O JARDIM DAS CEREJEIRAS

Para celebrar quarenta anos de vida artística o Grupo TAPA estreia O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov (1860-1904), no dia 10 de janeiro, quinta-feira, às 20h30, no Teatro Aliança Francesa, palco que foi residência artística do grupo durante os primeiros quinze anos de atividades em São Paulo.

Com direção de Eduardo Tolentino de Araujo, o elenco é formado por Adriano Bedin, Alan Foster, Alexandre MartinsAnna Cecília JunqueiraBrian Penido RossClara CarvalhoGabriela WestphalGuilherme Sant’AnnaMariana MunizNatália Beukers, Paulo MarcosRiba CarlovichSergio Mastropasqua e Zécarlos Machado.

Última peça escrita pelo dramaturgo russo, a trama é ambientada no início do século 20 em uma Rússia na iminência da revolução social. Comédia dividida em quatro atos, a peça conta as peripécias de uma família aristocrata em decadência, que resiste em vender o seu jardim de cerejeiras, ao qual atribui valor afetivo, apesar de improdutivo nos últimos tempos. Um homem de negócios chega para tentar adquirir a propriedade e transformá-la em balneário para veranistas, de olho no potencial turístico.

Escrita em 1904, O Jardim Das Cerejeiras é um dos pilares da dramaturgia ocidental. Seu tema é a transformação: Um ciclo termina e outro começa. “Como é próprio dos jardins que renascem a cada primavera. Nada mais oportuno diante de um mundo que passa pela profunda transformação da era industrial para a digital”, diz Eduardo Tolentino de Araujo.

Para o TAPA, a montagem desse texto é um momento simbólico. Em 1998, ao completar vinte anos de trajetória, escolheram Ivanov, primeiro texto de Tchekhov, como marco de maioridade. E, agora, a sua obra prima final para celebrar a maturidade do grupo. “Nada mais instigante e desafiador do que enfrentar esse texto que há anos povoa nossos sonhos, sempre a espera da maturidade que pudesse dar conta da tarefa. É como fechar um ciclo, sobrepor o amadurecimento de um autor com o de um grupo de teatro. É urgente, afinal a vida passa como um átimo”, acrescenta o diretor.

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O Jardim das Cerejeiras
Com Adriano Bedin, Alan Foster, Alexandre Martins, Anna Cecília Junqueira, Brian Penido Ross, Clara Carvalho, Gabriela Westphal, Guilherme Sant’Anna, Mariana Muniz, Natália Beukers, Paulo Marcos, Riba Carlovich , Sergio Mastropasqua e Zécarlos Machado.
Teatro Aliança Francesa (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)
Duração 120 minutos
10/01 até 25/02
Quinta, Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h
$30/$60
Classificação 12 anos

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM

Uma nova montagem da peça “Quando as Máquinas Param”, de Plinio Marcos, reestreia no dia 18 de janeira, com supervisão artística de Oswaldo Mendes e direção de Augusto Zacchi. No elenco estão Carol Cashie e Cesar Baccan.

O texto mostra a dificuldade de  em encontrar trabalho, o que torna a relação com Nina, sua esposa, cada vez mais complicada. Nessa situação de penúria, ele revela um lado que ela antes não conhecia. Em tempos de recessão e desemprego a atualidade da peça de Plínio Marcos (escrita em 1967) é o que mais assusta.

“Quando as Máquinas Param” já teve Tony Ramos, Luiz Gustavo e Marcos Paulo, nos papeis masculinos, Walderez de Barros, Yara Amaral e Miriam Mehler, nos papeis femininos, em montagens dirigidas por Nelson Xavier, Jonas Bloch e também pelo autor, Plinio Marcos. Esta nova montagem inaugurou um novo espaço no teatro Aliança Francesa: a Sala Atelier. 

Sobre o autor e a peça

Por Oswaldo Mendes 

História de amor em um tempo mau

Há quem diga que o Teatro não muda o mundo. Nada mais falso. A Arte, assim com maiúscula, transforma as pessoas e a sociedade. Seria cansativo enumerar exemplos. Pensar no tema no momento em que um Museu se transformou em cinzas tem um efeito dramático e por vezes desolador, como lição a ser aprendida. Mas voltemos ao nosso cotidiano e a essa Arte tão frágil que é o Teatro. Uma Arte que fala diretamente ao seu tempo. Por isso efêmera, por isso condenada a nascer e a renascer a cada instante, enquanto fenômeno cênico. Enquanto literatura, eventualmente um texto teatral pode sobreviver ao tempo pela força da sua poesia e do seu mergulho na alma humana. É preciso lembrar o óbvio para entender o destino do dramaturgo que, ao contrário do poeta, fala com os seus contemporâneos para ser ouvido de imediato. Enfim, o dramaturgo tem urgência. Foi essa urgência que transformou o Palhaço Frajola das quebradas de Santos em autor de Teatro, no final dos anos de 1950. Ao ler sobre um garoto, currado na cela de uma cadeia pública, que ao sair vingou-se de cada um dos seus estupradores, o Bobo Plin escreveu, num impulso, sua primeira peça, “Barrela”. Ele que já sabia alguns segredos do palco, como palhaço de circo e ator de espetáculos infantis e amadores, dominou logo a escrita teatral, ao ponto de Patrícia Galvão, a Pagu dos modernistas, surpreender-se com o fato de um analfabeto escrever uma peça tão boa e forte. Analfabeto ele não era, mas essa é outra história.

Já em São Paulo, no início dos anos de 1960, Plínio Marcos não deixou de ser, como ele mesmo se apresentava, “repórter de um tempo mau”. E foi assim que deu voz e tornou visíveis personagens até então ausentes dos palcos. Fossem eles dois perdidos numa noite suja ou habitantes de um quarto infecto de uma pensão dos becos esquecidos do bom Deus. Personagens que invadiram os palcos com um ímpeto avassalador. Logo algumas vozes, do próprio teatro, começaram a duvidar da legitimidade revolucionária e transformadora desses personagens, incapazes de mudar a própria vida e muito menos a vida da sociedade. É quando Plínio Marcos nos apresenta Nina e Zé, jovem casal de uma vila operária na periferia. Poderia ser apenas mais uma história de amor de dois jovens com sonhos de Romeu e Julieta. Sonhos modestos de uma novela de rádio ou de um time de futebol. Mas Plínio nos mostra o que acontece quando as máquinas param para José e ele vai para o olho da rua. De repente, a modesta felicidade sonhada não resiste à brutalidade do desemprego e à incerteza do amanhã.

De novo Plínio Marcos foge do padrão de crítica política e sociológica do teatro daqueles tempos. Ele não é maniqueísta, não aponta um inimigo que encarne o mal absoluto. Como uma metralhadora giratória, ele vai tocando em todos os pontos vulneráveis da ferida social. São tempos maus. Lá estão os meninos no futebol de rua, despreparados como Zé para enfrentar a vida e o trabalho. Lá está o jovem sem profissão. Lá está a mulher, arrimo de família, sustentando o duro cotidiano da casa. Lá está o sindicato que não se preocupa com os desempregados, mas com a mesa de pingue-pongue. Lá está o trabalhador que explora o próprio trabalhador. Lá está o orgulho do náufrago que recusa a mão que o quer salvar. Lá está Zé, para quem a vida se resume a Nina e ao Corinthians, e que ao contrário do herói da radionovela não pode se alistar na Legião Estrangeira e fugir da infelicidade. Lá está Nina, a mulher sozinha com a sua decisão de ter o filho que espera, custe o que custar. E o preço é alto, Nina. E o preço é alto, Zé.

Mais uma vez, como Brecht, Plínio Marcos faz ruir à nossa frente uma história de amor e deixa no ar a pergunta – quem fez isso a eles? Plinio não responde. Não cabe a ele responder. Ele é apenas o poeta que nos pega pela mão e leva até seus personagens para que não nos esqueçamos deles. E de nós mesmos. E então o Teatro abre nossos olhos, toca nossa sensibilidade, desperta nossa humanidade. Talvez, sim, o Teatro possa mudar o mundo. Há urgência. Tomara um dia não mais existam Nina e Zé, como os dois perdidos numa noite suja, senão como personagens de uma reportagem de um tempo mau e distante. Por enquanto, porém, eles ainda pedem pelo nosso olhar.

Oswaldo Mendes, ator e dramaturgo, é autor de “Bendito Maldito – Uma biografia de Plínio Marcos (Editora Leya, 2009).

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“Quando as Máquinas Param”

Com Carol Cashie e Cesar Baccan

Teatro Aliança Francesa – Sala Atelier (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 60 minutos

18/01 até 24/02/19

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h30

$30

Classificação 12 anos

AS IRMÃS SIAMESAS

Com encenação de Sébastien Brottet-Michel, diretor francês e ator do Théâtre du Soleil, desde 2002, o espetáculo As Irmãs Siamesas, de José Rubens Siqueira, estreia no dia 5 de outubro (sexta, às 20h30), no Teatro Aliança Francesa. peça revela a complexidade e ternura da alma feminina, inserida na relação familiar, a partir do reencontro de duas irmãs, interpretadas por Cinthya Hussey e Nara Marques, após a morte da mãe.

As Irmãs Siamesas foi escrita em 1986, rendendo o Prêmio APCA de Melhor Autor a Siqueira. As particularidades da alma humana, a personalidade e a individualidade aparecem de forma natural e contundente no reencontro de Marta e Maria.

A morte da mãe provoca o encontro e o confronto entre Marta, a irmã mais velha e cuidadora da mãe, e Maria, que partiu para uma vida nova em São Paulo. Frias e distantes, elas entram em casa envoltas pelo incômodo da presença uma da outra e precisam reaprender a se comunicar. As lembranças são inevitáveis. Cada memória vem carregada de rancor, mágoa, acusação ou mesmo ternura, leveza e humor. O passado é o fantasma de Marta que acredita não ter tido a oportunidade de ser feliz, obrigada a permanecer numa cidade do interior, carregando a responsabilidade da mãe doente sem opção de viver a própria vida. Agora, sente-se ainda mais perdida, sem a mãe e sem o filho que vive fora do país.

É preciso restabelecer os laços, a ligação fraterna que se perdeu. Os diálogos evoluem na mesma proporção das emoções. A muralha vai sendo transposta à medida que as questões vão sendo expostas, colocando-as numa posição de maior proximidade. O encontro é permeado por momentos de ternura e delicadeza, outros de raiva e até violência, até revelar os detalhes da vida de cada uma.

A magia de As Irmãs Siamesas está na simplicidade em como apresenta duas personalidades tão distintas na superficialidade e tão similares no íntimo. O afeto é o frágil elo que une Marta – mulher forte, severa, amarga e retraída, mas que comove por sua naturalidade – e Maria – jovem urbana, ousada, instintiva e de alma livre. Ao espectador cabe a imersão nessa história sensível que discute o tempo por meio das relações familiares e das consequências das escolhas do passado, ampliado pela ótica do feminino.

Sobre a direção, Sébastien Brottet-Michel diz que o fundamental é expor as características das personagens. “O caminho não é a busca psicológica dessas características, mas a imaginação, tanto a minha quanto a das atrizes, sobre o que é necessário para contar a história. O corpo do ator deve ser uma entidade que recebe a personagem; o psicológico vem pelo estado do corpo e da imaginação”. Sébastien afirma que não importa a interpretação propriamente dita, mas o fato de que as atrizes vivam, literalmente, as mulheres do texto com a máxima verdade. Segundo ele, o espectador precisa ler o corpo do ator a partir da possibilidade que o ator lhe dá. “Buscamos pelo melhor momento, pelo estado que trouxe a verdade para encantar a realidade por meio do deslocamento poético. Isto é percebido pela respiração, pela tensão interior. A emoção vem das descobertas em cena. E o drama é vivo: oferece-nos estados e diferentes possibilidades”. E com relação ao texto de José Rubens, o diretor diz que espera que o público se reconheça nas personagens, pois “o luto é inerente a todos, e a morte do pai ou da mãe é como um muro que desaba, trazendo a consciência da nossa própria finitude”.

O Brasil não é novidade para o diretor Sébastien Brottet-Michel. Há 10 anos, ele se apresenta no país com o Théâtre du Soleil. “Cinthya e eu estivemos juntos em vários projetos, sempre pensamos em realizar um espetáculo e agora aconteceu”. Para Cinthya Hussey, a direção de Sébastien fez um ajuste fino na obra de José Rubens Siqueira que se encaixa perfeitamente nas emoções das cenas. “A preparação foi um trabalho muito difícil e muito rico até chegarmos ao ponto pretendido por ele; aquele ponto onde o corpo diz uma coisa e o texto diz outra. E o coração? Ele também diz outra coisa”, comenta a atriz.

Cinthya conta que teve contato com o texto, em 2005, e já pensava em montá-lo. Fez algumas leituras e, em 2009, conheceu Nara, passando a compartilhar com ela, desde então, o desejo de levar As Irmãs Siamesas para o palco. “Pensei em Sébastien para dirigir essa peça porque admiro a forma como ele nos traz as imagens, fazendo a transição do real para o poético. Ele nos guia e nos insere no universo proposto pelo autor sem precisar do realismo material, penetrando nas camadas mais profundas das personagens”, revela a atriz.

Para Nara Marques, ter um texto brasileiro encenado com um olhar europeu é um privilégio, depois de anos à espera de concretizar esse sonho. Ela conta que, para ela, o trabalho foi muito desafiador e a tirou da zona de conforto: “Sébastien me pediu para transpor a vida, transpor o realismo para dentro da poesia e só assim cheguei a um lugar que eu não conhecia”. E completa afirmando que “esse processo foi fundamental para potencializar um texto cheio de humanidade e intensidade nas relações”.

E o autor José Rubens Siqueira também fala sobre a montagem de seu texto, mais de 20 anos após ser concebido. “Sempre que um autor vê seus personagens saltarem da página e ganharem corpo e voz sobre o palco, renova-se a fé na arte como instrumento de mudança pessoal e social. A sensibilidade e coragem dessa equipe jovem e talentosa é um alento neste momento sombrio que vivemos”.

A cenografia de As Irmãs Siamesas, assinada por Marisa Rebollo, também é cheia de poesia e foge do realismo: apresenta um baú dentro de outro baú para transparecer as diversas camadas da relação entre as irmãs. O baú é a simbologia da mãe, da vida, da morte, podendo representar as prisões internas, as lembranças guardadas, o túmulo. O estado interior das personagens é potencializado pela iluminação de Rodrigo Alves (Salsicha) e pela trilha sonora original de Wayne Hussey, conhecido cantor, guitarrista e compositor da banda inglesa The Mission. “Compor música para uma peça de teatro era algo que eu queria muito fazer. Evitei os instrumentos modernos, que exigem eletricidade para não colocar a peça em uma época determinada, e segui pela linha do acústico, com piano, violino e violão clássico, que se tornaram minha paleta de som exclusiva para a trilha: uma música mais lenta, vazia e aberta, não sentimental”. Wayne trabalhou em conjunto com o pianista inglês James Bacon e o violinista David Milsom na criação da série de adágios que compõem o clima da encenação. A trilha será lançada em CD, em edição limitada, e vendida após as apresentações do espetáculo.

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As Irmãs Siamesas

Com Cinthya Hussey e Nara Marques

Teatro Aliança Francesa (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque. São Paulo)

Duração 80 minutos

05/10 até 02/12

Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$40

Classificação 14 anos

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM

Uma nova montagem da peça “Quando as Máquinas Param”, de Plinio Marcos, estreia no dia 12 de outubro, com supervisão artística de Oswaldo Mendes e direção de Augusto Zacchi. No elenco estão Carol Cashie e Cesar Baccan. 

O texto mostra a dificuldade de  em encontrar trabalho, o que torna a relação com Nina, sua esposa, cada vez mais complicada. Nessa situação de penúria, ele revela um lado que ela antes não conhecia. Em tempos de recessão e desemprego a atualidade da peça de Plínio Marcos (escrita em 1967) é o que mais assusta.

“Quando as Máquinas Param” já teve Tony Ramos, Luiz Gustavo e Marcos Paulo, nos papeis masculinos, Walderez de Barros, Yara Amaral e Miriam Mehler, nos papeis femininos, em montagens dirigidas por Nelson Xavier, Jonas Bloch e também pelo autor, Plinio Marcos. Esta nova montagem inaugura um novo espaço no teatro Aliança Francesa: a Sala Atelier.

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Quando as Máquinas Param

Com Carol Cashie e Cesar Baccan

 Teatro Aliança Francesa – Sala Atelier (Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 60 minutos

12/10 até 02/12

Sexta e Sábado – 21h, Domingo – 19h30

$30

Classificação 12 anos

ELES NÃO USAM BLACK-TIE (OPINIÃO)

A história de um pai e filho que, por apresentarem posições morais e ideológicas diferentes, se confrontam, ambos lutando por seus ideais, numa São Paulo dos anos 50.

Anos 50? Mas a ação poderia acontecer agora neste final da segunda década do século XXI. E os personagens – pai e filho – poderiam ser substituídos por irmãos, amigos ou até mesmo por compatriotas.

Comemorando os 60 anos do seu lançamento, o diretor Dan Rosseto traz “Eles Não Usam Black-Tie” para o palco do teatro da Aliança Francesa.

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Conceito Histórico da Peça

Eles Não Usam Black-Tie” é a primeira peça do jovem ator/dramaturgo, Gianfrancesco Guarnieri. Escrita para ser encenada no Teatro de Arena (atual Teatro de Arena Eugênio Kusnet) em 1958, é considerada a precursora do movimento em busca pelo verdadeiro teatro brasileiro. Sai dos palcos a burguesia e entra o operariado.

O próprio título é de um humor sagaz, pois o proletariado não se veste assim.

A peça realizou um feito inédito até então – ficar mais de um ano em cartaz. Ela “aliou temas importantes como o movimento operário da década de 50 no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores brasileiros, traçando um panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos e apontando o cerne do abismo social entre dominantes e dominados“, segundo Rômulo Radicchi.

Conta a história de uma família de trabalhadores de uma classe social baixa. De um lado, o pai, Otávio, e outros operários estão organizando uma greve, em busca de melhores condições de trabalho. Do outro, o filho mais velho, Tião, que não deseja participar desse motim e busca uma vida segura ao lado de sua noiva, Maria, que está grávida. No meio do fogo cruzado, está Romana, a mãe, uma mulher corajosa e massacrada pela vida, a quem cabe manter unida a família.

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No elenco original, Eugênio Kusnet (Otávio), Lélia Abramo (Romana), Miriam Mehler (Maria), Gianfrancesco Guarnieri (Tião). além de Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.

A peça deu origem ao filme brasileiro homônimo, que foi dirigido por Leon Hirszman (1981). No elenco, estavam o próprio Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes e Flávio Guarnieri.

O filme recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, além de ter sido também premiada em outros festivais internacionais. Está na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pela Associação Brasileira de Criticos de Cinema (Abraccine).

A nova montagem

Em um país atualmente dividido, bipolarizado, nada melhor do que trazer novamente para o cerne da questão uma peça como “Eles Não Usam Black-Tie”, ainda mais em um ano eleitoral. Os tempos são outros, mas o tema continua tão fresco quanto há 60 anos.

A montagem de Dan Rosseto incomoda – e muito. É um texto denso, que acontece em 90 minutos, que passam um a um. A sala do teatro da Aliança Francesa parece que fica claustrofóbica, não há ar que circula na plateia devido a tensão no palco.

No palco, o cenário do interior da casa da família de Otávio e Romana. Uma casa simples, de parede de madeira, que pelas frestas dá para ver os atores se preparando para entrar em cena. Na verdade, eles quase não abandonam o palco – estão sempre a vista, mas esperando para entrar na parte central da casa, onde acontece a ação. São olhos que vigiam – os outros personagens, bem como a plateia.

Dan acertou na escolha do elenco – algo tão importante para uma peça em que os atores e o diálogo são o foco principal da montagem.

O trio principal é vivido por Adilson Azevedo (Otávio), Kiko Pissolato (Tião) e Paloma Bernardi (Maria). Há a tensão no ar nas figuras de Adilson e Kiko, que interpretam pai e filho. O embate através da atuação, da forma de falar e de olhar. Paloma, a princípio dá o apoio necessário ao noivo, até que decide ficar ao lado de sua comunidade, abandonando-o. Começa a peça de uma maneira ‘simples’, ‘frágil’ até assumir o controle da sua vida, a independência feminina.

Ao redor deles orbitam os outros personagens – operários da fábrica e amigos da família. Carolina Stofella (Dalva), Pablo Diego Garcia (João), Paulo Gabriel (Jesuíno), e Tiago Real (Braúlio) dão suporte a ação da peça, assumindo algumas vezes os papeis de destaque na drama. São os olhos que tudo vêm pelas frestas da casa.

Samuel Carrasco (Chiquinho) e Camila Brandão (Terezinha) representam o frescor da idade, a inocência, a transição da infância para a vida adulta. Cada vez que estão presentes em cena, como ‘protagonistas’, o riso é garantido.

Mas o ponto de convergência da ação recai sobre a figura da atriz, Teca Pereira. Teca interpreta Romana, a mãe da família, de uma forma ímpar. Através de seus diálogos, que como os de qualquer mãe, fazem a plateia rir e até mesmo pensar profundamente. Romana é quem mantém a família unida, e é através dela, que a decisão final – com uma dor profunda – acontece.

A montagem de “Eles Não Usam Black-Tie”, de Dan Rosseto, irá pegá-lo de uma forma, que dificilmente você sairá igual do que quando entrou. Com certeza, facilitará – e muito – no diálogo que precisamos ter para que este país mude. Mas um diálogo em que todos saibam ouvir e falar.

Sugestão – chegue um pouco mais cedo, pegue o programa da peça e leia. Irá complementar a experiência teatral.

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Eles Não Usam Black-Tie

Com Adilson Azevedo, Camila Brandão, Carolina Stofella, Kiko Pissolato, Pablo Diego Garcia, Paloma Bernardi, Paulo Gabriel, Samuel Carrasco, Teca Pereira e Tiago Real

Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 90 minutos

20/07 até 16/09

Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$60

Classificação 12 anos

Quer conhecer um pouco mais sobre a obra? Abaixo, um documentário feito pela Central Única dos Trabalhadores, com depoimentos de atores que participaram do filme.

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

Um dos textos mais importantes da dramaturgia nacional volta aos palcos no dia 20 de julho no Teatro Aliança Francesa. Comemorando seus 60 anos, “Eles não usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, foi montado pela primeira vez no Teatro de Arena, no mesmo ano de sua publicação, 1958.

Nesta obra, Gianfrancesco Guarnieri transcreve de maneira cotidiana questões sócio-políticas vividas por Tião, personagem que o próprio autor viveu na montagem do Arena.

A história revela, como primeira instância, a organização de uma greve com suas posições ideológicas, morais e divergentes para cada personagem, o que faz com que as discussões entre pai e filho sejam frequentes. Num plano abrangente estão apoiadas relações familiares como: gravidez, casamento, educação e religião.

A plateia poderá vivenciar no palco uma família comovente que sobrevive de maneira humilde, mas não menos digna, refletindo o espelho de uma camada social que abrange milhões de brasileiros. Além disso, a peça tem como pano de fundo reflexões sobre a frágil condição humana, sobre os homens e seus conflitos, trazendo um verdadeiro um debate entre a coletividade e o individualismo, simultaneamente cru e sensível.

Nessa montagem o elenco será composto Adilson Azevedo, Camila Brandão, Carolina Stofella, Kiko Pissolato, Pablo Diego Garcia, Paloma Bernardi, Paulo Gabriel, Samuel Carrasco, Teca Pereira e Tiago Real, com direção de Dan Rosseto.

SINOPSE: De um lado Otávio e outros operários estão organizando uma greve, em busca de melhores condições de trabalho. Do outro, Tião que não deseja participar desse motim e busca uma vida segura ao lado de sua noiva, Maria. No meio do fogo cruzado, está Romana, a mãe de Tião, uma mulher corajosa e massacrada pela vida.

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Eles Não Usam Black-Tie

Com Adilson Azevedo, Camila Brandão, Carolina Stofella, Kiko Pissolato, Pablo Diego Garcia, Paloma Bernardi, Paulo Gabriel, Samuel Carrasco, Teca Pereira e Tiago Real

Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)

Duração 90 minutos

20/07 até 16/09

Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h

$60

Classificação 12 anos

APROXIMANDO-SE DE A FERA NA SELVA

Depois de sua temporada de estreia no Centro Cultural São Paulo, Aproximando-se de A Fera na Selva, com direção de Malú Bazán, reestreia no Teatro Aliança Francesa, entre 3 de maio e 2 de junho, com sessões de quinta-feira a domingo. Como a encenação tem uma atmosfera intimista, a plateia será deslocada para o palco, que acomodará 30 pessoas. Em junho a peça segue para uma curta temporada no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, de 14 a 24 de junho.

A peça transita entre três núcleos que têm suas fronteiras borradas: “A Fera na Selva”, com os personagens John Marcher e May Bartran; as biografias dos escritores Henry James e Constance Fenimore Woolson e as figuras do ator e da atriz. Gabriel Miziara faz John, Henry e ator, e Helô Cintra interpreta Constance, May e atriz.

Henry James escreveu a Fera em 1903, quase dez anos após a morte da sua grande amiga Constance. A amizade entre os escritores tem muitos paralelos com a relação estabelecida entre os protagonistas dessa novela de Henry.

As personagens da peça são amarradas pelas convenções sociais, ao mesmo tempo muito solitárias e de uma sensibilidade extrema, busquei inspiração em alguns artistas plásticos, além das obras literárias, para adentrar neste universo. Edward Hopper, por exemplo nos traz a solidão impressa em suas obras, algumas telas de Monet e Magritte, além de uma tela pintada pelo dramaturgo Strindberg, me trazem de diferentes formas, uma existência velada e profunda”, comenta a diretora.

Para a construção da dramaturgia, Marina Corazza se pautou na novela “A Fera na Selva” de Henry James, em “O Mestre”, romance de Colm Tóibín sobre a vida do escritor americano, na biografia de Constance, “Constance Fenimore Woolson: Portrait of a Lady Novelist”, escrita pela americana Anne Boyd Rioux, além de um livro de contos de Contance “Miss Grief and other stories”, organizado pela mesma escritora.

A encenação

A peça estará em cartaz no porão do Centro Cultural São Paulo, que foi reaberto em dezembro de 2017, depois de ficar fechado durante anos para uma reforma. A diretora optou por uma encenação limpa, com poucos elementos, mas que são fundamentais para o espetáculo.

O figurino assinado pelo estilista Mareu Nitschke traz linhas modernas e nada óbvias para os atores, em contraponto a algumas peças mais amplas que simbolizam o universo dos personagens. O cenário manipulado pelos atores, é uma parceria da diretora Malú Bazán com Renato Caldas. A assistência de direção é de Carolina Fabri. A luz é assinada por Miló Martins e a trilha sonora é de Daniel Maia. A produção do espetáculo é da Canto Produções.

Sinopse:

A peça aborda a relação de amizade entre os escritores Henry James e Constance Fenimore Woolson, a partir da investigação de suas biografias e da novela “A Fera na Selva” de Henry James, em que um homem espera pelo grande acontecimento de sua vida. Dois atores transitam entre as personagens reais e as personagens fictícias criadas pelos escritores, lançando um olhar particular sobre suas relações.

A FERA NA SELVA 1 - DNG

© Joao Caldas Fº

Aproximando-se de A Fera na Selva
Com Gabriel Miziara e Helô Cintra
Duração 60 minutos
Classificação 14 anos
 
Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque, São Paulo)
03/05 até 02/06
Quinta, Sexta e Sábado – 20h30, Domingo – 19h
$30
 
Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 – Botafogo, Rio de Janeiro)
14 a 24/06
Quinta, Sexta, Sábado, Domingo
$50