RES PÚBLICA 2023

REPÚBLICA. [do latim, res publica (“coisa pública”)] 1. Bairro do centro histórico de São Paulo, formado no entorno da Praça da República, limitado ao norte pela av. Duque de Caxias, ao leste pelo Vale do Anhangabaú, a oeste pelo bairro de Higienópolis e ao sul pela Praça Franklin Roosevelt; 2. Utopia do filósofo grego Platão, escrita no século IV a.C. sob a forma de diálogos, ao longo dos quais a personagem de Sócrates descreve a formação de uma cidade ideal, A República, de onde os artistas deverão ser expatriados; e 3. Como é conhecida popularmente uma casa onde moram diversas pessoas de laço não-consanguíneo.

Depois de ter seu texto eleito por dois anos consecutivos como o quarto melhor inscrito no “Edital de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos” (2017 e 2018), obtendo a primeira suplência entre os mais de 260 inscritos nas duas ocasiões, RES PÚBLICA 2023, d’A MOTOSSERRA PERFUMADA, foi recentemente censurado pela diretoria da Funarte SP, onde estava com a estreia marcada. A decisão arbitrária da instituição, baseada exclusivamente em uma sinopse, foi acompanhada pela explicação de que a peça não teria “qualidade artística” para ocupar uma das salas do complexo cultural.

O espetáculo escrito e dirigido por Biagio Pecorelli finalmente estreia no dia 11 de outubro, no Espaço Cênico Ademar Guerra, no porão do CCSP – Centro Cultural São Paulo, onde segue em cartaz até 10 de novembro. O elenco, além do próprio diretor, fica completo com Bruno Caetano, Camila Rios, Edson Van Gogh, Jonnata Doll e Leonarda Glück.

A trama da peça se passa no Réveillon de 2023, quando o movimento Anaconda Brazil leva às ruas grandes massas patrióticas. O Brasil vive um período de grande prosperidade econômica, mas não para Tom, Billy, Suzanne, Vincent, John e Vallentina, que vivem amontoados numa pequena república no centro de São Paulo. No limite entre ficção e realidade, eles contam histórias e se revezam na tarefa de trazer da rua objetos com os quais vão construindo uma trincheira, atrás da qual estarão sempre entre combater ou esperar misticamente por dias melhores.

A pesquisa que originou este projeto

Em sua famosa obra “A República” (século IV a.C.), o filósofo grego Platão discorre sobre diversos temas que sedimentam a fundação de uma cidade ideal. Feita sob a forma de diálogos e dividida em dez livros, a obra é uma exaustiva reflexão sobre a Justiça, ao longo da qual a figura de Sócrates conduz seus aprendizes a uma compreensão racional de tudo aquilo que faz a cidade prosperar para o Bem, propiciando à alma do homem não a sua degeneração, mas o “discernimento” da Verdade.

Conferindo a esse “discernimento” o status de baliza não apenas para sua visão de Justiça, mas também a estendendo para toda a concepção política e ética da República, Platão desenhou os contornos de uma cidade ideal, da qual o artista deve ser expulso por ser ele quem copia a realidade ao criar ilusões que afastam os cidadãos da Verdade. Mas, a quem serviria uma cidade ideal?

O descompasso na relação entre o Poeta e a Cidade, podemos dizer de maneira mais ampla entre o Artista e a Cidade, permanece aceso no século 21, mesmo com todas as ressignificações do estatuto da arte. Não faltam exemplos no século passado no qual a Arte (e o Teatro) foi reduzida a um mero instrumento propagandístico de Estados totalitários, de esquerda e de direita. O regime Nazista alemão, por exemplo, alcunhou de “Arte Degenerada” a Arte Moderna, censurando toda arte (inclusive o Teatro) que não exaltasse o que chamava de “sangue e solo” (Blut und Boden). O suicídio de Maiakovski em 1933, por sua vez, bem como o assassinato de Meyerhold em 1940, também provam o quão trágico pode ser o destino de um artista na caminhada de uma sociedade rumo ao Comunismo.

E o que dizer das acusações que recentemente têm sido deferidas por setores mais conservadores da sociedade contra artistas brasileiros cujas obras, segundo esses setores, ferem os valores morais, afastam os homens do Bem? Não teriam como pano de fundo o mesmo secular embate entre Artista e Cidade exaltado por Platão em “A República”? Não colocariam mais uma vez em jogo o descompasso entre Arte e Cidadania, descompasso este que parece se agravar sempre que se acirram as disputas políticas e econômicas no espaço público?

Para a criação de “RES PUBLICA 2023”, A MOTOSSERRA PERFUMADA buscou estender, enquanto pesquisa cênica desenvolvida por 2 anos no bairro, essa visão do artista como um “degenerado” para toda uma legião de “expatriados” – gays, prostitutas, michês, travestis, imigrantes, adictos, etc. – que vive na República, coração da cidade de São Paulo. Como a figura do poeta na cidade ideal platônica, essas populações se encontram hoje exiladas, nesse caso, exiladas dentro mesmo da cidade, resistindo aos regimes de ordenação moral e econômica do espaço urbano que sufocam e restringem, muitas vezes silenciosamente, seu usufruto da coisa pública.

Sobre a Encenação (por Biagio Pecorelli) 

Nascida de uma pesquisa em site-specific no bairro da República, a dramaturgia de RES PUBLICA 2023 faz referências a pontos estratégicos da vida noturna desta localidade, à geografia urbana do bairro, ao passado de prática de touradas na Praça e às perseguições de sua população “expatriada” (imigrantes, gays, travestis, artistas, baixa classe teatral, etc.). Em cena, o elenco instaura um clima de convivência e partilha de objetos e desejos, semelhante ao de uma república (moradia coletiva); e atua a partir da construção dos seus personagens e das suas próprias biografias – que aqui se misturam. Para o palco, trazem objetos – um vaso sanitário, uma placa luminosa “2023”, um gramofone, etc. – que vão compondo a cenografia e depois se tornam uma espécie de trincheira. 

O prólogo da peça compreende uma espécie de live terrorista, no qual o elenco (vestindo máscaras que lembram as da KKK) fala para uma câmera, deixando para o público a sensação de que está num set de gravação, bastante precário. Ao final do Prólogo, o elenco conduz a mesa ao palco ao som de um trecho de “Marcha Fúnebre de Siegfried”, de Richard Wagner. 

Os três quadros da peça, que se passam no ínterim de uma festa de Réveillon, têm como referência a linguagem do Teatro de Revista, uma linguagem popular, já apontada na própria dramaturgia, com entradas e saídas rápidas de personagens. Em pontos estratégicos da peça, a encenação estabelece “clareiras” nas quais as personagens atuam textos ou números que parecem descoladas da dramaturgia, mas oferecem, sobre esta, novas perspectivas (políticas, estéticas, éticas, sociais, etc.). É o caso do número de Billy e Vallentina, com um texto extraído de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, com a travesti fazendo o papel de Heloisa de Lesbos, ao som de uma versão naïf de Aquarela do Brasil pela orquestra do Ray Conniff; do spoken word da personagem Suzanne ao microfone, entre os Quadros I e II; das digressões sobre o movimento punk no Ceará, feitas pelo cantor cearense Jonnata Doll; e do depoimento, em voz off, do personagem Tom, vestido de coelho, sobre a monogamia e o Amor Universal no Quadro III da peça. 

O Epílogo da peça retoma a mesa disposta no Prólogo, mas desta vez para mesclar uma Santa Ceia com uma aula – entendida como performance –, na qual as personagens descrevem os acontecimentos posteriores à narrativa a partir de imagens fotográficas e pictóricas colhidas na pesquisa de dois anos sobre o bairro da República. Aqui, temas como touradas, perseguições a travestis, guerras e pintura a óleo se mesclam para oferecer ao público uma cena onde os tempos – passado, presente e futuro – se devoram. 

FACE (1)

Res Pública 2023

Com Biagio Pecorelli, Bruno Caetano, Camila Rios, Edson Van Gogh, Jonnata Doll e Leonarda Glück

Centro Cultural São Paulo – Espaço Cênico Ademar Guerra (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso – São Paulo)

Duração 100 minutos

11/10 até 10/11

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 20h

$40

Classificação 16 anos