EU ESTAVA EM MINHA CASA E ESPERAVA QUE A CHUVA CHEGASSE

O novo espetáculo de Antunes Filho, Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse do dramaturgo contemporâneo francês, Jean-Luc Lagarce, retrata o cotidiano de cinco mulheres que esperam a volta do caçula da família. Nesta peça, de modo atemporal, descortina-se um contar interminável de hipóteses sobre o retorno do único homem, que partiu de casa, após se desentender com o pai. No decorrer do espetáculo – e de suas múltiplas versões –,o espectador assiste a um entrecruzar-se contínuo de possibilidades. Neste jogo cênico, o enredo, aparentemente simples, encontra-se estrategicamente costurado pelas cinco mulheres. Resta ao espectador tecer a sua própria versão da história. O elenco é composto pelas atrizes Fernanda Gonçalves, Daniela Fernandes, Viviane Monteiro, Susan Damasceno e Rafaela Cassol.

Sobre a dramaturgia

Lagarce compôs seu espetáculo à maneira de um novelo narrativo. Nele não há apenas um fio exposto, guiando e orientando a história. Ao contrário, existem inúmeros fios que levam a “soluções” e a caminhos diversos. Cada uma das cinco mulheres apresenta a sua versão, ou seja, no desenrolar da encenação, uma a uma tece seu ponto de vista e a forma como imaginou e imagina os fatos. A partir dessas versões, o espectador se depara com uma gama de possibilidades, advindas dos fios narrativos que ora convergem, ora se contrastam. Assim, por exemplo, o conflito que estrutura o enredo, a saber, o desentendimento entre pai e filho que culminou na partida do caçula, é representado – instaurando assim um verdadeiro metateatro, complexo e labiríntico – e imaginado, sobretudo imaginado, pelo prisma subjetivo lançado por cada uma Delas, as quais sustentam esta família inominável.

Sobre o espetáculo

O espetáculo de Antunes Filho consegue extrair a teatralidade do texto de Lagarce, minuciosamente elaborado e estrategicamente embaralhado, para o palco. Para isso, a atenção do diretor redobrou-se constantemente, uma vez que foi preciso, antes mesmo de conceber a encenação propriamente dita, investigar, mapear e decifrar a escrita poética deste importante dramaturgo e diretor teatral.

CARMEN

Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse

Com Fernanda Gonçalves, Daniela Fernandes, Viviane Monteiro, Suzan Damasceno, Rafaela Cassol

Sesc Consolação (R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 70 minutos

21/09 até 16/12

Sexta e Sábado – 21h, Domingo e Feriado – 18h

$40 ($12 – credencial pleno)

Classificação 14 anos

HAROUN E O MAR DE HISTÓRIAS

Livremente inspirada no romance Haroun & Mar de Histórias (1990), de Salman Rushdie, a peça é uma forte defesa da criação, da liberdade de expressão e da fantasia. A história conta a saga do menino Haroun, filho do famoso contador de histórias Rashid Khalifa, também conhecido como “O Mar de Histórias”.

Após a partida de sua esposa, o grande contador perde toda sua inspiração e não consegue mais proclamar uma só palavra. Para salvar seu pai, o pequeno Haroun inicia uma longa viagem em busca do lugar onde as histórias nascem. Ao longo do caminho, Haroun encontra criaturas fabulosas e perturbadoras, que querem sufocar o poder dos criadores de histórias para sempre.

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Haroun e o Mar de Histórias

Com Daniel Costa, Fábio Espósito e Gúryva Portela

Sesc Consolação – Teatro Anchieta (R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 55 minutos

01 a 29/09 (exceto 15/09)

Sábado – 11h

$17 ($5 – credencial plena, gratuito para crianças até 12 anos)

Classificação Livre

CASA DE BONECAS – PARTE 2

Publicado em 1879, o clássico “Casa de Bonecas”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) causou polêmica ao questionar as convenções sociais e o casamento como uma instituição. A peça até hoje é considerada feminista.

O texto ganha uma continuação na comédia dramática “Casa de Bonecas – Parte 2”, com dramaturgia do jovem autor norte-americano Lucas Hnath e direção de Regina Galdino, com tradução de Marcos Daud e com os atores Marília GabrielaLuciano ChirolliEliana Guttman Clarissa Kiste.

Na “Casa de Bonecas”, de Ibsen, Nora Helmer falsifica uma assinatura do pai e faz, em segredo, um empréstimo para salvar Torvald, seu marido, mas quando ele descobre a fraude, por causa da chantagem de um agiota, repudia a esposa, humilhando-a e negando que ela continue educando os filhos. O agiota devolve a promissória, salvando os Helmer, mas Nora, desiludida com a covardia e hipocrisia de Torvald, ao ver a posição inferior da mulher na sociedade, revolta-se e abandona o marido e três filhos pequenos.

No texto de Lucas Hnath a emblemática personagem Nora, agora uma escritora de sucesso, retorna 15 anos depois ao lar porque precisa oficializar o divórcio com Torvald. Popular por defender causas feministas, ela está sendo chantageada para negar suas ideias, pois uma mulher casada não poderia ter uma vida independente.

De volta ao núcleo familiar, Nora enfrentará a recriminação da criada, da filha mais nova e do marido por tê-los abandonado e por ter tido a ousadia de escolher o que fazer de sua vida. Diante da cobrança sobre suas responsabilidades de esposa, ela argumenta que o casamento funciona como uma prisão para as mulheres e que o amor deveria ser livre. Mais uma vez ela terá que decidir entre ficar à mercê de mentiras, regras sociais equivocadas e da visão retrógada de seus entes queridos ou assumir sua identidade e lutar por um mundo diferente.

“Casa de Bonecas – Parte 2”, inédito no Brasil, foi um grande sucesso na Broadway e Lucas Hnath foi indicado ao Prêmio Tony 2017 de Melhor Texto.

A diretora Regina Galdino diz que o espetáculo chama a atenção pela qualidade dos diálogos. “O jovem autor, Lucas Hnath, desenha os diálogos como se fossem poemas modernos, gráficos, indicando ritmos, sonoridades, pausas, repetições e intenções que dispensam as tradicionais rubricas. O texto ganha uma musicalidade muito particular, e, num misto de comédia e drama, as relações das personagens surgem límpidas e cortantes, sem maniqueísmos. Futuro e passado, utopia e tradição, luminosidade e trevas, opção e necessidade, maturidade e juventude, coragem e medo, casamento e amor livre, são algumas das contradições que o público irá acompanhar nessa trajetória da personagem Nora em busca de sua identidade, negando a sociedade forjada em mentiras”, diz.

Seguimos a pista do autor, que propõe uma sala vazia como ambiente único, e radicalizamos com um cenário não realista, símbolo do que se tornou a vida de Torvald depois que Nora o abandonou, deixando-o com três crianças para criar, em pleno século XIX. A encenação, simples, aposta na força do texto. Esperamos que os espectadores vejam a transformação das personagens acontecer diante de seus olhos, sem truques, em um teatro essencial alicerçado na interpretação dos atores”, finaliza Regina Galdino.

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Casa de Bonecas – Parte 2

Com Marília Gabriela, Luciano Chirolli, Eliana Guttman e Clarissa Kiste

SESC Consolação – Teatro Anchieta (Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo)

Duração 100 minutos

11/08 até 09/09

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo e Feriado – 18h (sessões extras – 24 e 31/08 às 15h)

$40 ($12 – credencial plena)

Classificação 14 anos

AGOSTO

O Sesc Consolação, recebe no Teatro Anchieta, de 12 de julho a 5 de agosto, o espetáculo Agosto, uma contundente e emocionante história sobre conflitos familiares. Uma peça sobre o inconfessável, sobre o que fica entalado na garganta e sufoca. A história de uma família desconectada, desfeita, cujos membros insistiram na união o quanto puderam, da forma que puderam, mas que chega finalmente ao limite da desistência. Apesar de se tratar de um texto denso, forte, há certa descontração na peça, uma divertida recusa em levar-se demasiado a sério, uma tendência a nos passar “rasteiras” cômicas justamente nos momentos que achamos que não há mais espaço para o riso.

Com adaptação e direção de André Paes Leme, elenco composto por Guida Vianna, Letícia Isnard, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Rubens Camelo, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato, Marianna Mac Niven e Isabelle Dionísio (que fará às duas últimas apresentações da temporada), Agosto é uma realização da Primeira Página Produções e Sarau Agência de Cultura.

Ainda que o autor americano Tracy Letts tenha construído todos os personagens da peça com complexidade e grande relevância para a trama, Violet (Guida Vianna) e Barbara (Letícia Isnard) são as suas protagonistas.

Violet é uma mulher que vive numa situação limite, literal e metaforicamente falando. Literal porque faz quimioterapia para um câncer de boca e talvez sua morte esteja anunciada. Metaforicamente, porque sua família está se desmantelando: o marido sumiu, as filhas só esperam o funeral para partir e a ela só restará permanecer sozinha aos cuidados de uma empregada que ela não conhece. Barbara é a filha preferida porque Violet a julga a mais inteligente e a mais parecida com ela. Os temperamentos parecidos levam as duas a embates frequentes. Violet guarda profunda mágoa de Barbara porque ela não voltou pra casa quando soube do seu câncer, mas voltou quando o pai desapareceu. A peça conta uma história familiar na extensão de seus conflitos e de seus afetos. E essa família pode servir como espelho reflexivo para qualquer indivíduo,” afirma Guida Vianna, vencedora dos Prêmios Cesgranrio e APTR de Melhor Atriz por sua extraordinária interpretação da protagonista.

Também vencedora do Prêmio APTR, como atriz coadjuvante, Letícia Isnard defende a ideia de que “Barbara é uma mulher forte, que está num momento de total desestabilização. Seu casamento está ruindo, vive em crescente conflito com a filha adolescente, está a muito afastada das irmãs, do pai e bate de frente com sua mãe, Violet. Ela luta para não ter o mesmo destino da mãe: a solidão, consequente de uma personalidade forte, acachapante e agressiva. A tendência de Barbara é ficar igualzinha a Violet. E romper com esse ciclo de infelicidade e violência é também um ato de amor”.

O diretor André Paes Leme divide o palco nos cômodos da casa para uma “múltipla espacialidade” que vai exigir uma visão ativa do espectador. Vivendo entre o Rio e Lisboa – onde realiza os estudos do Doutorado na Universidade de Lisboa e onde já montou 5 espetáculos, o mais recente no início de 2017 como coordenador artístico da Escola da Cia Chapitô, por conta de uma encenação de grandes dimensões realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, que reuniu mais de 70 jovens artistas de circo –, André Paes Leme comenta a montagem dizendo que o primeiro cuidado que teve com a adaptação foi “suavizar o contexto norte-americano” da peça. O segundo foi em relação ao “realismo acentuado” proposto pelo autor: “Priorizei as situações de conflito e busquei não valorizar ao detalhe a construção do ambiente de cada cena”, explica. “Me interessa a complexidade das relações familiares, a intensidade com que depositamos no núcleo familiar tanto um amor inquestionável como também despejamos as angústias e inseguranças das nossas vidas”, diz o diretor. “Textos como esse revelam o quanto imprevisível é o comportamento humano”.

A montagem divide o palco nos cômodos da casa em que se passa a história, avisa Paes Leme: “A ação passeia por todos os cômodos e a proposta do autor é que o espectador possa ver simultaneamente todos os ambientes. Na nossa concepção, as cenas são sobrepostas: a personagem que está num determinado ambiente estará exatamente ao lado de outra que ocupa outra área da casa. Gradativamente, as diferentes cenas vão convivendo no palco”.

Se o destino das personagens é inevitavelmente trágico, isso não faz de Agosto uma tragédia. Tracy Letts usa recursos do melodrama, da comédia de costumes, das sitcoms da televisão norte-americana e do vaudeville, mantendo a unidade formal, a coerência interna e estética da sua obra.

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AGOSTO

Com Guida Vianna, Letícia Isnard, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Rubens Camelo, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato, Marianna Mac Niven e Isabelle Dionísio

Teatro Anchieta – Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245 – Consolação, São Paulo)

12/07 até 05/08

Duração 130 minutos

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 18h

$40 ($12 – credencial plena)

Classificação 16 anos

 

1984

Considerado um dos romances mais influentes do mundo no século 20, a distopia 1984, do jornalista e romancista britânico George Orwell (1903-1950), ganha adaptação do Núcleo Experimental, com direção de Zé Henrique de Paula. O espetáculo estreia no Teatro Anchieta do Sesc Consolação no dia 1º de junho, e segue em cartaz até 8 de julho. O elenco é formado por Carmo Dalla Vecchia, Rodrigo Caetano, Gabriela Fontana, Eric Lenate, Rogerio Brito, Inês Aranha, Laerte Késsimos, Fabio Redkowicz e Chiara Scallet.

O romance foi publicado em 65 países e virou minissérie, filmes, quadrinhos, mangás, ópera e até inspirou o reality show Big Brother, criado em 1999 pela produtora holandesa Endemol. Recentemente, a obra foi transformada em uma adaptação teatral dos ingleses Duncan MacMillan e Robert Icke. Esta última versão foi o ponto de partida da montagem brasileira.

Escrita em 1949, a obra-prima de Orwell voltou a ganhar enorme destaque na era de Donald Trump, na qual a pós-verdade e os “fatos alternativos” tomaram conta da política. Prova disso é que o livro subiu na lista dos mais vendidos na Amazon desde a posse do presidente norte-americano e, segundo a editora, as vendas aumentaram em 10.000%.

A distopia se passa no fictício Estado da Oceânia, governado por um líder supremo chamado Grande Irmão, que chegou ao poder depois de uma guerra mundial que eliminou as nações e criou três grandes potências totalitárias. Esse Estado é pautado pela burocracia, censura e, sobretudo, pela vigilância. Quase sem qualquer forma de privacidade, cidadãos são espiados o tempo todo pelas “teletelas”, uma espécie de televisores espalhados nos lares e em lugares públicos, capazes de monitorar, gravar e espionar tudo.

Nesse lugar vive Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, responsável por falsificar registros históricos para garantir que eles respaldem os interesses do Grande Irmão. O protagonista detesta o novo sistema, mas não tem coragem de desafiá-lo. Ele apenas declara seu ódio nas páginas de um diário secreto. Isso muda quando ele conhece Júlia, uma funcionária do Departamento da Ficção. Juntos eles sonham com uma rebelião e praticam pequenos atos de desobediência. A represália aos amantes será brutal.

No Núcleo Experimental, costumamos dizer que os temas que nos interessam discutir sobre o palco são aqueles que nos provocam raiva. Esta montagem de 1984 vem contaminada dessa revolta, dessa profunda indignação em relação à Polícia das Ideias que persegue o livre pensamento e vaporiza quem não corrobora o sistema, em relação ao Ministério da Verdade que produz uma sequência interminável de notícias falsas que confundem e manipulam os fatos, em relação ao Departamento de Ficção que imbeciliza e amansa a população e até mesmo à Novafala, a tentativa do poder estabelecido de minar a linguagem ao ponto de impedir a capacidade de pensamento”, comenta o diretor.

Sobre a adaptação de Duncan MacMillan e Robert Icke, Zé Henrique de Paula acrescenta: “Ela ressalta e funde duas ideias aparentemente opostas, ficção e realidade. Qual delas é mais preponderante sobre a outra? Elas são necessariamente excludentes? No que acreditar mais, naquilo que se supõe ficcional ou no que nos ensinaram que é real? Em época de ficcionalização da vida privada através das infames redes sociais, os adaptadores colocam Winston Smith – que ainda traz em si uma centelha de consciência – no centro de um redemoinho de acontecimentos ora reais, ora ficcionais, que poderia muito bem ser encarado como um reality show a respeito do próprio Winston. Isso amplifica o alcance do romance e aproxima a distopia ao nosso presente”.

SINOPSE

O Grande Irmão assumiu o poder da fictícia Oceânia depois de uma guerra global que eliminou as nações e criou três grandes Estados transcontinentais. O líder supremo instalou um grande sistema de censura, burocracia e vigilância em seu território. Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, responsável por falsificar registros históricos com a missão de moldar o passado à luz dos interesses do Estado. Ele escreve sua opinião contrária ao sistema nas páginas de seu diário, mas não tem coragem de desafiá-lo. Isso muda quando se apaixona por Júlia, funcionária do Departamento de Ficção. Eles passam a acreditar que uma rebelião é possível.

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1984
Com Carmo Dalla Vecchia, Rodrigo Caetano, Gabriela Fontana, Eric Lenate, Rogerio Brito, Inês Aranha, Laerte Késsimos, Fabio Redkowicz, Chiara Scallet
Sesc Consolação – Teatro Anchieta (Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo)
Duração 90 minutos
01/06 até 08/07
Sexta e Sábado, 21h, Domingo – 18h
$40 ($12 – credencial plena)
Classificação 14 anos

EXTINÇÃO

Baseado no livro homônimo do austríaco Thomas Bernhard, o espetáculo solo com Denise Stoklos apresenta uma obra demolidora dos valores conservadores da sociedade que limitam os espaços de exercício de liberdade e amor. A temporada acontece no Teatro Anchieta, Sesc Consolação, de 13 de abril a 20 de maio. A direção é de Denise Stoklos, Francisco Medeiros e Marcio Aurelio.

O espetáculo apresenta textos de Denise Stoklos que os interpreta referindo-se ao ritmo vertiginoso, reiterativo, cruel e veemente do livro (lembra praticamente um contínuo Joyce, especificamente no monólogo de Molly Bloom).

Isso leva à cena a proposta do autor de extinção dos pilares da sociedade capitalista: à família fechada, ao implícito egocentrismo do neoliberalismo, as demagogias de todos os lados muitas vezes até dos movimentos e das redes sociais em sua mistificação de valores, a pretensa solidariedade que é questionável quando há estratificação de classes sociais, o racismo instalado mas com todos os disfarces, a intolerância a todas às diferenças”, conta Denise.

A montagem, por Denise Stoklos

“Neste ano estou completando 50 anos de teatro. A montagem ‘Extinção’, livremente inspirada no livro de Thomas Bernhard realizada pelo Sesc São Paulo abre as comemorações que se encerram em dezembro com a primeira edição do FIDS, Festival Internacional de Solo Performance Denise, em Irati, Paraná com patrocínio exclusivo do ITAU CULTURAL através de seu diretor Eduardo Saron e seu firme apoio à diversidade do teatro.

Nasci em 14 de julho de 1950 em Irati, no Paraná. Aos dezoito anos estreei com uma peça que escrevi, produzi, dirigi e atuei com um grupo de amigos: “Círculo na lua, lama na rua”, peça que, desde o nome, pretendia ultrapassar a censura, apresentava um intrincado mais funcional sistema de revolução através de um imaginado ‘Clube dos Artistas’: os mais sensíveis à desafinação de violinos ‘Trafapro’ (Tradição, Família e Propriedade) instrumentos que era de uso compulsório dos moradores da cidade. Estávamos em pleno AI5 (a estreia foi em 24 de novembro) e eu estava estudando Jornalismo e Ciências Sociais, ambiente cultural que veio a definir permanentemente todas as minhas questões políticas, pessoais e artísticas.

Chamei para a montagem comemorativa dois diretores paulistas da minha geração, Francisco Medeiros e Marcio Aurélio, para compartilharmos a direção. Nunca trabalhei com eles antes, mas sempre corremos em paralelo com nossas produções pessoais, e nos admiramos. Considero a montagem de Francisco Medeiros com Ileana Kwasinsky (outra paranaense, nos tratávamos por ‘polacas’) ‘Depois do Expediente’ de Xavier Kroetz uma obra prima de nossa época. Marcio Aurelio passou anos encantando os alemães, quando morou lá, tendo montado inclusive ‘Mefisto’, nada menos que um Fausto à moda dele. Além de sermos da mesma geração outro dado nos une: Antonio Abujamra, aquele a quem frequentávamos como diretor, mestre, oráculo, e importante provocador.

O psicanalista e escritor Ricardo Goldenberg me sugeriu o livro “Extinção” de Thomas Bernhard, para montagem e mergulhou na aventura como dramaturgista. Nela se uniu Lua Santosouza, também psicanalista – nunca acho que essa área é demais, para nós, de teatro, que nos debatemos tanto com limites, desejos, papéis, máscaras, personas, confrontações, estéticas, embates sociais, etc.

Chamei J.C.Serroni um cenógrafo diretor de arte e extremo conhecedor de teatro e suas carpintarias e da imagética. Eu havia ficado impressionada quando da montagem dos textos de Dario Fo, ‘Um orgasmo adulto escapa do zoológio’ em 1983, com Antonio Abujamra, ele não acrescentou um cenário, mas praticamente ‘retirou cenário’ optando por apenas um fundo infinito branco que valorizava minha gestualização e a deixava como o ponto fundamental da encenação. Qualquer outro entendimento teria dado um rumo completamente diferente à peça que foi muito bem recebida por público nacional, sul americano, europeu e norte americano, em uma carreira de 7 anos, em 3 idiomas.

Aline Santini, iluminadora, já havia sido um encontro extremamente produtivo em minhas duas últimas peças: ‘Carta ao Pai’ e ‘Vendo Gritos e Palavras’. Ela é uma iluminadora que tem projeto de luz individual, que se debruça nos trabalhos inteiramente, investiga, propõe, escuta.

O Sesc com Danilo Santos de Miranda sempre pessoalmente envolvido tornando possível a evolução da nossa sociedade. Este espetáculo estreia no 27ª Festival de Curitiba nos dias 05 e 06 de abril de 2018.

O trabalho desta peça carrega o desejo de encenar uma posição política nos ecos de Karl Valentin, Brecht, neste momento específico de nosso país onde a lucidez provocada por Bernhard demonstra que sem extinção não se atinge uma nova etapa civilizatória que nos redima da mediocridade existencial, política, emocional atualmente instalada.

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Extinção
Com Denise Stoklos
Teatro Anchieta – Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245 – Consolação, São Paulo)
Duração 75 minutos
13/04 até 20/05
Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 18h
$40 ($12 – credencial plena)
Classificação 16 anos

 

ROUPA SUJA

Com atividades para o público amante da literatura, o Sesc Consolação traz para os meses de março e abril o espetáculo Roupa Suja, da Cia as de fora e a oficina Soltando a Língua, com um ponto em comum: o escritor Marcelino Freire.

Baseado em quatro contos do escritor, Roupa Suja tem dramaturgia de Cesar Ferrário e direção de João Júnior, com temporada de 12 de março a 17 de abril, às 20h, às segundas e terças-feiras, no Espaço Beta.

Os contos escolhidos para a encenação são: Modelo de VidaRoupa SujaVestido Longo e Lavagem a Seco,todos que retratam um Brasil que busca migrar em sua condição de vida e tem na roupa um signo de status e mobilidade social, revelando camadas socioeconômicas, culturais e históricas da relação entre classes.

Roupa Suja é uma teia de narrativas que lança olhos sobre os desejos de vida de personagens que vivem numa linha tênue de desejo e disputa de classes. Personagens marginais buscando ascender socialmente através de um olhar crítico, sensível e bem humorado sobre o país a partir de uma camada da população dita subalterna.  É dessa gente que trata a obra de Marcelino Freire. A peça costura narrativas de vida que vão se entrelaçando a partir de fatos e desejos num jogo temporal com a memória dos personagens numa fricção constante entre narrativo e dramático. Dentro do contexto dramático se sujam as roupas. E a roupa aqui é um emblema social”, diz o diretor João Júnior.

A peça também é resultado do trabalho de pesquisa de três anos da companhia, sobre a transposição de obras literárias para os palcos do teatro.

…Muitas de minhas narrativas foram adaptadas para o teatro. E a minha felicidade é grande quando isto acontece. Celebro, com entusiasmo, essa união entre literatura e teatro. Eis agora, por exemplo, a peça Roupa Suja, reunindo contos meus, assim, que tentam passar a limpo a nossa sociedade. Escancarar, direta e secamente, as sujidades que aí estão. Haja trabalho esse nosso. De lavar, lavar, lavar. Até sobrar o que interessa. A verdade que a arte busca. E que a água, essa fonte de criação, nos revela…” declara  Marcelino.

Além de teatro a programação literária se estende com a oficina Soltando a Língua, realizada por Freire, a partir de 14 de março, quartas e quintas, às 19h.

A ideia é trazer através de exercícios, troca e experiências de cada um, dicas de como “desbloquear” e “enxugar” um texto, concisão, criação de um personagem e organização de um livro. Além de valorizar o repertório e vocabulário, seja em qual gênero literário for.

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Roupa Suja
Com Ana Carolina Marinho, Anna Zêpa, Juão Nin, Rodrigo Sanches e Tatiana Caltabiano
Sesc Consolação – Espaço Beta, (R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo)
12/03 até 17/04
Segunda e Terça – 20h
$20 ($6 -credencial plena)
Classificação 16 anos
 
Oficina – Soltando a Língua, na Sala Alfa. Com Marcelino Freire. A partir de 16 anos. Ingressos de R$30 a R$9. Dias de 14/3 a 29/3, quartas e quintas, das 19h às 21h30.
* As inscrições devem ser feitas na Central de Atendimento do Sesc Consolação. Vaga limitadas!