ALA DE CRIADOS

Premiada na Argentina, ALA DE CRIADOS estrutura-se em um fato real portenho ocorrido em janeiro de 1919 quando a cidade de Buenos Aires foi agitada por uma greve selvagem. Texto do dramaturgo argentino Mauricio Kartun, direção de Marco Antonio Rodrigues e tradução de Cecilia Boal e Rodrigo Arreyes, a montagem estreia dia 15 de setembro, sexta-feira, às 21 horas, no Sesc Bom Retiro.

Com Eduardo Pelizzari, Gabriel Miziara, Maria Manoella e Rodrigo Scarpelli, ALA DE CRIADOS apresenta, em uma linguagem tragicômica, uma “história de disparo e sexo entre as rochas”. A peça tem como pano de fundo um clube de tiro ao pombo em frente ao mar e mostra os conflitos entre o mundo dos salões e a sociedade.

Regados a bloody mary, banho de sol e jogos de tiro, três primos aristocratas da família Guerra – Tatana (Maria Manoella), Emilito (Gabriel Miziara) e Pancho (Rodrigo Scarpelli) – veraneiam em um elegante clube de Mar del Plata enquanto Buenos Aires enfrenta um cenário incandescente de greves e repressão (conhecido na história da Argentina como ‘Semana Trágica’ – janeiro de 1919). Os acontecimentos que paralisam a capital foram recebidos pelos primos inicialmente como rumores distantes. A cada nova informação e proximidade das ações grevistas, no entanto, eles passam a agir de maneira a reafirmarem suas posições sociais e de poder frente ao olhar rígido de Tata, o patriarca da família.

Repleta de ambiguidades, a história intercala o mundo desses primos ao do empregado e comerciante emergente Pedro Testa (Eduardo Pelizzari). A diferença entre classes alimenta a trama, enquanto os confrontos divididos por trabalhadores, empresários e políticos em Buenos Aires geravam aproximadamente 1.350 mortes e mais de 4.000 mil feridos.

Há no encontro desses personagens, a construção de metáforas que deslocam seus diálogos a temas atuais que podem reger a situação política, o estado social e de costumes de diversas nações, dentre elas a brasileira. ‘ALA DE CRIADOS traz a questão da luta de classes, centro da Revolução Soviética que comemora em 2017 seu centenário, reafirmando a oportunidade de debate. A História é o pano de fundo para a língua.

Identidade latino-americana

ALA DE CRIADOS foi encenada pela primeira vez no Teatro del Pueblo, de Buenos Aires, em setembro de 2009. Reestreou em fevereiro de 2010 na mesma sala. As duas temporadas renderam 19 prêmios entregues por importantes entidades teatrais da Argentina (nas categorias Direção, Atuação, Figurino, Cenografia, Iluminação, Fotografia, Dramaturgia e Melhor Espetáculo) e gerou convites para festivais de teatro regionais e organizados na Bolívia e Uruguai.

Para o diretor Marco Antonio Rodrigues, montar ALA DE CRIADOS no Brasil significa também entender a origem de duas grandes forças que ainda afetam o estado social, político e de costumes de seu povo: a colonização europeia e a escravidão. “Descontadas as particularidades históricas e regionais, a maioria dos países latino-americanos possuem esses dois fenômenos como ponto comum na construção de sua identidade e que determinam até hoje princípios autoritários, de corrupção, impunidade e de violência que se sobrepõem muitas vezes até mesmo à democracia”, conta ele.

Apresentar uma peça que trata sobre discussões de classe e de direitos civis não só dialoga com as recentes manchetes de jornais, mas suscita no público a desconstrução de uma tendência bovarista histórica para o Brasil. “Síndrome de uma nação colonizada, os brasileiros já passaram, e continuam passando, por diversos modismos que encontram em paradigmas europeus e/ou norte-americanos as melhores soluções para a vida pública e privada. Cultiva-se uma cultura que minimiza as qualidades e peculiaridades regionais. Nesse contexto, perde-se o olhar para o próximo, para o que é vizinho e divide os mesmos problemas. Olhar para ALA DE CRIADOS é deixar surgir diálogos que podem ser feitos entre as cenas de países fronteiriços; é reforçar a identidade latino-americana do Brasil que hoje é mantida por um fio muito tênue”, fala o diretor.

Tragicomédia

Texto premiado, porém inédito no Brasil, ALA DE CRIADOS apresenta Mauricio Kartun ao público brasileiro. O autor, que mescla drama e trechos narrativos, desenha personagens que se afastam da objetividade esperada de um narrador frente à história contada para exprimir uma reação crítica, um comentário. Como nas fábulas brechtianas (Bertolt Brecht), a peça contém o recorte de uma situação cotidiana que acaba desenhando o retrato de um país inteiro – utilizando, então, algo distante ou particular para conquistar a aproximação de temas e discussões comuns.

Oficina

Com Mauricio Kartun e introdução de Cecilia Boal, a oficina Dramaturgia de Emergência, que acontece de 15 a 17 de setembro, de sexta-feira a domingo, das 14 às 17 horas, abordará técnicas da criatividade, concepção de personagem, dinâmica da ação e desenho da estrutura, além de traçar um panorama do Teatro Latino-americano dos anos 60/70. Destinada a dramaturgos, roteiristas, narradores, diretores, atores, bailarinos, docentes e estudantes, a oficina tem inscrições na Central de Atendimento.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ala de Criados
Com Gabriel Miziara, Maria Manoella, Rodrigo Scarpelli e Eduardo Pelizzari
SESC Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 75 minutos
15/09 até 15/10
Sexta e Sábado – 21h, Domingo e Feriado- 18h
$30 ($9 – credencial plena)
Classificação 14 anos

 

RAZÃO SOCIAL

Na madrugada do dia 31 de março para 1º de abril de 1964, enquanto as tropas militares tomavam as ruas do Rio de Janeiro, o operário Sabino (Gero Camilo) e o estudante Jucelino (Victor Mendes) fogem da polícia e encontram abrigo no Zicartola, antigo restaurante administrado pelo casal Dona Zica (Fabiana Cozza) e Cartola (Adolfo Moura). Tomados pelos medos e tensões do novo regime político que estava prestes a se instaurar no Brasil, os dois personagens se juntam a sambistas icônicos da época numa reflexão sobre o seu tempo e também sobre a trajetória do samba, gênero musical de resistência e engajamento político que comemora seu centenário em 2016. A estreia do espetáculo Razão Social acontece dia 18 de novembro, sexta-feira, às 21h, no teatro do Sesc Bom Retiro.

Apaixonado por samba há anos, Victor conta que a ideia de montar um espetáculo com o tema é antiga, mas ganhou consistência quando Gero o presenteou com o livro Desde que o Samba é Samba, de Paulo Lins (autor de Cidade de Deus). Durante a criação do texto, elaborado a quatro mãos, o conhecimento de samba de Victor juntou-se ao entendimento político de Gero, mas com espaço para trocas e atravessamentos dos artistas o tempo inteiro.

O espetáculo recria ficcionalmente o bar Zicartola no Rio de Janeiro, reduto de pensadores, intelectuais e artistas da década de 1960, dando também lugar em cena a grandes sambistas como Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Clementina de Jesus entre outros. As músicas são encenadas ao vivo pelos atores e pelos músicos Everson Pessoa, Gerson da Banda e Nino Miau.

Em certo momento, Victor se transforma em Noel Rosa e Fabiana Cozza dá vida à Clementina de Jesus e Nara Leão. Até mesmo a banda entra em atuação ora como policiais, ora como estudantes e também como outros sambistas afins do restaurante.

O título da peça brinca com o nome oficial do Zicartola que, por registro, chamava-se Razão Social: Refeição Caseira Ltda. Razão social é um nome de registro de pessoas jurídicas, mas ao pé da letra tem muito a ver com a função do Zicartola, enquanto ele funcionava. Ele tinha uma razão social de estar ali, recebendo artistas e intelectuais que pensavam muito sobre seu tempo”, explicam os diretores.

O cenário é uma ficção representativa do restaurante. O figurino, um estudo da vestimenta popular da época.

image006

Razão Social
Com Adolfo Moura, Fabiana Cozza, Gero Camilo e Victor Mendes.
Músicos: Everson Pessoa, Gerson da banda e Nino Miau.
Sesc Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185 – Bom Retiro, São Paulo)
Duração 90 minutos
18/11 até 18/12
Sexta e Sábado – 21h; Domingo – 18h
$30 ($9 – trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes)
Classificação 14 anos
 
Texto e direção: Gero Camilo e Victor Mendes.
Cenotécnico: José Roberto Tomasim.
Iluminador: João Blumenschein.
Figurinista: Gero Camilo e Victor Mendes.
Concepção de luz: João Blumenschein.
Concepção de cenário: Gero Camilo e Victor Mendes.
Pesquisa, supervisão e execução de cenário: José Roberto Tomasim.
Execução do cenário: Bruno Matias (Più Design).
Direção de produção: Flávia Corrêa.
Assistente de produção: Ana Sardinha.
Produção executiva: Flávia Corrêa.
Produção: Cia Tertúlia de Acontecimentos.
Agradecimentos: Caco Bressane (ilustrações), Sato do Brasil e Murilo Thaveira – Casadalapa (programação visual), Paulo Leite (Empório Sagarana) e Roberto Setton (fotos).
Assessoria de Imprensa: ArtePlural Comunicação