PORTAR(IA) SILÊNCIO

A experiência de nove porteiros do Nordeste que migraram para São Paulo somada à sua própria vinda à cidade mais populosa do Brasil tornaram-se metáfora sobre processos migratórios pelas mãos do artista potiguar João Batista Júnior. O monólogo Portar(ia) Silêncio, que une teatro documental e linguagem cinematográfica, estreia dia 11 de janeiro, sexta-feira, 20h30, no auditório do Sesc Vila Mariana. João Júnior, idealizador da peça, também é diretor e fundador do Coletivo Estopô Balaio, grupo de artes integradas composto majoritariamente por artistas migrantes.

O processo de criação do espetáculo partiu de uma pesquisa de João sobre a memória nordestina na cidade de São Paulo. Após entrar em contato com o porteiro do prédio em que vive, o artista descobriu que nessa classe de trabalhadores há inúmeros casos semelhantes de migração, o que condensa outros aspectos do tema, como o olhar colonialista e aristocrático sobre o Nordeste do país, os preconceitos linguísticos e a falta de reconhecimento identitário de sua cultura local nas dinâmicas impostas pela cidade. O recorte da capital paulista a partir do olhar dos porteiros migrantes é um símbolo de como a dinâmica urbana contrapõe hábitos e vivências dessas pessoas, grande parte delas vinda de zonas rurais do Nordeste.

A portaria virou metáfora para implicações existenciais. O porteiro é um trabalhador do silêncio e ocupa um lugar parecido com o da própria história da migração, que é não estar dentro nem fora, não estar num espaço público nem privado, além de receber com frequência um olhar e um tratamento estereotipado sobre seu local de origem”, explica João, que vive há dez anos em São Paulo.

Na peça, uma ficção documental, João entrelaça depoimentos dos porteiros gravados em vídeo e projetados na parede do auditório com sua interpretação. “Ocupo um lugar de ator, mas não de personagem. Transito entre esses homens numa espécie de presentificação das suas histórias. Há um trabalho forte com a palavra, a prosódia, o sotaque e os locais de onde vem cada uma dessas pessoas”, destaca. Os nove porteiros que se dispuseram a gravar os depoimentos para João são dos estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Sergipe e Piauí.

Entre as referências que apoiaram a criação de Portar(ia) Silêncio, João destaca o livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, bem como sua adaptação cinematográfica de 1977 assinada por Zelito Viana; o filme O Homem que Virou Suco, de João Batista de Andrade, sobre um poeta paraibano recém-chegado na cidade de São Paulo que lida com o choque identitário vivido na metrópole, e o documentário Santiago, de João Moreira Salles.

Na área da sociologia, João teve suporte dos livros Não Lugares, do etnólogo e antropólogo francês Marc Augé e Um Nordeste em São Paulo: Trabalhadores Migrantes em São Miguel Paulista (1945 – 1966), estudo do sociólogo Paulo Fontes cujo bairro escolhido para observar o fluxo de migração nordestina era o mesmo que João prestava serviços como professor no período em que entrou em contato com a obra.

Em cena há uma mesa com um rádio de pilha, uma câmera de segurança e pedestais acoplados a focos de luz espalhados pelo palco. Os pedestais fazem as vezes de microfones, justificados por uma espécie de jogo dramatúrgico criado por João: “Faço perguntas que são respondidas pelos porteiros projetados na parede”, explica. Em outros momentos, o ator interpreta textos que se revelam respostas a questões levantadas pelos porteiros, criando uma espécie de entrevista as avessas, onde se alternam os lugares das perguntas e das respostas.

A relação com o cinema é preponderante na peça. O tempo todo há uma fricção da linguagem fílmica com o teatro”, ressalta o artista. Durante a encenação, João também dança e cria com o movimento uma nova camada que traz questões inconscientes da rotina de migrantes, como os deslocamentos, a percepção física, a sensação de despertencimento e o cansaço.

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Portar(ia) Silêncio

Com João Batista Júnior

Sesc Vila Mariana – Auditório (R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo)

Duração 60 minutos

11/01 até 16/02

Sexta – 20h30, Sábado – 18h

(Haverá sessão extra no dia 5 de fevereiro, terça-feira, 20h30.)

$20 ($6 – credencial plena)

Classificação 14 anos

FESTIVAL YESU LUSO 2018

Com a missão de aproximar os falantes da língua portuguesa, o Festival Yesu Luso chega à terceira edição entre 8 e 18 de novembro, com espetáculos encenados nas unidades do Sesc Vila Mariana, Santo Amaro e Campo Limpo. A programação, com curadoria da atriz Arieta Corrêa e do produtor Pedro Santos, reúne seis peças de Angola, Brasil, Cabo Verde, Macau, Moçambique e Portugal, sendo duas delas inéditas e montadas especialmente para a mostra.

O nome do evento é derivado de um dialeto moçambicano, no qual o termo “yesu” significa “nosso”; já palavra “luso” é usada em referência ao próprio idioma. A mostra surgiu a partir de um bem-sucedido projeto-piloto chamado Festival de Teatro Lusófono, organizado por Arieta e Pedro no Sesc Bom Retiro, em 2015.

O teatro é ancestral, é aqui e agora, vida e morte – ele é tudo o que somos. E nosso maior desejo é que estes espetáculos sejam capazes de fazer o público se identificar com esses países irmãos, que falam a mesma língua. Gostaríamos que as pessoas sejam transformadas, tocadas por um incômodo, um pensamento ou um questionamento”, conta Arieta Corrêa.

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ESPETÁCULOS

A curadoria dos espetáculos é sempre muito minuciosa, porque fazemos essa escolha ao longo de um ano. Desta vez, o critério foi dramaturgia em português”, comenta Pedro Santos.  Um dos destaques da terceira edição é o inédito “A Linha”, de Macau, inspirado livremente em uma obra do escritor lusitano José Saramago (1922-2010). Com falas em português e mandarim, a encenação é resultado de uma parceria entre a prestigiada Associação de Representação Teatral Hiu Kok e a Macao Artfusion. A trama trata da amizade entre os pastores Hon e Maria, que entram em conflito por causa da cegueira gerada pelo sentimento de posse sobre um território.

O outro espetáculo criado para a mostra é “A Última Viagem do Príncipe Perfeito”, do Grupo angolano Elinga Teatro, com direção de José Mena Abrantes. A trama narra histórias de pessoas que viajam entre Lisboa e Luanda em 1975, a bordo do navio Príncipe Perfeito (apelido do rei D. João II de Portugal). Algumas dessas figuras são um estudante que decide regressar convencido de que terá papel decisivo na revolução em curso em seu pais, uma mulher que perde todas as ilusões e luta para reencontrar um lar, um clandestino de todas as viagens que fez na vida e um casal que descobre que os sentimentos nunca morrem.

O representante brasileiro no festival é “Os Cadernos de Kindzu”, do Amok Teatro, inspirado no livro “Terra Sonâmbula”, do escritor moçambicano Mia Couto. A montagem narra a trajetória do jovem Kindzu, que deixa sua vila para fugir das atrocidades de uma guerra devastadora. Durante a jornada, ele encontra outros fugitivos, refugiados e personagens cheios de humanidade.

Encenada apenas três vezes antes de chegar ao Brasil, a versão do português João Garcia Miguel para “A Casa de Bernarda Alba”, do espanhol Federico García Lorca (1898-1936), cria uma reflexão sobre o aumento do isolamento criado pelas instituições no mundo contemporâneo. A obra, que se passa em uma vila na Espanha, fala sobre a vigilância absoluta que a matriarca Bernarda Alba mantém sob suas cinco filhas, Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela, que vivem trancafiadas em casa.

A moçambicana “Nos tempos de Gungunhana”, com direção de Klemente Tsamba, narra a saga de um guerreiro chamado Umbangananamani, da tribo tsonga, que fora casado com uma linda mulher chamada Malice, da tribo Macua. Embora tenham tentado muito ter filhos, não conseguiram realizar esse sonho. Essa história da tradição oral africana é contada junto com aspectos curiosos sobre a vida na corte do rei Gungunhana.

Já o cabo-verdiano Grupo Craq’ Otchod apresenta o monólogo “Esquizofrenia”, com direção de Edilson Fortes (Di) e atuação de Renato Lopes. A peça cria uma reflexão sobre os estigmas provocados por esse transtorno mental e a necessidade de inclusão social das pessoas com essa doença.

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FORMAÇÃO

Como o tema da terceira edição do festival é “Dramaturgia em Português”, além das peças, a programação conta com uma mesa de dramaturgia e um ciclo de leituras de textos teatrais lusófonos, encenados pelo Coletivo de Heterônimos. Outra atração é a oficina “Processo Pedagógico de Criação, com João Garcia Miguel (Portugal).

Um dos destaques do ciclo de leituras dramáticas é o texto inédito de Silvia Gomez (Brasil), “Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante”, que fala sobre uma garota que delira abandonada em uma rodovia após ser violentada em uma noite estrelada. Há também obras de Elmano Sancho (Portugal), Valódia Monteiro (Cabo Verde) e Venâncio Calisto (Moçambique).

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Confira abaixo a programação completa do Festival Yesu Luso 2018:

ESPETÁCULOS

“OS CADERNOS DE KINDZU”, DE AMOK TEATRO (BRASIL)

Quando: 8 e 9/11, na quinta e na sexta-feira, às 20h

Onde: Sesc Campo Limpo

Duração: 130 minutos. Classificação: 14 anos

Sinopse: Inspirado no livro “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto, o espetáculo conta a trajetória do jovem Kindzu, que, para fugir das atrocidades de uma devastadora guerra civil, deixa sua vila e parte para uma viagem iniciática. Nela encontra outros fugitivos, refugiados e personagens repletos de humanidade que lhe farão viver experiências, ancoradas tanto na cultura tradicional do sudeste da África, quanto na vivência de um conflito devastador.

FICHA TÉCNICA

Direção, cenário e figurino: Ana Teixeira e Stéphane Brodt | Assistente de direção: Sandra Alencar | Elenco e música (criação e interpretação):Graciana Valladares, Gustavo Damasceno, Luciana Lopes, Sergio Loureiro, Thiago Catarino, Vanessa Dias e Stephane Brodt | Luz: Renato Machado | Direção musical: Stéphane Brodt | Operação de Luz: Maurício Fuziyama | Coordenação administrativa: Eureka Ideias/Sonia Dantas

Vídeo: https://vimeo.com/191788891

“A CASA DE BERNARDA ALBA”, COM CIA. JOÃO GARCIA MIGUEL (PORTUGAL)

Quando: De 8 a 11/11, de quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 18h

Onde: Sesc Santo Amaro – Teatro

Duração: 60 minutos. Classificação: 16 anos

Sinopse: Regressam as “Bernardas Albas” crescendo à luz cruel dos nossos dias, como monstros que despedaçam vidas. Elas fecham as casas, que representam nossas instituições, e são a cada dia mais coercivas. As oportunidades não são iguais para todos. Propagam discursos nos quais subentendem mecanismos de repressão e censura como se defendessem liberdades. A peça é inspirada na obra homônima do escritor espanhol Federico García Lorca.

FICHA TÉCNICA

Texto original: Federico García Lorca | Direção e espaço cénico: João Garcia Miguel | Elenco: Sean O’Callaghan, Annette Naiman, Paula Liberati e Duarte Melo | Figurinos: Rute Osório de Castro | Assistência de direção: Rita Costa e Eurico D’Orca | Direção de produção em Portugal: Georgina Pires | Imagens Ensaios e Promoção: Mário Rainha | Direção Técnica; Roger Madureira | Consultoria de imagem e comunicação em Portugal: Alcina Monteiro | Apoio técnico: AUDEX  | Coprodução: Companhia João Garcia Miguel – Teatro Ibérico, República Portuguesa-Cultura/Direção-Geral das Artes – Teatro-Cine de Torres Vedras – Junta de Freguesia do Beato – IEFP

ESQUIZOFRENIA, COM GRUPO CRAQ’ OTCHOD (CABO VERDE)

Quando: 10 e 11/11, no sábado, às 19h; e no domingo, às 18h

Onde: Sesc Campo Limpo – Espaço Contêiner Vermelho

Duração: 50 minutos.  Classificação: 16 anos

Sinopse: O espetáculo “Esquizofrenia”, contribui para a minimização dos estigmas sociais que existem a volta deste transtorno.  Há muito que os paradigmas da saúde mental modificaram o seu lema de “isolar” para “conhecer e tratar”. Pois o confinamento, o abandono, o descaso social e até familiar, intensificam o transtorno e diminuem as chances de melhora. Esquizofrenia nos faz pensar e perceber que o que sempre faltou foi humanidade e abraçar e olhar para esse problema é o que verdadeiramente ajuda.

FICHA TÉCNICA

Encenação: Edilson Fortes (Di) | Interpretação: Renato Lopes | Músicas ao vivo: Edilson Fortes | Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=dagDzBLdToc

 “A ÚLTIMA VIAGEM DO PRÍNCIPE PERFEITO”, COM GRUPO ELINGA TEATRO (ANGOLA)

Quando: 15 e 16/11, na quinta-feira, às 18h, e na sexta-feira, às 20h30

Onde: Sesc Vila Mariana – Auditório

Duração: 120 minutos. Classificação: 14 anos

Sinopse: Em 1975, o navio ‘Príncipe Perfeito’ realizou a sua última viagem de passageiros de Lisboa para Luanda. Na intimidade de cada um começava a esboçar-se o fim agônico do império que o rei D João II de Portugal, cognominado o ‘Príncipe Perfeito’, tão decisivamente ajudara a construir. As situações a que aludem os seguintes momentos dramáticos poderiam ter ocorrido nessa época: o caso do estudante que decide regressar convencido de que vai ter um papel na revolução em curso no seu país (A vigia); a mulher que perdeu todas as ilusões e a que luta por reencontrar um lar (Oh, mar); o clandestino de todas as viagens que fez na vida (O clandestino) e o casal que descobre que os sentimentos nunca morrem e se renovam como as ondas do mar (Do outro lado do mar). “Todos os impérios são ilusórios e devem morrer para que a Liberdade possa renascer”.

FICHA TÉCNICA

Texto, cenografia e direção: José Mena Abrantes | Elenco: Claudia Pucuta e Raul Rosario (do grupo Elinga) e Ana Clara Hibner (atriz convidada) |Desenho de luz: Rui Vidal | Figurinos: Anacleta Pereira | Coreografia: Ngau Afonsina Domingas | Música:  Raul Rosário (marimba) e Ana Clara Hibner e Claudia Pucuta (chocalhos e dança) | Produção: Elinga Teatro (52 produção) | Cartaz: Tiago Zaal com base em um detalhe do quadro de David Wojnarowicz

 “NOS TEMPOS DE GUNGUNHANA”, COM DIREÇÃO DE KLEMENTE TSAMBA (MOÇAMBIQUE)

Quando: 17 e 18/11, no sábado, às 19h; e no domingo, às 18h

Onde: Sesc Campo Limpo  Espaço Contêiner Vermelho

Duração: 60 minutos. Classificação: 16 anos

Sinopse: Era uma vez um guerreiro da tribo tsonga chamado Umbangananamani, que fora casado com uma linda mulher da tribo Macua, de nome Malice. Eles não tiveram filhos, embora tenham tentado muito. Este é o mote que dá início ao grande “karingana”, ou conto tradicional sobre a vida de um simples guerreiro, que muito rapidamente se vai transformar em uma sequência de outros pequenos karinganas, que relatam aspectos curiosos ligados à vida na corte do rei Gungunhana, onde a crueldade e as mortes por vezes se misturam com o humor. Cada karingana é contado e cantado com a graça dos ritmos tradicionais africanos.

FICHA TÉCNICA

Criação/Interpretação: Klemente Tsamba  | Textos originais: Ungulani Ba Ka Khosa | Apoio/Assistência criativa: Filipa Figueiredo; Paulo Cintrão e Ricardo Karitsis | Adereços e figurinos: Klemente Tsamba | Fotografia: Margareth Leite | Vídeo do espetáculo: https://www.youtube.com/watch?v=6iSIv7KVBo4

A LINHA, COM TEATRO HIU KOK (MACAU)

Quando: 17 e 18/11, no sábado, às 20h; e no domingo, às 18h

Onde: Sesc Santo Amaro – Teatro

Duração: 60 minutos. Classificação: 12 anos

Sinopse: Dois pastores, Hon e José, amigos de longa data, passam o tempo contando histórias ou observando a natureza, procurando, nos seus sinais e formas, algo com que se entreter, quebrando assim a monotonia em que se poderia tornar as suas vidas, ocupadas a levar os animais a pastar. Um dia, Hon propõe um novo jogo: uma corda deitada sobre o prado separaria as duas partes do campo, onde cada um deveria permanecer, assim como os seus animais. O que passasse para o outro lado perderia. Para sair vitorioso da disputa, um e outro depressa recorrem a ameaças, mentiras e outros estratagemas. A ideia e o sentimento da posse de um território transformam-se em uma cegueira que irá perturbar e questionar a harmonia do convívio, a calma dos dias, a própria duradoura amizade entre ambos. A peça tem excertos do livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, do escritor português José Saramago.

FICHA TÉCNICA

Teatro Hiu Kok – Macau | Diretor: Billy Hui e Gary NG | Autor original: Athnony Chan | Adaptação: Fernando Sales Lopes / Billy Hui | Elenco: Ian I Kong e Chin Hong Leong | Produção: Ben Ieong e Yin Hui Chen | Acessórios e figurino: Laura Nyogeri e Fernando Sales Lopes | Editor de vídeos:Ka Ch’io Cheong | Gerente de palco: Ben Ieong | Gerente Assistente de Palco: Ka Ch’io Cheong e Wilson Chan | Legendas: Ben Ieong | Excertos de José Saramago – Ensaio de cegueira | Música: Amélia Muge – Álbum: Todos os dias … – “O Pastorinho” | Vídeos:https://www.youtube.com/watch?v=tYyg_ErzXnM

CARMEN (1)

ATIVIDADES DE FORMAÇÃO

LEITURA DE TEXTOS DRAMATÚRGICOS, COM COLETIVO DE HETERÔNIMOS

Criado em 2015, o Coletivo de Heterônimos é uma reunião de artistas que possuem em comum a vontade de realizar espetáculos teatrais com dramaturgia própria inspirada na discussão sobre as gramáticas sociais que controlam o sujeito em sociedade. O Coletivo tem em seu núcleo principal os atores Bruno Ribeiro (NAC), Amanda Mantovani (CPT), o diretor e dramaturgo Alexandre França (Billie e Mínimo Contato), além da colaboração de artistas diversos.

8/11, às 18h

“A ÚLTIMA ESTAÇÃO”, DE ELMANO SANCHO (PORTUGAL)

Onde: Sesc Santo Amaro – Sala Multiuso

Sinopse: Na origem de “A última estação” encontra-se o assassino em série norte-americano Ted Bundy (1946-1989) – ou, mais exatamente, as semelhanças físicas entre este homem e Elmano Sancho. Da mesma forma que Bernard-Marie Koltès ficou obcecado pelo rosto de Roberto Succo, quando viu uma foto sua no metrô de Paris, também o ator e autor português se lançou a investigar a vida de Ted Bundy, que matou mais de 35 mulheres. Elmano Sancho guardou o retrato do assassino junto às suas próprias fotografias, até que um dia alguém confundiu o seu rosto com o do criminoso.

Foi esse o ponto de partida para uma reflexão sobre a violência e o desejo de transgressão na vida e na arte. A última estação interpela o conceito de dibukk, que na mitologia judaica representa o espírito ou o demónio que habita o corpo de cada um de nós, e apresenta à estrutura da Via Crúcis, as estações da Paixão de Cristo: a condenação à morte anunciada abre caminho a uma via dolorosa que culmina na inumação, mas que aspira à ressurreição, a XV e última estação.

16/11, às 18h

“SIM OU NÃO”, DE VALÓDIA MONTEIRO (CABO VERDE)

Onde: Sesc Santo Amaro – Sala Multiuso

Sinopse: Dois personagens – Antonius (ou António, tradicionalmente um dos mais vulgares nomes de Cabo Verde e Nemo (ninguém) – encontram-se desde sempre em um mesmo espaço, até que o primeiro, sufocado com o estado de coisas, decide sair e procurar outro espaço para viver. Convida o companheiro de sempre para essa jornada, mas este refuta o convite. Antonius não se dá por vencido e continua tentando convencer Nemo durante toda a peça.

14/11, às 18h

 “(DES)MASCARADO”, DE VENÂNCIO CALISTO (MOÇAMBIQUE)

Onde: Sesc Vila Mariana

Sinopse: O conflito de gênero é tão antigo quanto a própria humanidade. A relação entre o homem e a mulher sempre foi uma espécie de braço de ferro. Um jogo de poder. É por conta desta necessidade, que ambos sempre tiveram, de dominar a sociedade que se inventou o mito e, ou a tradição. O Mapiko é exemplo disso, uma tradição cheia de ritos, cor e magia inventada pelos homens macondes (povo do norte de Moçambique) como forma de amedrontar a mulher e reivindicar um espaço dentro daquela sociedade matrilinear.

13/11, às 18h

“NESTE MUNDO LOUCO, NESTA NOITE BRILHANTE”, DE SILVIA GOMEZ (BRASIL)

Onde: Sesc Vila Mariana

Sinopse: Neste mundo louco, nesta noite brilhante. Enquanto aviões decolam e aterrissam em várias partes do mundo, a rotina da Vigia do KM 23 daquela rodovia brasileira é alterada pela presença de uma garota que delira, largada no asfalto após ser violentada nesta noite cheia de estrelas.

PROCESSO PEDAGÓGICO DE CRIAÇÃO, COM JOÃO GARCIA MIGUEL (PORTUGAL)

Quando: de 9 a 14 de novembro, das 14h às 18h

Onde: Sesc Santo Amaro – Teatro/Sala Multiuso
Taxa de inscrição: R$30 (inteira), R$15 (meia-entrada) e R$9 (credencial plena)
Inscrições: devem ser feitas diretamente no Sesc Santo Amaro

Vagas: 30

Descrição: imersão para experimentações de uma criação artística a partir dos expedientes e pensamentos da Cia JGM de Portugal, com João Garcia Miguel e integrantes da companhia.

ENCONTRO SOBRE DRAMATURGIA EM LÍNGUA PORTUGUESA

Quando: 14/11, às 20h

Onde: Sesc Vila Mariana – Foyer
Ingressos: Grátis

Participantes: José Mena Abrantes (Portugal), Dione Carlos (Brasil) e João Garcia Miguel – Portugal

Dione Carlos: Cursou jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. Estudou atuação na escola de teatro Globe-SP. Atuou como atriz na Cia Teatro Promíscuo, de Renato Borghi e Élcio Nogueira. Formada em Dramaturgia pela SP Escola de Teatro, desenvolve parcerias com Cias de teatro. Estreou com a peça Sete, na Cia Club Noir, sob a direção de Juliana Galdino, em 2011. É autora de doze peças encenadas. É responsável pelo Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André. Em 2017 lançou seu primeiro livro: Dramaturgias do Front.

José Mena Abrantes: Nascido em 1945 em Malanje, na Angola, o jornalista, escritor, dramaturgo e diretor José Mena Abrantes é licenciado em filologia germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e membro da União dos Escritores Angolanos.  Ele começou sua carreira no teatro em 1967, no Grupo Cénico da Associação Académica da Faculdade de Direto de Lisboa, e, deste então, integrou e fundou várias companhias, como o angolano Grupo de Teatro da Faculdade de Medicina de Luanda, o alemão Faust e o espanhol La Busca. Fundou o Grupo Elinga Teatro em 1988. Como jornalista, Abrantes foi diretor-geral da Agência Angola Press, chefe do setor de Informação e Divulgação da Cinemateca Nacional, assessor de imprensa da presidência da república de Angola, secretário de Estado para os assuntos de comunicação institucional e imprensa do presidente. Atualmente, foi nomeado consultor do presidente da república angolana.

João Garcia Miguel: Nascido em 1961 em Lisboa, em Portugal, o diretor e dramaturgo João Garcia Miguel tem suas práticas artísticas pautadas pelo experimentalismo performativo e a preocupação com o papel do artista enquanto investigador e interventor social. Ele ministra aulas em universidades em Portugal e no exterior, escreve obras performativas e ensaios sobre o ato criativo e o corpo.  Fundou os grupos Canibalismo Cósmico, Galeria Zé dos Bois e OLHO – Grupo de Teatro. Em 2003, inaugura a Cia. JGM e abre em Lisboa o Espaço do Urso e dos Anjos, dedicado à formação e divulgação das artes performativas.

SERVIÇO

YESU LUSO 2018 – DRAMATURGIA EM PORTUGUÊS

De 8 a 18 de novembro

Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141, Vila Mariana.

Informações: (11) 5080-3000

Sesc Santo Amaro – Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro.

Informações: (11) 5541-4000

Sesc Campo Limpo – Rua Nossa Sra. do Bom Conselho, 120, Campo Limpo.

Informações: (11) 5510-2700

Ingressos: R$20 (inteira), R$10 (meia-entrada) e R$6 (credencial plena)

SELVAGERIA

Selvageria’ é o terceiro projeto de Felipe Hirsch e Ultralíricos, coletivo formado em Puzzle’ (2013), espetáculo dividido em quatro partes que levou para o palco a obra de escritores brasileiros contemporâneos. A investigação literária continuou em A Tragédia Latino-Americana’ e ‘A Comédia Latino-Americana’ (2016), díptico encenado a partir de autores latino-americanos e de questões sociais do continente. Desta vez, o grupo se debruçou sobre livros e documentos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e sobre a Bibliographia Brasiliana pesquisada por Rubens Borba de Moraes. O resultado desta pesquisa será apresentado a partir de 3 de novembro no Sesc Vila Mariana, em temporada até 17 de dezembro.

Em cena, aparecem textos que começam com a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei Dom Manuel (1500), passam por relatos, decretos, diários e chegam ao Triste Fim de Policarpo Quaresma’ (1911), de Lima Barreto, único texto da montagem não originado de um documento histórico. 

Esses documentos são europeus. A fala é dos europeus e dos selvagens civilizados contados por europeus brancos. São essas pessoas que falam. E esses documentos são aterrorizantes, comenta Felipe Hirsch.

Para o diretor, os espectadores podem achar que os textos foram escritos ou que se fez algum tipo de dramaturgia, tamanho o absurdo e a proximidade com a realidade de hoje. ‘’Selvageria’ fala sobre as raízes do conservadorismo no Brasil. Eu brinco de que a gente fez duas ficções (‘Puzzle’ e ‘A Tragédia e a Comédia Latino-Americana) e agora é nosso documentário. Esses documentos foram escolhidos não só pela importância histórica, mas, de fato, pela necessidade de entender que alguns deles são fundamentos do pensamento vigente’, analisa Hirsch.

Os textos:

Carta a El-Rei D. Manuel (Pero Vaz de Caminha, Portugal, 1500)

É o primeiro documento histórico sobre a descoberta do Brasil. A carta redigida por Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota liderada por Pedro Álvares Cabral, descreve ao Rei de Portugal D. Manuel como era a terra e os nativos que nela habitavam. Nota-se o deslumbramento dos europeus ao se depararem com os selvagens e as belezas naturais do chamado Novo Mundo. As descrições retratam o primeiro contato com os nativos, menções ao Pau-Brasil, à Primeira Missa na Nova Terra e aos primeiros escambos feitos entre os descobridores e os indígenas. Como uma grande epígrafe do que viria ser a intervenção dos europeus sobre a história do Brasil, Caminha escreve a despeito da riqueza natural da nova descoberta: Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”.

Cest la dedvction du sumptueux ordre plaisantz spectacles et magnifiquves thea-tres dresse, et exhibes para les citoiens de rouen ville metropolitaine du pays de Normandie, a la sacre maiesté du treschristian roy de France, Henry Secõd leur souuerain seigneur, et à tresillustre dame, ma dame Katharine de Medicis, la royne son espouze, lors de leur triumphant ioyeulx et nouvel aduenement en icelle ville, qui fut es iours de mercredy et ieudy premier et secöd iours doctobre, mil cinq cens cinquante et pour plus expresse intelligence de ce tant excellent triumphe, les figures et pourtraicts des principaulx aornementz diceluy y sont apposez chauscun enson lieu comme lon pourra veoir parle discours de lhistoire (Robert Le Hoy e Jean Du Gord, França, 1551)

Em outubro de 1550, Henrique II, Rei da França, e sua esposa, Catarina de Médici, fizeram uma entrada solene na cidade de Rouen. Como era de hábito, foram realizadas pomposas celebrações. O ponto alto dessas festividades foi, porém, a reconstituição de uma aldeia indígena brasileira em praça próxima ao rio. Cerca de cinquenta índios brasileiros, que haviam sido trazidos de seu país por marinheiros normandos e que viviam na cidade, foram reunidos para povoar esta floresta. Para perpetuar a memória dessas magníficas festividades, Jean du Gord, famoso livreiro de Rouen, ordenou a impressão desse livro, que contém a descrição completa da festa brasileira em duas páginas.

Essais (Des Cannibales) (Michel de Montaigne, França, 1580)

Os mesmos índios que estavam na Festa Brasileira, em Rouen, continuaram a viver na cidade e foram durante anos uma das atrações turísticas do lugar. Quando o Rei Carlos IX visitou a cidade em 1562, foi apresentado a eles. Montaigne testemunhou o fato, e deve ter conservado vívida lembrança, pois se refere aos índios na famosa passagem Dos Canibais, presente em seus Ensaios.

Histoire de la Mission des Pères Capucins en lIsle de Maragnan et terres circonvoisines (Claude DAbbeville, França, 1614)

A obra narra a missão dos capuchinhos franceses ao Maranhão em 1612, integrada pelos padres Yves dEvreux, Arsène de Paris, Ambroise dAmiens e Claude dAbbeville, numa tentativa de colonização do Norte do Brasil e de evangelização dos índios.

Voyage dans le nord du Brésil fait durant les années 1613 et 1614 (Yves D’Evroux, França, 1615)

Escrita com a intenção de completar a obra de Claude dAbbeville publicada no ano anterior, Voyage dans le nord du Brésil omite o que já fora dito. Yves dEvreux, tendo vivido um ano e meio a mais na região, trata de detalhes como a fauna e a vegetação tropical do próprio Maranhão, ao passo que dAbbeville conta somente a história da missão. As muitas descrições publicadas sobre a ida dos capuchinhos franceses ao Maranhão levam a crer que os padres realizaram uma verdadeira campanha de publicidade em torno das expedições.

Campagne du Brésil faite contre les portugals (Louis Chancel de Lagrange, França, 1711)

À bordo da fragata LAigle, um dos 17 navios da armada francesa, o 1º Tenente Louis Chancel de Lagrange relata o assalto e a tomada do Rio de Janeiro em 1711, pela expedição comandada por René Duguay-Trouin.

Letters from the Island of Teneriffe, Brazil, the Cape of Good Hope, and the East Indies (Mrs. Jemima Kindersley, Inglaterra, 1777)

Mrs. Kindersley foi a primeira mulher a escrever uma narrativa sobre o Brasil. De origem inglesa, casou-se em 1762 com o oficial de uma companhia das Índias Orientais, motivo pelo qual os dois viajaram duas vezes às colônias em expansão.

Voyage Autour du Monde (Jacques Arago, França, 1822)

Jacques Arago, artista da expedição científica chefiada por Claude-Louis de Freycinet, escreveu o relato da viagem num estilo muito espirituoso e divertido. Sua expedição chega ao Rio de Janeiro em 1817 e Arago fornece uma longa descrição de sua estada em Guanabara. É um dos raros documentos que retratam em detalhes o Cais do Valongo, um dos maiores portos escravagistas do mundo. Suas inúmeras histórias impressionam pela realidade com que descrevem a crueldade física e moral praticada contra os escravos. A obra nunca foi traduzida ou publicada no Brasil.

Narrative of a voyage to Patagonia and Terra del Fuego, through the Straits of Magellan (John McDouall, Inglaterra, 1833)

O autor esteve de passagem pelo Rio de Janeiro em 1826 e foi mais um dos viajantes a testemunhar o triste espetáculo que se apresentava no Cais do Valongo.

Illustríssimo Senhor Luiz da Cunha / Meu Marido Senhor Luis (Teodora da Cunha e Claro Antônio dos Santos, Brasil, 1866 / 1867)

As cartas da escrava africana Teodora, escritas pelo brasileiro também escravo, Claro Antônio dos Santos, foram descobertas no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ao complementar o serviço de carpinteiro com alguns vinténs advindos da sua habilidade com a escrita, Claro foi autor de inúmeras cartas enviadas como expressão da vontade de Teodora e de outros escravos analfabetos.

Lei Saraiva (Brasil, 1888)

Oficialmente, é o Decreto nº 3.029, que entrou em vigor dia 9 de janeiro de 1881, e teve como redator final o Deputado Geral Rui Barbosa. O decreto instituiu, pela primeira vez, o Título de Eleitor. Entre suas medidas excludentes, está a proibição do voto de analfabetos e de brasileiros que possuam renda inferior a 200$, com exceção dos que ocupam os cargos listados nos artículos da Lei. Além disso, impôs uma série de multas para quem descumprisse seus termos, impedindo definitivamente que as massas da população tivessem representação e voz política, inclusive as mulheres, para quem a lei conservou a inaptidão ao voto

Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto, Brasil, 1911)

Exceção, o trecho de Lima Barreto é único texto não originado diretamente de um documento. De onde mais, porém, teria saído Policarpo Quaresma, apaixonado pela Pátria, conhecedor dos rios, dos heróis do Brasil”, “das suas cousas de tupi”, das mutilações em todos os países históricos? O que nos resta depois de uma história impregnada nas raízes de um conservadorismo bastardo, do qual ainda dividimos as louças?

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Selvageria
Com Blackyva, Bruno Capão, Caco Ciocler, Crista Alfaiate, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Isabel Zuáa, Magali Biff, Arthur de Faria, Adolfo Almeida Jr., bella, Dhiego Andrade, Mariá Portugal e Thomas Rohrer
Sesc Vila Mariana (R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo)
Duração 180 minutos
03/11 até 17/12
Quinta, Sexta e Sábado – 20h, Domingo – 18h
$40
Classificação 16 anos

SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL (OPINIÃO)

No tabuleiro da vida, dentro da caixa escura mágica, Luis Vasconcelos transformou em poesia os sonhos de Bráulio Tavares, que bebeu das águas de Ariano Suassuna…

Suassuna – O Auto do Reino do Sol” é o novo trabalho da companhia teatral “Barca dos Corações Partidos“. Não é um espetáculo biográfico, mas sim, uma homenagem ao poeta e a comemoração dos seus 90 anos, caso estivesse vivo.

O sertão não virou mar, nem vice-versa, mas ocupou o teatro com toda sua mitologia e simbolismo particular, retratada pelo poeta em suas obras. Estão presentes personagens de outras obras do homenageado; o homem sertanejo, a comédia, os casos amorosos, a briga entre famílias poderosas, além da figura dos palhaços frustados (como o próprio Suassuna se denominava) e de Nossa Senhora.

A história é simples, assim como os textos de Suassuna. É um Auto – termo surgido na Idade Média em Portugal para definir as peças teatrais apresentadas primeiramente em igrejas, para depois tomar conta das feiras populares. Tem uma curta duração e com conteúdo simbólico, onde os personagens são entidades abstratas, de caráter religioso ou moral (o pecado, a luxúria, a bondade, a virtude, entre outros).

Conta a viagem de uma trupe circense pelo sertão paraibano em direção a Taperoá, cidade onde fica a fazenda dos Suassuna, para apresentar um espetáculo em sua homenagem. Só que no trajeto, acabam se perdendo e vão parar no vale ‘O Soturno’, uma região dominada por duas famílias inimigas e poderosas – os Fortunato  e os Moraes. E para piorar a rixa, os jovens Iracema Moraes e Lucas Fortunato se apaixonam e resolvem fugir do sertão com o circo.

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Nossa Opinião

Nesta montagem, sob direção de Luis Vasconcelos, quem se sobressai são os atores. O diretor consegue destacar as qualidades de cada um, e com isso, todos tenham seus momentos principais.

Mas não tem como não destacar os personagens feitos por Adrén Alves nos papéis de Sultana, a dona do circo, e da matriarca da família Fortunato; bem como os palhaços de  Eduardo Rios e Renato Luciano, que interpretam seus Dom Quixote e Sancho Pança no picadeiro.

O cenário é uma caixa teatral preta, com um tabuleiro ao centro, por onde os personagens caminham por suas casas. E por onde também navega um barca em forma de carroça, que leva a trupe circense – e seus instrumentos musicais – pelo sertão nordestino.

Destaque também para as canções autorais e inéditas de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho; os figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockles; e a iluminação criada por Renato Machado, para mostrar desde o sertão nordestino às nuances da trama.

“Suassuna – o Auto do Reino do Sol” tem que ser vista!

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A Barca dos Corações Partidos

A companhia é formada por Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros. Como atores e músicos convidados para este musical, temos Rebeca Jamir, Chris Mourão e Pedro Aune.

O grupo teve como padrinho outro expoente do Teatro Brasileiro – João Falcão, que os reuniu em “Gonzagão, a Lenda” (2012) e logo depois em “Ópera do Malandro” (2014).

Depois foi hora de trilhar os caminhos com suas próprias pernas. Veio “Auê” (2015), que segundo o dicionário, é sinônimo de farra, tumulto, confusão causado por uma algazarra. Foi isso que o grupo fez nos palcos, apresentando 21 canções autorais e inéditas, num espetáculo de dança, teatro, performance e música. E em 2017, “Suassuna – o Auto do Reino do Sol“.

O reconhecimento do trabalho da Barca dos Corações Partidos veio tanto por parte do povo (que lota as suas apresentações e tem paixão pela companhia teatral – nós, inclusive) como pela crítica especializada. Só no Prêmio Reverência deste ano (prêmio que reconhece os melhores do Teatro Musical Brasileiro), a companhia recebeu 17 indicações, sendo 10 por ‘Suassuna’ e 7 por ‘Auê’. No Prêmio Bibi Ferreira, outro voltado para espetáculos musicais, ‘Auê’ tem 10 indicações (‘Suassuna’ só estreou em São Paulo após a divulgação das indicações).

Viva a cultura popular brasileira! Viva Ariano Suassuna!

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elenco e criativos – Luis Vasconcelos (diretor), Bráulio Tavares (autor), Chico César (diretor musical) e Andrea Alves (produtora)

Suassuna – o Auto do Reino do Sol
Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros. Atriz convidada: Rebeca Jamir. Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune
SESC Vila Mariana (R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo )
Duração 120 minutos
24/08 até 01/10
Sexta e Sábado – 21h; Domingo e Feriado – 18h
$40 ($12 trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculados no Sesc e dependentes/Credencial Plena).
Classificação 12 anos

 

 

SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL

‘Suassuna – O Auto do Reino do Sol’ traz na essência uma série de características de seu homenageado. Ariano Suassuna (1927- 2014) – que teria completado 90 anos em junho – defendeu incansavelmente a brasilidade e a valorização da cultura nacional, ao mesclar a arte popular e o universo erudito em todas as suas obras.
 
Idealizadora deste tributo ao escritor paraibano, a produtora Andrea Alves, da Sarau Agência, lançou o desafio para a Cia. Barca dos Corações Partidos e convidou três ilustres conterrâneos de Ariano para criar algo totalmente inédito, inspirado em seu legado e desenvolvido em um processo coletivo. Desta forma, nasceu o musical, que chega a São Paulo no dia 24 de agosto, no Teatro do Sesc Vila Mariana, com canções de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho, encenação de Luís Carlos Vasconcelos e texto de Braulio Tavares.
 
Em 2007, a Sarau Agência realizou uma grande programação para festejar os 80 anos de Ariano e, desde então, foi criado um vínculo do escritor com Andrea, responsável por todas as montagens da Barca dos Corações Partidos e por uma série de projetos que celebraram a arte brasileira nos últimos 25 anos. ‘Há algum tempo, Ariano me falou: ‘Não venha comemorar meus 85 anos, eu não vou morrer, quero que você festeje os meus 90!’. Naquele momento me senti condecorada e com uma grande missão pela frente’, conta a produtora.
 
A ideia inicial surgiu em conversas de Andrea com Ariano, que se confessava um palhaço frustrado e que elegeu o palhaço de ‘O Auto da Compadecida’ como um dos seus personagens prediletos. ‘Assim, surgiu a ideia de uma grande homenagem ao palhaço de Ariano e pensei na reunião da Barca dos Corações Partidos com o que eu chamo de “trio paraibano”. Assim foi sendo criada esta peça inédita, com músicas e texto originais, mas totalmente inspirada no legado de Ariano’, resume.
O texto e as canções do musical foram produzidos ao longo do processo de ensaios, que começou ainda no ano passado, quando o elenco fez uma série de oficinas circenses e também excursionou pelo Nordeste brasileiro no que foi chamado de Circuito Ariano Suassuna. Guiados por Dantas Suassuna, filho de homenageado, a trupe esteve em Casa Forte (Recife), conheceu a famosa Pedra do Ingá e visitou a fazenda de Taperoá (Paraíba). Entre muitas palestras e oficinas, o grupo se preparou para o intenso processo criativo, em que se reuniram por oito horas diárias e apenas uma folga semanal nos últimos quatro meses.
 
Neste período, Braulio Tavares idealizou a história central da montagem, centrada em uma trupe de circo-teatro e nos acontecimentos de uma noite de apresentação do grupo. O picadeiro de um circo é o cenário perfeito para aparecerem personagens de Ariano, como João Grilo e Chicó (‘O Auto da Compadecida’) e outros conhecidos tipos da Literatura Clássica, além de servir como pano de fundo para as histórias dos integrantes da companhia fictícia.
 
O projeto sempre quis falar de Ariano sem, no entanto, apresentar um espetáculo biográfico ou mesmo uma adaptação de suas obras. ‘Quando entrei na história, já estava decidido que não seria um espetáculo Armorial e que teríamos a liberdade de subverter, de trazer o Ariano de outras formas. A criação foi toda impregnada de Ariano, de seus personagens e de seu universo, relata Luís Carlos Vasconcelos, que trouxe toda a sua imensa bagagem como palhaço para o processo. ‘É uma homenagem ao Ariano palhaço. O público é guiado por uma espécie de Palhaço Mestre de Cerimônias, como era habitual em seu teatro’, diz.
 
A parte musical seguiu pelo mesmo caminho. Os textos poéticos e as letras das músicas usam as formas tradicionais de poesia popular que foram cultivadas por Ariano, como a sextilha, a décima, o martelo e o galope. Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho, mostravam as melodias e algumas letras surgiam de improviso, outras cabiam exatamente em alguns trechos do texto. A maioria das letras ficou a cargo de Braulio Tavares, mas também tem canções de outros integrantes da companhia, como Adrén Alves e Renato Luciano. ‘Contaminação foi a palavra que define todo este projeto. As melodias foram contaminadas pelas letras e vice-versa. Criamos algo novo, mas totalmente contaminado por Ariano’, analisa Chico, a quem o escritor chegou a dedicar um livro de poesias.
 

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Suassuna – o Auto do Reino do Sol
Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros. Atriz convidada: Rebeca Jamir. Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune
SESC Vila Mariana (R. Pelotas, 141 – Vila Mariana, São Paulo )
Duração 120 minutos
24/08 até 01/10
Sexta e Sábado – 21h; Domingo e Feriado – 18h
$40 ($12 trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculados no Sesc e dependentes/Credencial Plena).
Classificação 12 anos