OS ATINGIDOS OU TODA COISA QUE VIVE É UM RELÂMPAGO

Com uma linguagem que permeia a relação entre teatro e cinema, a Ordinária Companhia traz os questionamentos que envolvem o impacto da maior tragédia ambiental no Brasil em Mariana (MG) com novo espetáculo. 

Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago estreia sábado, 8 de julho, às 21h, na SP Escola de Teatro. A direção e dramaturgia é de José Fernando Peixoto de Azevedo e a temporada vai até 30 de julho com sessões sábados, às 21h, domingos, às 20h, e segundas, às 21h. 

Na trama, uma moradora da cidade atingida interroga: isso aí foi o quê, uma tragédia, um acidente, um desastre, ou um crime? A pergunta nos devolve ao campo próprio de uma disputa pela vida: aqueles que foram atingidos pela lama reclamam precisamente a sua condição própria, a de atingidos em meio ao processo de destruição. 

A peça procurou usar como propulsores para a construção os desdobramentos e os antecedentes da tragédia. Desde o histórico da rota do ouro e de minérios, além de deslizamentos menores que causaram morte ainda nos anos 80 nessa longínqua exploração da região. 

Durante a pesquisa, o grupo foi a cidade de Mariana e nos pequenos distritos em busca de contato direto com os que sofreram e ainda sofrem com o rompimento da barragem. O encontro trouxe a oportunidade de ver de perto todas as camadas que envolvem a tragédia desde os aspectos sociais, econômicos e ambientais, além das rupturas e discriminações que se tornaram a vida dos atingidos. As pessoas foram pulverizadas e classificadas de acordo com a lama que sujou suas vidas na tragédia. 

Todos esses elementos foram utilizados de maneira ficcional para criar uma montagem que constrói no palco uma espécie de filme ao vivo calcado pelo suspense. Uma linguagem que permeia o teatro e o cinema, característica que já foi trabalhada no espetáculo Zucco do grupo. 

Em cena, a situação é a de um “estúdio”, ao menos em dois sentidos simultâneos, justapostos: estúdio de gravação (atores e técnicos que, diante do público, gravam e editam materiais que são projetados, e este trabalho é também cena), mas também espaço de estudo da cena (atores atuam suas figuras em situação, diante do público). 

O resultado é um teatro-filme com um deslizamento entre os pontos de vista e perspectivas. Durante a pesquisa, filme de Alfred Hitchcock, David Lynch e o recente Corra!, de Jordan Peele, serviram para absorver os artifícios de suspense inseridos na encenação. 

A Ordinária Companhia surgiu em 2013, resultando do percurso de uma turma de alunos da Escola de Arte Dramática, a EAD, da ECA-USP, que naquele ano estreia seu trabalho de conclusão de curso, ZUCCO, uma adaptação do texto de Bernard Marie-Koltès, dirigida pelo também professor da Escola, José Fernando de Azevedo. O espetáculo fez temporadas em São Paulo – na EAD (2013), no TUSP e no CIT-ECUM (2014) – e o grupo foi indicado ao Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro (2014), na categoria revelação.

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Os Atingidos ou Toda Coisa que Vive é um Relâmpago
Com Áurea Maranhão, Conrado Caputo, Juliana Belmonte, Paulo Balistrieri e Rafael Lozano
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 90 minutos
08 a 30/07
Sábado – 21h; Domingo – 20h; Segunda – 21h
$20
Classificação 14 anos

GAVIÃO DE DUAS CABEÇAS

O espetáculo “Gavião de duas cabeças”, solo idealizado e atuado por Andreia Duarte com direção de Juliana Pautilla, faz apresentação com preço popular nesse sábado e domingo (dia da Virada Cultural – 20 e 21 de maio) no valor de R$15.00. A peça está em cartaz na SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt).
A peça traz elementos de uma teatralidade contemporânea, unindo performance e teatro, inspirada em um mito que conta a história do gavião de duas cabeças – um pássaro que devora o espírito indígena e sobrevive mesmo depois da morte do corpo. O mito – que é usado como metáfora de um pensamento hegemônico – norteia a montagem do espetáculo em que a atriz empresta seu corpo como um documento oral-visual de resistência poética. Em cena, figuras opostas aparecem: uma representante do agronegócio, uma mulher indígena e a atriz questionando a sua própria experiência.
O público é chamado a ver e ouvir um genocídio validado por discursos dominantes e por leis que infringem os direitos. A dramaturgia traz um olhar sobre o índio, em seu lugar de singularidade no cenário político atual. Os discursos trabalhados são reais, atuais e sociais que permeiam esse universo no Brasil. De um lado o discurso ruralista e da mercadoria, contra a demarcação das terras para os índios, em favor da PEC 215 (PEC que retira o poder da FUNAI de realizar as demarcaçõ​es, passando este poder​ ​para o legislativo), de outro lado o indígena defendendo a ​sua sobrevivência, ​logo a natureza e as suas origens. E ainda o discurso da atriz que viveu ambos os contextos, o urbano e o indígena, se inserindo na complexidade dessa alteridade.
A partir da voz da atriz, que teve uma experiência real e profunda na aldeia, com os índios Kamayura do alto Xingu, há uma percepção do público de como ser possível nos colocarmos no lugar do outro. A dramaturgia opta por um olhar atual sobre o índio, em seu lugar humano, político, escapando da imagem do pitoresco e do exótico.
Sinopse
O mito do gavião de duas cabeças – um pássaro que devora o espírito indígena, que sobrevive mesmo depois da morte do corpo, norteia a montagem do espetáculo Gavião de Duas Cabeças. A partir dessa imagem de morte e genocídio, a peça costura discursos atuais a partir da experiência pessoal da atriz. Os discursos encenados são reais e permeiam a atual realidade política e social brasileira: de um lado o discurso ruralista, de outro o indígena e ainda o da atriz que viveu em ambos os contextos, o urbano e o indígena.

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Ficha Técnica
Idealização e Atuação: Andreia Duarte. Direção e Preparação Corporal: Juliana Pautilla. Dramaturgia e cenografia: Andreia Duarte e Juliana Pautilla. Criação de Luz: Ronei Novais. Trilha Sonora: Carlinhos Ferreira. Criação de Vídeos: Natália Machiavelli.  Direção de Arte e Produção de Arte: Alice Stamato. Fotografia: Fernanda Procópio. Operação de som, luz e vídeo: Bruno Carneiro. Criação gráfica e teasers: Daniel Carneiro. Registro em Vídeo: Daniel Carneiro, Robson Timóteo ​ e Anderson Chocks​. Assessoria de imprensa: Willian Rafael.

FADOS E OUTROS AFINS

 

A atriz e bailarina Mariana Muniz, após uma temporada de sucesso do espetáculo D’Existir, volta aos palcos no dia 11 de março com seu novo projeto “Fados e Outros Afins”, na SP Escola de Teatro.

Para essa nova empreitada, Mariana Muniz fez uma imersão em suas origens de brasileira e nordestina, numa dramaturgia, concebida a partir de seu corpo, como uma viagem poética de Lisboa a Recife, sob a direção de Maria Thaís, em um encontro de duas mulheres referências no Teatro e na Dança.

Na criação e composição do solo “Fados e Outros Afins”, Maria Thaís e Mariana Muniz exploram o hibridismo de linguagens artísticas da dança e do teatro, que servem à ampliação dos limites das conexões entre questões cênicas, coreográficas, dramatúrgicas, visuais e performáticas.

Assim como em trabalhos anteriores, em “Fados e Outros Afins”, Mariana Muniz dá continuidade ao processo de investigação das relações entre o pensamento e corpo | gesto, em dança e teatro.

A dramaturgia do espetáculo é tratada como uma teia que engloba as ações físicas da atriz-bailarina (como o texto se torna corpo), suas ações vocais (musicalidade no texto e com o texto; a palavra como música e concretização da voz no espaço), cenografia, iluminação, figurino e a relação entre eles.

O projeto “Fados e Outros Afins” tem o apoio do XX Edital do Fomento à Dança para a cidade de São Paulo e conta ainda com um programa educativo inovador, que visa a formação de público para dança, além da capacitação de novos profissionais, na tentativa de aproximar e estabelecer novos diálogos entre o público e a obra artística.

As ações principais desse núcleo educativo são: a realização de uma palestra sobre a história do fado e suas relações com o Brasil; o grupo de estudos com 12 aprendizes, e a produção de uma webserie que divulga as ações do projeto e desvenda os bastidores da criação do espetáculo.

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Fados e Outros Afins
Com Mariana Muniz
SP Escola de Teatro – Sala R1 (Praça Franklin Roosevelt, 210, Centro)
Duração 50 minutos
11 até 26/03
Sábado – 21h; Domingo – 19h e Segunda – 21h
$15
Classificação livre
 
Direção geral, Criadora-Intérprete e orientadora do Grupo de Estudos: Mariana Muniz
Direção Artística: Maria Thaís
Assistente de Direção, Cenografia e Fotos: Cláudio Gimenez
Coordenação pedagógica do Grupo de Estudos: Cynthia Domenico
Dramaturgia: Murilo de Paula e Carlos Avelino de Arruda Camargo
Trilha sonora: Divanir Gattamorta
Figurinista: Chris Aizner
Desenho de luz: Aline Santini
Cenografia: Julio Dojcsar e Rogério Santos
Operação som: Luciano Renan
Registro em vídeo/webserie: Marcos Yoshi
Assessoria de Imprensa: Fabio Camara
Designer: Fabio Borges
Coordenação de Produção: Natália Gresenberg e Talita Bretas  – Ação Cênica Produções Artísticas
Assistente de Produção: Rafael Petri
Aprendizes: Ana Mesquita, Barbara da Silva Borges, Camille de Oliveira Nascimento, Fernando Castanho de Almeida Pernambuco, Gabriela Lorrayne Araujo Santos, Giovanna Santos Guadanholi, Gustavo Fataki Silva Oliveira, Juliana Celentano Rocha, Livia Baena dos Santos, Luciano Renan Santos Antunes e Nicholas Belem Leite

 

LOS TRAIDORES: EL SOL DEL NUEVO MUNDO

A Cia. Opsis questiona o modelo sócio-político-econômico vigente na América do Sul no musical “Los Traidores: El Sol del Nuevo Mundo”, que estreia na SP Escola de Teatro dia 11 de fevereiro. Com direção e concepção de Cadu Witter, a peça se passa em um povoado perdido nesse continente, onde a população é oprimida por um líder político ditatorial.

À espera de um milagre que resolva todos os seus problemas, o povo deposita todas as suas esperanças nas mãos de um Justiceiro, que nunca pensou em liderar ninguém.

O elenco é formado por Bruno Gasparotto, Dom Hilarós, Lilian Prado, Luciana Pandolfo, Luiz Altiéri, Manu Pestana, Murilo Rocha, Patrícia Barbosa, Selma Paiva, Thais Cabral e Thais Galter. Já Gustavo Macedo assina a trilha sonora original e Daniel Roda a dramaturgia do musical.

A trupe foi criada a partir de uma reunião de atores já profissionais, aprendizes da SP Escola de Teatro e alunos do CAC/USP (Departamento de Artes Cênicas da USP). Sua missão é criar um teatro musical original brasileiro – e não uma cópia de fórmulas prontas norte-americanas.

Los Traidores: El Sol del Nuevo Mundo
Com Bruno Gasparotto, Dom Hilarós, Lilian Prado, Luciana Pandolfo, Luiz Altiéri, Manu Pestana, Murilo Rocha, Patrícia Barbosa, Selma Paiva, Thais Cabral e Thais Galter
SP Escola de Teatro – Sala R1 (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
11/02 até 06/03
Sábado – 21h; Domingo – 19h; Segunda – 21h
$30
Classificação 12 anos
Dramaturgia: Daniel Roda e Cadu Witter
Músicas: Gustavo Macedo
Direção: Cadu WItter
Direção Musical: Gustavo macedo e Charles Yuri
Coreografias e Direção de Movimento: Elizabeth Pelegrini, Luiz Rodrigues e Cadu Witter
Assistente de Direção: Luiz Rodrigues
Dramaturgismo: Zuca Zenker
Cenografia: César Bento
Iluminação: Marcela Katzin
Figurinos: Peter Dias e Hazuk Perez
Produção: Bruna Botelho, Thaís Galter e Cadu Witter
Assistente de Produção: Denise Verreschi

PSICOTRÓPICO

O espetáculo Psicotrópico pega emprestado da ciência o termo “psicotrópico” (dado às substâncias que agem no sistema nervoso central, com efeitos alucinógenos ou estimulantes que modificam nossa percepção de mundo) e conta, por meio de diferentes narrativas, a história de uma impossível volta para casa. Depois da temporada de sucesso no SESC Ipiranga, a reestreia acontece no dia 19 de novembro na SP Escola de Teatro.

Um imigrante que precisa retornar. Um artista perdido na floresta. Uma mulher que deve estar morta até o final da peça. A voz de uma criança que faz perguntas difíceis. Um ator, um atraso, uma viagem.

A palavra, uma vez separada nos dois termos (psyché e trópico), pode assumir novos significados diversamente sugestivos. Psyché, como alma e respiro, palavra antiga que dificilmente pode encontrar sua definitiva tradução moderna; e Trópico, etimologicamente “relativo a uma volta”, aqui pensada não somente como área geográfica e climática, mas também como lugar político, social e cultural.

Com concepção do Núcleo Artístico Società Anonima e dramaturgia, direção e atuação de Camozzi, Psicotrópico é estruturado em cinco narrativas ficcionais apresentadas numa rede de fragmentos organizados de maneira aparentemente aleatória, compondo uma partitura narrativa livremente inspirada ao sistema dodecafônico de Arnold Schönberg.

Os fragmentos ficcionais são atravessados por uma linha dramatúrgica alusiva ao ‘nostos’ (palavra que em grego designava o motivo literário relativo a ‘volta pra casa’) – que por sua vez remete a experiências biográficas do próprio ator, nascido em Veneza: a volta ao lar original, na Europa, para acompanhar o falecimento da mãe, e posteriormente, o retorno para a casa atual, nos Trópicos.

O entrelaço das diferentes narrativas, biográficas e ficcionais, se desenvolve de maneira linear e sequencial, induzindo assim, no propósito dos criadores, uma espécie de desnorteamento no espectador para deixá-lo livre para compor suas próprias ressignificações.

O espetáculo é resultado de reflexões sobre a mobilidade contemporânea, as migrações e a memória.

O episodio biográfico central da narrativa é a espera do protagonista no aeroporto para chegar a sua cidade natal. A espera corresponde ao atraso que não permitirá ao narrador acompanhar a morte da mãe.

A tentativa de anulação da espera, se torna, dentro do espetáculo, o motivo recorrente que quebra e interrompe a narrativa abrindo ao publico possibilidades de ressignificações, solicitando no espectador reflexões sobre a perda e as diversas condições do “estar no tempo moderno”.

Na sociedade contemporânea, a espera pertence à representação quantitativa do tempo, à sua valoração de eficiência, à orientação baseada na programação do tempo futuro. O sujeito que aguarda/espera é deslocado de seu tempo; o lugar que habita é um ‘não-lugar’. A tensão permanente nas nossas cidades é a de anular o tempo de espera. Esperar é um problema da modernidade, do movimento perpétuo e rápido, das mercadorias e das pessoas, mas também das ideias, das palavras e das memórias.

O migrante é a figura social que habita esse ‘não-lugar’ contemporâneo. O ‘Ser migrante’ pode ser interpretado como condição universal do habitante do tempo presente. Respeitando as diversas e específicas experiências e realidades, todos somos desenraizados, e não somente porque viemos, muitos de nós, de outras cidades, estados, continentes, mas, principalmente, devido às grandes transformações às quais fomos condicionados, com uma velocidade tal que perdemos o senso de estar no tempo.

Nossa memória, por sua vez, é breve, relegada às máquinas; nosso futuro próximo tão curto, porque condicionado pelo lema da crise permanente, seja essa econômica, política, ética, climática – o que dificulta uma projeção distante de nossas expectativas e torna nosso presente fragilmente manipulável, como os valores de autonomia e independência perseguidos por todo o século XX que hoje declinaram massivamente, motivados por outros estímulos culturais, medidos por cotas de conquista e sucesso do indivíduo em detrimento da coletividade.

Através da combinação simbólica dos diversos elementos – esculturas, cenografia, desenho de luz, videoprojeções e sonoridades – que se manifestam em cena de maneira independente o espetáculo teatral potencializa ao público a possibilidade de uma fruição estética ‘aberta’ e não auto conclusiva.

Psicotrópico
Com Alvise Camozzi
SP Escola de Teatro
Duração 60 minutos
19/11 até 11/12
Sábado – 21h; Domingo – 20h; Segunda – 21h
$20
Classificação 14 anos
 
Concepção: Núcleo Artístico Società Anonima
Dramaturgia, direção e atuação: Alvise Camozzi
Pesquisa e cenografia: William Zarella Jr.
Desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Figurino: Marina Reis
Pesquisa sonora: Daniel Maia e Gustavo Arantes
Concepção de vídeos e mapping: Grissel Piguellem
DJ set ao vivo: Gustavo Arantes a.k.a Dj Goonie
Assistente de luz e operador: Aldrey Hibbeln
Direção de produção: Rachel Brumana
Produção: Substância Produções Artísticas
Foto: Gabriel Godoy
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

 

FIM DE PARTIDA

Depois de uma temporada de sucesso no Sesc Pinheiros, FIM DE PARTIDA, espetáculo com texto de Samuel Beckett, dirigido por Eric Lenate – indicado ao Prêmio APCA de Teatro 2016 como melhor ator pela montagem –, reestreia na SP Escola de Teatro, no próximo dia 19 de novembro, sábado, às 21h30.

Em FIM DE PARTIDA, os personagens Hamm, Clov, Nagg e Nell estão presos em um abrigo, supostamente, à beira-mar e a plateia compartilha do desconforto ao qual os personagens estão submetidos. Propriamente encarcerados e enlatados, eles travam diálogos poéticos, impactantes e, por vezes, abismais sobre a condição humana, a solidão e o sem sentido da existência. Hamm é um artista fracassado. Encontra-se cego e paralítico. Clov é seu serviçal e possui uma doença que não o permite sentar. Nagg e Nell são os pais de Hamm e também têm mutilações. Vítimas de um apocalipse emocional, os quatro dividem o abrigo. Espiam o mundo, ou melhor, o que restou dele, pela luneta de Clov.

Função dupla

Essa é a primeira vez que Lenate dirige uma montagem em que está no elenco. Sem subir ao palco para interpretar desde 2013, um dos discípulos de Antunes Filho diz que sua fonte de inspiração é Chaplin. “Ele sempre atuou e se dirigiu e me espelho nele para levar ao palco algo com qualidade. Tenho uma vantagem em FIM DE PARTIDA: quando entrei no projeto, a peça já estava de pé. Só tive que me inserir na engrenagem e fazer com que ela continuasse rodando. Para isso, antes de entrar na sala de ensaio, mergulhei no texto profundamente com o meu assistente de direção”, explica.

O texto, aliás, é um dos principais pontos focais do trabalho do diretor Eric Lenate. “Desde a minha época do CPT, nunca tive medo de nenhum autor e sou um apaixonado por literatura e dramaturgia no geral. Fiz algumas experimentações cênicas ao longo da carreira, mas já há algum tempo vi que o meu estilo está centrado no trabalho do autor, com foco na valorização do texto em cena”, conta Lenate.

Beckett, segundo Lenate, é um dos autores que serviram de base para a sua formação. E, apesar da idade do texto, FIM DE PARTIDA ainda é muito atual. “A peça fala sobre conflitos humanos e, enquanto a gente tiver problemas éticos, de valores e comportamentais apresentados nesse texto, Beckett será atual. Ele constrói seu texto com uma arquitetura linguística tão fantástica, que essa estrutura não envelhece jamais”.

Da mente de Hamm para o palco

Há uma linha de interpretação da peça que acredita que tudo (cenário, os outros personagens) são projeções da mente de Hamm. O que o público vê, na verdade, são os estertores de sua consciência lutando contra a falência generalizada do corpo. “Esse é um caminho possível, embora nenhuma interpretação definitiva se consolide em se tratando de Beckett. Se pensarmos em Malone Morre temos também lampejos de uma mente que mantém uma sobrevida execrável num corpo agonizante. Só que numa narrativa é possível manter-se confinado  nos limites da consciência e do discurso do narrador – no ‘manicômio do crânio’, expressão que aparece em Mal Visto Mal Dito, de 1981.  Mesmo que nada aconteça  em termos de ação dramática em FIM DE PARTIDA, o teatro tem exigências cênicas e dramáticas que não permitiriam, mesmo a mais ousada radicalidade, não mostrar nenhum confronto entre personagens no palco. Seguindo essa linha, uso as rubricas de Beckett para orientar minha direção e também sobre as pequenas atividades que acontecem em cena, enquanto as figuras enunciam o texto”, diz o diretor.

O cenário e figurino, também assinados por Lenate e Rosângela Ribeiro, respectivamente, reforçam o texto. Roupas, elementos cênicos, tudo é preto. Os únicos pontos de claridade são as peles dos atores. No palco, Lenate usa latões de vários tamanhos que ajudam a criar um ambiente abandonado mostrado na peça.

Um dos destaques da montagem e que mereceu elogios da crítica foi a trilha musical, criada e executada ao vivo, no palco, por L. P. Daniel que, com seu piano, assume o papel de uma espécie de quinta voz na peça. Segundo o próprio criador, a trilha se encaixa num procedimento musical denominado indeterminação musical, movimento que surgiu no começo da segunda metade do século XX e foi adotado por músicos norte-americanos e europeus, como Morton Feldmann, John Cage e György Ligeti. “Para cada movimento da trilha, existe um caminho central a se seguir, fixo, porém, com uma gama de possibilidades relacionadas harmonica e melodicamente. Durante a execução, como que em um “improviso”, opções são feitas dentre estas possibilidades. Fazendo com que, cada vez que a trilha é tocada, apesar de parecer igual, tenha algumas diferenças”, explica ele.

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Fim de Partida
Com Rubens Caribé, Ricardo Grasson, Miriam Rinaldi, Eric Lenate e L. P. Daniel.
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 60 minutos
19/11 até 19/12
Sábado – 21h30; Domingo – 19h; Segunda – 21h30
$30
Classificação 14 anos
 
Autor – Samuel Beckett.
Tradução – Fabio de Souza Andrade.
Direção, Cenografia e Adereços – Eric Lenate.
Figurino e Adereços – Rosângela Ribeiro.
Iluminação e Adereços – Aline Santini.
Videografia – Laerte Késsimos e Eric Lenate.
Trilha Sonora, Sonoplastia e Engenharia de Som – L. P. Daniel.
Assistência de Direção – L. P. Daniel.
Projeto Gráfico – Laerte Késsimos.
Fotos e Registro Documental – Leekyung Kim.
Direção de Produção – Ricardo Grasson.
Produção Executiva – Eric Lenate.
Assistência de Produção – Ana Araripe.
Produção – Gelatina Cultural.
Idealização e Realização – Sociedade Líquida.
Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta

CACHORRO ENTERRADO VIVO

Qual a diferença entre instinto e razão? A subjetividade não é uma especificidade dos homens – há crueldade e delicadeza em várias espécies. A memória não é uma especificidade humana – a noção de perda existe em várias espécies. Um cão e um homem que dividem uma vida dividem a mesma dor. Essas são as provocações que trouxeram à tona o texto Cachorro Enterrado Vivo, da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, concebido para ser o primeiro trabalho solo do ator Leonardo Fernandes.

Depois de temporada de sucesso em Belo Horizonte, espetáculo está em cartaz na SP Escola de Teatro.

Com direção de Marcelo do Vale, o texto mostra três monólogos em que diferentes personagens fazem parte da mesma situação: na tarde de uma quinta-feira qualquer, o vigia de um terreno recebe de um passante a proposta para cavar a cova e enterrar seu cachorro. Preço negociado, o homem sai para buscar o animal e retorna trazendo a seu lado um cão vivo.

A estrutura do texto propõe a sobreposição e o embate entre três diferentes posicionamentos éticos diante de um evento cotidiano, penteando a contrapelo as convenções sociais. O que é animalesco? O que é humano?

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Cachorro Enterrado Vivo
Com Leonardo Fernandes
SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação, São Paulo)
Duração 50 minutos
06/08 até 26/09
Sábado, Domingo e Segunda – 21h
$30
Classificação 12 anos
 
Texto: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Marcelo do Vale
Preparação Corporal: Eliatrice Gischewski
Cenário e Figurino: Cícero Miranda
Trilha Sonora Original: Márcio Monteiro
Criação de Luz: Wladimir Medeiros
Técnico de Luz: Daniel Hazan
Projeto Gráfico: Lampejo
Fotografia: Lia Soares e Suzana Latini
Cenotécnico: Ronaldo de Deu
Produção Executiva: Eliatrice Gischewski
Produção São Paulo: Marcelo Carrusca
Produção: Leonardo Fernandes
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio