OLFATO

Com uma comedia crítica que flerta com o grotesco, a Cia do Escombro chega com seu mais novo trabalho: Olfato. O espetáculo está no Teatro de Container da Cia. Mungunzá. A temporada tem sessões sábados, domingos e segundas-feiras, sempre às 20h, até 30 de abril. A peça passa pela discussão entre as relações de poder no público/privado e reflete a situação política e social no Brasil atualmente.

A montagem tem o diretor convidado de Maurício Perussi e dramaturgia de Teresa Cristina Borges. O elenco conta com Paulo Barcellos, Marco Barreto, Melina Marchetti e Vivian Petri. Na trama, enquanto um importante evento político é transmitido pela televisão, uma mulher, juntamente com a babá e um recém-nascido, vai até um encontro extraconjugal em um sobrado, onde um homem e o seu amigo a esperam.

Em cena, vemos uma mulher rica que busca realizar as fantasias não permitidas por seu status social; a babá, que a acompanha diariamente, e que tenta achar saídas para sua condição servil; um homem, dono do local do encontro, o qual se envolve na situação sem que tenha por isso optado, mas que, ainda assim, não deixa de se aproveitar do que acontece ali; e, por fim, o personagem intitulado “outro”, cujo desejo e cuja impotência estão em constante conflito, manifestando-se nas estratégias que emprega para influenciar os demais.

A inspiração da peça veio de dois cruzamentos: de um lado, a arena privada onde os interesses pessoais, aparentemente subjetivos, refletem também a realidade político-ideológica de seu entorno e, de outro, a votação do processo de impeachment de Dilma Rousseff, o que polarizou radicalmente o país.

A dramaturga Teresa Borges falou sobre o processo de construção do texto. “O espetáculo se relaciona com a dinâmica da transmissão televisiva e o seu papel na articulação do processo de impeachment e na formação de opinião. Isso como primeira instância. Na segunda camada, a dramaturgia tenta trabalhar a transposição de uma moral política para uma moral das relações privadas. Os personagens aparentemente não têm relação nenhuma com que estão assistindo, porém, reproduzem e aplicam estratégias, táticas, negociações e artimanhas que são desenvolvidos nas instâncias políticas”.

Para Teresa, a dramaturgia traz diversos fios que são conectados por um tema central que é o poder. “A montagem também toca em uma série de assuntos transversais como relações trabalhistas, de afeto, dependência, de interesse erótico”.

Os recursos cênicos refletem o conceito da animalidade, infantilização e o princípio de justaposição. O cenário é composto por três paredes que evocam uma casinha de brinquedo. O figurino é composto por elementos de vestuário adulto e infantil, além de elementos animais, procurando revelar o que os personagens escondem: o caráter regressivo das relações de poder estabelecidas entre si. A concepção inclui soluções multimídias para reforçar o contexto da história. O vídeo transmite a votação do impeachment e mostra sequências de imagens ligadas a história do Brasil, enquanto a projeção revela um momento de clímax da trama.

Um dos pontos fortes da peça é a possibilidade de leitura não naturalista para as falas das personagens, figuras estas aparentemente realistas. Essa tensão entre um naturalismo aparente e uma realidade cênica estranha e autônoma foi o que mais me chamou a atenção. Além disso, os símbolos de morte e renascimento contrastados à retórica perversa utilizada pela maioria dos deputados brasileiros, pareceram-me oferecer um material muito rico para a construção de uma leitura crítica a respeito do atual momento histórico do país. Todos esses elementos podem impactar o espectador por uma via mais afetiva do que racional com a construção de uma visualidade expressiva e de uma sonoridade instigante”, finaliza o diretor Maurício Perussi.

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Olfato
Com Paulo Barcellos, Marco Barreto, Melina Marchetti e Vivian Petri. 
Teatro Container da Cia. Mungunzá (Rua dos Gusmões, 43 – Santa Efigênia, São Paulo)
Duração 90 minutos
07 a 30/04
Sábado, Domingo e Segunda – 20h
$20
Classificação 16 anos

 

OS ATINGIDOS OU TODA COISA QUE VIVE É UM RELÂMPAGO

Após 2 anos de rompimento da barragem em Mariana, A Ordinária Companhia trata do tema com nova temporada de Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago no Teatro de ContêinerAs apresentações acontecem sempre terças e quartas, às 20h, até 6 de dezembro. A montagem tem uma linguagem que permeia a relação entre teatro e cinema com direção e dramaturgia de José Fernando Peixoto de Azevedo. 

Em cena, um jogo ficcional simula o suspense de um filme com o cotidiano de pessoas em luta por reparação e condenação dos criminosos. Esse é o mote do espetáculo gerado a partir da pesquisa sobre as consequências na vida de pessoas daquilo que é o Crime de Mariana. É menos que uma tragédia, resultado da ação criminosa ligada à exploração de minérios e o rompimento da barragem em que a lama encobriu distritos e rios de Minas ao Espírito Santo, chegando ao mar.

A peça procurou usar como propulsores para a construção os desdobramentos e os antecedentes da tragédia. Desde o histórico da rota do ouro e de minérios, além de deslizamentos menores que causaram morte ainda nos anos 80 nessa longínqua exploração da região.

Durante a pesquisa, o grupo foi a cidade de Mariana e nos pequenos distritos em busca de contato direto com os que sofreram e ainda sofrem com o rompimento da barragem. O encontro trouxe a oportunidade de ver de perto todas as camadas que envolvem a tragédia desde os aspectos sociais, econômicos e ambientais, além das rupturas e discriminações que se tornaram a vida dos atingidos. As pessoas foram pulverizadas e classificadas de acordo com a lama que sujou suas vidas na tragédia.

Todos esses elementos foram utilizados de maneira ficcional para criar uma montagem que constrói no palco uma espécie de filme ao vivo calcado pelo suspense. Uma linguagem que permeia o teatro e o cinema, característica que já foi trabalhada no espetáculo Zucco do grupo.

Em cena, a situação é a de um “estúdio”, ao menos em dois sentidos simultâneos, justapostos: estúdio de gravação (atores e técnicos que, diante do público, gravam e editam materiais que são projetados, e este trabalho é também cena), mas também espaço de estudo da cena (atores atuam suas figuras em situação, diante do público).

O resultado é um teatro-filme com um deslizamento entre os pontos de vista e perspectivas. Durante a pesquisa, filmes de Alfred Hitchcock, David Lynch e o recente Corra!, de Jordan Peele, serviram para absorver os artifícios de suspense inseridos na encenação.

A Ordinária Companhia surgiu em 2013, resultando do percurso de uma turma de alunos da Escola de Arte Dramática, a EAD, da ECA-USP, que naquele ano estreia seu trabalho de conclusão de curso, ZUCCO, uma adaptação do texto de Bernard Marie-Koltès, dirigida pelo também professor da Escola, José Fernando de Azevedo. O espetáculo fez temporadas em São Paulo – na EAD (2013), no TUSP e no CIT-ECUM (2014) – e o grupo foi indicado ao Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro (2014), na categoria revelação.

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Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago
Com Áurea Maranhão, Conrado Caputo, Juliana Belmonte, Paulo Balistrieri e Rafael Lozano
Teatro Container da Cia. Mungunzá (Rua dos Gusmões, 43 – Santa Efigênia – São Paulo)
Duração 90 minutos
07/11 até 06/12
Terça e Quarta – 20h
$20
Classificação 14 anos