MÁRTIR

O fundamentalismo religioso, os discursos de ódio e a violência provocada pela intolerância, pautas cada vez mais atuais no Brasil, são os temas da peça Mártir, de Marius Von Mayenburg, um dos principais nomes do teatro alemão contemporâneo.

A trama narra a transformação do jovem Benjamin, que, ao começar a ler a Bíblia, para de frequentar as aulas mistas de natação na escola porque elas ferem o seus sentimentos religiosos.

A mãe do protagonista atribui o seu novo comportamento, a um possível envolvimento com drogas ou a conflitos com sua sexualidade. A única que parece se preocupar com ele é Érica, sua professora de biologia, que logo vira alvo dos ataques do menino.

Benjamin mergulha profundamente na Bíblia e usa trechos das escrituras sagradas para combater radicalmente a ciência e qualquer fé diferente da sua. Ele cria para si uma verdade absoluta e inabalável a medida em que vai criando conflitos com os outros personagens. O espetáculo mostra essa trajetória da conversão religiosa até a radicalização do discurso, uma forma de “crucificação” da alteridade.

Com direção de Soledad Yunge, o espetáculo levanta questionamentos: até que ponto as pessoas estão dispostas para aceitar a fé das outras? Em que circunstância elas devem impor as próprias crenças? Como elas se comportam ao se deparar com doutrinas diferentes das suas? Qual é o limite entre um discurso de mudança e um comportamento extremista? O que é a verdade? Como alguém é capaz de transformar uma opinião em “verdade absoluta” para justificar os próprios desejos?

A ideia de pesquisar cenicamente esses temas surgiu em 2015, depois que a Cia. Arthur-Arnaldo ministrou oficinas de teatro em escolas públicas e particulares no projeto #JOVENS contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. Na ocasião, os artistas perceberam a existência de uma juventude religiosa que tem ganhado força nos últimos anos.

Ao finalizar a leitura de ‘Mártir’, tive o impulso de começar a ensaiar imediatamente e tornar tridimensional as sensações que o texto despertou. A agilidade dos diálogos cortantes e precisos em contraponto aos solilóquios de citações bíblicas me lançou em um redemoinho, no qual vozes e forças se confrontam constantemente. Ao longo das 27 cenas somos convocados o tempo todo a pensar nas nossas crenças e traçar os limites em relação a temas como racismo, sexualidade, machismo, religião, extremismo, deficiência entre outros”, comenta Yunge.

A cenografia de Rafael Souza cria um espaço fictício único a partir de dois elementos simples, cadeiras e mesas, que poderiam ser encontrados em qualquer um dos diversos ambientes da narrativa. Todos atores o ocupam simultaneamente, de forma que as cenas borram seus limites e seguem o fluxo vertiginoso da dramaturgia. A iluminação, por sua vez, fragmenta este espaço híbrido e dá visibilidade às trajetórias.

A montagem é parte do projeto )Entre Jovens( contemplado pela 30a edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. O elenco conta com a participação dos atores: Ana Andreatta, Carlos Morelli, Edu Guimarães, Georgina Castro, João Bienemann, Júlia Novaes, Taiguara Chagas e Tuna Serzedello.

 Escrita em 2012, a peça ficou em cartaz no Teatro Schaubühne em Berlim com direção do próprio autor. Foi descrita pelo jornal britânico The Guardian como “provocativa e terrivelmente engraçada” por ocasião da montagem britânica do texto em 2015. A tradução do texto alemão para o português, assinada por Christine Röhrig, foi concedida à Cia. Arthur-Arnaldo pelo Goethe Institut.

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Mártir
Com Ana Andreatta, Carlos Morelli, Edu Guimarães, Georgina Castro, João Bienemann, Júlia Novaes, Taiguara Chagas e Tuna Serzedello.
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 80 minutos
23/11 até 16/12
Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h
Ingresso Grátis (Distribuição de convites uma hora antes de cada sessão)
Classificação 14 anos

VOCÊS QUE ME HABITAM

Sinopse

Em um consultório, o encontro de uma mulher e uma médica se torna o disparador da revelação de situações limite. Suas memórias emergem, trazendo à tona relações familiares e desejos de liberdade frente às regras de uma sociedade patriarcal.

Sobre a direção de Vocês que me habitam, por Erica Montanheiro

“Nosso tempo é áspero, duro, “asfáltico”. Querem nos obrigar a fechar fronteiras, levantar muros e não querer atravessar para ver o outro. Querem nos conduzir a negar a empatia. Um tempo de securas. De construção de muros que bloqueiam qualquer tipo de afetividade.

Pensando na construção cênica (e desconstrução desses fatos sombrios), optei por uma linguagem que pudesse gerar uma aproximação imediata com o público.

Assim, na encenação, utilizo elementos do Melodrama (gênero que conheci quando estava ainda na escola de Philippe Gaulier, em 2003. Inaugurei minha pesquisa sobre o melodrama junto à Cia. Os Fofos Encenam, dentro da linguagem do Circo-Teatro orientada por Fernando Neves. Posteriormente, em Paris, aprofundei meus estudos em uma residência artística).

O corpo como disparador de situações, a imagem corporal como suporte para os estados que as atrizes devem acessar, a sustentação da emoção e a suspensão dos tempos melodramáticos. Estes elementos servem como estrutura para a composição das cenas e alicerce para as atrizes. A ambiência sonora e as partituras corporais fazem parte desta linguagem, ora impulsionando os estados, ora propondo uma oposição.

Esta linguagem do Melodrama foi escolhida por criar uma dramaturgia cênica capaz de prender o interesse do espectador sobre a narrativa, enquanto o texto passeia por campos poéticos e por uma ordem não-cronológica dos acontecimentos, fragmentos de memória e um plano de reconstituição dos fatos da vida de uma mulher.

Somos muitas, temos infinitas camadas e queremos fazê-las emergir para o público através de uma dramaturgia que faça ecoar nossas vozes. Os acontecimentos retratados na peça falam de momentos vividos por muitas mulheres dentro de uma sociedade estruturada sob o olhar do patriarcado. Outros, evocam as crianças que um dia fomos, sempre dispostas a brincar e acreditar que é possível ser o que se queira ser.

Vocês que me habitam pretende convocar um outro tempo. Um tempo capaz de dar a possibilidade de nos vermos, ouvirmos e lermos essas pequenas histórias de mulheres que instauram um tempo da delicadeza – um lugar que agora talvez não exista, mas que insistimos – enquanto ato político – em fazer emergir. É uma forma de resistir, de dizer ao país que nosso corpo é nosso, que nosso útero é só nosso, que somos um ajuntamento de mulheres fortes – e ao mesmo tempo, sensíveis – que juntas podem mais, que juntas não se julgam, que se perdoam, prontas para a revolução dos afetos. Será que ainda é possível chorar de um jeito bonito?”

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Vocês Que Me Habitam
Com Ana Elisa Mattos e Joyce Roma
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo)
Duração 80 minutos
13/11 até 20/12
Segunda, Terça e Quarta – 20h
Entrada Gratuita (Retirada de ingressos 1h antes do espetáculo.)
Classificação 16 anos

 

 

O BUDA QUEBRADO

O que se quebra é uma fatalidade. E o que se deixa quebrar?” Quando escreveu este questionamento na primeira versão do texto em formato de cena breve o autor Ed Anderson convidou o diretor e amigo Marcelo Costa para uma primeira leitura encenada no evento Satyrianas, em 2015, logo em seguida o texto foi ampliado e adotado para encenação pelo Coletivo Flama.

Marcelo Costa é um artista pernambucano radicado em São Paulo com passagens em produções adultas e infantojuvenis. O elenco é protagonizado por Priscila Scholz e Flavio Costa, atores casados há 20 anos, e que só agora realizam o desafio de dividir a cena em uma temporada teatral.

Depois da temporada do seu texto “Os Dois e Aquele Muro”, dirigido por Francisco Medeiros no ano passado, Ed Anderson se arrisca agora no universo de um buda em pedaços e um casal aparentemente tradicional, mas que é regido por inconstâncias de vontades em uma década que abarcou conflitos e rebeldias.

O percurso descrito pela obra se inicia num espaço privado e se transfere para uma dimensão coletiva, que por sua vez ganha nova e crescente dimensão íntima. O casal – HERMES e MATILDA – segue por caminhos arenosos para tratar de temas residentes no indizível – amor, liberdade, limites e censuras – ao eleger algumas possibilidades de trajetória onde não existem caminhos claros além de possíveis ramificações a serem compartilhadas junto a uma plateia intimista que possa se alimentar das questões propostas.

Para Marcelo Costa, “Apesar da ação cênica ocorrer na década de 70, o encontro entre estas duas pessoas está também associado ao mundo de hoje onde ocorre com muita frequência o território da disputa de poder. É cada vez mais comum vermos casais indiferentes ao que possam sentir um pelo outro e não recuperar a essência que os uniu. E isto parece hoje ser elemento presente na vida do homem em sociedade vigiada.

Assim também ocorre com HERMES e MATILDA, personagens criados por Ed Anderson. Segundo ele: “Um dos aspectos mais interessantes da peça é que, à medida que o jantar se desenrola, os dois não só veem diante de si os fragmentos do ‘buda’ que os separa e ao mesmo tempo os convida a um encontro, como também experimentam um momento propício para que se revelem diante de si próprios e do outro, sem espelhos.

O BUDA QUEBRADO – Exercício nº 01 é uma tragicomédia que mescla de maneira intrigante humor, lirismo e drama, numa sucessão de cenas com variadas pulsações.

A iluminação de Fê Guedella sugere a passagem da atmosfera cheia de sombras, reflexos e transparências, típicas da noite e do universo das aparências;

De uma certa maneira esta é também a opção do cenário de Paola Ribeiro, um espaço versátil, móvel, e de grande agilidade que se modifica a partir da ação dos personagens: uma mesa desmembrada como os pensamentos do casal;

O figurino de Murilo Carvalho busca dialogar entre formas e cores a época e a personalidade dúbia dos personagens.

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O Buda Quebrado
Com Flávio Costa e Priscila Scholz. Voz em Off: João Acaiabe
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 50 minutos
26/10 até 18/11
Quinta, Sexta e Sábado – 20h
Entrada Gratuita
Classificação 14 anos

 

UMA PILHA DE PRATOS NA COZINHA

Peça que marcou a estreia do ator Alexandre Borges como diretor teatral estreia em São Paulo dia 9 de novembro na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro. “Uma pilha de pratos na cozinha”, escrita em 2007 por Mário Bortolotto, narra o drama em que quatro amigos reunidos em um apartamento falam sobre a vida e morte ao som de muito rock’n roll, drogas e bebidas. A peça fica em cartaz de quinta a sexta, 20h e aos sábados, 18h, com entrada franca, até dia 18 de novembro.

Montagem que estreou no Rio de Janeiro em 2014, circulou pelo interior de São Paulo, fez uma única apresentação na capital paulista, participou do Festival de teatro de Tiradentes, Minas Gerais, foi uma oportunidade para comemorar os 30 anos do grupo Cemitério de Automóveis criado por Bortolotto.

Considerado um dos melhores textos de Bortolotto, Uma pilha de pratos na cozinha é um drama em que Júlio (Rodrigo Rosado), um jovem avesso às relações com outros seres humanos está enclausurado em seu apartamento, enquanto sua pilha de pratos cresce na pia. Chegam três presenças em série que mexem com essa monotonia: Daniel (Akin Garragar), um amigo sanguessuga fracassado; Breno (Fioravante Almeida), o síndico do prédio e Cristina (Silvana D’lacoc), ex-namorada de Júlio e doente terminal. A peça é marcada por tiradas ácidas, sarcásticas, inteligentes e entremeadas com a inação das personagens que sabem bem analisar suas próprias vidas, mas não conseguem se mover. “Uma Pilha de Pratos na Cozinha” é uma peça que naturalmente faz com que o espectador saia do teatro pensando sobre a vida. Como é a sua vida? O que você faz dela, ou não faz? Enfim, não existe certo nem errado. É tudo um grande ensaio.

A estreia de Alexandre Borges como diretor teatral aconteceu pela admiração que ele tem pelo autor, um de seus contemporâneos. A dupla já havia trabalhado nos cinemas e agora renova a parceria nos palcos.

Essa estreia como diretor veio por acaso. O Mário liberou um de seus textos para uma montagem carioca. A conversa inicial aconteceu em 2013 e a produção achou que eu seria um cara legal para acompanhar a produção desde o começo e prestar uma homenagem aos 30 anos do Cemitério de Automóveis que aconteceu em 2014. Topei pelo entusiasmo! – celebra Borges.

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Uma Pilha de Pratos na Cozinha
Com Akin Garragar, Fioravante Almeida, Rodrigo Rosado, Silvana D’lacoc
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 40 minutos
09 a 18/11
Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h
Entrada Gratuita
Classificação 14 anos

 

SEI LÁ VI

Montagem da Companhia do Estevão MaravilhaSei Lá Vi estreia dia 5 de outubro, quinta-feira, às 20h, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Com direção de Caco Mattos, traz no elenco Fernando Stelzer, Lucas Pinheiro Paiva, Rafael Senatore e Rodrigo Horta. O espetáculo foi contemplado pelo ProAc Primeiras Obras de Teatro em 2016. Ingressos gratuitos.

A concepção do espetáculo surgiu a partir de questionamentos sobre a postura do ser humano perante as mais diversas situações do cotidiano e como ela escancara nossas fragilidades dentro da sociedade. No interesse em explorar modos com que a farsa, a mentira e a ilusão colocam a humanidade cada vez mais na posição de espectadora da própria vida.

A partir da pergunta “o que é ilusão para você?” o diretor pediu aos atores pequenas cenas, músicas, depoimentos pessoais e imagens. Durante o processo de pesquisa visitaram instituições com crianças, adolescentes, adultos e idosos, analisando de que maneira a ilusão atua nessas fases da vida. “Esse foi um momento de levantamento de materialidades cênicas. Em seguida o grupo foi provocado a escolher quais eram as cenas que poderiam potencializar o discurso sobre a ilusão que eles gostariam de emitir. Priorizei e apostei na autonomia dos integrantes, questionando e orientando suas escolhas. Minha função teve uma abordagem artística pedagógica nessas provocações”, conta Caco Mattos.

Ao observar o nonsense dos movimentos surrealista e dadaísta, a fantasia dos desenhos animados e os antigos espetáculos de variedades (por sua pluralidade de atrações, como palhaços, ilusionismo, música, dança etc), Sei Lá Vi traz uma estética simplista, mas que busca atingir o público pelo deslumbre sinestésico e imaginativo, traduzindo a vida através do não-convencional e da subversão à lógica.

A peça faz uma metáfora sobre a vida, as vezes muito sutil, subliminar. Constantemente, estamos imersos numa relação de ilusão sem perceber, seja nas relações afetivas, nas questões tabus como a morte, nas relações de poder, na solidão. Estabelecemos, conscientes ou não, uma relação com a ilusão e muitas vezes somos manipulados por ela sem nos darmos conta disso”, fala Mattos.

A peça é encenada a partir da metalinguagem com os próprios atores realizando uma peça de teatro, cujas cenas são divididas em números de variedades, referentes a cada fase da vida, como infância, juventude, maturidade, velhice. Ao falar de ilusão, a linha entre realidade e fantasia torna-se mais tênue e o jogo, mais vivo.

A trilha sonora traz diversos temas característicos de seus tempos como música clássica, valsa, jazz, e o chá chá chá, além de algumas composições próprias, que auxiliam no jogo cênico.

A provocação é instaurar nos espectadores a ruptura da ilusão e colocá-los para pensar a partir da sua experiência pessoal sobre a vida e questões que a Companhia quer abordar”, explica Mattos.

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Sei Lá Vi
Com Fernando Stelzer, Lucas Pinheiro Paiva, Rafael Senatore e Rodrigo Horta. 
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 70 minutos
05 a 14/10
Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h
Ingresso Grátis (Retirada de ingressos a partir de 1 hora antes da apresentação)
Classificação 10 anos

 

DADESORDEMQUENÃOANDASÓ

DADESORDEMQUENÃOANDASÓ tem direção de Carlos Baldim e propõe o encontro entre a ARTERA Companhia de Teatro e a Cia. Provisório-Definitivo para a idealização, realização e produção do espetáculo. A peça foi contemplada pelo edital do Prêmio Zé Renato.
 
No palco, o elenco composto por Andrea Tedesco, Anna Cecilia Junqueira, Paula Arruda, Pedro Guilherme Ricardo Corrêa dão vida aos narradores e personagens da história de Stevie, um garoto portador da síndrome de Asperger, que sofre com a ausência do seu pai e com a dificuldade de se relacionar com o mundo por conta dessa síndrome. 
Davey Anderson oferece uma dramaturgia contemporânea, que instigou uma encenação que a acompanhasse nessa experimentação de linguagem, propondo a mistura de elementos épicos e dramáticos, e utilizando o espaço cênico com uma mescla de teatro e cinema. 
 
A temática é, sobretudo, universal. A partir do mundo particular desse garoto, o espectador pode enxergar o seu próprio mundo. Superar traumas e medos, separações e ausências e a morte. Tudo isso com a inerente individualidade que cada um carrega em si. “A síndrome de Asperger é assim uma grande peculiaridade da personagem para mostrar o que a sociedade tem dificuldade de admitir: diferença e a diversidade fazem parte do humano. Por portar uma doença, por pensar ou sentir desta ou daquela maneira, pelas escolhas que são feitas, e, apesar das semelhanças, não existe um ser humano igual ao outro. Exaltar a beleza e importância disso é um dos motores desse projeto tanto para a Companhia ARTERA de Teatro, quanto para a Cia. Provisório-Definitivo.“, comenta a atriz Paula Arruda
 
É traço marcante dos dois grupos essa temática: peças infantis, jovens e adultas essas companhias investem em histórias que salientam a importância da individualidade em todas as questões que nos desafiam na relação com o outro e com o mundo: relacionamento, escolhas, sexualidade, sonhos, perdas, moral e ética, tolerância, intolerância e comportamento.
 
A união desses dois grupos vem também corroborar para outro traço marcante do texto: a co-dependência. “DADESORDEMQUENÃOANDASÓ nos mostra que somos seres individuais interligados um ao outro não por uma pretensão altruísta de solidariedade, mas porque assim funciona a natureza, inclusive a natureza humana quer se queira isso ou não.  Assim, admitir a importância da individualidade, nos abre as portas para admitirmos o que muitos consideram paradoxalmente oposto: a importância da convivência.“, acrescenta o diretor Carlos Baldim.
 
Os desafios propostos para Stevie são no fundo também os desafios de todas as personagens. As desordens que acontecem pela ausência do pai, pela falta de dinheiro da mãe,  pelo despertar da sexualidade de Julie e pelas dificuldades de comunicação de Stevie oriundas da Síndrome, não são só de um, mas de todos os envolvidos.  “Como se um ato imprevisto desencadeasse uma série de desordenamentos, desconcertos, como na vida uma ação resulta em reação, uma rede de utopias e mazelas humanas que nunca estão sozinhas. Ruas entupidas de pessoas ensimesmadas em seus fones de ouvidos, anunciando a trilha sonora daquilo que se pode escutar, apenas pressentir. As dificuldades de expressar o que sente não diz respeito apenas da Síndrome, mas diz a todos nós. Acredito que a peça seja uma saga a respeito das diferenças e um apelo a alteridade.” comenta Ricardo Corrêa da Cia ARTERA de Teatro.
 
SINOPSE – DADESORDEMQUENÃOANDASÓ conta a história de uma família de classe média. Por causa da ausência do marido, Maureen trabalha em diversos lugares e não tem tempo para cuidar dos filhos. Stevie, portador da síndrome de aspenger, é deixado sozinho no seu quarto ao seu próprio cuidado, enquanto sua irmã, a adolescente Julie, faz tentativas desastradas de entrar no mundo adulto. Julie resolve sair escondida descumprindo o combinado com sua mãe. Preocupado com o paradeiro da irmã, Stevie resolve procurá-la e acaba indo parar no Parque de Diversões e sem intenção acaba causando um grande acidente: ele acredita ter se tornado um assassino.  A partir daí, inicia-se uma história permeada de encontros e desencontros que mistura ficção, realidade e poesia, na qual Stevie procura compreender, solitário, as consequências dessa intensa e inesquecível aventura.
 

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Dadesordemquenãoandasó
Com Andrea Tedesco, Anna Cecilia Junqueira, Paula Arruda, Pedro Guilherme, Ricardo Corrêa.
Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo)
Duração 80 minutos
16/10 até 07/11
Segunda e Terça – 20h
Classificação Livre
 

TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO

Construído na região da Luz com 11 contêineres marítimos, o Teatro de Contêiner Mungunzá apresenta a terceira edição do projeto Teatro de Contêiner Convida, onde diretores, autores, grupos e atores serão convidados para apresentarem uma mostra de suas montagens. TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO acontece de 9 de setembro a 9 de outubro com oito espetáculos e lançamento de livro, do dramaturgo, diretor e ator Carlos Canhameiro, da Cia Les Commediens Tropicales.

TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO tem montagens adultas e uma infantil com dramaturgias, direções cênicas e atuações de Carlos Canhameiro. A mostra inicia com apresentações de [AMOR em fragmentos] (de 9 a 11 de setembro) e termina com ANTIdeus (de 7 a 9 de outubro, o mais novo trabalho do artista. Além das apresentações no Teatro de Contêiner Mungunzá, a mostra terá uma programação paralela na Oficina Cultural Oswald de Andrade com apresentações de OFÉLIA/hamlet rock\MACHINE, da Cia Teatro de Riscos, de 14 a 23 de setembro.

Os outros espetáculos da mostra são: Concílio da Destruição e (ver[ ]ter) à deriva, da Cia Les Commediens Tropicales; O que você realmente está fazendo é esperar o acidente acontecer, da Cia de Teatro Acidental; O Canto das Mulheres do Asfalto, com direção de Georgette Fadel e do espetáculo infantil INIMIGOS, da Cia De Feitos. TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO também terá dois shows À Deriva (dia 26 de setembro) e Café da Tarde (dia 6 de outubro), além do lançamento do livro Poesia sem Ponto (dia 12 de setembro).

Para Carlos Canhameiro poder congregar tantos trabalhos diferentes em um mesmo período e espaço é um privilegio. “Ainda terei a alegria de trazer duas estreias para São Paulo e lançar o meu primeiro livro de poesias no dia do meu aniversário de 40 anos. Com certeza é um belo presente”, conta ele.

O dramaturgo, diretor e ator afirma ainda que a mostra é de extrema importância política e estética, pois os trabalhos que serão apresentados friccionam seus temas com a realidade. “Colocar todos esses espetáculos em cena no Teatro de Contêiner Mungunzá me interessa muito, pois além de ser um local novo – já importante na cena teatral – e de resistência na capital paulista, mostra também possíveis saídas ao teatro de grupo nesses tempos de crise”, explica Canhameiro.

Programação

A livre adaptação do livro Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes [Amor em Fragmentos], da Cia 4 pra Nada, abre a mostra com apresentações de 9 a 11 de setembro, sábado a segunda-feira. Uma atriz e um ator se colocam numa arena para fazer dela o espaço aberto e claustrofóbico do amor, deslizando sobre as fronteiras entre teatro, dança, música e performance. Para além das leituras, o processo propõe a transposição da palavra para o corpo dos atores.

Concílio da Destruição sobe ao palco dias 14, 21 e 28 de setembro e 05 de outubro, quintas-feiras. Sétimo espetáculo da Cia. Les Commediens Tropicales parte da premissa que o mundo está superlotado de arte e informações, estudos, ensaios e teses sobre a mesma; e que cada país terá que escolher cinco obras de seus artistas mortos para serem preservadas enquanto todas as outras serão destruídas. A ação se desenrola num país desconhecido onde o Concílio da Destruição está atrasado porque os jurados estão num impasse sobre escolher uma obra cujos artistas foram revolucionários ou condená-los (e sua obra) ao esquecimento.

A mostra também terá uma ocupação paralela com apresentações de Ofélia/hamlet rock\Machine na Oficina Cultural Oswald de Andrade de 14 a 23 de setembro, quinta-feira a sábado. A montagem, criação da Cia Teatro de Riscos a partir das leituras de Hamlet e Hamlet Máquina, do livro o novo tempo do mundo, de Paulo Arantes e músicas de Radiohead, traz oito atores dentro de um Bunker de metal, que revisitam as personagens shakespearianas. Hamlet, príncipe da Dinamarca, é também comida para vermes, o assassinato do seu pai torna-se pequeno diante da urgência de revolução que vem das ruas. Ofélia surge como a mulher feminista do século XXI, que escancara às portas do mundo o seu estupro, assédio, homicídio e revolta.

Nos dias 15, 22 e 29 de setembro, sextas-feiras, é a vez das apresentações de (ver[ ] ter) à deriva. Obra intervencionista criada pela Cia. LCT a partir do artista britânico Banksy com participação do quarteto À Deriva.
A obra dialoga com o silêncio das imagens expostas em excesso no cotidiano de uma metrópole, congregando diversas manifestações artísticas, como o grafite, a vídeo art, a performance art, o teatro, a dança, a música e as artes plásticas. Seis atores e quatro músicos se embrenham no espaço público para comungar novos olhares com os espectadores (espontâneo ou não) sobre as possibilidades de criar sentidos em velhas histórias e imagens. Sem nenhuma palavra dita, o espaço é invadido por sons, imagens, danças e ações criadas a partir das obras do artista britânico, Banksy; do lamento edipiano: “para que ver, se já não poderia ver mais nada que fosse agradável a meus olhos?” e da visão de alguns artistas que propuseram cenas que integram essa montagem, entre eles: Georgette Fadel, Tica Lemos, Andréia Yonashiro e o Coletivo Bruto.

O espetáculo da Cia de Teatro Acidental, O que você realmente está fazendo é esperar o acidente acontecer, faz apresentações de 16 de setembro a 2 de outubro, de sábado a segunda-feira. Com direção de Carlos Canhameiro, que também assina a dramaturgia ao lado dos integrantes da Cia de Teatro Acidental, a peça parte da investigação de O Beijo no Asfalto, considerada uma das mais importantes obras de Nelson Rodrigues. A montagem não é uma adaptação da peça, mas sim um comentário desenvolvido a partir dela. Sentados em uma mesa, os atores dão voz a discursos diversos, de intelectuais a agressivos, de literários a acadêmicos, como num estranho colóquio sobre a obra rodriguiana.

O Canto das Mulheres do Asfalto, com direção de Georgette Fadel, é a sexta peça adulta da mostra com apresentação dia 19 de setembro, sexta-feira. Composto por diversos cantos que desdobram a premissa de um mundo onde as mulheres se recusam a parir novos filhos, o espetáculo explora meandros de uma contemporaneidade insensível à condição humana do próprio homem. Vozes que se multiplicam dentre essas mulheres, mães e filhas, santas, prostitutas, velhas e moças, cuja desesperança futura celebra um presente que precisa ser ouvido.

O mais recente trabalho de Carlos Canhameiro, ANTIdeus, encerra a mostra com apresentações de sábado a segunda-feira nos dias 7, 8 e 9 de outubro. Texto premiado na Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo, conta a história de um país indeterminado, cujo  presidente sanciona lei revogando os feriados religiosos como feriados nacionais, em respeito à laicidade do governo. Com essa premissa a montagem aborda os desdobramentos entre as mais diversas camadas sociais sobre deus e a política ou a política de deus.

Infantil, livro e shows

TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO também traz uma montagem voltada às crianças. Com apresentações nos dias 23 e 24 de setembro, sábado e domingo, Inimigos, coloca em cena o absurdo da guerra. Em algum lugar que poderia ser uma cidade, uma floresta ou um deserto, há dois buracos. Neles, dois soldados inimigos, que a guerra os colocou em lados opostos. E assim brincam de inimigos conforme ensinou o manual (que diz tudo sobre o inimigo). Os inimigos são exatamente iguais. Quase sempre assustados, com saudades das famílias, todos nervosos, com frio, calor e fome. Se por acaso um dia eles trocassem de lado, não mudaria nada, ninguém notaria, porque os de lá são iguais aos de acolá. Então, por que lutam?

Já no dia 12 de setembro, terça-feira, acontece o lançamento do livro Poesia sem Ponto, de Carlos Canhameiro, pela editora Lamparina Luminosa. O evento contará com pocket-show de Paula Mirhan e quarteto À Deriva.

Dois shows também fazem parte da programação do TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO, como convidados. O primeiro, À Deriva, que acontece dia 26 de setembro, terça-feira, traz o Quarteto À Deriva com suas músicas autorais. Parceiros há mais de seis anos da Cia Les Commediens Tropicales, o quarteto é formado por Daniel Muller (piano acústico e elétrico, acordeão), Guilherme Marques (bateria), Rui Barossi (baixo acústico) e Beto Sporleder (saxofone tenor e soprano, flauta transversal). Café da Tarde, que acontece dia 6 de outubro, sexta-feira, é o segundo show da mostra e une a cantora e atriz Paula Mirhan (voz, caxixis e tamborim) ao cantor, violonista e compositor Demetrius Lulo sob a direção de Vinicius Calderoni. Todas as canções são assinadas por compositores da atual cena musical paulistana, como Tó Brandileone, Danilo Moraes, Giana Viscardi, Fábio Barros, Wagner Barbosa, Dante Ozzetti e Celso Viáfora, entre outros.

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TEATRO DE CONTÊINER CONVIDA CARLOS CANHAMEIRO
09/09 até 09/10
Teatro de Contêiner Mungunzá
R. dos Gusmões, 43 – Santa Ifigênia, São Paulo
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo
Programação – http://www.ciamungunza.com.br.