(IN)JUSTIÇA

No dia 15 de novembro, sexta, a Companhia de Teatro Heliópolis reestreia o espetáculo (In)justiça, no Sesc Belenzinho, às 20 horas. A encenação é dirigida por Miguel Rocha, fundador e diretor do grupo. Evill Rebouças assina o texto que foi criado em processo colaborativo com o grupo.

(In)justiça é um ensaio cênico, norteado pela indagação ‘o que os veredictos não revelam?’, para refletir sobre aspectos do sistema jurídico brasileiro. Para tanto, conta a história do jovem Cerol que, involuntariamente, pratica um crime. A partir daí, surgem diversas concepções sobre o significado da justiça, seja a praticada pelo judiciário ou sentenciada pela sociedade.

O espetáculo, que estreou em janeiro de 2019, está indicado aos prêmios ao SHELL, na categoria de Melhor Música, e Aplauso Brasil, como Melhor Espetáculo de Grupo. No 4º FESTKAOS – Festival Nacional Teatro do Kaos, em Cubatão, SP -, conquistou os prêmios de Melhor Atriz (Dalma Régia), Melhor Ator (David Guimarães), Ator Coadjuvante (Danyel Freitas) e Melhor Figurino (Samara Costa), além das indicações à Melhor Trilha Sonora e Melhor Iluminação. Também participou do 34º Festivale – Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba e da 12ª Mostra Cooperifa. Participa, em novembro, do 41º FESTE – Festival Nacional de Teatro Pindamonhangaba e 14º FENTEPIRA – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba.

A encenação

Permeado por imagens-sínteses (estética característica da Companhia de Teatro Heliópolis) e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – o da vítima e do o criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. A música ao vivo confere ainda mais densidade poética ao ‘relato’, que foge de qualquer abordagem clichê.

A história de Cerol é contada de forma não linear. Exímio empinador de pipas, o garoto vive com sua avó; a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol é perseguido e, durante a fuga, dispara um tiro involuntário atingindo uma mulher, que morre em seguida. Ele é preso e submetido ao julgamento da lei e da sociedade.

Com base nesse argumento, a Companhia discute os direitos humanos à luz da Constituição Nacional. A encenação recupera também a ancestralidade do brasileiro em frtes passagens ritualísticas. “Queremos pensar o homem negro e a justiça, desde a nossa origem até os dias de hoje”, afirma o diretor Miguel Rocha.

Cenas impactantes e desconcertantes surpreendem todo o tempo. A encenação de Miguel Rocha, alinhavada pela dramaturgia de Evill Rebouças, mostra como a democracia pode ser manipulada. O crime versus a vítima ou o criminoso versus a justiça aparecem de forma não superficial nem previsível. A abordagem de (In)justiça parte do ponto de vista mais íntimo e segue para o mais coletivo: da comunidade para a sociedade, da moral pessoal às convenções sociais. Isso permite, igualmente, as leituras de um mesmo caso jurídico, como no julgamento (defesa e promotoria), onde ambos os discursos são tão contundentes quanto convincentes. “Para falar de justiça, temos que falar das relações humanas contraditórias, pois a justiça se apresenta pelas contradições”, reflete o diretor.

Com emoções e sensações que fogem da obviedade, o espetáculo tem quadros coreografados que dão o respiro necessário à dinâmica da encenação: cidadãos urbanos, policiais, advogados com suas togas desfilam pela área cênica e hipnotizam o espectador. Os depoimentos inseridos nas cenas humanizam e tornam crível a proposta da montagem, sejam densos, desconcertantes ou lúdicos. Segundo o diretor, os três pontos de vista – o pessoal, o divino e o do homem – são considerados na concepção de (In)justiça, bem como a máxima que diz “só quem passou por uma injustiça sabe o que é justiça”.

O cenário (de Marcelo Denny) situa a força da ancestralidade, presente na terra e no terreiro, na estética religiosa que foge aos estereótipos. Traz também o símbolo da lentidão da justiça: a burocracia em pilhas e pilhas de papéis e processos. Elementos como areia, terra, projéteis de bala e pipas compõem a área cênica, onde predomina a cor cinza. A trilha (de Meno Del Picchia) e os efeitos sonoros são executados ao vivo em sincrona com as cenas. Os atores interpretam também cantos de tradição que reforçam a busca pela humanização e pela ancestralidade propostas pelo espetáculo.

(In)justiça integra o projeto Justiça – O que os Vereditos Não Revelam. Nasceu de um longo processo criativo, iniciado em fevereiro de 2018, disparado por encontros da Companhia de Teatro Heliópolis com pensadores ativistas que falaram sobre os vários aspectos da Justiça. Os convidados foram Viviane Mosé (filósofa), Gustavo Roberto Costa (promotor de justiça), Ana Lúcia Pastore (antropóloga) e Cristiano Burlan (cineasta), tendo Maria Fernanda Vomero (provocadora cênica, jornalista e pesquisadora teatral) como mediadora.

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(In)Justiça

Com Alex Mendes, Cícero Junior, Dalma Régia, Danyel Freitas, David Guimarães, Gustavo Rocha, Maggie Abreu e Walmir Bess

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 105 minutos

15/11 até 08/12 (sessão extra 20/11, quarta feira – 17h)

Sexta e Sábado – 20h, Domingo e feriado – 17h

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 14 anos

ESPECIAL KOFFI KWAHULÉ

Uma dramaturgia baseada na oralidade, textos dramáticos escritos em versos a serviço de um ritmo inspirado pelo jazz, poucas referências aos locais em que ocorrem as ações e personagens alegóricos são algumas das marcas de Koffi Kwahulé, autor franco-marfinense que terá duas peças encenadas no Brasil em outubro, no Sesc BelenzinhoJaz (4 a 20/10), monólogo traduzido e interpretado por Sofia Boito com direção de Joana Dória; e Big Shoot (25/10 a 10/11), dirigido e traduzido por Janaína Suaudeau e interpretado por Daniel Costa e Daniel Infantini. São as primeiras montagens brasileiras desse dramaturgo.

Sofia Boito e Janaína Suaudeau estudaram na França em diferentes períodos. Fascinadas pela potência da obra de Koffi, traduziram duas de suas peças por iniciativa própria, sem nenhum projeto em vista. No final de 2017, por intermédio de uma amiga em comum, descobriram do envolvimento de ambas com o autor. “Foi uma grande coincidência termos traduzido as peças no mesmo período“, conta Sofia, ressaltando que as duas obras são muito diferentes entre si, mas trazem sínteses importantes sobre a produção dramática de Koffi.

Para Janaína, as montagens dão a oportunidade para que o público tenha um panorama amplo da linguagem e dos temas mais caros para o autor, como a desigualdade social, violência, pobreza e o frequente questionamento sobre as estruturas sociais de poder. “Quando nos encontramos, entendemos nossa oportunidade de fazer algo maior, mais expressivo e que pudesse apresentar a obra do Koffi num mesmo projeto“, complementa Janaína.

As artistas contam que as duas peças compartilham de um clima de suspense, com uma ação que vai se revelando aos poucos, não entregando de uma vez ao público os temas ou o perfil das personagens levantadas em cena. Outra característica das obras é que nenhuma delas especifica local ou data concreta da ação. Esse atributo marcante de Koffi reforça o caráter alegórico e por vezes surrealistas do seu estilo.

SOBRE JAZ

4 a 20 de outubro de 2019

Em estrutura poética e com um forte apelo ao ritmo jazzístico do seu discurso, uma mulher conta que Jaz acaba de ser estuprada. A peça discute a violência em um modelo de sociedade que historicamente subjuga a mulher; não por acaso Jaz apelida o estuprador como “inquisidor” e “homem com o olhar de cristo”. As referências são, respectivamente, os tempos de perseguição às mulheres – conhecidos como o de ‘caça às bruxas’ – e o fundamentalismo religioso que enclausura a mulher em modelos morais. O nome Jaz dá vazão a interpretações múltiplas, como o gênero musical do jazz, fundamental na obra de Koffi, a planta jasmim e o verbo ‘jazer’, usado com frequência para falar sobre um desejo de descanso para quem morre.

A narrativa não é linear e o público vai captando aos poucos os detalhes sobre a situação contada por essa mulher“, diz Sofia. Além da atriz, está em cena um videomaker (Flavio Barollo) e uma cantora (Ligiana Costa). O videomaker acompanha a mulher o tempo inteiro, propondo com sua câmera um comportamento masculino que aprisiona, possui e recorta os ângulos que deseja obter; já a cantora cria camadas sonoras com sons que se alternam entre cantos, ruídos, respirações e outros recursos que movimentam a cena. O cenário faz alusão a um canteiro de obras. “É um lugar precário que representa tanto o lugar onde Jaz mora como o banheiro público em que ela é estuprada“, conta Sofia. A artista complementa que ela e a diretora Joana Dória optaram por ambientar a cena em um espaço não realista que também tem uma dimensão simbólica, o espaço do trauma.

Jaz assume traços surrealistas, com um texto em espiral vai oferecendo pistas sobre o que está ocorrendo aos poucos“, ressalta Sofia, destacando que essas características exigiram que, após cada etapa da tradução, a artista promovesse leituras dramáticas para entender se havia coesão entre o texto escrito e o texto falado, com os sentidos e ritmos propostos pelo original de Koffi.

SOBRE BIG SHOOT

25 de outubro a 10 de novembro de 2019

Big Shoot traz no próprio título a pluralidade de leituras que a peça propõe: a palavra shoot em inglês pode significar tiro, uma carreira de cocaína, um prazer intenso e fugaz, um ensaio fotográfico ou sexo rápido, entre outros significados. Para não comprometer esse leque de possibilidade, Janaína Suaudeau manteve o título original da obra, que é escrita em francês, mas foi nomeada em inglês por Koffi. “Nesta peça, como em outras de sua autoria, as personagens não têm um plano de fundo, nome ou história que os anteceda, o que gera um efeito de suspense no público“, conta Janaína, que além da tradução, também assina direção da obra.

Nesta peça, o público cumpre o papel de uma plateia que está prestes a assistir, voluntariamente, um show de torturas promovido por um homem autodenominado Senhor (Daniel Costa) a uma vítima que ele dá o nome de Stan (Daniel Infantini). Passagens bíblicas sobre os irmãos Caim e Abel são citadas durante a peça – no livro de Gênesis é descrito que, enciumado de seu irmão, Caim matou Abel, cometendo o primeiro homicídio da humanidade. “Essa discussão surge para pensarmos sobre até onde chega a inveja, a ganância, o amor mal resolvido e outras questões humanas que fazem alguém se tornar capaz de um ato tão perverso como matar o seu próximo“, conta Janaína.

Outra referência presente em Big Shoot é o livro O Carrasco, que tem trecho destacado na contracapa da edição francesa da peça. A obra é de autoria do escritor sueco Pär Lagerkvist, ganhador do Prêmio Nobel, e ressalta como a figura de um carrasco precisa ser reforçada pelo apoio social para poder existir.

A premissa violenta é amparada por um ambiente que se assemelha a um show de horrores, a um coliseu, como os que os antigos romanos se reuniam para assistir soldados se digladiarem com as feras – para isso, o cenário representa uma arena quadrada em que há duas cadeiras metálicas, utilizadas nas salas de interrogatórios dos EUA para que o réu não tenha como quebrá-las e usar alguma de suas partes como arma. Sofia Boito assina a luz da peça, que acompanha o ambiente de um show de garagem proposto por uma banda que executa ao vivo um som propositalmente poluído com efeitos sonoros caseiros.  A escolha reforça o perigo da espetacularização da violência, já que a sessão se mostra a cada momento uma espécie de espetáculo grotesco que a plateia deseja assistir. “Uma reflexão indigesta que a peça propõe é de que o carrasco só existe devido à presença de um público que aplaude matanças“, diz Janaína.

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Especial Koffi Kwahulé

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho – São Paulo)

Jaz

Com Sofia Boito

Duração 60 minutos

04 a 20/10

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo e Feriado – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 18 anos

Big Shoot

Com Daniel Costa e Daniel Infantini

Duração 90 minutos

25/10 até 10/11

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo e Feriado – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 18 anos

CORPOS OPACOS

As freiras coroadas da Colômbia, que até o século XIX experimentaram a clausura absoluta no mosteiro de Santa Clara, em Bogotá, inspiraram as atrizes Carolina Virgüez, colombiana que reside no Brasil há 38 anos, e Sara Antunes a idealizar e criar a peça Corpos Opacos. Para assinar a direção, convidaram a diretora Yara de Novaes. A montagem estreia em São Paulo, no Sesc Belenzinho, após a bem–sucedida temporada no Rio de Janeiro no fim do ano passado.

Fortemente marcada por imagens e pela performatividade, a peça investiga o repertório de retratos póstumos de las monjas coronadas que mantiveram em vida seus corpos velados ao olhar do mundo exterior para, depois de mortas, serem retratadas por pintores. As imagens destas mulheres religiosas exemplares podem ser vistas até hoje em diversos museus na Colômbia: corpos opacos, adornados com coroas de flores e vestidos com mortalhas bordadas desde muito jovens pelas próprias freiras para o grande dia da consumação do seu casamento místico com Cristo: o dia da morte.

Inspiradas por essa iconografia marcada pela prática da reclusão e da disciplina religiosa, as idealizadoras e criadoras querem desvelar poeticamente a “potência incendiária dessas carnes, dos segredos que guardam o erotismo e a transgressão de corpos vigiados e escondidos”, destaca Carolina Virgüez. ‘Trata-se de posicionar no teatro corpos que em vida não foram vistos, nem ouvidos e pesquisar de que modo é possível conceber práticas que restituam essas corporalidades”.

Corpos jamais vistos em vida que, no dia da morte, são finalmente apreciados, observados e pintados por homens trazem alguns questionamentos. Qual é o sentido de só serem olhados quando mortos em uma espécie de nascimento às avessas? O que pensar da linguagem silenciosa (e silenciada) das visões, transes e êxtases místicos inscrita na matéria desses corpos? “É no interior desta perturbada matéria opaca, entre a submissão da disciplina ascética e a transgressão erótica do êxtase religioso, que se situa esse trabalho: ecoando desejos inauditos e fabulando outras hipóteses, roteiros e trajetórias para eles”, observa Sara.

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Corpos Opacos

Com Carolina Virgüez e Sara Antunes

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 50 minutos

31/05 até 30/06

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 12 anos

A FOME

Entre revelações pouco palatáveis e a exposição de uma fome voraz pela vida, uma mulher sem nome incorpora circunstâncias míticas e críticas sobre o feminino a partir de uma performance-limite entre o ritual e o cyber. Dirigido por João de Ricardo e atuado por Sissi Betina Venturin, o monólogo cria reflexões sobre relações amorosas e sociais atordoantes. A fome nasce do caos e incorpora-se com a força de uma deusa pagã em uma mulher.

O público é recebido com fiapos de luz que cortam a escuridão volátil de névoas e ruídos, é o começo do universo. Aos poucos revela-se uma forma que não sabemos se é humana ou animal, uma boca flutuando na escuridão, antes de ser corpo a fome é uma boca ameaçadora. A personagem mostra-se em pedaços: boca, vagina, cabeça, uma mulher que fala sem parar, parente próxima dos personagens de Beckett.

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A Fome

Com Sissi Betina Venturin

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 90 minutos

05 a 07/04

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$20

Classificação 18 anos

MACUMBA: UMA GIRA SOBRE PODER

A peça escrita e dirigida por Fernanda Júlia encerra a programação da mostra. A encenação é uma provocação sobre o que é o poder e como obtê-lo. É um espaço celebrativo e revelador de “afrografamento”. São peles escuramente acesas e memórias negras que precisam ser vistas na cena e fora dela.

A encenação é uma apresentação provocativa, celebrativa e reveladora sobre o empoderamento da mulher e do homem negro em prol da cultura afrobrasileira e sua pluralidade.  Empoderar-se significa, além de ter acesso a todos os direitos de cidadania, conhecer a sua história, ter consciência da sua cultura e identidade.

O elenco é formado apenas pelos atores negros Cleo Cavalcantty, Gide Ferreira, Tatiana Dias e Thiago Inácio.

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Macumba: Uma Gira Sobre Poder

Com Cleo Cavalcantty, Gide Ferreira, Tatiana Dias e Thiago Inácio

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho – São Paulo)

Duração 75 minutos

12 a 14/04

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 12 anos

MOSTRA CENA SUL 2019

Criar um panorama do teatro autoral produzido nos três estados da região Sul do Brasil é a proposta da primeira edição da mostra Cena Sul, iniciativa do Sesc Belenzinho que reúne cinco peças entre os dias 15 de março e 14 de abril, com sessões de sexta a domingo. Os ingressos custam até R$20 (com venda limitada a 4 ingressos por pessoa).

A catarinense Cia. La Vaca, que comemora 10 anos de carreira, abre a mostra com o espetáculo “Ilusões” (15 a 17/3), inspirado em texto do dramaturgo russo Ivan Viripaev, representante do movimento chamado de Novo Drama Russo. Dirigido por Fabio Salvatti, a peça propõe uma reflexão sobre os mitos a respeito do amor, das relações e da permanência, do envelhecimento e da lealdade a partir do relacionamento de dois velhos casais. Viripaev traz para a cena uma epicidade que não se confunde com o projeto político de Bertolt Brecht e nem com a oralidade dos contadores de histórias. Há uma desdramatização do material cênico, de forma que não há clareza sobre qual é a relação estabelecida entre os personagens e os atores que contam suas histórias.

Outra atração é “Fábrica de Calcinha” (22 a 24/3), com direção da gaúcha Marina Mendo, que surge da paisagem sonora das ruas do centro de Porto Alegre, onde vozes femininas gritam “Fábrica de Calcinha! Fábrica de Calcinha é no quinto andar! Calcinha a R$1,50!”. Esse grito mostra a expressão da mulher brasileira atual, perfurando estereótipos, exaltando seu lugar de fala e resistência a tantas formas de violência.

Trazido da cidade de Montenegro, também no Rio Grande do Sul, o Coletivo Errática encena “Ramal 340: Sobre a migração das sardinhas ou porque as pessoas simplesmente vão embora” (29 a 31/3). Dirigida por Jezebel De Carli, que narra seis histórias de pessoas espalhadas em diferentes tempos e espaços e conectadas por meio do movimento, do desejo, da falta ou da completa incompreensão sobre a própria experiência. A peça cria uma reflexão sobre um mundo no qual lugares, lados e identidades estão em constante movimento de construção-reconstrução.

Essas figuras são: um homem que espera pelo pai na plataforma da estação de trem; outro que arruma as malas enquanto sua companheira desarruma; um sujeito que caminha sem parar atrás da filha; um indivíduo que foge atormentado por uma imagem de 30 anos; uma mulher que não dorme por causa de um sonho; e uma mulher que segue para outro lado do mundo em busca de alguém que lhe escreveu uma carta.

Outra peça gaúcha da mostra é “A Fome” (5 a 7/4), da Cia. Espaço Em Branco, um solo dirigido por João de Ricardo e atuado por Sissi Betina Venturin. Entre revelações pouco palatáveis e a exposição de uma fome voraz pela vida, uma mulher sem nome incorpora circunstâncias míticas e críticas sobre o feminino a partir de uma performance-limite entre o ritual e o cyber. O monólogo cria reflexões sobre relações amorosas e sociais atordoantes.

Para encerrar a mostra, a paranaense Cia. Transitória apresenta “Macumba: Uma Gira Sobre Poder” (12 a 14/4), escrito e dirigido por Fernanda Júlia. Com um elenco formado apenas por atores negros, a encenação é uma provocação sobre o que é o poder e como obtê-lo. É um espaço celebrativo e revelador de “afrografamento”. São peles escuramente acesas e memórias negras que precisam ser vistas na cena e fora dela.

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Confira abaixo a programação completa da mostra Cena Sul 2019:

Ilusões, da Cia. La Vaca (Santa Catarina)

Sinopse: Inspirada em texto do dramaturgo russo Ivan Viripaev, a peça comemora os 10 anos de trajetória da Cia. La Vaca. Ao narrar o relacionamento de dois velhos casais, o autor do chamado Novo Drama Russo compõe uma reflexão aberta sobre os mitos a respeito do amor, relacionamentos e permanência. Afinal, será que o amor é mais do que uma complexa rede de histórias que contamos a nós mesmos e aos outros?

Quando: 15, 16 e 17 de março. Sexta, sábado e domingo, às 21h30.
Local: Sala de Espetáculos I
Classificação etária: 12 anos
Duração: 90 minutos
Venda de ingressos já disponível pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) e nas bilheterias das unidades do Sesc. Limite de 4 ingressos por pessoa

Fábrica de Calcinha, com direção de Marina Mendo (Rio Grande do Sul)

Sinopse: A peça destaca a paisagem sonora de Porto Alegre. Interpretar um dos mais memoráveis gritos de venda das ruas da capital gaúcha, “Fábrica de Calcinha! Fábrica de Calcinha é no quinto andar! Calcinha a R$1,50!”, revela a expressão da mulher brasileira contemporânea. Essas palavras são um signo desta paisagem sonora rica em afetividade e força. Dentre as camadas da realidade urbana que o trabalho revela está a expressão da mulher no Brasil contemporâneo, perfurando estereótipos, exaltando seu lugar de fala e resistência a tantas formas de violência.

Quando: 22, 23 e 24 de março. Sexta e sábado, às 21h30; e domingo, às 18h30.
Local: Sala de Espetáculos I.
Classificação etária: 18 anos.
Duração: 45 minutos.
Venda de ingressos disponível a partir de 12 de março, às 12h, pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) e nas bilheterias das unidades do Sesc a partir de 13 de março,  às 17h30. Limite de 4 ingressos por pessoa.

Ramal 340: Sobre a Migração das Sardinhas ou Porque as Pessoas Simplesmente Vão Embora, do Coletivo Errática (Rio Grande do Sul)

Sinopse: O espetáculo trama seis histórias envolvendo pessoas espalhadas no espaço e tempo, todas ligadas por meio do movimento, desejo, falta ou simplesmente pela completa incompreensão sobre a própria experiência. Um homem espera pelo pai na plataforma da estação de trem, outro arruma as malas enquanto sua companheira as desarruma, outra mulher não dorme por causa de um sonho, e ainda, uma mulher segue para outro lado do mundo em busca de alguém que lhe escreveu uma carta. Estas ações acontecem enquanto um homem caminha sem parar atrás da filha e outro foge atormentado por uma imagem de trinta anos atrás.

Quando: 29, 30 e 31 de março. Sexta e sábado, às 21h30; e domingo, às 18h30.
Local: Sala de Espetáculos I.
Classificação etária: 18 anos.
Duração: 80 minutos.
Venda de ingressos disponível a partir de 19 de março, às 12h, pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) e nas bilheterias das unidades do Sesc a partir de 20 de março, às 17h30. Limite de 4 ingressos por pessoa.

A Fome, da Cia. Espaço em Branco (Rio Grande do Sul)

Sinopse: Entre revelações pouco palatáveis e a exposição de uma fome voraz pela vida, a peça incorpora circunstâncias míticas e críticas sobre o feminino em uma performance-limite entre o ritual e o cyber. É o dia derradeiro, um rito de passagem que necessita ser concluído, custe o que custar. Refletindo sobre relações amorosas e sociais atordoantes, uma mulher sem nome nem espaço se dilata guiada por uma chama primitiva e implacável. Pelos dentes irá descobrir a forma mais intensa de consumir o amor, o outro e sua sombra.

Quando: 5, 6 e 7 de abril. Sexta e sábado, às 21h30; e domingo, às 18h30.
Local: Sala de Espetáculos I.
Classificação etária: 18 anos.
Duração: 90 minutos.
Venda de ingressos disponível a partir de 26 de março, às 12h, pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) e nas bilheterias das unidades do Sesc a partir de 27 de março, às 17h30. Limite de 4 ingressos por pessoa.

Macumba: Uma Gira Sobre Poder, da Cia. Transitória (Paraná)

Sinopse: Por meio de um espetáculo afrografado e afro centrado, a Companhia Transitória convida a todas e todos para uma reflexão e uma provocação: o que é poder?  Como se tem poder? É um espaço de afrografamento de poéticas cênicas e de discurso artístico, um espetáculo celebrativo e revelador. Peles escuramente acesas e memórias negras que precisam se ver e serem vistas na cena e fora dela.

Quando: 12, 13 e 14 de abril. Sexta e sábado, às 21h30; e domingo, às 18h30.
Local: Sala de Espetáculos I.
Classificação etária: 12 anos.
Duração: 75 minutos.

Venda de ingressos disponível a partir de 2 de abril, às 12h, pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) e nas bilheterias das unidades do Sesc a partir de 3 de abril, às 17h30. Limite de 4 ingressos por pessoa.

GAIVOTA: QUAL O GESTO DE UM SONHO?

O espetáculo Gaivota: qual o gesto de um sonho?, quinta montagem dos Heterônimos Coletivos de Teatro, estreia no dia 11 de janeiro, sexta, no Sesc Belenzinhoàs 21h30.

Com dramaturgia de Eduardo Joly e direção de Felipe Rocha, a peça investiga a obra do russo Anton Tchékhov (1860-1904) para indagar o que pode ser feito quando os sonhos estão desfeitos.

A partir da sensação de fracasso político e de ruína dos sonhos coletivos, o grupo iniciou o Projeto: Fracasso e Resistência que consiste npesquisa das quatro principais obras de TchékhovA GaivotaAs Três IrmãsTio Vânia e O Jardim das Cerejeiras. A peça Gaivota: qual o gesto de um sonho? é a primeira parte do projeto e tem elenco formado por Alexandra Tavares, Ametonyo Silva, Caio Caldas, Danilo Arrabal, Felipe Rocha, Lívia de Souza, Marcela Grandolpho, Naia Soares e Thaina Muniz.

Com uma dramaturgia criada coletivamente, o espetáculo move, no espaço vazio e reorganizável da cena, uma ação que se aproxima da questão: qual o gesto de um sonho? Da obra original do dramaturgo russo, o coletivo chegou a três acontecimentos principais que norteou a criação do trabalho: o fracasso de uma peça de teatro, a morte de uma gaivota em pleno voo e as tentativas de seguir sonhando diante dessa sensação de vazio. É a partir desses três pontos principais que a obra orbita.

Em uma arena vazia, os atores são atravessados por essas questões e se colocam em ação diante do público. Como em uma revoada de pássaros, as cenas se transformam continuamente sempre movidas pela ação dos atores. Segundo o diretor Felipe Rocha, “pensar a obra pelo viés de uma gaivota, que migra, gera a possibilidade de movimento”. Ele esclarece que migrar é como uma situação criativa, como uma atitude de revolta contra as condições estabelecidas. “É uma forma de engajamento para possibilitar transformações”, diz. 

Quando começaram a criar, em outubro de 2017, o que moveu o coletivo foi uma sensação, percebida após os acontecimentos políticos da época: “uma sensação de fracasso percorria os caminhos invisíveis entre as pessoas; algo que se assemelhava ao susto de acordar num sobressalto, após um sonho”, comentam os atores. Ao mesmo tempo, movimentos se articulavam por novas formas de ações de resistência. A nós parece que são esses dois vetores, essas duas sensações que mais fortemente têm percorrido nossos corpos enquanto cidadãos brasileiros, e então foi daí que partimos”, esclarecem. E foi dessa busca de dramaturgias, que também tivessem essas duas linhas de ação pulsando forte, que o coletivo chegou a Anton Tchékhov. Vivendo em uma Rússia em transformação, as obras carregam em suas personagens a potência da ação em busca de novas formas de se viver, ao mesmo tempo em que aflora uma profunda sensação de fracasso de diversos ideais e instituições. É um tentativa de existência em momentos de crise.

 A partir disso, as questões iniciais do processo criativo foram: o que fazer no campo artístico diante da sensação de vazio? Como reinventar as formas de sonhar e de se projetar como ação para o futuroA primeira resposta que pareceu possível ao coletivo foi “criar espaços de resistência coletiva em meio à sensação de fracasso”, concluem. Assim, foi por essa necessidade de repensar qual prática teatral era essa que gostariam de pesquisar nesse momento que o coletivo resolveu iniciar o projeto com a pesquisa de A Gaivota, texto em que a própria arte do teatro é colocada como um dos temas de discussão.

 Gaivota: qual o gesto de um sonho? foi elaborado ao longo de 2018, mediante a constatação, diante dos acontecimentos que percorreram esse ano, de que a sensação de fracasso se aprofundava e se tornava mais palpável e assustadora. “O teatro, então, se mostrou para nós como o campo possível dos afetos nesses dias tão áridos. Viver esse processo foi uma maneira de reaprender como estar juntos no mundo. E é isso que desejamos nesse encontro com o público: criar uma relação real de troca e afeto”, conclui diretor Felipe Rocha.

 

Encontros: Como uma Multidão Ainda É Capaz de Coexistir e Sonhar Junto?

Com: Heterônimos Coletivo de Teatro  

Tendo como ponto de partida os procedimentos para investigar o que o grupo chama de “Ação Coletiva”, os encontros buscam um aprofundamento na técnica física e vocal do ator. Para que os atores pesquisem caminhos para agir coletivamente em cena, o grupo propõe treinamentos de movimento, ação psicofísica e canto na busca por criar estados de escuta e jogo. O trabalho do grupo vem se articulando numa tentativa de resistir na prática de uma cena feita por muitas pessoas e que se constrói através de diferentes olhares sobre os materiais. Como uma multidão ainda é capaz de coexistir e sonhar junto? Ainda é possível? É a partir dessas questões que o coletivo pretende mover esses encontros. No último dia de trabalho o grupo se interessa em abrir publicamente, em espaços da unidade, o material cênico investigado.

Datas: 29/01 a 07/02. Terça a quinta, das 16h às 20h

Público: Profissionais e estudantes de artes cênicas. Vagas: 30.

Local: Sala de Espetáculos I. 90 lugares.

Grátis. Não recomendado para menores de 16.

carmen

Gaivota: Qual o gesto de um sonho?

Com Alexandra Tavares, Ametonyo Silva, Caio Caldas, Danilo Arrabal, Felipe Rocha, Lívia de Souza, Marcela Grandolpho, Naia Soares e Thaina Muniz

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I ( R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 90 minutos

11/01 até 10/02

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 12 anos