O JARDIM SUSPENSO OU A LUCIDEZ DO AMOR IRRACIONAL

É possível fazer mais um espetáculo teatral que fale sobre amor? Não seria um tema esgotado e banalizado no campo das artes? Por que o amor é um tema tão constante e tão atrativo do grande público? Falar sobre relações afetivas parece urgente, pois nunca foi tão plural a maneira de se relacionar com o outro.

Em 2009, o Núcleo O Ator Maestro estreou seu primeiro espetáculo, Dias de Setembro, a partir da obra Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, de Zygmunt Bauman. A peça apresentava uma análise delicada e sensível sobre o amor contemporâneo.

Passados dez anos, O Jardim Suspenso ou A Lucidez do Amor Irracional retoma o tema do amor em antítese à montagem de 2009. Apresenta um retrato pessimista sobre o tema e satiriza o patético do relacionamento amoroso. O projeto foi selecionado para o Núcleo de Orientação de Processos da Escola Livre de Teatro (ELT) e tem como orientador o diretor Luiz Fernando Marques (Grupo XIX/Teatro Kunyn).

Na peça, o personagem Márcio já não aguenta colecionar fracassos amorosos e busca uma verdade que possa seguir para mudar sua forma de se relacionar. Encontra na botânica uma fórmula de mudança da coloração da rosa para qualquer cor. Márcio acredita que pode aplicar esta mesma fórmula para mudar o seu comportamento humano e começa a realizar experimentos científicos na forma de depoimentos confessionais.

A dramaturgia composta pelo relato dos experimentos é escrita em fluxo de pensamento, entrecortada por canções do compositor Márcio Greyck, ídolo da música romântica dos anos 70 e 80. O tom sarcástico do texto casa com o romantismo exacerbado das músicas cantadas ao vivo pelo ator e gera no público identificação e distanciamento de forma híbrida. O texto é escrito de forma a criar paralelos entre os universos botânico e amoroso, em uma crescente que caminha para a loucura do personagem central, desenvolvida cena a cena pela contradição evidente entre razão e emoção.

Inspirado nas obras do pintor argentino Guillermo Kuitca, em especial o quadro Siete ultimas canciones, a montagem estrutura-se em três espaços principais. O primeiro é formado por uma lousa branca, uma mesa com utensílios científicos e uma luz fria, fazendo com que o público foque sua atenção na racionalidade da experiência, como se estivesse assistindo a uma aula. Já o segundo é composto por uma cadeira coberta de galhos secos, que simulam uma estufa, e luzes na cor azul e vermelha, semelhantes aos botecos boêmios de calçada. Essa atmosfera convida o público a receber de forma emocional o que é dito. O terceiro ambiente é o corredor que liga o primeiro ao segundo espaço, e é onde o personagem vai interagir com o público e solicitar que ele se envolva e ajude no entendimento do que é apresentado.

O Jardim Suspenso ou A Lucidez do Amor Irracional aborda a passionalidade abusiva nas relações amorosas e revela o quão frágil é o ser humano perante o seu ego.

FACE

O Jardim Suspenso ou A Lucidez do Amor Irracional

Com Lucas Sancho

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

Duração 60 minutos

02 a 30/03

Segunda – 20h

Gratuito (Ingressos distribuídos 1h antes no local)

Classificação 14 anos

AS MAMAS DE TIRÉSIAS

O escritor e crítico de arte francês Guillaume Apollinaire (1880 – 1918) é conhecido por ter inaugurado o termo surrealismo nas artes. A peça As Mamas de Tirésias, de sua autoria, foi escrita em 1903 e é reconhecida por muitos como a obra que inaugurou o termo do movimento vanguardista.

A partir do dia 1º de fevereiro de 2020, o diretor André Capuano estreia uma montagem desse texto na Oficina Cultural Oswald de Andrade. No elenco estão as atrizes Gilka Verana, Ana Paulla Mota e Priscilla Carbone. Também está em cena Almir Rosa como O Povo de Zanzibar, personagem representado pela discotecagem do espetáculo. A temporada vai até 25 de abril, todos os sábados, às 11h.

O drama surrealista conta a história de Teresa, que ao romper com seu marido – um homem alucinado por toucinhos – o amarra, se veste com suas roupas, corta as próprias mamas e reivindica a liberdade assumindo a identidade de General Tirésias. Em seguida, ela inicia uma campanha contra a procriação. Seu marido, numa afronta, gera sozinho dezenas de milhares de bebês macabros. O enredo, absurdo, se soma a uma escrita fragmentada e em versos, elementos representativos da dramaturgia de Apollinaire.

Em processo de criação há três anos, a equipe composta pelas três atrizes fez o convite para que André Capuano dirigisse a peça. “O acordo que fizemos quando assumi a direção era de que materializássemos ao extremo todos elementos propostos pelo texto, com cada atriz concebendo cada cena a partir de suas próprias inquietações e vontades artísticas”, conta André.

Segundo o diretor, as cenas propostas eram muito diferentes entre si e, não raro, uma contrapunha a outra, o que gerou a concepção da peça. A dificuldade de olhar para a peça como um todo, por causa das diferentes visões apresentadas pelas atrizes, se revelou o gesto principal do espetáculo. A solução foi o aproveitamento máximo das propostas trazidas por cada uma das atrizes para cada parte do texto. Em seguida, André selecionou e sobrepôs os materiais criados, acrescentando também sua visão e conduzindo a criação coletiva das versões finais das cenas e do espetáculo.

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Além de anteceder muitas das inovações dramáticas vistas até hoje, Apollinaire usa o mito do profeta cego de Tebas, Tirésias, para provocar reflexões sobre igualdade de gênero, o militarismo ostensivo e a manipulação midiática. A peça foi escrita diante do clima de destruição, desilusão e incerteza causado pelos horrores da Primeira Guerra Mundial. No texto, ele renuncia à lógica discursiva e da “seriedade” ao lidar com as questões de sua época.
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Nós tínhamos três versões e discursos completamente diferentes entre si – esse choque dialoga com a postura de Apollinaire, que após ter retornado ferido da Primeira Guerra Mundial, revisou o texto e escreveu uma análise absolutamente contraditória com todo discurso que a obra carregava até então. Essa também é uma realidade que se aproxima do Brasil atual, em que múltiplos discursos estão sobrepostos, gerando choques constantes que precisam ser observados e urgentemente colocados no campo da criação artística se quisermos avançar”, conta Capuano.

Além de uma possível leitura sobre o Brasil contemporâneo, a peça também lança um olhar sobre a questão da emancipação feminina. Segundo a equipe, é simbólico que ao ser abandonado por Teresa, seu ex-marido assuma para si uma responsabilidade de dar conta do mundo e acabe gerando milhares de criaturas macabras.

As Mamas de Tirésias é uma peça de reinvindicação e elogio à liberdade do teatro, fundamental em tempos de emergência poética, de sufocamento causado pelo avanço do conservadorismo, do ódio e da intolerância”, diz Gilka Verana. A trilha sonora composta coletivamente é fragmentada e, em seus retalhos, traz desde os sons de uma guerra em processo até músicas brasileiras de artistas como Tim Maia A Cor do Som. A discotecagem fica por conta do ator e DJ Almir Rosa, que assume o papel do Povo de Zanzibar.

SOBRE A CONCEPÇÃO CÊNICA

Para materializar o absurdo do texto, Capuano apostou em uma estética do precário e do excesso. A cada cena, se sobrepõem figurinos, adereços e objetos utilizados no momento anterior. O acúmulo vai se formando por todo o ambiente cênico e resulta em um amontoado de resíduos. “É a escolha de uma linguagem. O entulho, o lixo e a sensação das sobras diz muito sobre a contradição de discursos, sobre as relações fragmentadas”, conta o diretor. Compõem esse espaço confetes de carnaval, tecidos, groselha, macarrão instantâneo, tomates e muito mais.

As três atrizes interpretam todos os personagens da peça e se alternam em cada um dos papéis. Os figurinos, trocados com frequência, são compostos por roupas puídas, velhas, indicativas desse ambiente inóspito que vai sendo construído. “A sala de espetáculo que estamos ocupando, que nunca havia sido usada para apresentações, se torna uma espécie de instalação repleta de precariedade. Entendemos que uma beleza previsível e propagada, aceita à priori por causa de um bom gosto institucionalizado, poderia matar nosso trabalho”, diz Capuano.

A peça também propõe duas aproximações diretas com o público. Uma delas é quando as atrizes movem o cenário de forma a transformá-lo em um bar. Se desejarem, as pessoas podem beber algo e comer os petiscos servidos na hora ao som das músicas selecionadas pelo Povo de Zanzibar. Já ao final do espetáculo será servida feijoada a quem tiver solicitado o prato antes do início da peça, conforme indicação da produção. O alimento faz referência à paixão desenfreada do ex-marido de Teresa por toucinho.

FACE

As Mamas de Tirésias

Com Ana Paulla Mota, Gilka Verana, Priscilla Carbone e Almir Rosa

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

Duração 150 minutos

01/02 a 25/04

Sábado – 11h

Grátis (ingresso entregue 1 hora antes)

Classificação 18 anos

TIGRELA

Com novo elenco e novos cenários, o espetáculo reestreia com apresentações gratuitas na Oficina Cultural Oswald de Andrade. O espetáculo ganhou os prêmios de Atriz, Direção, Iluminação e Espetáculo no Festival Nacional Cacilda Becker e, recentemente, os prêmios de Texto Original e Iluminação no Festival Nacional de Itapevi.

Tigrela inspirou-se livremente no universo da escritora Lygia Fagundes Telles para criar uma alegoria fantástica da atual crise e polarização política nacional.

Na história, o território de Ciranda de Pedra tem uma nova líder: o sistema operacional Tigrela, pois acredita-se que um sistema é incorruptível. Ao mesmo tempo, um rei, uma líder religiosa, uma jornalista e um operário estão sendo caçados pelo exército de ratos anões a mando de Tigrela.

A ação da peça ocorre em dois tempos. Como num quebra-cabeça, presente e passado fundem-se neste atípico suspense sobre poder, tecnologia e sexo. O espetáculo foge do maniqueísmo atual e apresenta personagens dissonantes e plurais e seus planos para ascenderem ao poder do território.

FACE (1)

Tigrela

Com Andrea Serrano, Beatriz Aguera, Lucas Sancho e Rodrigo Risone

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro, São Paulo)

Duração 55 minutos

25 e 26/11

Segunda e Terça – 20h

Grátis

Classificação 18 anos

CADAFALSO

Oficina Cultural Oswald de Andrade, equipamento da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, recebe a exposição [IN]VISÍVEIS – Polacas, memória e resistência, das artistas Eva Castiel, Fanny Feigenson e Fulvia Molina e curadoria de Márcio Seligmann-Silva. A realização da instalação inédita, mesa-redonda com especialistas, performances, além de visitas guiadas pelo bairro do Bom Retiro, recupera a história de mulheres judias, trazidas para a América do Sul em um esquema de exploração sexual e tráfico de pessoas. No espaço expositivo da Oficina, elementos físicos remetem às ideias de sepultamento, ausência e esquecimento dessa trajetória. Os visitantes também têm acesso a áudios e textos inéditos que resgatam as memórias dessas mulheres.
Capa - Cadafalso

Na tarde de sábado, dia 23/11, 16h, o espaço da exposição receberá Roberto Elisabetsky, autor do romance Cadafalso, lançado no último dia 24/10 pela Editora Terceiro Nome, que tem entre suas protagonistas duas judias polonesas ortodoxas vítimas dessa rede de tráfico de mulheres na década de 1930. O tempo histórico retratado pelo autor passa por períodos como a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder pelas armas, a Revolução Constitucionalista e a tentativa do levante comunista no Brasil, planejada pela União Soviética. Nesse entremeio, figuras públicas como Olga Benario, Luís Carlos Prestes e até o jazzista Louis Armstrong passam pela obra.

No livro, mulheres trazidas ao Brasil pela organização criminosa Zvi Migdal, sob coação e falsas promessas, têm ainda que lidar com a violenta repressão do governo getulista a cargo de Filinto Müller, e se veem involuntariamente enredadas nos eventos do fracassado levante comunista no Brasil em 1935. Na ocasião, Roberto falará sobre seu trabalho e as pesquisas que embasaram o desenvolvimento das questões sobre as polacas que vieram ao Brasil depois da Primeira Guerra.

O termo “polacas” tinha um tom depreciativo, tornando-se sinônimo de prostituta judia, ao referir-se a suas origens. Foram estigmatizadas ainda pelas políticas higienistas do então governador Adhemar de Barros, que criou uma zona de meretrício na Rua Itaboca, hoje Rua Césare Lombroso, no Bom Retiro, bairro que, desde aquela época, era habitado predominantemente por imigrantes.

As “polacas”, no entanto, resistiram, conservando sua identidade cultural, religiosa e étnica, suas próprias associações de ajuda mútua: como escolas, sinagogas, associações culturais e, até mesmo, seus próprios cemitérios, como o de Inhaúma, no Rio de Janeiro, Chora Menino, em São Paulo, e o de Cubatão. Fizeram de sua cultura um modo de resistência.

QUEBRA-CABEÇA

Um imenso puzzle cheio de buracos e de peças que não se encaixam. Esta é a forma do monólogo autobiográfico e documental Quebra-Cabeça, da atriz e autora Camila dos Anjos, que estreia dia 8 de novembro no Itaú Cultural e, na sequência, segue para a Oficina Cultural Oswald de Andrade, onde fica em cartaz entre 13 de novembro e 19 de dezembro. Os ingressos no Itaú Cultural são gratuitos e as reservas online podem ser feitas 10 dias antes de cada apresentação.

Camila dos Anjos começou a trabalhar aos sete anos como atriz mirim e trafegou durante toda sua infância e adolescência pelas vias da indústria cultural. A atriz, que hoje concentra a sua atividade no teatro, expõe as frustrações, expectativas e as consequências por ter começado a trabalhar tão cedo. Essas lembranças autobiográficas se misturam com as memórias de personagens misteriosas do russo Anton Tchekhov e do norte-americano Tennessee Williams, com os quais a atriz se identifica desde os primeiros tempos de sua carreira.

Em cena, Camila abre os porões de sua própria vida, cercada de documentos que comprovam sua trajetória e reflexões sobre suas experiências mais profundas. Memórias, personagens e referências se cruzam e se confundem à procura de pistas. Cartas, vídeos, cadernos, roteiros, fotos e matérias compõem um arquivo que serviu como base para a criação dramatúrgica. Os textos escritos através das memórias tornam-se blocos, peças desse quebra-cabeça. Os registros são acompanhados de um esgotamento, de uma ausência e de uma sensação estranha de ser só atriz e mais nada.

O espaço onde a peça acontece é uma espécie de instalação cênica sob a forma de um porão de lembranças, de um lugar que remete ao passado. Nesse ambiente inacabado, documentos e memórias são fixados em um grande painel de cortiça, em uma tentativa de investigar e compreender a trajetória da artista.

Nelson Baskerville faz a orientação de encenação: “Vamos trabalhar uma forma de aparato cênico com todos os elementos cênicos à disposição. Uma instalação dentro de um museu, um museu de memórias, onde um cenário leve e etéreo, de véus esvoaçantes, mistura projeções de cenas da atriz nas novelas e séries relatadas, como a visita a um sótão familiar, repleto de cartas, baús e fotografias”.

SINOPSE

Um imenso quebra-cabeça cheio de buracos e de peças que não se encaixam. Uma atriz cercada de documentos que comprovam sua trajetória investiga sua tragédia pessoal. Memórias, personagens e referências se cruzam e se confundem à procura de pistas. Cartas, vídeos, cadernos, roteiros, fotos e matérias. Tantos registros e documentos acompanhados de um esgotamento, de uma ausência e de uma sensação estranha de ser só atriz e mais nada.

FACE (2)

Quebra-Cabeça

Com Camila dos Anjos

Duração 60 minutos

Classificação 16 anos

 

Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Bela Vista, São Paulo)

08 a 10/11

Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 19h

 Grátis (Reserva online de ingressos pelo site www.itaucultural.org.br

Oficina Cultural Oswald de Andrade – Sala 7 (Rua Três Rios, 363, Bom Retiro, São Paulo)

13/11 até 19/12 (não haverá sessão 20/11)

Quarta, Quinta e Sexta – 20h, Sábado – 18h

Grátis (distribuídos uma hora antes de cada sessão)

GALO ÍNDIO

Espetáculo solo de Rodolfo Amorim, do Grupo XIX de Teatro, com direção de Antônio JanuzelliGalo Índio ganha nova temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade, de 4 a 26 de outubro, com sessões às sextas-feiras às 20h e aos sábados às 18h. Ingressos gratuitos.

O projeto foi contemplado pela 8ª Edição do Prêmio Zé Renato para a Cidade de São Paulo e a temporada tem o apoio institucional da Oficina Cultural Oswald de Andrade. Após o espetáculo haverá um bate papo com convidados. A atriz e diretora Janaína Leite fala sobre o teatro autobiográfico, no dia 4 de outubro, sexta-feira, o diretor e dramaturgo Marcelo Soler sobre teatro documentário; no dia 5 de outubro, sábado; crítico e dramaturgo Miguel Arcanjo Prado sobre a crítica no teatro documental, no dia 11 de outubro, sexta-feira.

O solo mostra um órfão, que tenta retratar o seu pai ausente a partir de poucos fragmentos que se alojaram em sua memória. Na busca pelos contornos desse pai, sua própria infância emerge de sua memória e demonstra o quanto esse vazio foi determinante na construção da sua forma de ver e interagir com a vida. Um encontro entre pai e filho. Entre um adulto e sua criança.

Galo Índio remonta as lembranças do ator e autor Rodolfo Amorim em relação a morte de seu pai e o silêncio criado em torno desse fato na sua infância em Sorocaba. O ator pesquisou sobre a memória e as possibilidades de exploração da multiplicidade e transformações de uma narrativa. Entrevistas, relatos de pessoas próximas desse acontecimento e documentos, foram os materiais provocadores na construção desse retrato.

Nesse jogo de rememoração, incomoda mais ao órfão sua necessidade de pensar o pai, feita de dificuldades, imprecisões e faltas, do que propriamente a morte em si. Sua forma de enterrar o pai e compreender sua partida é desvelar as palavras que o encobrem. Assim, na tentativa de traduzi-lo, o confessor nos leva ao mundo invisível de sua história: à medida que precisa aliviar o fardo de sua criança e desse pai.

Pensamos um procedimento que investigue e discuta não só o ato de estar só em cena, mas sobretudo, de utilizar a própria história do ator/narrador, em seus limites de interprete e confessor. Fazendo da fricção entre um fragmento do real e o imaginado, um meio de encontrar ecos com o público em sua materialidade cênica,” explica Rodolfo Amorim.

Em uma trajetória pelo passado com ecos no presente, a peça reconstitui a personalidade de um pai conservado e inventado no silêncio dos anos. A busca de detalhes para esse retrato, somada à dificuldade de traduzir em palavras as lembranças que restam de alguém que se foi, resulta nessa peça autobiográfica sobre a perda de um pai, conectada com as atuais formas de autorrepresentação e autoficcionalização.

FACE

Galo Índio

Com Rodolfo Amorim

Oficina Cultural Oswald de Andrade – Sala Espaço Cênico (Rua Três Rios, 363, Bom Retiro – São Paulo)

Duração 60 minutos

04 a 26/10

Sexta – 20h, Sábado – 18h

Grátis

Classificação 14 anos

A UM PASSO DA AURORA

Com 19 anos de trajetória, a Cia. Mariana Muniz de Teatro e Dança mergulha na poética do músico, maestro e múltiplo artista Guilherme Vaz (1948-2018) com A Um Passo da Aurora, das intérpretes-criadoras Mariana Muniz e Regina Vaz, que cumpre uma temporada de estreia de 2 a 12 de outubro, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Em sequência o espetáculo de dança contemporânea tem apresentações no Centro Cultural Olido – Sala Paissandú, nos dias 1, 2 e 3 de novembro; no Centro de Referência da Dança – CRD, dias 20, 21, 22 e 23 de novembro; e no Espaço Cia da Revista, dias 28, 29 e 30 de novembro e 01 e 02 de dezembro, totalizando 20 apresentações.

Ao longo de sua trajetória, a companhia vem desenvolvendo trabalhos voltados para a pesquisa das relações entre palavra e movimento, poesia/arte e dança. O grupo realizou trabalhos solos de teatro-dança, nos quais a poesia de artistas como Florbela Espanca – Dantea, Ferreira Gullar – Túfuns, Arnaldo Antunes – Rimas no Corpo, Fernando Pessoa – Fados e outros Afins, dentre outros, serviram de referência para o exercício de múltiplas qualidades de trânsito entre a palavra e o movimento e, cuja excelência, atesta os muitos prêmios recebidos.

Depois de uma bem-sucedida imersão no universo dos Fados, com “Fados e outros Afins”, último trabalho da companhia, a Cia. Mariana Muniz de Teatro e Dança dá continuidade ao processo de investigação das relações entre pensamento, corpo e gestos, em dança-teatro. O espetáculo foi contemplado pelo 25º Edital de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.

Mariana Muniz, que assina a direção do trabalho, e Regina Vaz – irmã do artista Guilherme Vaz, e responsável pela dramaturgia de “A Um Passo da Aurora”-, se reencontram, em cena, depois de terem trabalhado juntas, no Grupo Coringa (1977-1985), durante dez anos, sob a direção da coreógrafa uruguaia, Graciela Figueroa.

Com esse trabalho damos continuidade às nossas pesquisas e criações em dança contemporânea, e prestamos uma justa homenagem ao múltiplo artista Guilherme Vaz”, afirma Mariana Muniz.

Guilherme Vaz, nascido em Araguari, Minas Gerias, durante vinte anos, dedicou-se a investigar as raízes culturais do povo brasileiro. Viveu entre os sertanejos do Centro-Oeste e os indígenas do Norte do nosso país, o que lhe permitiu a criação de uma obra singular, inventiva e profundamente brasileira.

Pioneiro da arte conceitual carioca e criador da Unidade Experimental do MAM-RJ- junto com Cildo Meireles, Luiz Alphonsus e o crítico Frederico de Morais. Foi um dos responsáveis pela introdução da música concreta no cinema nacional. Compôs trilhas para filmes de Nelson Pereira dos Santos e Júlio Bressane, dentre outros.  Guilherme faleceu em 26 de abril de 2018, aos 70 anos, deixando um legado imensurável para a música brasileira.

Assim como nos trabalhos anteriores, em “A Um passo da Aurora” a ação cênica (com base na pesquisa das relações entre corpo, voz, música e sentidos simbólicos das linguagens da dança, do teatro e da música) nos conduz a uma ideia de dramaturgia ampliada. Dramaturgia como uma teia que engloba as ações físicas dos bailarinos (como o texto, a música se torna corpo em movimento), suas ações vocais (musicalidade no texto e com o texto), cenografia, iluminação, figurinos e a relação entre eles, os artistas, e todos os componentes da cena, inclusive o uso de recursos multimídia.

Para Mariana Muniz, na criação e composição do espetáculo o compromisso com o hibridismo de linguagens artísticas está a serviço da exploração dos limites das conexões entre questões cênicas, coreográficas e dramatúrgicas, visuais e performáticas. “Pensar as artes cênicas nestas intersecções nos permite lançar mão da potência expressiva do gesto com um olhar diferenciado e sempre renovado”, explica.

O processo de criação de imagens visuais se corporifica através da escuta dos corpos, em contato com a sensação da “música corporal” e do imaginário do compositor Guilherme Vaz. Em algumas passagens do trabalho fica evidenciada a inspiração gestual nos trabalhos coreográficos de Nijinsky e Pina Baush para “A Sagração da Primavera” de Igor Stravisnky.

No movimento de exploração das sonoridades e conceitos que norteiam a obra de Guilherme Vaz, assume importância o gosto por determinadas passagens e composições musicais, certos timbres dos instrumentos, que acompanham a melodia, repetições e as ideias plásticas e cenográficas do artista. É o caso das composições “La Virgen” e “Fronteira Ocidental” que integram a trilha sonora sob a responsabilidade do maestro Lívio Tragtenberg, que já regeu algumas obras do compositor.

Nós nos posicionamos na direção de um resgate das raízes do pensamento sobre a brasilidade no fazer artístico, pois Guilherme Vaz participou ativamente de um dos períodos mais fortes da crítica de arte no Brasil: os anos neoconcretos. Ele pensava a própria obra e o mundo, discutindo e participando dos problemas da arte brasileira, rebelando-se contra a estagnação cultural dos anos 60 e propondo uma renovação de toda expressão artística no país, apontando-lhe possibilidades universais”, acrescenta Mariana Muniz.

Uma das questões que me incomoda no construtivismo brasileiro é que tudo acontece distante da geometria indígena, distante dos sertões”, dizia Guilherme Vaz.

O projeto “A Um Passo da Aurora” contou com um programa educativo, com ações direcionadas à formação de público e à mediação do conteúdo do projeto. Foram realizadas oficinas contínuas de estudo de movimento com Mariana Muniz, além de workshops livres de criação musical para partituras gráficas (ministrada por Lívio Tragtenberg – maestro de renome no cenário cultural brasileiro e internacional, regente de duas obras de Guilherme Vaz, no final de 2017) e Eutonia com Cláudio Gimenez.

Será realizado um bate-papo com o público, após cada uma das apresentações, a fim de, através do diálogo, falar sobre o processo de criação do trabalho apresentado e escutar as impressões dos espectadores.

FACE (2)

A Um Passo da Aurora

Com Mariana Muniz e Regina Vaz

Duração não informada

Grátis (ingressos devem ser retirados com 1h de antecedência)

Classificação não informada

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363. Bom Retiro – São Paulo)

02 a 12/10

Quarta, Quinta e Sexta – 20h, Sábado e Feriado – 18h

Centro Cultural Olido – Sala Paissandú (Av São João, 473 – Centro, São Paulo)

01 a 03/11

Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 19h

Centro de Referência da Dança – CRD (Baixos do Viaduto do Chá, s/n – Centro, São Paulo)

20 a 23/11

Quarta, Quinta, Sexta e Sábado – 19h

Espaço Cia da Revista (Alameda Nothmann, 1135 – Santa Cecília, São Paulo)

28 a 30/11, 01 e 02/12

Quinta, Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 19h, Segunda – 20h