OS PALHAÇOS DE “CHAVES – UM TRIBUTO MUSICAL”

Precisamos falar sobre “Chaves – um tributo musical”. Mas, mais precisamente sobre os palhaços do musical.

A produtora Adriana Del Claro, em parceria com a Move Concerts, uniu-se novamente aos diretores Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia (“Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812”, “Carrossel, o Musical”) para montar uma história original para este menino órfão, que vive numa vila junto com seus amigos.

Mas como fazer para criar algo que unisse os personagens de Chaves com o público brasileiro?

Bem, como Roberto Bolaños era um clown (palhaço), e temos na nossa história a figura do circo e de vários palhaços icônicos, nada melhor do que trazê-los novamente para o picadeiro.

(Linda e merecida homenagem para eles que nos fizeram e fazem rir – Arrelia, Pimentinha, Carequinha, Piolin, Torresmo, Atchim e Espirro, Patati e Patatá, entre tantos. A homenagem do musical se estende na canção “Nome de Palhaço”.)

Liderando a trupe, temos Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro brasileiro (1870 – 1954). Foi um artista completo (ator, compositor, cantor e palhaço), além de ser o idealizador e criador do primeiro circo-teatro no país.

No musical, o personagem Benjamin é o líder do palhacéu, onde residem também outros sete palhaços: Formiga, Paçoquinha, Patinete, Tatuzinho, Tufo, Wladimir e Dr. Zambeta. Cada ator deu vida ao seu personagem, com características peculiares, como jeito de andar e falar. Eles são o elo de ligação da história entre o personagem de Roberto Bolaños e as suas criações.

Eles me trouxeram um ar de recordação da infância. Uma memória ‘proustiana’ involuntária da criança que pôde ir ao circo, brincar na rua, ser livre (e não trancada em casa e presa no celular). Pedido de um fã – Zé Henrique e Fernanda, desenvolvam um novo espetáculo para estes ‘nossos palhaços’ (já fazem parte da história ‘palhacesca’ brasileira – se há clownesco, há palhacesco também). Com certeza, eles – e a gente – merecem.

Chaves e toda sua turma despedem-se em breve do público. Vá levar a criança que há em si para se divertir. Não se arrependerá. Lembrando que os palhaços do palhacéu só podem ser vistos na Terra por anjos. Temos certeza que você conseguirá vê-los!

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Chaves – um Tributo Musical

Com Mateus Ribeiro, Andrezza Massei, Patrick Amstalden, Maria Clara Manesco, Fabiano Augusto, Carol Costa, Diego Velloso, Pedro Arrais, Ettore Veríssimo, Milton Filho, Maurício Xavier, Larissa Landim, Nay Fernandes, Dante Paccola, Davi Novaes, Lucas Drummond, Marcelo Vasquez, Thiago Carreira e Bia Freitas.

Teatro Opus – Shopping Villa Lobos (Av. das Nações Unidas, 4777 – Alto de Pinheiros – São Paulo)

Duração 120 minutos (com 15 minutos de intervalo)

10 a 01/03

Sábado – 16h e 20h, Domingo – 16h

$75/$140

Classificação Livre

O OVO DE OURO (Opinião)

A peça “O Ovo de Ouro” (Sesc Santo Amaro) retrata um episódio  da nossa história – as memórias de um trabalhador do “Sonderkommando” nos campos de concentração, durante o Nazismo, na Segunda Guerra Mundial.

Sonderkommando é a denominação dada a um grupo especial de pessoas – de origem judia – que atuava em campos de concentração. Tinha a função de executar os trabalhos mais árduos e críticos, que os soldados alemães não fariam, como enterrar os corpos dos prisioneiros mortos e a limpeza das câmaras de gás. Por realizar estes serviços, seus integrantes eram separados dos outros presos e tinham alguns privilégios. Só que não duravam muito tempo nesta função, pois após algum tempo de serviço, eram exterminados e substituídos por novos presos.

“Surge da minha necessidade de não deixar morrer esse pedaço tão importante da História que é a Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto. A ideia de escrever a peça surgiu em 2014, quando eu fui apresentado ao universo do Sonderkommando por meio de um pequeno artigo em uma revista. Essa figura do judeu que tem que auxiliar com o extermínio do próprio povo mexeu muito comigo e minha noção de humanidade, e me incentivou a tentar entender por que eles faziam isso, por que eles não se recusavam. Com este espetáculo temos a oportunidade de falar sobre Segunda Guerra sob o ponto de vista dessa figura pouco conhecida”, explica o autor e ator Luccas Papp.

Aqueles que não podem lembrar o passado
 estão condenados a repeti-lo”
 (George Santayana)

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“O Ovo de Ouro”

O judeu Dasco Nagy (Sergio Mamberti) é entrevistado por uma jornalista (Rita Batata) sobre o período em que viveu no campo de concentração de Auschwitz. Como fantasmas que rondam o presente, suas memórias dos horrores vividos voltam à tona. Memórias estas que não apresentam uma ordem cronológica, nem se sabe se são verdadeiras ou frutos de sua imaginação.

São relembradas histórias da relação do protagonista quando jovem (Luccas Papp) com seu melhor amigo Sándor (Leonardo Miggiorin), com a prisioneira Judit (Rita Batata) e com o comandante alemão Weber (Ando Camargo).

"… É fácil esquecer para quem tem memória; 
difícil esquecer para quem tem coração”…
Gabriel Garcia Marques

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O assistir o espetáculo

Fui preparado para assistir a peça. Afinal, sabemos o que aconteceu durante o período histórico retratado. Sentado no teatro, ao chegar próximo do início do espetáculo, parecia que as paredes iam se fechando, como se quisessem me sufocar.

A direção de Ricardo Grasson comanda de uma maneira precisa o desenrolar da narrativa. O cenário de Kleber Montanheiro é constituído de placas gigantescas – seriam fornos, lápides, portais? – que se abrem e se movimentam, permitindo que os fantasmas das lembranças de Dasco adentrassem na história. Tem o desenho de luz de Wagner Freire – ou a sua inexistência – que vai mostrando, ou escondendo, o que está sendo contado.

Durante vários momentos, fechei os olhos para não ver o que acontecia (não há imagens explícitas na peça), como uma forma de fuga. Mas era pior. Ouvindo os diálogos, o barulho dos trens que traziam os presos para os campos de concentração, os gritos de dor (design de som de I. P. Daniel), imagens vívidas se formavam na minha mente.

Até que ao final – com várias lágrimas no rosto – junto com a plateia, levantei-me para aplaudir merecidamente o trabalho dos cinco atores Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo e Luccas Papp. Uma atuação controlada, mínima, sem arroubos gestuais. Há momentos na peça em que tudo que é necessário é apenas a voz dos personagens/atores.

Se quiser saber mais sobre o tema, há os filmes “Cinzas da Guerra” (“The Grey Zone”, 2001) e “O Filho de Saul” (“Saul fia”, 2015), além dos livros “Os Afogados e os Sobreviventes: Os Delitos, os Castigos, as Penas, as Impunidades” (Primo Levi, 1990), “Depois de Auschwitz – o Emocionante Relato de uma jovem que Sobreviveu ao Holocausto” (Eva Schloss, 2013) e “Sonderkommando: No inferno das câmaras de gás” (Shlomo Venezia, 2014),

Amanhã fico triste, amanhã. 
Hoje não. 
Hoje fico alegre. E todos os dias, por mais amargos que sejam, 
Eu digo: Amanhã fico triste, hoje não. 
Para Hoje e todos os outros dias!
(Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças 
no campo de concentração de Auschwitz)

 

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O Ovo de Ouro

Com Sérgio Mamberti, Leonardo Miggiorin, Rita Batata, Ando Camargo e Luccas Papp.

SESC Santo Amaro (Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro, São Paulo)

Duração 90 minutos

21/11 até 15/12

Quinta e Sexta – 21h, Sábado – 20h, Domingo – 18h

$30 ($9 – credencial plena)

RUA AZUSA – O MUSICAL (OPINIÃO)

Segue em cartaz neste momento em São Paulo, o espetáculo chamado Rua Azusa, O Musical que contempla todos os principais requisitos para ser no mínimo considerado um bom musical – impecável argumento narrativo, um elenco composto por mais de 40 atores que buscam o jogo teatral o tempo todo, escolhas musicais que te guiam e convocam sua presença enquanto espectador e cenários que contribuem diretamente para a história contada.

Baseado na história de William Joseph Seymour, homem negro, filho de um casal escravizado, o musical narra em meio ao grande conflito da segregação dos EUA em 1906, o Chamado que William atendeu para liderar o movimento que quebrou barreiras raciais, criando buscar espaços onde não houvesse distinção entre brancos e negros e, ainda, num jogo metalinguístico existe um casal contemporâneo que nos conduz o olhar para sua busca pela paternidade.

O que seria mais um musical em cartaz no circuito teatral de São Paulo, me salta aos olhos quando compreendo que se trata de um musical autoral produzido por um coletivo cristão, e é em meio a esta informação e o privilégio de ter tido o encontro com esta história na última quinta dia 20 de junho de 2.019, que pretendo exercitar meu pensamento.

Não é novidade nenhuma que estamos vivendo nestes tempos tortos, onde há intolerância, perseguição religiosa, racismo e genocídio negro e indígena, homofobia, misoginia e tantos outros males nomeados que ganharam força nesta nossa sociedade atual. Logo qualquer ação que busca ao menos a tentativa da comunhão/do encontro, particularmente já diz muito sobre muita coisa.

Penso que existam três vertentes principais que culminam em RUA AZUSA:

A primeira seria o cunho histórico no âmbito teatral mesmo, de um coletivo teatral cristão que existe há 19 anos, com uma missão – acredito eu – que antes de evangelizar me parece ser a busca do se ENCONTRAR com o outro, este outro que não o conheço e por vezes é tão diferente de mim mesmo, mas por reconhecer que o OUTRO do OUTRO sou EU eu me coloco como instrumento e ajo, agir, ação, atua sobre algo, no nosso caso ATUAÇÃO!

Com um histórico de peças apresentadas em lugares não comuns ao clássico italiano como presídios, asilos, orfanatos, ruas etc. No qual não existe uma igreja oficial, pois os membros do coletivo provem de várias vertentes da igreja pentecostal, decidem produzir, sem patrocínio direto, um espetáculo musical do zero.

E este trabalho, no principal polo de teatro do brasil, que é a cidade de São Paulo, ganha voos tão altos, que uma temporada prevista para apenas 1 mês, ganha outros palcos e já esta findando seu primeiro semestre em cartaz, com um movimento de recomendação boca-a-boca (um trabalho de formação de público catártico) no qual a página oficial do instagram conta com mais de 40 mil seguidores. E ainda mais surpreendente quando o coletivo garante para os próximos 10 anos o arrendamento de um espaço teatral histórico de São Paulo que é o antigo teatro Brigadeiro. Isso de longe, é o sonho de qualquer coletivo teatral paulista, que possui ou busca fomentação para sua criação artística.

A segunda vertente que é outra força gigantesca que me arrebata, e talvez onde o exercício da fala começa a me dificultar é sobre o cunho carismático, ecumênico, religioso/sagrado, rito e metalinguístico que ocorre a cada apresentação de Rua Azusa. Espinosa já dizia sobre as paixões alegres e as paixões tristes que nos provocam revoluções que pode ou não nos impulsionar pra vida.

Como espectador não leigo de teatro e sendo negro, meus olhos brilharam por diversos momentos por diversas razões, por ver no palco tantos artistas gigantes e parecidos comigo fisicamente, por ver o cuidado em contar uma história que não é contada no Brasil, muito pelo contrario, consciente de que existe um racismo estrutural que insiste em nos retirar de toda e qualquer possibilidade/responsabilidade de entendimento sobre nós mesmos, afinal não se pode falar sobre política, políticas públicas-sociais, publico e privado sem entender a formação da sociedade em que estamos inseridos, não há como falar sobre cotas raciais, se o Brasil mais do que nunca vive um movimento de meritocracia efervescente, não há como vislumbrar melhorias sem entender que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e hoje o que esta em voga quando se trata destes temas são três sílabas repetidas “Mi Mi Mi”.

Falar sobre o avivamento da Rua Azusa é diretamente encarar as nossas próprias cicatrizes coloniais. Estar sentado na plateia e me ver rodeado de um público rapidamente identificado como “não público” cativo de teatro e/ou teatro musical é surpreendente, acompanhar os comentários, as respirações, os embates com o terceiro sinal e/ou o embate sobre lugar correto para se sentar em meio ainda de sussurros ou gritos de Aleluia – Glória a Deus! Onde acaba o teatro e onde começa a vida? Quando acaba o teatro realista e inicia o épico… ou ainda quando acaba o épico e se inicia o performativo!

Há muito a ser pensado antropologicamente falando sobre este interim de encontro, entre palco e plateia. O teatro por si só busca o tempo todo o convite pela convocação da presença, a presença dos atores e daqueles que fazem o espetáculo acontecer e principalmente a convocação do público, um público que não seja apenas conivente ou contemplativo, mas que haja conforme sua corporeidade  e vida se manifesta em detrimento aquilo que se vê, e isto sem dúvida acontece em Rua Azusa. O público está por que quer estar e se interessa em estar, o espetáculo como num diálogo abre espaço para o respiro e encanto que gera ação física e emocional  a plateia, ex: do meu lado havia um senhor negro, que no segundo ato quando um dos personagens fala textos racistas sobre uma criança negra – ele diz, como pra si mesmo e pra quem conseguir ouvir – Hey vou jogar o sapato em você!! Mas não posso porque é teatro (…). Isto pra mim é mágico é o vislumbre de algo que não está, é o sonho se manifestando como energia física e real, não é a toa que o teatro na história se apresenta como algo diretamente ligado a política, e hoje sem dúvida nenhuma, teatro é política e ele sim, sem sombra de dúvida atua e age como influenciador direto de uma sociedade, por isso fica mais evidente este momento de ataque aos movimentos de cultura do nosso país por partes de grandes conservadores que hoje mais do que nunca possui uma força gigante nas decisões do nosso país.

Aqui entra a terceira e última vertente sobre este meu exercício de pensamento sobre Rua Azusa. Eu cresci dentro da igreja católica, no interior de São Paulo, numa cidade de 4000 habitantes em que o tempo é literalmente outro, a força sensível de um instituição religiosa nestas áreas pode ser, e normalmente é imensa! Grande parte deste SER artista que tenho buscado ser, se semeou dentro das paredes desta igreja no interior; tenho um irmão mais velho que é Frade Franciscano, e portanto creio e para além de acreditar eu sinto energeticamente e exercito minha fé, e estou mais que familiarizado com palavras e conceitos como Espirito Santo e etc.

Porém, todavia, entretanto… nestas andanças, não posso ser hipócrita, e fechar os olhos para toda a barbárie que existiu e ainda existe dentro destas instituições religiosas, o teatro tem por princípio ser SUBVERSIVO, logo em Rua Azusa por mais que possa existir a instituição religiosa por trás e por tanto, provável, muitos membros adeptos a um conservadorismo extremo que separa, divide e julga, o movimento que se dá com este espetáculo é o de tolerância e busca pelo respeito e vislumbre do indivíduo privado e social, percebo a busca por validar a existência divina/sagrada do ser humano independente de sua aparência – vide que Rua Azusa coloca em cena o personagem de um Pastor Racista que consegue parar e encarar seus próprios monstros, e isto é lindo! Logo o que me pulsa é saber para onde vai este movimento?

Até onde esta luta artística pretende ir a favor destes direitos humanos que deve ser para todos e há de esbarrar em outras temáticas para além da questões raciais sobre negritude. Nesta “Rua Azusa” há espaço para os Índios, para questões LGBTs e tantos outros que ainda sofrem diariamente na nossa sociedade?

Como parte deste publico que esteve na plateia de Rua Azusa, meu sentimento é de encantamento, gratidão, vislumbre e sem dúvida Fé, esta Fé que crê em movimentos assim para que de fato haja a mudança, e quiçá um dia poder estar perto de alguma maneira e contribuir da maneira que puder para que este exercício de tolerância se expanda para lugares que outrora nem imaginávamos.

Vida LONGA a “RUA AZUSA”
Vida LONGA ao Teatro Nissi

 

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Renato Caetano (ator – julho 2019)

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Rua Azusa, o Musical

Com Adhemar de Campos, Aline Menezes, Benner Jacks, Fabricio Bittencourt, Jéssica Augusto, Kaiky Mello, Otavio Menezes, Soraya Moraes, Thales César e grande elenco composto por 47 atores.

Teatro Nissi (Av. Brigadeiro Luís Antonio, 884 – Bela Vista, São Paulo)
Duração 180 minutos
Sexta – 19h30, Sábado – 14h30 e 19h30, Domingo – 14h
$72/$92
Classificação 12 anos

O LOUCO E A CAMISA (OPINIÃO)

“O Louco e a Camisa” está em cartaz no Teatro Renaissance, com Rosi Campos/ Patrícia Gasppar, Rainer Cadete, Ricardo Dantas, Priscilla Squeff e Dudu Pelizzari no elenco.

Texto do dramaturgo argentino, Nélson Valente, já foi montado em outros países como Chile, Espanha, França, Portugal e Estados Unidos. Aqui no Brasil, foi dirigido por Elias Andreato e voltou para mais uma temporada, agora no Teatro Renaissance.

Uma família de classe social baixa, composta de um pai machista, uma mãe resignada, uma filha que não aceita a sua realidade e procura a todo custo alguém que a tire daquele meio, mas sem perceber que já está presa naquela teia.

E alheio a tudo – o filho ‘louco’. Mas será? Ou por ser verdadeiro e ‘ver tudo’, consegue enxergar o que seus familiares procuram esconder. E por não saber como se relacionar, sofre.

O elenco está perfeito no papel, mas não tem como não reconhecer o trabalho de Rainer Cadete como Beto, o filho louco. Com uma precisão de gestos, entonação, atuação, conquista a plateia. Transmite o que se passa dentro daquela mente, daquele ser, que por ser verdadeiro demais, incomoda os outros. Um pouco a mais, seria caricato. Do jeito que está, perfeito.

Também não podemos esquecer de Patrícia Gasppar (substituta de Rosi Campos), que vive a mãe. Que ‘inocência’, que sofrimento contido. A dor do abandono extravasa seu corpo e nos atinge em cheio.

Não deixe de assistir. São só mais 05 sessões. Recomendamos.

“O Louco e a Camisa” está em cartaz sextas e sábados ás 21h30 e domingos ás 18h. Termina no próximo dia 16 de setembro.

CARMEN

O Louco e a Camisa
Com Rosi Campos, Rainer Cadete, Ricardo Dantas, Priscilla Squeff, Dudu Pelizzari e Patricia Gasppar
Teatro Renaissance (Alameda Santos, 2233 – Cerqueira César, São Paulo)
Duração 70 minutos
10/08 até 16/09
Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h
$80/$100
Classificação 12 anos

ELES NÃO USAM BLACK-TIE (OPINIÃO)

A história de um pai e filho que, por apresentarem posições morais e ideológicas diferentes, se confrontam, ambos lutando por seus ideais, numa São Paulo dos anos 50.

Anos 50? Mas a ação poderia acontecer agora neste final da segunda década do século XXI. E os personagens – pai e filho – poderiam ser substituídos por irmãos, amigos ou até mesmo por compatriotas.

Comemorando os 60 anos do seu lançamento, o diretor Dan Rosseto traz “Eles Não Usam Black-Tie” para o palco do teatro da Aliança Francesa.

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Conceito Histórico da Peça

Eles Não Usam Black-Tie” é a primeira peça do jovem ator/dramaturgo, Gianfrancesco Guarnieri. Escrita para ser encenada no Teatro de Arena (atual Teatro de Arena Eugênio Kusnet) em 1958, é considerada a precursora do movimento em busca pelo verdadeiro teatro brasileiro. Sai dos palcos a burguesia e entra o operariado.

O próprio título é de um humor sagaz, pois o proletariado não se veste assim.

A peça realizou um feito inédito até então – ficar mais de um ano em cartaz. Ela “aliou temas importantes como o movimento operário da década de 50 no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores brasileiros, traçando um panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos e apontando o cerne do abismo social entre dominantes e dominados“, segundo Rômulo Radicchi.

Conta a história de uma família de trabalhadores de uma classe social baixa. De um lado, o pai, Otávio, e outros operários estão organizando uma greve, em busca de melhores condições de trabalho. Do outro, o filho mais velho, Tião, que não deseja participar desse motim e busca uma vida segura ao lado de sua noiva, Maria, que está grávida. No meio do fogo cruzado, está Romana, a mãe, uma mulher corajosa e massacrada pela vida, a quem cabe manter unida a família.

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No elenco original, Eugênio Kusnet (Otávio), Lélia Abramo (Romana), Miriam Mehler (Maria), Gianfrancesco Guarnieri (Tião). além de Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.

A peça deu origem ao filme brasileiro homônimo, que foi dirigido por Leon Hirszman (1981). No elenco, estavam o próprio Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes e Flávio Guarnieri.

O filme recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, além de ter sido também premiada em outros festivais internacionais. Está na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pela Associação Brasileira de Criticos de Cinema (Abraccine).

A nova montagem

Em um país atualmente dividido, bipolarizado, nada melhor do que trazer novamente para o cerne da questão uma peça como “Eles Não Usam Black-Tie”, ainda mais em um ano eleitoral. Os tempos são outros, mas o tema continua tão fresco quanto há 60 anos.

A montagem de Dan Rosseto incomoda – e muito. É um texto denso, que acontece em 90 minutos, que passam um a um. A sala do teatro da Aliança Francesa parece que fica claustrofóbica, não há ar que circula na plateia devido a tensão no palco.

No palco, o cenário do interior da casa da família de Otávio e Romana. Uma casa simples, de parede de madeira, que pelas frestas dá para ver os atores se preparando para entrar em cena. Na verdade, eles quase não abandonam o palco – estão sempre a vista, mas esperando para entrar na parte central da casa, onde acontece a ação. São olhos que vigiam – os outros personagens, bem como a plateia.

Dan acertou na escolha do elenco – algo tão importante para uma peça em que os atores e o diálogo são o foco principal da montagem.

O trio principal é vivido por Adilson Azevedo (Otávio), Kiko Pissolato (Tião) e Paloma Bernardi (Maria). Há a tensão no ar nas figuras de Adilson e Kiko, que interpretam pai e filho. O embate através da atuação, da forma de falar e de olhar. Paloma, a princípio dá o apoio necessário ao noivo, até que decide ficar ao lado de sua comunidade, abandonando-o. Começa a peça de uma maneira ‘simples’, ‘frágil’ até assumir o controle da sua vida, a independência feminina.

Ao redor deles orbitam os outros personagens – operários da fábrica e amigos da família. Carolina Stofella (Dalva), Pablo Diego Garcia (João), Paulo Gabriel (Jesuíno), e Tiago Real (Braúlio) dão suporte a ação da peça, assumindo algumas vezes os papeis de destaque na drama. São os olhos que tudo vêm pelas frestas da casa.

Samuel Carrasco (Chiquinho) e Camila Brandão (Terezinha) representam o frescor da idade, a inocência, a transição da infância para a vida adulta. Cada vez que estão presentes em cena, como ‘protagonistas’, o riso é garantido.

Mas o ponto de convergência da ação recai sobre a figura da atriz, Teca Pereira. Teca interpreta Romana, a mãe da família, de uma forma ímpar. Através de seus diálogos, que como os de qualquer mãe, fazem a plateia rir e até mesmo pensar profundamente. Romana é quem mantém a família unida, e é através dela, que a decisão final – com uma dor profunda – acontece.

A montagem de “Eles Não Usam Black-Tie”, de Dan Rosseto, irá pegá-lo de uma forma, que dificilmente você sairá igual do que quando entrou. Com certeza, facilitará – e muito – no diálogo que precisamos ter para que este país mude. Mas um diálogo em que todos saibam ouvir e falar.

Sugestão – chegue um pouco mais cedo, pegue o programa da peça e leia. Irá complementar a experiência teatral.

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Eles Não Usam Black-Tie

Com Adilson Azevedo, Camila Brandão, Carolina Stofella, Kiko Pissolato, Pablo Diego Garcia, Paloma Bernardi, Paulo Gabriel, Samuel Carrasco, Teca Pereira e Tiago Real

Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 90 minutos

20/07 até 16/09

Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$60

Classificação 12 anos

Quer conhecer um pouco mais sobre a obra? Abaixo, um documentário feito pela Central Única dos Trabalhadores, com depoimentos de atores que participaram do filme.

DIGA QUE VOCÊ JÁ ME ESQUECEU (Opinião)

Diga Que Você Já Me Esqueceu” é o novo trabalho – texto e direção – de Dan Rosseto, e está em cartaz aos sábados, às 21h30, e domingos, às 19h, no Teatro Viradalata.

Dan inspirou-se na obra de Nelson Rodrigues para escrever o texto. Considerado uma tragicomédia, estão presentes arquétipos encontrados nos textos rodrigueanos: a família, com sua organização e conflitos internos; o incesto; a traição; o assassinato como meio de lavar a honra; além do humor negro.

O texto foi construído em capítulos como parte de um folhetim, sendo que “cada cena apresenta ganchos para dar ao espectador a experiência de ter de esperar o jornal do dia seguinte para continuar a história“, afirma o autor.

O espetáculo conta a história de um casal, Sílvio e Lúcia, que no dia do casamento decide revelar seus segredos e frustrações, que estavam guardados ‘a sete chaves’.

O humor negro está presente já no prólogo. A peça começa com um cortejo nupcial, que à medida que os personagens vão entrando no palco, se transforma em uma procissão fúnebre. Isto porque, fechando o cortejo, vêm dois personagens carregando um caixão. O esquife é erguido e fica presente durante toda a história.

Nesta montagem – a terceira e definitiva – os personagens são grotescos, parecem que foram retirados de filmes de terror trash. Usam sobre seus rostos brancos, maquiagens exageradas, com figurinos com ‘ares de antigamente’. O que poderia dar errado, nas mãos da direção é um diferencial positivo da peça.

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O espetáculo traduz-se em um lindo conjunto estético, inspirados em obras de arte. “É um modelo novo de trabalhar, onde a gente – direção cênica – define a estética do espetáculo que queremos contar e estes profissionais – diretor de arte e iluminação – dão uma assinatura em cima da primeira ideia. Por isso que se percebe uma unidade tão grande destes elementos na peça” explica Dan Rosseto.

Outro ponto positivo que vale realçar é o trabalho dos atores. Um elenco bem selecionado e muito bem dirigido. Os oito atores formam uma unidade, mas alguns personagens nos saltaram mais aos olhos – Dona Querubina (Juan Manuel Tellategui), a matriarca da família; Selma (Marjorie Gerardi), uma das primas de Lúcia; e Teresa (Larissa Ferrara), a irmã de Sílvio. Ou seja, três personagens femininos que demonstram a importância e o poder feminino.

Por que você tem que ver?

Gosta de textos de – e inspirados em – Nelson Rodrigues;

Gosta do trabalho de Dan Rosseto;

O conjunto estético da montagem;

O elenco.

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Diga Que Você Já Me Esqueceu
Com Ana Clara Rotta, Daniel Morozetti, Carol Hubner, Juan Manuel Tellategui, Larissa Ferrara, Marjorie Gerardi, Nalin Junior e Pablo Diego Garcia
Coros dos vizinhos (em fotos): André Grecco, Carolina Stofella, Giovanna Marqueli, Glória Rabelo, Rodrigo Castro e Samuel Carrasco
Teatro Viradalata (Rua Apinajés 1387 – Sumaré, São Paulo)
31/03 até 27/05
Duração 105 minutos
Sábado – 21h30, Domingo – 19h
$60
Classificação 14 anos

ALAIR (Opinião)

Em comemoração aos 45 anos de carreira, o ator Edwin Lusijunto de André Rosa e Claudio Andrade – está em cartaz com a peça “Alair” no Teatro Nair Bello (Shopping Frei Caneca).
A peça homenageia o fotógrafo, professor e crítico de arte, Alair Gomes, no ano em que se completam 25 anos da sua morte.
Alair é reconhecido como artista precursor da fotografia homoerótica no Brasil, que conquistou a consagração internacional com seu trabalho cujo tema central era a beleza do corpo masculino.
Morador do Rio de Janeiro, bem em frente a Ipanema, ele tirava fotos – secretamente – dos jovens que se exercitavam e frequentavam as areias da praia carioca. Somente algumas poucas, a pedido do artista, eram posadas no seu apartamento.
Ao total foram mais de 170 mil negativos e 16 mil ampliações entre os anos 1960 até 1992, quando morre.
Durante a peça, vemos Alair (Edwin Luisi) relembrando de fatos acontecidos na sua vida em três fases distintas – quando se apaixonou por um militar, nos anos 50; quando viajou para Europa nos anos 80; e quando veio a falecer nos anos 90 (estrangulado no seu apartamento em situações não esclarecidas até hoje).
André Rosa e Cláudio Andrade interpretam os outros personagens que passaram pela vida do fotógrafo. Em um momento específico, recriam poses dos rapazes que foram captados pela câmera de Alair (uma cena muito bonita com um jogo de luz – claro e escuro, mostrar e esconder).
A peça aborda, além da vida de Alair Gomes e seus trabalhos, dos preconceitos vividos por um homosexual da terceira idade – a solidão; não ter mais o ‘físico desejado’ pelos jovens e com isso ter que pagar para poder ter um relacionamento sexual. Constatando – e verbalizando – este sentimento, Alair/Edwin (e a plateia) vem às lágrimas (ah, juventude! como se todos fossem eternamente Apolos/Narcisos!)
 
Em tempos de discussão sobre a censura nas Artes, a peça continua atual – durante uma exposição dos trabalhos de Alair, na década de 80, num centro cultural carioca, um oficial do exército manda acabar com o evento.
 
“Alair” deve ser vista pela celebração da carreira de Edwin Luisi; pela atuação dos três atores; para homenagear Alair Gomes e seu trabalho; pela iluminação da peça; e para lembrarmos que todos envelheceremos.

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Alair
Com Edwin Luisi, Andre Rosa e Claudio Andrade
Teatro Nair Bello – Shopping Frei Caneca (R. Frei Caneca, 569 – Consolação, São Paulo)
Duração 65 minutos
06/10 até 05/11
Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h
$80
Classificação 14 anos