UMA FRASE PARA MINHA MÃE

Com 40 anos de carreira, a atriz e diretora Ana Kfouri estreia no dia 6 de março no Sesc Belenzinho o bem-sucedido monólogo Uma Frase Para Minha Mãe, pelo qual foi indicada aos prêmios Shell, Cesgranrio e Botequim Cultura de melhor atriz.

A dramaturgia, assinada pelo escritor, poeta e crítico literário francês Christian Prigent, tem toques proustianos ao refletir sobre o despertar para a literatura e o nascimento de um escritor. O texto mobiliza sensações afetivas e corporais ligadas à figura da mãe e à língua materna, envolve afeto, filosofia, pensamento, visão de mundo, política e pesquisa de linguagem. A direção é da própria Ana Kfouri, com colaboração artística de Marcio Abreu.

Ana conta que, quando conheceu a obra de Prigent, sentiu quase imediatamente uma espécie de chamamento para levar à cena Uma frase para minha mãe, texto potente e poético. Foi assim que, depois de enveredar pelos universos de Valère Novarina e de Samuel Beckett, a artista elegeu ‘Uma frase para minha mãe’ para dar continuidade à sua pesquisa cênica, que pensa a palavra e o corpo como campos de forças em tensão e em relação.

 “Prigent é um autor que trabalha fora do campo da representação”, explica Ana Kfouri. “Não há uma condução psicológica do que está sendo dito, então o ator/performer precisa se desapegar de um desejo de entender as palavras, no sentido de colocá-las como algo a ser controlado, decifrado e transferido para o outro (público)“. E continua: “Através de uma fala potente, poética, respirada, lúdica, desconcertante e rítmica, o desafio do ator é pôr em jogo também a própria linguagem”.

O tradutor e adaptador Marcelo Jacques de Moraes fez um recorte do texto integral de Uma frase para minha mãe, um longo “lamento bufo”, como diz o próprio escritor, em que o eu-narrador relata sua descoberta do mundo e da linguagem a partir de sua relação com a mãe. Como define Moraes, “foi na tensão entre o literário e o político, entre a experimentação da linguagem e a experiência do cotidiano, da vida comum, que se inscreveu, desde as primeiras publicações até hoje, a extensa obra de Christian Prigent. Em busca de uma língua, contra a língua, mas com a língua, eis uma fórmula que talvez sintetize com precisão o que seja o trabalho poético de Christian Prigent”.

O poeta costuma fazer leituras públicas de seus textos, cuja vocalização explicita o que ele chama de “voz do escrito”, uma espécie de “escultura sonora”, que se dirige ao ouvinte-espectador. “É um texto muito estilizado, com muitas aliterações e rimas internas. Que tem momentos mais fluidos e mais travados, que acelera e desacelera, que alterna momentos mais claros com outros enigmáticos. Tudo isso foi levado em conta na hora da tradução e da escolha do ritmo adequado”, acrescenta Marcelo Jacques de Moraes.

Foi a partir de um convite do próprio tradutor que Ana Kfouri conheceu Christian Prigent, durante o Colóquio Internacional Poesia e Interfaces, concebido em homenagem ao escritor, e realizado no Colégio Brasileiro de Altos Estudos, UFRJ, em setembro de 2015. Agora, o desejo é realizar um encontro entre os artistas envolvidos e o público como desafio de experimentarem juntos a palavra potente e desconcertante do autor.

Christian Prigent foi o vencedor do Grande Prêmio de Poesia 2018 da Academia Francesa, concedido pelo conjunto de sua obra.

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Uma Frase Para Minha Mãe

Com Ana Kfouri

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho – São Paulo)

Duração 60 minutos

06 a 29/03

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 12 anos

BERTOLEZA

Com elenco majoritariamente negro, a Gargarejo Cia Teatral estreia o musical Bertoleza, inspirado no livro O Cortiço, de Aluísio Azevedo, no dia 7 de fevereiro no Sesc Belenzinho. O espetáculo fica em cartaz até 1º de março, com sessões às sextas e aos sábados, às 21h30, e aos domingos (e no dia 22 de fevereiro), às 18h30. 

A montagem, com adaptação, direção e músicas de Anderson Claudir, conta a história do clássico naturalista de Aluísio de Azevedo, agora sob ponto de vista da Bertoleza, uma mulher negra que é tão importante para a construção do romance quanto o próprio João Romão, o protagonista original. 

Na trama, o oportunista Romão propõe uma sociedade à escrava Bertoleza, prometendo comprar a alforria dela. Eles começam uma nova vida juntos e constroem um pequeno patrimônio formado por um enorme cortiço, um armazém e uma pedreira. 

Depois de acumular capital considerável, o ambicioso João Romão já não sabe mais como se tornar mais rico e poderoso. Envenenado pelo invejoso Botelho, ele decide se casar com Zulmira, a filha de Miranda um negociante português recentemente agraciado com o título de barão. Mas, para isso, precisa se livrar da amante Bertoleza, que trabalha de sol a sol para lutar pelo patrimônio que eles construíram juntos.

Para a companhia, o grande desafio foi fazer com que uma narrativa do século 19 questionasse e problematizasse as relações criadas nos dias de hoje. Por isso, o projeto iniciado em 2015 foi ganhando novos contornos. “Quisemos investigar uma identidade brasileira que vem da diáspora africana e pensar em como isso nos afeta artisticamente. Assim, podemos criar novos signos para essa geração e dar uma voz para essa terra periférica”, conta Claudir. 

No processo, o coletivo procurou a força da figura de Bertoleza em outras mulheres negras brasileiras negligenciadas pela História. Durante a encenação, o elenco relembra as histórias dessas mulheres, como a vereadora Marielle Franco, militante da luta negra assassinada em março de 2018; a escritora Carolina Maria de Jesus, famosa pelo livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada; a jornalista e professora Antonieta de Barros, defensora da emancipação feminina que foi apagada dos livros de História; a escritora Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista brasileira; e a guerreira Dandara, que viveu e lutou no período colonial.

A protagonista dessa história é interpretada pela atriz Lu Campos, e o elenco também tem como destaque Eduardo Silva (Botelho), que ficou conhecido ao dar vida ao personagem Bongô no Castelo Rá Tim Bum e coleciona importantes prêmios teatrais como Mambembe, APCA, APETESP, Moliére e SHELL. 

O time de intérpretes fica completo com Taciana Bastos (Zulmira), Bruno Silvério (João Romão) e pelos integrantes do coro Ananza Macedo, Cainã Naira, David Santoza, Edson Teles, Gabriel Gameiro, Matheus França, Palomaris e Welton Santos. A direção musical é assinada por Eric Jorge; o dramaturgismo e a poesia, por Le Tícia Conde; e a coreografia, por Emílio Rogê.

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Bertoleza

Com Lu Campos, Eduardo Silva, Ananza Macedo, Cainã Naira, Palomaris, Taciana Bastos, Bruno Silvério, David Souza , Edson Teles, Gabriel Gameiro, Matheus França e Welton Santos

Sesc Belenzinho – Sala de Espetáculos I (R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 90 minutos

07/02 a 01/03

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30 (dia 22/02 – sábado – 18h30)

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 12 anos

(IN)JUSTIÇA

No dia 15 de novembro, sexta, a Companhia de Teatro Heliópolis reestreia o espetáculo (In)justiça, no Sesc Belenzinho, às 20 horas. A encenação é dirigida por Miguel Rocha, fundador e diretor do grupo. Evill Rebouças assina o texto que foi criado em processo colaborativo com o grupo.

(In)justiça é um ensaio cênico, norteado pela indagação ‘o que os veredictos não revelam?’, para refletir sobre aspectos do sistema jurídico brasileiro. Para tanto, conta a história do jovem Cerol que, involuntariamente, pratica um crime. A partir daí, surgem diversas concepções sobre o significado da justiça, seja a praticada pelo judiciário ou sentenciada pela sociedade.

O espetáculo, que estreou em janeiro de 2019, está indicado aos prêmios ao SHELL, na categoria de Melhor Música, e Aplauso Brasil, como Melhor Espetáculo de Grupo. No 4º FESTKAOS – Festival Nacional Teatro do Kaos, em Cubatão, SP -, conquistou os prêmios de Melhor Atriz (Dalma Régia), Melhor Ator (David Guimarães), Ator Coadjuvante (Danyel Freitas) e Melhor Figurino (Samara Costa), além das indicações à Melhor Trilha Sonora e Melhor Iluminação. Também participou do 34º Festivale – Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba e da 12ª Mostra Cooperifa. Participa, em novembro, do 41º FESTE – Festival Nacional de Teatro Pindamonhangaba e 14º FENTEPIRA – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba.

A encenação

Permeado por imagens-sínteses (estética característica da Companhia de Teatro Heliópolis) e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – o da vítima e do o criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. A música ao vivo confere ainda mais densidade poética ao ‘relato’, que foge de qualquer abordagem clichê.

A história de Cerol é contada de forma não linear. Exímio empinador de pipas, o garoto vive com sua avó; a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol é perseguido e, durante a fuga, dispara um tiro involuntário atingindo uma mulher, que morre em seguida. Ele é preso e submetido ao julgamento da lei e da sociedade.

Com base nesse argumento, a Companhia discute os direitos humanos à luz da Constituição Nacional. A encenação recupera também a ancestralidade do brasileiro em frtes passagens ritualísticas. “Queremos pensar o homem negro e a justiça, desde a nossa origem até os dias de hoje”, afirma o diretor Miguel Rocha.

Cenas impactantes e desconcertantes surpreendem todo o tempo. A encenação de Miguel Rocha, alinhavada pela dramaturgia de Evill Rebouças, mostra como a democracia pode ser manipulada. O crime versus a vítima ou o criminoso versus a justiça aparecem de forma não superficial nem previsível. A abordagem de (In)justiça parte do ponto de vista mais íntimo e segue para o mais coletivo: da comunidade para a sociedade, da moral pessoal às convenções sociais. Isso permite, igualmente, as leituras de um mesmo caso jurídico, como no julgamento (defesa e promotoria), onde ambos os discursos são tão contundentes quanto convincentes. “Para falar de justiça, temos que falar das relações humanas contraditórias, pois a justiça se apresenta pelas contradições”, reflete o diretor.

Com emoções e sensações que fogem da obviedade, o espetáculo tem quadros coreografados que dão o respiro necessário à dinâmica da encenação: cidadãos urbanos, policiais, advogados com suas togas desfilam pela área cênica e hipnotizam o espectador. Os depoimentos inseridos nas cenas humanizam e tornam crível a proposta da montagem, sejam densos, desconcertantes ou lúdicos. Segundo o diretor, os três pontos de vista – o pessoal, o divino e o do homem – são considerados na concepção de (In)justiça, bem como a máxima que diz “só quem passou por uma injustiça sabe o que é justiça”.

O cenário (de Marcelo Denny) situa a força da ancestralidade, presente na terra e no terreiro, na estética religiosa que foge aos estereótipos. Traz também o símbolo da lentidão da justiça: a burocracia em pilhas e pilhas de papéis e processos. Elementos como areia, terra, projéteis de bala e pipas compõem a área cênica, onde predomina a cor cinza. A trilha (de Meno Del Picchia) e os efeitos sonoros são executados ao vivo em sincrona com as cenas. Os atores interpretam também cantos de tradição que reforçam a busca pela humanização e pela ancestralidade propostas pelo espetáculo.

(In)justiça integra o projeto Justiça – O que os Vereditos Não Revelam. Nasceu de um longo processo criativo, iniciado em fevereiro de 2018, disparado por encontros da Companhia de Teatro Heliópolis com pensadores ativistas que falaram sobre os vários aspectos da Justiça. Os convidados foram Viviane Mosé (filósofa), Gustavo Roberto Costa (promotor de justiça), Ana Lúcia Pastore (antropóloga) e Cristiano Burlan (cineasta), tendo Maria Fernanda Vomero (provocadora cênica, jornalista e pesquisadora teatral) como mediadora.

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(In)Justiça

Com Alex Mendes, Cícero Junior, Dalma Régia, Danyel Freitas, David Guimarães, Gustavo Rocha, Maggie Abreu e Walmir Bess

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 105 minutos

15/11 até 08/12 (sessão extra 20/11, quarta feira – 17h)

Sexta e Sábado – 20h, Domingo e feriado – 17h

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 14 anos

ESPECIAL KOFFI KWAHULÉ

Uma dramaturgia baseada na oralidade, textos dramáticos escritos em versos a serviço de um ritmo inspirado pelo jazz, poucas referências aos locais em que ocorrem as ações e personagens alegóricos são algumas das marcas de Koffi Kwahulé, autor franco-marfinense que terá duas peças encenadas no Brasil em outubro, no Sesc BelenzinhoJaz (4 a 20/10), monólogo traduzido e interpretado por Sofia Boito com direção de Joana Dória; e Big Shoot (25/10 a 10/11), dirigido e traduzido por Janaína Suaudeau e interpretado por Daniel Costa e Daniel Infantini. São as primeiras montagens brasileiras desse dramaturgo.

Sofia Boito e Janaína Suaudeau estudaram na França em diferentes períodos. Fascinadas pela potência da obra de Koffi, traduziram duas de suas peças por iniciativa própria, sem nenhum projeto em vista. No final de 2017, por intermédio de uma amiga em comum, descobriram do envolvimento de ambas com o autor. “Foi uma grande coincidência termos traduzido as peças no mesmo período“, conta Sofia, ressaltando que as duas obras são muito diferentes entre si, mas trazem sínteses importantes sobre a produção dramática de Koffi.

Para Janaína, as montagens dão a oportunidade para que o público tenha um panorama amplo da linguagem e dos temas mais caros para o autor, como a desigualdade social, violência, pobreza e o frequente questionamento sobre as estruturas sociais de poder. “Quando nos encontramos, entendemos nossa oportunidade de fazer algo maior, mais expressivo e que pudesse apresentar a obra do Koffi num mesmo projeto“, complementa Janaína.

As artistas contam que as duas peças compartilham de um clima de suspense, com uma ação que vai se revelando aos poucos, não entregando de uma vez ao público os temas ou o perfil das personagens levantadas em cena. Outra característica das obras é que nenhuma delas especifica local ou data concreta da ação. Esse atributo marcante de Koffi reforça o caráter alegórico e por vezes surrealistas do seu estilo.

SOBRE JAZ

4 a 20 de outubro de 2019

Em estrutura poética e com um forte apelo ao ritmo jazzístico do seu discurso, uma mulher conta que Jaz acaba de ser estuprada. A peça discute a violência em um modelo de sociedade que historicamente subjuga a mulher; não por acaso Jaz apelida o estuprador como “inquisidor” e “homem com o olhar de cristo”. As referências são, respectivamente, os tempos de perseguição às mulheres – conhecidos como o de ‘caça às bruxas’ – e o fundamentalismo religioso que enclausura a mulher em modelos morais. O nome Jaz dá vazão a interpretações múltiplas, como o gênero musical do jazz, fundamental na obra de Koffi, a planta jasmim e o verbo ‘jazer’, usado com frequência para falar sobre um desejo de descanso para quem morre.

A narrativa não é linear e o público vai captando aos poucos os detalhes sobre a situação contada por essa mulher“, diz Sofia. Além da atriz, está em cena um videomaker (Flavio Barollo) e uma cantora (Ligiana Costa). O videomaker acompanha a mulher o tempo inteiro, propondo com sua câmera um comportamento masculino que aprisiona, possui e recorta os ângulos que deseja obter; já a cantora cria camadas sonoras com sons que se alternam entre cantos, ruídos, respirações e outros recursos que movimentam a cena. O cenário faz alusão a um canteiro de obras. “É um lugar precário que representa tanto o lugar onde Jaz mora como o banheiro público em que ela é estuprada“, conta Sofia. A artista complementa que ela e a diretora Joana Dória optaram por ambientar a cena em um espaço não realista que também tem uma dimensão simbólica, o espaço do trauma.

Jaz assume traços surrealistas, com um texto em espiral vai oferecendo pistas sobre o que está ocorrendo aos poucos“, ressalta Sofia, destacando que essas características exigiram que, após cada etapa da tradução, a artista promovesse leituras dramáticas para entender se havia coesão entre o texto escrito e o texto falado, com os sentidos e ritmos propostos pelo original de Koffi.

SOBRE BIG SHOOT

25 de outubro a 10 de novembro de 2019

Big Shoot traz no próprio título a pluralidade de leituras que a peça propõe: a palavra shoot em inglês pode significar tiro, uma carreira de cocaína, um prazer intenso e fugaz, um ensaio fotográfico ou sexo rápido, entre outros significados. Para não comprometer esse leque de possibilidade, Janaína Suaudeau manteve o título original da obra, que é escrita em francês, mas foi nomeada em inglês por Koffi. “Nesta peça, como em outras de sua autoria, as personagens não têm um plano de fundo, nome ou história que os anteceda, o que gera um efeito de suspense no público“, conta Janaína, que além da tradução, também assina direção da obra.

Nesta peça, o público cumpre o papel de uma plateia que está prestes a assistir, voluntariamente, um show de torturas promovido por um homem autodenominado Senhor (Daniel Costa) a uma vítima que ele dá o nome de Stan (Daniel Infantini). Passagens bíblicas sobre os irmãos Caim e Abel são citadas durante a peça – no livro de Gênesis é descrito que, enciumado de seu irmão, Caim matou Abel, cometendo o primeiro homicídio da humanidade. “Essa discussão surge para pensarmos sobre até onde chega a inveja, a ganância, o amor mal resolvido e outras questões humanas que fazem alguém se tornar capaz de um ato tão perverso como matar o seu próximo“, conta Janaína.

Outra referência presente em Big Shoot é o livro O Carrasco, que tem trecho destacado na contracapa da edição francesa da peça. A obra é de autoria do escritor sueco Pär Lagerkvist, ganhador do Prêmio Nobel, e ressalta como a figura de um carrasco precisa ser reforçada pelo apoio social para poder existir.

A premissa violenta é amparada por um ambiente que se assemelha a um show de horrores, a um coliseu, como os que os antigos romanos se reuniam para assistir soldados se digladiarem com as feras – para isso, o cenário representa uma arena quadrada em que há duas cadeiras metálicas, utilizadas nas salas de interrogatórios dos EUA para que o réu não tenha como quebrá-las e usar alguma de suas partes como arma. Sofia Boito assina a luz da peça, que acompanha o ambiente de um show de garagem proposto por uma banda que executa ao vivo um som propositalmente poluído com efeitos sonoros caseiros.  A escolha reforça o perigo da espetacularização da violência, já que a sessão se mostra a cada momento uma espécie de espetáculo grotesco que a plateia deseja assistir. “Uma reflexão indigesta que a peça propõe é de que o carrasco só existe devido à presença de um público que aplaude matanças“, diz Janaína.

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Especial Koffi Kwahulé

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho – São Paulo)

Jaz

Com Sofia Boito

Duração 60 minutos

04 a 20/10

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo e Feriado – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 18 anos

Big Shoot

Com Daniel Costa e Daniel Infantini

Duração 90 minutos

25/10 até 10/11

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo e Feriado – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 18 anos

CORPOS OPACOS

As freiras coroadas da Colômbia, que até o século XIX experimentaram a clausura absoluta no mosteiro de Santa Clara, em Bogotá, inspiraram as atrizes Carolina Virgüez, colombiana que reside no Brasil há 38 anos, e Sara Antunes a idealizar e criar a peça Corpos Opacos. Para assinar a direção, convidaram a diretora Yara de Novaes. A montagem estreia em São Paulo, no Sesc Belenzinho, após a bem–sucedida temporada no Rio de Janeiro no fim do ano passado.

Fortemente marcada por imagens e pela performatividade, a peça investiga o repertório de retratos póstumos de las monjas coronadas que mantiveram em vida seus corpos velados ao olhar do mundo exterior para, depois de mortas, serem retratadas por pintores. As imagens destas mulheres religiosas exemplares podem ser vistas até hoje em diversos museus na Colômbia: corpos opacos, adornados com coroas de flores e vestidos com mortalhas bordadas desde muito jovens pelas próprias freiras para o grande dia da consumação do seu casamento místico com Cristo: o dia da morte.

Inspiradas por essa iconografia marcada pela prática da reclusão e da disciplina religiosa, as idealizadoras e criadoras querem desvelar poeticamente a “potência incendiária dessas carnes, dos segredos que guardam o erotismo e a transgressão de corpos vigiados e escondidos”, destaca Carolina Virgüez. ‘Trata-se de posicionar no teatro corpos que em vida não foram vistos, nem ouvidos e pesquisar de que modo é possível conceber práticas que restituam essas corporalidades”.

Corpos jamais vistos em vida que, no dia da morte, são finalmente apreciados, observados e pintados por homens trazem alguns questionamentos. Qual é o sentido de só serem olhados quando mortos em uma espécie de nascimento às avessas? O que pensar da linguagem silenciosa (e silenciada) das visões, transes e êxtases místicos inscrita na matéria desses corpos? “É no interior desta perturbada matéria opaca, entre a submissão da disciplina ascética e a transgressão erótica do êxtase religioso, que se situa esse trabalho: ecoando desejos inauditos e fabulando outras hipóteses, roteiros e trajetórias para eles”, observa Sara.

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Corpos Opacos

Com Carolina Virgüez e Sara Antunes

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 50 minutos

31/05 até 30/06

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$30 ($9 – credencial plena)

Classificação 12 anos

A FOME

Entre revelações pouco palatáveis e a exposição de uma fome voraz pela vida, uma mulher sem nome incorpora circunstâncias míticas e críticas sobre o feminino a partir de uma performance-limite entre o ritual e o cyber. Dirigido por João de Ricardo e atuado por Sissi Betina Venturin, o monólogo cria reflexões sobre relações amorosas e sociais atordoantes. A fome nasce do caos e incorpora-se com a força de uma deusa pagã em uma mulher.

O público é recebido com fiapos de luz que cortam a escuridão volátil de névoas e ruídos, é o começo do universo. Aos poucos revela-se uma forma que não sabemos se é humana ou animal, uma boca flutuando na escuridão, antes de ser corpo a fome é uma boca ameaçadora. A personagem mostra-se em pedaços: boca, vagina, cabeça, uma mulher que fala sem parar, parente próxima dos personagens de Beckett.

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A Fome

Com Sissi Betina Venturin

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)

Duração 90 minutos

05 a 07/04

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$20

Classificação 18 anos

MACUMBA: UMA GIRA SOBRE PODER

A peça escrita e dirigida por Fernanda Júlia encerra a programação da mostra. A encenação é uma provocação sobre o que é o poder e como obtê-lo. É um espaço celebrativo e revelador de “afrografamento”. São peles escuramente acesas e memórias negras que precisam ser vistas na cena e fora dela.

A encenação é uma apresentação provocativa, celebrativa e reveladora sobre o empoderamento da mulher e do homem negro em prol da cultura afrobrasileira e sua pluralidade.  Empoderar-se significa, além de ter acesso a todos os direitos de cidadania, conhecer a sua história, ter consciência da sua cultura e identidade.

O elenco é formado apenas pelos atores negros Cleo Cavalcantty, Gide Ferreira, Tatiana Dias e Thiago Inácio.

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Macumba: Uma Gira Sobre Poder

Com Cleo Cavalcantty, Gide Ferreira, Tatiana Dias e Thiago Inácio

SESC Belenzinho – Sala de Espetáculos I (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho – São Paulo)

Duração 75 minutos

12 a 14/04

Sexta e Sábado – 21h30, Domingo – 18h30

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 12 anos