AGOSTO

O Sesc Consolação, recebe no Teatro Anchieta, de 12 de julho a 5 de agosto, o espetáculo Agosto, uma contundente e emocionante história sobre conflitos familiares. Uma peça sobre o inconfessável, sobre o que fica entalado na garganta e sufoca. A história de uma família desconectada, desfeita, cujos membros insistiram na união o quanto puderam, da forma que puderam, mas que chega finalmente ao limite da desistência. Apesar de se tratar de um texto denso, forte, há certa descontração na peça, uma divertida recusa em levar-se demasiado a sério, uma tendência a nos passar “rasteiras” cômicas justamente nos momentos que achamos que não há mais espaço para o riso.

Com adaptação e direção de André Paes Leme, elenco composto por Guida Vianna, Letícia Isnard, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Rubens Camelo, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato, Marianna Mac Niven e Isabelle Dionísio (que fará às duas últimas apresentações da temporada), Agosto é uma realização da Primeira Página Produções e Sarau Agência de Cultura.

Ainda que o autor americano Tracy Letts tenha construído todos os personagens da peça com complexidade e grande relevância para a trama, Violet (Guida Vianna) e Barbara (Letícia Isnard) são as suas protagonistas.

Violet é uma mulher que vive numa situação limite, literal e metaforicamente falando. Literal porque faz quimioterapia para um câncer de boca e talvez sua morte esteja anunciada. Metaforicamente, porque sua família está se desmantelando: o marido sumiu, as filhas só esperam o funeral para partir e a ela só restará permanecer sozinha aos cuidados de uma empregada que ela não conhece. Barbara é a filha preferida porque Violet a julga a mais inteligente e a mais parecida com ela. Os temperamentos parecidos levam as duas a embates frequentes. Violet guarda profunda mágoa de Barbara porque ela não voltou pra casa quando soube do seu câncer, mas voltou quando o pai desapareceu. A peça conta uma história familiar na extensão de seus conflitos e de seus afetos. E essa família pode servir como espelho reflexivo para qualquer indivíduo,” afirma Guida Vianna, vencedora dos Prêmios Cesgranrio e APTR de Melhor Atriz por sua extraordinária interpretação da protagonista.

Também vencedora do Prêmio APTR, como atriz coadjuvante, Letícia Isnard defende a ideia de que “Barbara é uma mulher forte, que está num momento de total desestabilização. Seu casamento está ruindo, vive em crescente conflito com a filha adolescente, está a muito afastada das irmãs, do pai e bate de frente com sua mãe, Violet. Ela luta para não ter o mesmo destino da mãe: a solidão, consequente de uma personalidade forte, acachapante e agressiva. A tendência de Barbara é ficar igualzinha a Violet. E romper com esse ciclo de infelicidade e violência é também um ato de amor”.

O diretor André Paes Leme divide o palco nos cômodos da casa para uma “múltipla espacialidade” que vai exigir uma visão ativa do espectador. Vivendo entre o Rio e Lisboa – onde realiza os estudos do Doutorado na Universidade de Lisboa e onde já montou 5 espetáculos, o mais recente no início de 2017 como coordenador artístico da Escola da Cia Chapitô, por conta de uma encenação de grandes dimensões realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, que reuniu mais de 70 jovens artistas de circo –, André Paes Leme comenta a montagem dizendo que o primeiro cuidado que teve com a adaptação foi “suavizar o contexto norte-americano” da peça. O segundo foi em relação ao “realismo acentuado” proposto pelo autor: “Priorizei as situações de conflito e busquei não valorizar ao detalhe a construção do ambiente de cada cena”, explica. “Me interessa a complexidade das relações familiares, a intensidade com que depositamos no núcleo familiar tanto um amor inquestionável como também despejamos as angústias e inseguranças das nossas vidas”, diz o diretor. “Textos como esse revelam o quanto imprevisível é o comportamento humano”.

A montagem divide o palco nos cômodos da casa em que se passa a história, avisa Paes Leme: “A ação passeia por todos os cômodos e a proposta do autor é que o espectador possa ver simultaneamente todos os ambientes. Na nossa concepção, as cenas são sobrepostas: a personagem que está num determinado ambiente estará exatamente ao lado de outra que ocupa outra área da casa. Gradativamente, as diferentes cenas vão convivendo no palco”.

Se o destino das personagens é inevitavelmente trágico, isso não faz de Agosto uma tragédia. Tracy Letts usa recursos do melodrama, da comédia de costumes, das sitcoms da televisão norte-americana e do vaudeville, mantendo a unidade formal, a coerência interna e estética da sua obra.

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AGOSTO

Com Guida Vianna, Letícia Isnard, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Rubens Camelo, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato, Marianna Mac Niven e Isabelle Dionísio

Teatro Anchieta – Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245 – Consolação, São Paulo)

12/07 até 05/08

Duração 130 minutos

Quinta, Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 18h

$40 ($12 – credencial plena)

Classificação 16 anos

 

1984

Considerado um dos romances mais influentes do mundo no século 20, a distopia 1984, do jornalista e romancista britânico George Orwell (1903-1950), ganha adaptação do Núcleo Experimental, com direção de Zé Henrique de Paula. O espetáculo estreia no Teatro Anchieta do Sesc Consolação no dia 1º de junho, e segue em cartaz até 8 de julho. O elenco é formado por Carmo Dalla Vecchia, Rodrigo Caetano, Gabriela Fontana, Eric Lenate, Rogerio Brito, Inês Aranha, Laerte Késsimos, Fabio Redkowicz e Chiara Scallet.

O romance foi publicado em 65 países e virou minissérie, filmes, quadrinhos, mangás, ópera e até inspirou o reality show Big Brother, criado em 1999 pela produtora holandesa Endemol. Recentemente, a obra foi transformada em uma adaptação teatral dos ingleses Duncan MacMillan e Robert Icke. Esta última versão foi o ponto de partida da montagem brasileira.

Escrita em 1949, a obra-prima de Orwell voltou a ganhar enorme destaque na era de Donald Trump, na qual a pós-verdade e os “fatos alternativos” tomaram conta da política. Prova disso é que o livro subiu na lista dos mais vendidos na Amazon desde a posse do presidente norte-americano e, segundo a editora, as vendas aumentaram em 10.000%.

A distopia se passa no fictício Estado da Oceânia, governado por um líder supremo chamado Grande Irmão, que chegou ao poder depois de uma guerra mundial que eliminou as nações e criou três grandes potências totalitárias. Esse Estado é pautado pela burocracia, censura e, sobretudo, pela vigilância. Quase sem qualquer forma de privacidade, cidadãos são espiados o tempo todo pelas “teletelas”, uma espécie de televisores espalhados nos lares e em lugares públicos, capazes de monitorar, gravar e espionar tudo.

Nesse lugar vive Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, responsável por falsificar registros históricos para garantir que eles respaldem os interesses do Grande Irmão. O protagonista detesta o novo sistema, mas não tem coragem de desafiá-lo. Ele apenas declara seu ódio nas páginas de um diário secreto. Isso muda quando ele conhece Júlia, uma funcionária do Departamento da Ficção. Juntos eles sonham com uma rebelião e praticam pequenos atos de desobediência. A represália aos amantes será brutal.

No Núcleo Experimental, costumamos dizer que os temas que nos interessam discutir sobre o palco são aqueles que nos provocam raiva. Esta montagem de 1984 vem contaminada dessa revolta, dessa profunda indignação em relação à Polícia das Ideias que persegue o livre pensamento e vaporiza quem não corrobora o sistema, em relação ao Ministério da Verdade que produz uma sequência interminável de notícias falsas que confundem e manipulam os fatos, em relação ao Departamento de Ficção que imbeciliza e amansa a população e até mesmo à Novafala, a tentativa do poder estabelecido de minar a linguagem ao ponto de impedir a capacidade de pensamento”, comenta o diretor.

Sobre a adaptação de Duncan MacMillan e Robert Icke, Zé Henrique de Paula acrescenta: “Ela ressalta e funde duas ideias aparentemente opostas, ficção e realidade. Qual delas é mais preponderante sobre a outra? Elas são necessariamente excludentes? No que acreditar mais, naquilo que se supõe ficcional ou no que nos ensinaram que é real? Em época de ficcionalização da vida privada através das infames redes sociais, os adaptadores colocam Winston Smith – que ainda traz em si uma centelha de consciência – no centro de um redemoinho de acontecimentos ora reais, ora ficcionais, que poderia muito bem ser encarado como um reality show a respeito do próprio Winston. Isso amplifica o alcance do romance e aproxima a distopia ao nosso presente”.

SINOPSE

O Grande Irmão assumiu o poder da fictícia Oceânia depois de uma guerra global que eliminou as nações e criou três grandes Estados transcontinentais. O líder supremo instalou um grande sistema de censura, burocracia e vigilância em seu território. Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, responsável por falsificar registros históricos com a missão de moldar o passado à luz dos interesses do Estado. Ele escreve sua opinião contrária ao sistema nas páginas de seu diário, mas não tem coragem de desafiá-lo. Isso muda quando se apaixona por Júlia, funcionária do Departamento de Ficção. Eles passam a acreditar que uma rebelião é possível.

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1984
Com Carmo Dalla Vecchia, Rodrigo Caetano, Gabriela Fontana, Eric Lenate, Rogerio Brito, Inês Aranha, Laerte Késsimos, Fabio Redkowicz, Chiara Scallet
Sesc Consolação – Teatro Anchieta (Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo)
Duração 90 minutos
01/06 até 08/07
Sexta e Sábado, 21h, Domingo – 18h
$40 ($12 – credencial plena)
Classificação 14 anos

EXTINÇÃO

Baseado no livro homônimo do austríaco Thomas Bernhard, o espetáculo solo com Denise Stoklos apresenta uma obra demolidora dos valores conservadores da sociedade que limitam os espaços de exercício de liberdade e amor. A temporada acontece no Teatro Anchieta, Sesc Consolação, de 13 de abril a 20 de maio. A direção é de Denise Stoklos, Francisco Medeiros e Marcio Aurelio.

O espetáculo apresenta textos de Denise Stoklos que os interpreta referindo-se ao ritmo vertiginoso, reiterativo, cruel e veemente do livro (lembra praticamente um contínuo Joyce, especificamente no monólogo de Molly Bloom).

Isso leva à cena a proposta do autor de extinção dos pilares da sociedade capitalista: à família fechada, ao implícito egocentrismo do neoliberalismo, as demagogias de todos os lados muitas vezes até dos movimentos e das redes sociais em sua mistificação de valores, a pretensa solidariedade que é questionável quando há estratificação de classes sociais, o racismo instalado mas com todos os disfarces, a intolerância a todas às diferenças”, conta Denise.

A montagem, por Denise Stoklos

“Neste ano estou completando 50 anos de teatro. A montagem ‘Extinção’, livremente inspirada no livro de Thomas Bernhard realizada pelo Sesc São Paulo abre as comemorações que se encerram em dezembro com a primeira edição do FIDS, Festival Internacional de Solo Performance Denise, em Irati, Paraná com patrocínio exclusivo do ITAU CULTURAL através de seu diretor Eduardo Saron e seu firme apoio à diversidade do teatro.

Nasci em 14 de julho de 1950 em Irati, no Paraná. Aos dezoito anos estreei com uma peça que escrevi, produzi, dirigi e atuei com um grupo de amigos: “Círculo na lua, lama na rua”, peça que, desde o nome, pretendia ultrapassar a censura, apresentava um intrincado mais funcional sistema de revolução através de um imaginado ‘Clube dos Artistas’: os mais sensíveis à desafinação de violinos ‘Trafapro’ (Tradição, Família e Propriedade) instrumentos que era de uso compulsório dos moradores da cidade. Estávamos em pleno AI5 (a estreia foi em 24 de novembro) e eu estava estudando Jornalismo e Ciências Sociais, ambiente cultural que veio a definir permanentemente todas as minhas questões políticas, pessoais e artísticas.

Chamei para a montagem comemorativa dois diretores paulistas da minha geração, Francisco Medeiros e Marcio Aurélio, para compartilharmos a direção. Nunca trabalhei com eles antes, mas sempre corremos em paralelo com nossas produções pessoais, e nos admiramos. Considero a montagem de Francisco Medeiros com Ileana Kwasinsky (outra paranaense, nos tratávamos por ‘polacas’) ‘Depois do Expediente’ de Xavier Kroetz uma obra prima de nossa época. Marcio Aurelio passou anos encantando os alemães, quando morou lá, tendo montado inclusive ‘Mefisto’, nada menos que um Fausto à moda dele. Além de sermos da mesma geração outro dado nos une: Antonio Abujamra, aquele a quem frequentávamos como diretor, mestre, oráculo, e importante provocador.

O psicanalista e escritor Ricardo Goldenberg me sugeriu o livro “Extinção” de Thomas Bernhard, para montagem e mergulhou na aventura como dramaturgista. Nela se uniu Lua Santosouza, também psicanalista – nunca acho que essa área é demais, para nós, de teatro, que nos debatemos tanto com limites, desejos, papéis, máscaras, personas, confrontações, estéticas, embates sociais, etc.

Chamei J.C.Serroni um cenógrafo diretor de arte e extremo conhecedor de teatro e suas carpintarias e da imagética. Eu havia ficado impressionada quando da montagem dos textos de Dario Fo, ‘Um orgasmo adulto escapa do zoológio’ em 1983, com Antonio Abujamra, ele não acrescentou um cenário, mas praticamente ‘retirou cenário’ optando por apenas um fundo infinito branco que valorizava minha gestualização e a deixava como o ponto fundamental da encenação. Qualquer outro entendimento teria dado um rumo completamente diferente à peça que foi muito bem recebida por público nacional, sul americano, europeu e norte americano, em uma carreira de 7 anos, em 3 idiomas.

Aline Santini, iluminadora, já havia sido um encontro extremamente produtivo em minhas duas últimas peças: ‘Carta ao Pai’ e ‘Vendo Gritos e Palavras’. Ela é uma iluminadora que tem projeto de luz individual, que se debruça nos trabalhos inteiramente, investiga, propõe, escuta.

O Sesc com Danilo Santos de Miranda sempre pessoalmente envolvido tornando possível a evolução da nossa sociedade. Este espetáculo estreia no 27ª Festival de Curitiba nos dias 05 e 06 de abril de 2018.

O trabalho desta peça carrega o desejo de encenar uma posição política nos ecos de Karl Valentin, Brecht, neste momento específico de nosso país onde a lucidez provocada por Bernhard demonstra que sem extinção não se atinge uma nova etapa civilizatória que nos redima da mediocridade existencial, política, emocional atualmente instalada.

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Extinção
Com Denise Stoklos
Teatro Anchieta – Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245 – Consolação, São Paulo)
Duração 75 minutos
13/04 até 20/05
Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 18h
$40 ($12 – credencial plena)
Classificação 16 anos

 

ROUPA SUJA

Com atividades para o público amante da literatura, o Sesc Consolação traz para os meses de março e abril o espetáculo Roupa Suja, da Cia as de fora e a oficina Soltando a Língua, com um ponto em comum: o escritor Marcelino Freire.

Baseado em quatro contos do escritor, Roupa Suja tem dramaturgia de Cesar Ferrário e direção de João Júnior, com temporada de 12 de março a 17 de abril, às 20h, às segundas e terças-feiras, no Espaço Beta.

Os contos escolhidos para a encenação são: Modelo de VidaRoupa SujaVestido Longo e Lavagem a Seco,todos que retratam um Brasil que busca migrar em sua condição de vida e tem na roupa um signo de status e mobilidade social, revelando camadas socioeconômicas, culturais e históricas da relação entre classes.

Roupa Suja é uma teia de narrativas que lança olhos sobre os desejos de vida de personagens que vivem numa linha tênue de desejo e disputa de classes. Personagens marginais buscando ascender socialmente através de um olhar crítico, sensível e bem humorado sobre o país a partir de uma camada da população dita subalterna.  É dessa gente que trata a obra de Marcelino Freire. A peça costura narrativas de vida que vão se entrelaçando a partir de fatos e desejos num jogo temporal com a memória dos personagens numa fricção constante entre narrativo e dramático. Dentro do contexto dramático se sujam as roupas. E a roupa aqui é um emblema social”, diz o diretor João Júnior.

A peça também é resultado do trabalho de pesquisa de três anos da companhia, sobre a transposição de obras literárias para os palcos do teatro.

…Muitas de minhas narrativas foram adaptadas para o teatro. E a minha felicidade é grande quando isto acontece. Celebro, com entusiasmo, essa união entre literatura e teatro. Eis agora, por exemplo, a peça Roupa Suja, reunindo contos meus, assim, que tentam passar a limpo a nossa sociedade. Escancarar, direta e secamente, as sujidades que aí estão. Haja trabalho esse nosso. De lavar, lavar, lavar. Até sobrar o que interessa. A verdade que a arte busca. E que a água, essa fonte de criação, nos revela…” declara  Marcelino.

Além de teatro a programação literária se estende com a oficina Soltando a Língua, realizada por Freire, a partir de 14 de março, quartas e quintas, às 19h.

A ideia é trazer através de exercícios, troca e experiências de cada um, dicas de como “desbloquear” e “enxugar” um texto, concisão, criação de um personagem e organização de um livro. Além de valorizar o repertório e vocabulário, seja em qual gênero literário for.

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Roupa Suja
Com Ana Carolina Marinho, Anna Zêpa, Juão Nin, Rodrigo Sanches e Tatiana Caltabiano
Sesc Consolação – Espaço Beta, (R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo)
12/03 até 17/04
Segunda e Terça – 20h
$20 ($6 -credencial plena)
Classificação 16 anos
 
Oficina – Soltando a Língua, na Sala Alfa. Com Marcelino Freire. A partir de 16 anos. Ingressos de R$30 a R$9. Dias de 14/3 a 29/3, quartas e quintas, das 19h às 21h30.
* As inscrições devem ser feitas na Central de Atendimento do Sesc Consolação. Vaga limitadas!

LIVING THEATRE, presente!

A partir do dia 31 de outubro, o Sesc Consolação recebe a exposição “LIVING THEATRE, presente!”, que revisita através de fotos, filmes, cartazes, desenhos, depoimentos e textos momentos da trajetória septuagenária de um dos maiores grupos do teatro experimental, num espaço expositivo e cênico aberto à convivência e à criação. A exposição abriga e ativa as bases e as decorrências das encenações e ações diretas sobre a realidade do grupo americano e oferece ao público, ao longo dos seus três meses de duração, atividades formativas e artísticas, entre leituras, encontros, oficinas e apresentações, com os atores remanescentes do grupo e com artistas visuais, músicos e coletivos teatrais de São Paulo.

Com curadoria de Andrea Caruso Saturnino, Ines Cardoso e Ricardo Muniz Fernandes, a exposição LIVING THEATRE, presente! exerce um importante papel formativo ao trazer ao público da cidade a oportunidade de conhecer em profundidade a proposta estética de uma das maiores referências da vanguarda teatral mundial, que, ao longo de sete décadas, conta mais de cem peças, representadas em oito línguas, em 28 países, e segue inspirando novas gerações teatrais.

Fundado em 1947, em Nova Iorque, por Judith Malina e Julian Beck, o Living Theatre já estava, em seu nascimento, diretamente ligado a uma importante renovação no território teatral da segunda metade do século XX. Junto a outros pequenos grupos experimentais nova-iorquinos, deu origem ao movimento off-Broadway, ocupando pequenos teatros ou adaptando armazéns desativados e visando a discutir em cena temas da atualidade e a própria natureza do fazer teatral, numa estrutura frontalmente contrária às produções voltadas para o sucesso de bilheteria e o entretenimento fácil.

Bastante influenciado inicialmente pela tradição do teatro político do alemão Erwin Piscator – de quem Judith Malina foi aluna e por meio do qual tomou contato com o teatro épico de Bertold Brecht – o Living Theatre associou às teorias do teatro engajado de visão marxista outras referências poéticas, filosóficas e teatrais, direcionando-as para uma obra e uma postura política voltadas à revolução não-violenta e ao anarquismo. Absorvendo e antecipando características, percepções e comportamentos típicos da revolução cultural ocorrida após a Segunda Guerra Mundial, o grupo veio a se tornar conhecido como o teatro da contracultura, engajando-se em manifestações teatrais de rua e realizando na cena uma inesperada combinação da racionalidade do teatro dialético com o teatro da crueldade de Antonin Artaud.

Tendo o ativismo político e o entrelaçamento entre arte e vida como suas grandes marcas, o Living Theatre manteve constante em suas criações a colaboração com ativistas, em torno de diversas lutas e numa relação direta com as questões mais urgentes da realidade. Enfrentando, por vezes, as dificuldades práticas da manutenção de uma proposta estética contestatória – a complexa equação entre a necessidade de financiamento das produções e o desejo de não cobrar ingressos, por exemplo, além das constantes mudanças de endereço motivadas frequentemente por problemas com o Estado – o grupo obteve seu primeiro grande sucesso comThe Connection, de 1959, cujo hiper-realismo no retrato de um grupo de usuários de heroína gerou um misto de surpresa e encanto no público e, a partir da qual, os atores passaram deliberadamente a representar a si mesmos.

Desde então, a companhia passou a excursionar pela Europa e a ser aclamada nos mais importantes festivais como o Festival das Nações, de Paris, em 1961, e o Festival de Avignon, em 1968. Ao mesmo tempo, a radicalidade de suas criações não deixou de gerar controvérsias e extremas reações repressivas, como foi o caso de sua expulsão de Avignon pelas autoridades locais com sua peça Paradise Now! Em 1971, quando o grupo preparava um trabalho paralelo para o Festival de Inverno de Ouro Preto, em Minas Gerais, teve sua prisão decretada pelo DOPS, o que repercutiu internacionalmente e mobilizou ações de protesto na Europa e EUA, levando-os a serem expulsos do Brasil por decreto presidencial – Judith só viria a ter sua entrada no país liberada em 1990, por meio da revogação do decreto de 1971 pelo então presidente Fernando Collor; Julian Beck falecera em 1985. Nas décadas seguintes, o Living Theatre continuaria sua atuação alternando-se entre longos períodos de residência na Europa – passando pela Bienal de Veneza em 1975 –, excursões pelo interior dos Estados Unidos e o estabelecimento de sedes com maior ou menor longevidade em Nova Iorque. Mesmo com a morte de Judith Malina, em 2015, o grupo continua ativo, a seu pedido, operando coletivamente com a orientação de várias gerações de membros da companhia.

O “presente!” do título da exposição, emprestado do vocabulário dos protestos populares, nos remete também tanto à radicalidade da presença do ator que o grupo operou em suas criações quanto à presença de um pensamento estético e político, que atravessa gerações. Ao colocarem a arte como ação política contra a opressão e por questões básicas como o fim a fome, das guerras, do abuso sexual, sugerindo, em cena, um modo de agir comunitariamente, buscando meios de atuar com o povo e contribuir para a criação de um mundo mais humano, justo e inclusivo, os atores do Living extravasam o próprio teatro para além do palco e da sala de espetáculos.

Olhar para a atualidade desta prática artística é o grande objetivo desta exposição. Impossível seria fazer um tributo ao Living Theatre. Necessário é fazer dele uma âncora e estabelecer com suas ideias e ações um efetivo diálogo, que se inspire pela íntima conexão entre sua criação e seu engajamento político –  a heterogeneidade de um grupo contra uma vontade e poder de homogeneização. LIVING THEATRE, presente! traça um mapa sobre o Living tomando-o como referência e estímulo para a possibilidade de se pensar um espaço/tempo liberto das instituições, das certezas, da arbitrariedade, do preconceito, das cátedras. Tendo em vista o contexto da arte no país de hoje, tomado de assalto pelo levante conservador que o atravessa, isto torna-se tarefa das mais prementes.

No espaço expositivo, criado por Simone Mina, optou-se por não enquadrar o Living numa caixa preta, mas abri-lo para a área de convivência do próprio Sesc e para as ruas, ampliando o trânsito entre o dentro e o fora e quebrando a separação entre o público e o privado. Aqui, o ator Sérgio Mamberti, que acompanhou o Living no Brasil nos anos 70, vem à memória quando conta que, em Ouro Preto, uma das acusações imputadas contra eles seria deixar sempre porta de casa aberta. Se verdade ou mentira, fato ou lenda, não importa, abrimos e mantemos aberta esta outra porta, mutável como a memória.

À trajetória retratada, somam-se artistas que irão adentrar e dialogar com seus conteúdos numa programação especialmente criada para a exposição. Na semana que antecede sua abertura, os atores do Living Theatre conduzem um workshop com participantes locais, que resultará numa performance a ser apresentada no espaço expositivo. O Coletivo Bijari visita o Living Theatre com uma oficina de lambe-lambe e compartilha seus resultados no Ato Público com Living Theatre, que também será criado por Ilion Troya com artistas locais e apresentado na Praça Roosevelt. Troya, que passou a integrar o grupo quando de sua passagem pelo Brasil nos anos 1970, se encontra num bate-papo com Sergio Mamberti – ator que também acompanhou o grupo naquele período, e Zé Celso, diretor do Teatro Oficina e responsável pelo convite que os trouxe ao país. Maria Thais dirige a leitura encenada Living Theatre no Brasil: a febre dos sonhos, a partir de reunião de escritos do casal Beck-Malina, concebida por Ilion Troya. A Companhia do Latão e o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos ocupam o espaço cênico-expositivo com as apresentações de Os que ficam e Vozes Insurgentes, respectivamente – a primeira, uma adaptação da peça original para o espaço expositivo, acrescida de comentários teóricos e a última, criada especialmente para o contexto da exposição. A construção de imagens é novamente abordada em outros dois workshops: com Luba Lukova, artista gráfica baseada em Nova Iorque responsável por inúmeros cartazes do Living Theatre, e com Guilherme Kramer, artista paulistano que tem o nomadismo como fio condutor de sua prática artística.  A criação musical também será tematizada, na oficina de criação sonora para teatro de rua conduzida por Lívio Tragtenberg. Finalmente, este extenso ciclo de atividades se encerra em janeiro, com o lançamento do livro O Caderno de Piscator, de Judith Malina, com tradução para o português de Ilion Troya.

 

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LIVING THEATRE, presente!
Exposição, Workshop, Cinema,
Sesc Consolação
31/10 até 27/01/18
Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta – 11h às 21h30, Sábado – 10h às 19h30
Entrada Gratuita
 
Programação completa em www.sescsp.org.br/consolacao

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Bia Lessa propõe a um só tempo uma peça de teatro e uma instalação em sua adaptação do livro Grande Sertão: Veredas – matriz do moderno romance brasileiro e obra-prima de João Guimarães Rosa. A peça traz para o palco a saga do jagunço Riobaldo que atravessa o sertão para combater seu maior inimigo, Hermógenes, fazer o pacto com o diabo e viver seu amor por Diadorim.

A proposta cenográfica é constituída pela instalação de uma grande estrutura tubular na área de convivência da unidade, definindo a um só tempo um espaço cênico e expositivo. No entorno dessa estrutura, uma espécie de claustro cravado no espaço, será a circulação dos frequentadores do espaço e da plateia, numa criação que propõe a atmosfera do Grande Sertão: Veredas. Permanentemente propõe-se a falta de distinção entre início e fim do espetáculo; entre teatro e artes plásticas; entre espaço expositivo, espaço cênico e espaço público; entre espectador e ator, sendo fiel a Guimarães Rosa, inventor de uma nova categoria literária com esse romance, denominada de transregionalismo ou surregionalismo, pelo sociólogo e crítico literário Antonio Cândido.

Grande Sertão: Veredas é um livro de João Guimarães Rosa escrito em 1956 que se tornou uma das mais importantes obras da literatura brasileira e lusófona. Em 2006, o Museu da Língua Portuguesa realizou uma exposição sobre a obra no Salão de Exposições Temporárias com concepção geral e direção de Bia Lessa. Em maio de 2002, o Clube do Livro da Noruega, entidade que congrega editores noruegueses, incluiu Grande Sertão: Veredas em sua lista dos cem melhores livros de todos os tempos – único brasileiro entre 100 escritores de 54 países.

A diretora Bia Lessa é uma artista multifacetada, cineasta, diretora de teatro e ópera, exposições e ganhadora de vários prêmios. Suas obras são exibidas em vários países, como Alemanha, França e EUA. Responsável pelo projeto do Pavilhão Brasileiro na Expo 2000 em Hannover, Mostra Redescobrimento na Bienal SP, Reabertura do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com a ópera Il Trovattore, Pavilhão Humanidades 2012 (Rio + 20) e reinauguração dos painéis Guerra e Paz de Candido Portinari na ONU, em Nova Iorque.

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Grande Sertão: Veredas
Com Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, Leon Góes, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa.
SESC Consolação – Área de Convivência (Rua Doutor Vila Nova, 245 – Consolação, São Paulo)
Duração 160 minutos
09/09 até 22/10
Quinta, Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 18h30
$40
Classificação 18 anos

HISTÓRIAS DE ALEXANDRE

Grupo 59 de Teatro apresenta, em setembro, o espetáculo infanto-juvenil Histórias de Alexandre, a partir da obra de Graciliano Ramos, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. Com direção de Cristiane Paoli Quito, a temporada vai de 2 a 30 de setembro, aos sábados e feriado, às 11 horas.

A peça reúne histórias e fanfarronices de um típico mentiroso do sertão, numa encenação recheada por canções inéditas. Publicado em 1944 por Graciliano, o livro, homônimo traz contos coletados na memória oral do folclore nordestino, resgatando crenças, costumes e mitos da região. Na transposição para o palco, foram selecionadas algumas histórias, respeitando e mantendo na íntegra as palavras do autor.

Alexandre é um homem já velho; tem um olho torto e fala bonito: um típico contador de histórias. Está sempre acompanhado pelos moradores das redondezas e até por pessoas de consideração, que vem à sua modesta casa para ouvir as narrativas “fanhosas” que conta: Seu Libório, cantador de emboladas; o cego preto Firmino; mestre Gaudêncio Curandeiro, que reza contra mordedura de cobras; e Das Dores, benzedeira de quebranto. Cesária, mulher de Alexandre, está sempre por perto, e pronta para socorrer o marido quando ele se “engancha” ou é questionado em suas narrativas.

Apropriando-se do universo linguístico e das imagens sugeridas por Graciliano Ramos, Histórias de Alexandre dá corpo e voz à palavra escrita, tecendo uma “colcha de retalhos” onde os atos de contar, cantar e dramatizar se entrecruzam e criam uma poética propícia à invocação da memória afetiva.

A diretora fala da importância que teve a apropriação das palavras pelos atores no processo criativo, já que o texto foi escrito há mais de 70 anos, com um vocabulário distinto do atual: “é fundamental que as histórias sejam compreendidas por todas as crianças, tanto as menores quanto os adolescentes, por isso as experimentações que fizemos com a presença do público foram tão importantes para encontramos o caminho da encenação”, explica Cristiane Paoli Quito.

A montagem reflete a atmosfera da obra literária para receber os ouvintes das histórias de Alexandre e promove uma experiência de troca onde a simplicidade e o despojamento do ato cênico, em tom de conversa, convocam a participação e imaginação de todos.

A musicalidade, característica dos trabalhos do Grupo 59 de Teatro, tem lugar de destaque no espetáculo. Todas as canções foram criadas coletivamente a partir de passagens do livro, inclusive com algumas citações ao cancioneiro popular brasileiro. O repertório inclui embolada, repente, reza, canções populares e modas de viola que são interpretadas pelo coro de atores, acompanhados por instrumentos acústicos (violão, viola, acordeom, flautas, pífaro, berimbau e percussão) executados ao vivo. A palavra cantada não só dá suporte, como também exerce função narrativa nas formas épica, lírica e dramática.

Com a encenação de Histórias de Alexandre o grupo dá continuidade à investigação iniciada, em 2009, com O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (espetáculo também dirigido por Cristiane Paoli Quito), na qual busca uma forma de se comunicar com a criança por meio de um jogo-brincadeira de contação de história, apoiado fundamentalmente na palavra e no trabalho corporal dos atores. A arte do grupo busca estimular nos pequenos espectadores a criatividade, a imaginação e a inventividade, características típicas das tradicionais brincadeiras de rua e de quintais.

Sinopse

Na pequena sala de Alexandre os amigos se reúnem para ouvir suas aventuras e façanhas, sempre narradas com exagero e entusiasmo. Sua mulher, Cesária, acompanha tudo de perto e nunca deixa o marido perder o fio da meada. São essas histórias de Alexandre que o Grupo 59 de Teatro “conta cantando” e “canta contando”: um convite a todas as idades para a aventura de imaginar o possível e o impossível, pelas palavras de Graciliano Ramos.

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Histórias de Alexandre
Com Grupo 59 de Teatro – Carol Faria, Felipe Alves, Felipe Gomes Moreira, Fernando Oliveira, Gabriel Bodstein, Gabriela Cerqueira, Jane Fernandes, Nathália Ernesto, Nilcéia Vicente, Ricardo Fialho e Thomas Huszar. 
Teatro Anchieta – SESC Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo)
Duração 60 minutos
02 a 30/09
Sábado e Feriado – 11h
$17 ($5 – credencial plena do SESC). Grátis para crianças até 12 anos
Classificação 6 anos