmaras de gás” (Shlomo Venezia, 2014),

Amanhã fico triste, amanhã. 
Hoje não. 
Hoje fico alegre. E todos os dias, por mais amargos que sejam, 
Eu digo: Amanhã fico triste, hoje não. 
Para Hoje e todos os outros dias!
(Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças 
no campo de concentração de Auschwitz)

 

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O Ovo de Ouro

Com Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo e Luccas Papp.

SESC Santo Amaro (Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro, São Paulo)

Duração 90 minutos

21/11 até 15/12

Quinta e Sexta – 21h, Sábado – 20h, Domingo – 18h

$30 ($9 – credencial plena)

O OVO DE OURO

A função do Sonderkommando ou comandos especiais, unidades de trabalho formadas por prisioneiros selecionados para trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios dos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, inspira O Ovo de Ouro, com texto de Luccas Papp e direção de Ricardo Grasson. A peça estreia no dia 21 de novembro, no Sesc Santo Amaro, onde segue em cartaz até 15 de dezembro.

Obrigados a tomar as atitudes mais atrozes para acelerar a máquina da morte nazista, esses prisioneiros conduziam outros judeus à câmara de gás, queimavam os corpos e ocultavam as provas do Holocausto. Quem se recusava a desempenhar esse papel era morto, quem não conseguia mais desempenhar a função, era exterminado com os demais.

Ovo de Ouro surge da minha necessidade de não deixar morrer esse pedaço tão importante da História que é a Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto. A ideia de escrever a peça surgiu em 2014, quando eu fui apresentado ao universo do Sonderkommando por meio de um pequeno artigo em uma revista. Essa figura do judeu que tem que auxiliar com o extermínio do próprio povo mexeu muito comigo e minha noção de humanidade, e me incentivou a tentar entender por que eles faziam isso, por que eles não se recusavam. Com este espetáculo temos a oportunidade de falar sobre Segunda Guerra sob o ponto de vista dessa figura pouco conhecida”, explica Luccas Papp.

Contada em diferentes episódios e tempos, a trama revela a vida de Dasco Nagy (Sérgio Mamberti), que foi Sonderkommando e sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Em cena, dois planos são apresentados – a realidade e a alucinação – para retratar a relação do protagonista Dasco Nagy quando jovem (Luccas Papp) com seu melhor amigo Sándor (Leonardo Miggiorin), com a prisioneira Judit (Rita Batata) e com o comandante alemão Weber (Ando Camargo). No presente, Dasco é entrevistado, já em idade avançada, por uma jornalista, narrando os acontecimentos mais horrorosos que viveu no campo de concentração e descrevendo a partir do seu ponto de vista os horrores e tristezas da Segunda Guerra Mundial.

O papel de Dasco é dividido pelos atores Sérgio Mamberti, que dá vida ao personagem no tempo presente/alucinação, e Luccas Papp, que o interpreta no passado/realidade, no plano da memória. “Talvez este seja um dos personagens mais desafiadores na minha carreira por uma série de fatores. Um deles é por representar o mesmo personagem que Sérgio Mamberti, o que é uma honra e uma responsabilidade muito grande. Segundo, é que ele é um sonderkommando vivendo situações de caráter tão absurdo. Eu preciso fazer com que o público acredite na realidade do que acontecia nos campos de concentração. Tenho que trabalhar com elementos obscuros no meu interior para trazer veracidade para essas situações. E como a peça é feita em ordem não cronológica – são nove cenas divididas entre passado e futuro – tenho que organizar minha cabeça para conseguir colocar a emoção certa na hora certa”, esclarece o ator e dramaturgo.

A dualidade interna entre ser obrigado a auxiliar na aniquilação de seu próprio povo e o medo da morte transforma o Sonderkommando em um complexo personagem a ser debatido. Nesse contexto são muitas as questões discutidas, desde o significado real de humanidade, o medo da morte, os limites da mente e da alma humana e a perda da própria identidade.

A dramaturgia foi inspirada em uma pesquisa sobre obras que discutiam os temas do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial. Entre elas, destacam-se os livros Sonderkomamando: No Inferno das Câmaras de Gás, de Shlomo Venezia, e Depois de Auschwitz, de Eva Schloss; e o filme O Filho de Saul, de László Nemes, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2016.

A encenação

A encenação tem como inspiração e referência, a sétima arte, em todos os seus desdobramentos, nuances e dezenas de relatos deixados pelos sobreviventes dos campos de extermínio. “Apontamos no tempo presente, o encontro entre a jornalista e o sobrevivente, de forma fantasmagórica, alucinógena, imprimindo uma atmosfera vibratória, de vida pulsante às cenas e aos personagens. Quando nos transportamos, ilusoriamente, ao campo de concentração, ao passado concreto, vivido pelos personagens apontamos uma atmosfera fria, enclausurada, suspensa e sem vida, que nos conduz imageticamente àquelas sensações de crueldade. Luz, som, cenografia e figurino conversam com essa estética e nos conduzem à proposta de encenação. A ideia é fazer com que as sensações criadas por estes elementos no espaço cênico atinjam o espectador de maneira intensa. Como encenador, entendo que a cenografia, o figurino, a iluminação, a trilha sonora não são panos de fundo ou cama para um espetáculo, juntos eles atuam concretamente fusos ao texto, formando assim uma narrativa dramatúrgica única”, revela o diretor Ricardo Grasson.

Para que não se repita

Em tempos de pouco diálogo, imposição de ideias e ideologias, censura e extremismos é fundamental debatermos esses temas tão duros e atrozes para que os erros que provocaram tanto sofrimento no passado não se repitam. É necessário e quase que um dever recordarmos as atrocidades do holocausto nazista, para que a história vivida no final dos anos trinta e início dos quarenta, não volte a nos assombrar. Para que as novas gerações, não testemunhas deste período da história, saibam o que aconteceu e onde a intolerância pode nos conduzir. Auschwitz e outras tristes lembranças do holocausto, podem até escapar da memória, mas jamais deixarão os corações de quem viveu a tragédia, especialmente de quem se atribui a responsabilidade de manter viva, por gerações, as imagens da perversidade humana. Uma das formas de evitar a repetição de tais tragédias coletivas é recordá-la, para que não ressurjam no horizonte, sinais do restabelecimento de ódios raciais, extremismos comportamentais e ideologias sectárias, formando o caldo cultural do qual o nazismo se alimentou e  cresceu”, completa Ricardo Grasson.

… É fácil esquecer para quem tem memória; difícil esquecer para quem tem coração”…

Gabriel Garcia Marques

FACE

O Ovo de Ouro

Com Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo e Luccas Papp.

SESC Santo Amaro (Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro, São Paulo)

Duração 90 minutos

21/11 até 15/12

Quinta e Sexta – 21h, Sábado – 20h, Domingo – 18h

$30 ($9 – credencial plena)